Ele tem um best-seller como base, o popular gênero criminal como apelo e um elenco estelar para trazer a história a vida. O Homem que Sussurra, novo fenômeno da Netflix parece ter tudo, menos foco.
Baseado no livro homônimo de Alex North, acompanhamos a investigação de Amanda Beck (Michelle Monaghan), sobre o sequestro e assassinato de meninos, que imitam crimes semelhantes de um assassino já condenado e preso conhecido como Homem que Sussura. Ao mesmo tempo acompanhamos a chegada de Tom Kennedy (Adam Scott) e o filho Jake (Acston Luca Porto) à cidade. Ambos em luto pela perda da matriarca da família.
Não demora muito tempo para entendermos, Jake será a próxima vítima. Obrigando seu pai a se aproximar do próprio pai, Peter Willis (Robert De Niro). O detetive aposentado que se afastou da família pelo trabalho, mas tem o mérito de ter prendido o assassino original. Logo, além de profundamente conhecedor do caso, ainda tem acesso à fonte, Frank Carter (Michael Keaton) o primeiro Homem que Sussura.
Também acompanhamos Jake em seu cativeiro. Traumatizado por ter encontrado o corpo da mãe, o menino é introvertido, isolado e tem amigos imaginários. Detalhe interessante que mascarou do pai os sussurros que indicavam que o menino seria a próxima vítima. Além de criar um ou outro momento de suspense que beira o terror.
Outro acerto é a escolha de um elenco talentoso e dedicado. Michelle Monaghan, Adam Scott, Robert De Niro e Michael Keaton são os responsáveis por tornar toleráveis as muitas conveniências e atalhos de roteiro. Keaton é o destaque criando um psicopata complexo e cheio de nuances, mesmo aparecendo em poucas cenas.
É o roteiro o ponto fraco do filme. Dividindo as atenções entre a detetive atual, o veterano, o pai e a criança, a narrativa não consegue seguir de forma fluida e coerente. Impossível não se desconectar em alguns momentos chave, ao perceber que determinado personagem foi esquecido, ou pausado, para que tal cena aconteça. Falta foco para escolher quem seguir, e quando seguir.O texto raso também faz com que os personagens tenham atitudes impensadas, ou ignorem pistas apenas para manter o andamento que o roteirista escolheu. Assim, Tom encontra um estranho bisbilhotando uma estrutura que não faz sentido existir em seu porão, e não para um segundo para olhar o local. O experiente detetive, ainda em busca da última vítima do caso original, espera mais um corpo aparecer para comparar os casos. Mesmo já tendo outras vítimas recentes.
Até mesmo o clímax é entregue como uma Arma de Chekhov, considerando a probabilidade de que tudo esteja ligado a uma mesma casa. E por falar no desfecho, temos três deles. Um para cada coprotagonista, Beck, Tom e Willis. Obrigando o vilão a fazer hora extra e ter capacidades de lutas impressionantes.
O roteiro ajuda fazendo com que os ferimentos tenham o peso que precisam para o desfecho programado. Sim, todo desfecho de filme é programado, mas a obra falha quando deixa isso óbvio demais para o público. Assim, uma única facada pode ser mais mortal que múltiplas facadas, somadas a uma queda da escada. O mesmo vale para uma queda livre do terceiro andar em um móvel de madeira maciça.Há tempo ainda para um drama familiar duplo o luto de pai e filho. E a redenção do avô, que resulta em uma reconciliação com o filho que foi alienado parentalmente por ele. Tudo desenvolvido de forma rasa e bastante previsível. O grande medo de Jake de escadas, por exemplo, superado em um grito apenas. E antes ignorado quando conveniente, a escola do menino tem escadas.
Mesmo com tantas conveniências, O Homem que Sussurra consegue intrigar e entreter, especialmente os menos exigentes ou experientes com o gênero. O demais provavelmente vão resolver o crime antes dos personagens, e esperar para ver quanto tempo eles levam para alcançá-los.
Ao menos o elenco é carismático e dedicado o suficiente para nos manter interessados nele. O que somado à conveniência de assistir em casa, não gera grandes frustações pela qualidade mediana. É uma distração tão inofensiva quanto esquecível.Suspense




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