Dez anos atrás, me surpreendi com a adaptação para os cinemas de Como eu era antes de você. O romance roteirizado por Jojo Moyes baseado em seu próprio best-seller, bebe muito do tropo de opostos que se completam, mas surpreende pelo contexto em que essas diferenças são criadas. Finalmente esbarrei na obra original, e fico contente em afirmar que o filme de 2016 é um excelente adaptação.
A peculiar e irritantemente otimista Louisa Clark, precisando de emprego torna-se cuidadora de um tetraplégico. Will Traynor, é rico, inteligente e mau-humorado devido à sua condição recente. Não é preciso ser um especialista para adivinhar, que este relacionamento forçado vai mudar a perspectiva de ambos.
Mais difícil de deduzir no entanto, são os sentimento em torno dessas identidades opostas. É nisso que o livro se destaca em relação ao filme. As dores físicas e a condição de Will são sim bem explicadas no longa metragem. Mas, é no livro que nos colocamos mais profundamente em seu lugar. E assim compreendemos melhor como mesmo que a vida ao lado de Lou tenha momentos maravilhosos, os momentos de dor ainda os superam em perspectiva.
Já a Louisa dos livros é quem traz mais diferenças para as telas. Enquanto no cinema é uma jovem ingênua que não conhece seu potencial, e não exerga suas perspectivas. Nas páginas existe um motivo para sua personalidade excêntrica e suas roupas engraçadas. Ambas uma reação de proteção à um abuso sofrido quando mais jovem. Não é apenas por ingenuidade que Lou não consegue ver além, é também porquê tenta se manter segura e sã em sua carapaça de excentricidade e alegria constante.
Com mais tempo para trabalhar o universo, personagens secundários ganham maior atenção. Inclusive dando à alguns deles breves capítulos de ponto de vista, em momentos que a visão da mocinha não é suficiente para descrever os eventos. Embora isso não ajude muito Patrick, o namorado da mocinha continua sendo o atleta obcecado por si mesmo e sem muito tato com todos a sua volta. Ou mesmo os pais de Louisa que não acrescentam muito à narrativa. É Treena quem difere mais neste núcleo, menos prestativa e mais interesseira, ainda que presente quando a mocinha mais precisa.
Outra irmã que é muito diferente é a irmã de Will, que no filme sequer existe. Escolha acertada, torná-lo filho único nas telas faz com que sua perda seja ainda mais devastadora para os pais. Georgina no livro é extremamente descartavel, servindo apenas para passar algumas informações para a mocinha, e consequentemente o público. Enquanto o Sr. e a Sra Traynor tem mais personalidades, falhas e impulsos que interferem na trama do casal, e na vida do filho.
À época de seu lançamento, a obra recebeu críticas de defensores dos direitos das pessoas com deficiência, que afirmavam que obra defendia que a vida pode não valer a pena ser vivida para algumas pessoas com deficiências graves. Entretanto, ao longo de toda jornada Lou se aconselha com outras pessoas na mesma condição de Will que mostram as possibilidades, e as formas que esta vida pode valer à pena.
O que choca à maioria é que Jojo Moyes respeita a possibilidade de escolha dessas pessoas. Will tem condições para ter uma boa vida, tem conhecimento disso, mas ainda sim escolhe não tê-la. Esse é o debate, a liberdade de escolha individual. Não apenas para pessoas com deficiência, mas em outras condições, como estágio terminal de doenças ou mantidos vivos apenas por aparelhos.
A discussão é longa, complexa, individual, e Como eu era antes de você dá apenas o pontá-pé inicial nela. E mesmo assim, vai muito mais além do que muitos se permitem refletir. E aproveita essa decisão para mostrar como cada indivíduo deixa sua marca por onde e por quem passa, mesmo sem querer.
A escrita de Moyes é simples, leve e ágil, ainda que muito inteligente e hábil em lidar com as complexidades do tema. Seja a apresentação das tecnicalidades da vida com tetraplergia, nos efeitos de agressões e relacionamentos passivo agressivos, e na temática de suicidio assistido.
O livro é o primeiro de uma trilogia. Embora eu não veja a necessidade de Depois de Você (2015) e Ainda Sou Eu (2018), que supostamente acompanham a continuação da evolução de Louisa. Particularmente, acredito que o grande aprendizado da moça está no primeiro livro, e o que ela faz a partir dali não importa muito, desde que explore essa evolução. Mas quem sabe, as obras podem surpreender.
Enquanto Will redescobre bons momentos na sua nova vida. Louisa descobre um mundo de oportunidades que está perdendo. Nõs acompanhamos a construção de um romance triste e doce, enquanto refletimos sobre questões mais complexas. Como eu era antes de você, oferece muito mais do que parece.
Como Eu Era Antes de Você
Jojo Moyes
2012 - Intrínseca

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