Nada como a perspectiva certa para aproveitar o melhor de um produto, ou história. É isso que separa o novo Mestres do Universo, o filme do He-Man, de seu homônimo dos anos 80. Aliás, o cinema devia fazer mais isso, remakes de filmes que não ficaram bons, ao invés de tentar refazer os que já tiveram sucesso.
No mundo de Eternia, bem distante daqui, Adam (Nicholas Galitzine) é um jovem e doce príncipe, pra desgosto de seu pai. O rei Randor (James Purefoy) deseja que o filho seja um grande guerreiro, tarefa que o guerreiro e mentor Duncan (Idris Elba) pretende cumprir. Mas não da tempo, já que o vilão Esqueleto (Jared Leto) invade o reino, destrona o casal real, obrigando o pequeno príncipe a fugir com a relíquia que poderia tornar o vilão invencível
Adam cai na terra e perde a Espada do Poder, e leva quinze longos anos para encontrar a arma que é seu único caminho de volta para casa. Quando finalmente retorna, encontra um reino devastado, e ao lado de Teela (Camila Mendes) e outros guerreiros do reino, vai enfrentar Mandibula, Maligna (Sam C. Wilson, Alison Brie) e as forças do mal, para enfim derrotar o Esqueleto. É claro, eventualmente ele aponta para o céu a tal espada, que a brilha entre raios e trovões vai transformar o jovem desajeitado no campeão de etérnia.
Talvez eu tenha feito uma sinopse muito mais detalhada do que uma história tão simples precisa, mas já faz mais de 30 anos do lançamento do desenho. E apesar de presente na cultura pop através de inúmeros memes e referências, hoje em dia existem adultos que nunca viram um episódio da série animada original.
Mesmo assim, minha sinopse passa longe de abraçar o espírito do filme que finalmente trouxe a animação de forma fiel para as telas. Em defesa do duvidoso filme de 1987, na época a produção não tinha a verba, tão pouco a perspectiva correta para retratar as muitas camadas do He-Man.
Criado literalmente para justificar uma linha de brinquedos, o universo de Etérnia é uma amalgama de referências idéias rentáveis que, na época, por se entender para crianças, não tinha vergonha em exagerar e apostar nas ideias mais absurdas. O filme de 2026 não apenas não tem medo de ser brega. Ele abraça a cafonice com gosto, e faz piada disso. Ciente de ser uma aventura com propósito principal de divertir não se leva á sério, e esse é seu grande acerto.
O roteiro é bem simples, o principe exilado retorna para salvar o reino. Literalmente um argumento que existe desde os tempos de Moisés, mas o filme abraça referências e idéias de de obras mais recentes e pop, como Thor, Superman e Guardiões da Galáxia. Enquanto mantém o visual, caracterização, objetos e cenários fieis ao desenho, que por sua vez já bebia em outras fontes de inspiração como Conan e Star Wars. Enfim, uma adorável miscêlancia, que não se preocupa e não ser original e revolucionária.Quanto as camadas, He-Man é tanto um símbolo de masculinidade, quanto um ícone para a comunidade LGBTQIAPN+. E Mestres do Universo também tem consciência disso, usando o humor para lidar com a ambiguidade da natureza do personagem, sem decepcionar nenhum desses públicos. Tem tanto o visual clássico, os músculos e a porradaria que o público masculino nostálgico, quanto os figurinos exagerados, os músculos besuntados que criam a segunda interpretação adorada pelas mulheres e gays. 
Nicholas Galitzine abraça essa brincadeira em sua atuação, convencendo como o Adam desajeitado e não decepcionando no preparo físico. E o restante do elenco acompanha esse tom. Os destaques ficam com Idris Elba e as duas versões de seu Duncan, o heróico e o bêbado desesperançado. E Camila Mendes, como a mocinha forte/interesse romântico, que consegue inspirar as meninas sem tirar o protagonismo do mocinho. É ela quem segura as pontas, quando a ausência de Adam e inexperiência o tornam insuficientes para navegar naquele mundo.
Aliás, o fato do protagonista ter deixado o planeta tão jovem é a desculpa perfeita para justificar outras adoráveis cafonices. Como os nomes de personagens que ele, por ter apenas dez anos, não sabia quando partiu, e criou apelidos para identifica-los. E o filme nunca revela Assim nascem Mandíbula, Roboto, Mecaneck e outros nomes infantilizados da franquia.
Morena Baccarin e Jared Leto são outros nomes conhecidos em cena, mas que acabam tendo visibilidade que os demais. Ela por dar vida à Feiticeira, guia mágica que vai-e-vem conforme o roteiro precisa. E ele por estar debaixo de uma impressionante caracterização para transformá-lo no vilão animado. Alguns colegas na minha sessão o reconheceram pela voz, e risada, mas como a maior parte do público vai assistir dublado...E por falar na dublagem a versão nacional, traz ainda um apelo extra á nostalgia ao trazer de volta a voz original de Garcia Júnior para o He-Man. Deixando felizes as crianças dentro de nós que viam o desenhon nas décadas de 1980 e 90 na TV aberta.
O diretor Travis Knight que já provou que entende de desenhos animados oitentistas com Bumblebee. Surpreende ao entender o ritmo e o tom de um projeto que já nasceu duvidoso. Apostando em cores, aventura e nostalgia para que relevemos possíveis falhas em sua obra. Recurso que funciona muito bem. Ainda mais quando acrescenta rock oitentista e um pouco da trilha sonora da animação para construir a atmosfera de Eternia, e amplificar os momentos de porradaria absurda.
Por fim, Mestres do Universo ainda encontra espaço para colocar referências, piadinhas e memes sempre que possível em tela. E nada menos que três cenas pós-créditos que insinuam a continuidade da franquia. É claro, isso depende do sucesso deste primeiro filme. E por esta blogueira que vos escreve, pode continuar sim! O universo tem a força do escapismo que precisamos de vez em quando! HE-MAN!!!
Mestres do Universo (Masters of the Universe)
2026 - EUA - 140min
Aventura, Fantasia, Comédia






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