I am Mother

A humanidade foi considerada extinta, mas há esperança. Milhares de embriões estão prontos para repovoar o planeta, através de um cauteloso sistema supervisionado por uma inteligência artificial. Uma premissa simples, mas que abre caminho para discussões complexas é o ponto de partida I am Mother. Ficção-cientifica da Netflix, que acerta ao fugir da megalomania que volta e meia se apodera de filmes apocalípticos.

Em uma abordagem intimista, o longa apresenta o cotidiano do robô designado para repovoar a terra conhecido como Mãe (Luke Hawker/ voz de Rose Byrne), e sua Filha (Clara Rugaard), uma adolescente criada por ela, sob parâmetros cuidadosamente calculados. A harmonia entre as duas, e talvez o futuro da humanidade, é ameaçado pela chegada de uma Mulher (Hilary Swank), cuja existência e notícias do exterior, fazem a Filha questionar tudo o que conhece.

Maternidade, família, solidão, humanidade, ética, sacrifícios, predestinação e amadurecimento estão entre os vários temas que o roteiro bem construído por Michael Lloyd Green consegue abordar com sutileza, enquanto desenvolve sua trama de sobrevivência. Tal profundidade temático é resultado de um trabalho que não tem receio de usar o tempo necessário para apresentar seus personagens, e desenvolver o contexto em que estão inseridos. E aproveita esse ritmo mais lento, para entregar ao espectador informações necessárias para se interessar pela trama, mas não a compreender completamente. O filme não explica tudo para o público, apenas indica as possibilidades, abrindo espaço para a dúvida que mantém o interesse ao longo do filme, e a reinterpretação de tudo que vimos em seu desfecho.

A dúvida constante ajuda na empatia com a protagonista, já que estamos no mesmo nível de conhecimento que ela. A jovem Clara Ruggard consegue carregar o protagonismo, mesmo tendo colegas de cena tão fortes e eficientes. Sua composição para a Filha, expressa bem, a ingenuidade, moralidade, confusão, dúvida, determinação e responsabilidade da personagem que fora criada para ser o recomeço da humanidade. Algunas destas, características, inclusive desenvolvidas ao longo do arco da personagem.

Já a composição da Mãe, surpreende ao acertar na escolha de mantê-la o menos humana possível. Apesar de um corpo humanoide, não existem expressões para ajudar a compreender os "sentimentos" ou intenções da personagem. E até a voz de Rose Byrne, reforça essa ambiguidade ao manter sempre o tom robótico, tanto nas falas mais doces e reconfortantes quando exerce o papel de mãe, quanto nos momentos em que se mostra uma inteligência artificial com parâmetros implacáveis. O design também nos convence de sua funcionalidade, seja na forma segura com que manuseia um frágil bebê, ou no perigo e força que demonstra quando corre ou se defende. É uma cuidadora, mas poderia ser muito bem uma exterminadora.

É de Hilary Swank o melhor trabalho em cena. Com dois Oscar no currículo, a atriz consegue convencer ao contar sua história, seja através de palavras, seja através das expressões faciais e corporais. Evasiva, agressiva e desconfiada, mesmo revelando pouco, compreendemos muito bem o tipo de dificuldades a que ela sobreviveu. Ao mesmo tempo, não temos completa certeza de suas intenções.

Entre duas personagens fortes, complexas, dúbias e bem representadas, a Filha fica dividida com relação a tudo que conhece. E nós, a acompanhamos, graças ao roteiro sem pontas soltas e as escolhas inteligentes da direção, que opta por soluções mais econômicas e eficientes, para que o espetáculo do pós-apocalipse não se sobreponha ao tema principal aqui. A maternidade, não apenas de uma pessoa, mas de toda a humanidade. Assim, enquanto as impressões do que pode, ou não, ter acontecido com a humanidade, são passados por registros ou impressões de dentro do bunker/unidade de repovoamento, nós acompanhamos dilemas éticos e desafios morais apresentados à protagonista, como testes ou consequências de seus atos. Abraçamos os questionamentos dela, e criamos nossos, conforme recebemos novas informações e desafios. Apenas para repensar tudo novamente no desfecho, quando finalmente vêmos o quadro completo.

I am Mother faz exatamente o que uma boa ficção científica deve fazer, usa um contexto extraordinário para discutir mazelas da sociedade atual. E o faz de forma inteligente e intrigante, desafiando o espectador à pensar, ao invés de atraí-lo com exageradas sequencias de ação. Escolha muito comum em filmes pós-apocalípticos. Boas atuações, e uma direção competente de Grant Sputore apenas completam o pacote, deste excelente exemplar do catálogo original da Netflix.

I am Mother
2019 - EUA - 113min
Ficção científica


Post a Comment

أحدث أقدم