Chernobyl - Ah! E por falar nisso...

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Chernobyl

É difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar em Chernobyl. Seja em reportagens, documentários ou mesmo na escola, a maioria já ouviu falar do maior acidente nuclear da história. Mas o quando realmente conhecemos esta história? Quase nada. Foi o que os espectadores da minissérie da HBO perceberam ao longo deste cinco episódios.

É madrugada de 26 de abril de 1986, o reator quatro da usina de Chernobyl acaba de explodir. Coisa que todos acreditavam ser impossível, logo, confusão, desconhecimento, negação e incredulidade são o ponto de partida desta narrativa. Os personagens seguem suas funções, protocolos e cadeia de comando, a maioria sem conhecimento dos riscos que correm. Nós, sabemos dos riscos, mas desconhecemos os detalhes. Gerando assim, uma preocupação e empatia imediata com os envolvidos desinformados, e a busca de culpados dentre aqueles com a visão mais ampla do ocorrido e que mesmo assim insistem em não enxergá-lo.

É assim, que Chernobyl traumatiza conquista ao público logo em seu piloto. Mas a série não se acomoda, fugindo do modelo tradicional da "recriação de tragédias". Ainda acompanhamos as ações de contenção, pós incidente e a busca por respostas, mas também acompanhamos a dificuldade de executar este trabalho sob o rigoroso regime soviético nos últimos anos da guerra fria, e as disputas políticas que isso gera dentro e fora da URSS. Arcos menores, mas bem construídos, também acompanham a vida dos civis afetados pelo acidente, ou recrutados para contorná-lo, sabendo ou não do risco a que estão sendo submetidos. A surpreendentemente sensação de imprevisibilidade, de uma história supostamente conhecida, e a empatia pelas vidas envolvidas, é o que nos mantém aflitos e atentos pelos quatro episódios seguintes.

São Valery Legasov (Jared Harris) Boris Scherbina (Stellan Skarsgård), respectivamenteo cientista e o político responsáveis por lidar diretamente com o incidente, quem nos levam na longa e perigosa jornada para solucionar o problema. Da necessidades de recursos quase impossíveis de conseguir, passando pela dificuldade técnica, os empasses políticos e principalmente o custo de vidas, solucionando um grande problema por vez, conforme eles aparecem, acompanhamos o peso de cada uma de suas decisões e tentativas, bem sucedidas ou não. Ulana Khomyuk (Emily Watson), completa o trio de protagonistas. Única personagem fictícia, representa a equipe de cientistas que auxiliou Legasov, e é quem nos mostra a investigação para compreender o que aconteceu.

Harris, Skarsgård e Watson dão vida a personagens completamente diferentes, mas que compartilham o mesmo sentimento de responsabilidade e medo pelo trabalho que precisam executar. Suas atuações contidas, mas extremamente humanas e cheias de camadas, demostram tanto a compreensão da magnitude da tragédia - à certa altura os três são os únicos com uma visão real do cenário - quanto a consciência de que pouco podem realmente fazer diante de um regime incapaz de assumir suas falhas. O trio está constantemente desesperado, hora de mãos atadas, hora disposto a por a vida em risco pelo bem maior, e conseguem demonstrar a complexidade de suas situações sem muitos roupantes de emoção, coisa a qual também não poderiam se entregar. É na sutileza que o elenco trabalha e acerta.

Os arcos menores são igualmente importantes, e eficientes na construção do cenário desta tragédia. Conseguimos ver além daqueles que estão no centro da tomada de decisões e isto nos dá maior dimensão do ocorrido na sociedade em questão. Desde os moradores que assistiam o incêndio despreocupados, passando pelo recrutamento de centenas de pessoas para contornar os danos, como os mineiros e os exterminadores de animais da zona de exclusão, todas histórias curtas que enriquecem o todo. A mais impactante é, provavelmente, a de Lyudmilla Ignatenko (Jessie Buckley), a esposa de um bombeiro de Pripyat, os primeiros na zona de acidente além dos funcionários.

Outra atuação que merece nota é a de Paul Ritter, é sobre seu Anatoly Diatlov, que recai o antagonismo da série. O engenheiro responsável pelos testes que culminaram no acidente, é apresentado como um retrato de seu regime. Inicialmente preocupado com números e resultados, ignorando riscos para alcançar suas metas. Depois, incapaz de encarar e assumir seus erros. Mesma atitude que vemos em menor escala, das demais autoridades envolvidas, e o país como um todo. Crítica nada sutil que a série "estadunidense" faz ao antigo governo, e que já inspirou uma resposta russa, que esta produzindo sua própria série sobre o incidente.

E por falar na produção, este é outro ponto excepcional de Chernobyl. A pesquisa para a reconstrução da época, construiu uma crível e nada caricata de uma União Soviética da década de 1980, desde os figurinos bastante característicos, até a recriação de cenários como a própria usina e a cidade vizinha de Pripyat. A maquiagem recria de forma assustadora os efeitos da radiação nas vítimas. A fotografia acinzentada cria uma atmosfera desesperançosa, enquanto a trilha sonora usa dos ruídos dos contador Geiger, para apontar o perigo, ao mesmo tempo que enerva a audiência, fornecendo ares de filme de terror para algumas sequencias.  

É claro, licenças narrativas e alterações precisam ser feitas para adaptação para a TV. Mas, a produção consegue detalhar e esclarecer de forma eficiente para o público comum o que provavelmente aconteceu no famoso incidente em Chernobyl, nos aspectos científicos, políticos e humanos. Eu digo "provavelmente", pois há sim outras versões da história, principalmente em relação a suas causas. E sempre haverão. Mesmo que você não acredite nesta versão dos fatos, é inegável dizer que a série da HBO, os contou de forma impecável.

Chernobyl começa nos mostrando a tragédia, sem explicar para nós, ou mesmo os personagens envolvidos, como esta é possível. Aos poucos, a narrativa compeça a destrinchar os efeitos do incidente, e finalmente a desvendar os motivos. É apenas em seu episódio final, que compreendemos o cenário completo. É assim para os personagens, e para o público. Um reflexo inegável da forma como este evento foi compreendido no mundo real, por trás das censura de informações do regime soviético. Afinal, ainda hoje não conhecemos 100% do que ocorrera ali, e talvez nunca conheçamos. Mas seus efeitos nos indivíduos, e no mundo, ficaram ainda mais fáceis de compreender.

Chernobyl tem apenas cinco episódios e é exibida pela HBO.

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