Black Mirror: Bandersnatch - Ah! E por falar nisso...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Black Mirror: Bandersnatch

Black Mirror é uma daquelas séries com uma capacidade incrível de impactar seu público. Mesmo sentados do "lado de cá" da tela, suas histórias absurdas, mas totalmente possível criam uma imersão tamanha, que não é comum ficarmos presos à elas por dia. O novo episódio da antologia, pretende ir ainda mais longe, colocando nas mãos do espectador as escolhas do protagonista. Bansersnatch é o primeiro grande projeto interativo da Netflix, e o argumento se encaixa perfeitamente com a proposta da série.

Na década de 1980, Stephan (Fionn Whitehead) está produzindo seu primeiro jogo, baseado em um livro no qual a história muda de acordo com as escolhas que o leitor faz pelos personagens. Enquanto isso, você tem alguns segundos para escolhe o que o jovem deve ou não fazer, em momentos específicos.

E isso é tudo que se pode adiantar do filme sem estragar a experiência, já que a produção é exatamente isso: um experimento. Enquanto a Netflix testa a tecnologia que permite o "você Decide" do século XXI - que aliás funciona muito bem apesar de não estar disponível em todos os dispositivos - nós brincamos de deus com a vida do protagonista. Isto é até certo ponto.

É logo na terceira escolha que a maioria dos espectadores começa a perceber que nosso poder, não é tão ilimitado assim. Finais abruptos, escolhas que não fazem diferença e becos sem saída te levam inevitavelmente para a "opção certa", se você quiser que a história continue por mais tempo. Admito, sabíamos que a brincadeira de escolhas não poderia continuar eternamente, e que haveriam trajetos definidos, mas a percepção desta limitação e o fato desta parecer tão curta, pode frustar alguns, ou ...

Se mantendo no espírito da série que leva a interferência da tecnologia em nossas vidas ao estremo, há sim um ângulo diferente para se observar Bandersnatch. CUIDADO O TRECHO A SEGUIR PODE CONTER SPOILERS - Stephan acha que tem livre arbítrio, mas secretamente somos nós quem controlamos sua vida. Já o "espectador interativo" acredita que está escolhendo o destino do protagonista, mas está apenas seguindo os caminhos pré-determinados pela Netflix. A plataforma te deixa decidir como percorrê-los, é verdade, mas através da curiosidade, vai obrigar você à inevitavelmente fazer todas as escolhas e percorrer todas as opções da narrativa, passando o máximo de tempo possível conectado ao serviço de streaming.

Quando Stephan começa à perceber que não tem controle de suas escolhas e começa à questionar sua existência, nós também já estamos questionando as opções que nos são dadas. Nós estamos mesmo controlando a tecnologia, ou ela só nos deixa ter uma breve sensação de poder, para ter nossa atenção por mais tempo? Se esta metalinguagem extrema é proposital, então o projeto é genial. E ao contrário do que se pensa, as opções continuam abertas.

Repare que quando o jogo de Stephan está sendo testado, o jogador encontra um beco sem saída e o rapaz alega, "ainda não programei essa parte". Imagina se a plataforma apenas "ainda não programou" os trechos que levam à becos sem saída, e daqui há algum tempo decide disponibilizá-los. Inevitavelmente seríamos arrastados de volta á narrativa, presos à esta nova tecnologia de contar histórias. Isso é muito Black Mirror! FIM DO TRECHO COM SPOILERS

Sugar Puffs ou Sucrílhos, escolhas cruciais da vida!
Como um todo, a narrativa é bem simples. Um jovem sente a pressão de seu primeiro "trabalho de verdade". Já às reviravoltas esbarram no exagero em alguns momentos, mas estes funcionam já que atendem tanto a narrativa, quanto a construção deste mundo em que o protagonista vive, no qual tudo supostamente pode acontecer dependendo de quem esteja no comando. Nós vivenciamos a urgência das escolhas na vida do jovem através da limitação de tempo com que precisamos fazer nossas próprias escolhas. São apenas dez segundos para selecionar uma das opções.

O elenco atende às necessidades da produção. Além de Whitehead que você deve conhecer de Dunkirk, Will Poulter, Asim Chaudhry, Alice Lowe e Craig Parkinson são aqueles que mais tem tempo de tela.

Bandersnatch pode ser visto como uma experiência limitada, ou uma grande sacada de metalinguagem. Ou ainda como os dois, já que o recurso de refletir sobre si mesmo pode ser uma escolha eficiente para driblar as limitações da tecnologia. A escolha de como encara-lo realmente é sua desta vez. A menos que haja uma força controlando tudo e todos - tem alguém aí? - De qualquer forma, todas as opções se encaixam com a temática de Black Mirror, impactar e perturbar o espectador.

Sendo assim, enquanto não me confirmarem que estou na Matrix e que o livre arbítrio não existe, escolho acreditar que, embora não seja o melhor episódio da antologia, Black Mirror: Bandersnatch é uma experiência curiosa, eficiente e bem sucedida. E você escolhe o que?

Black Mirror: Bandersnatch
2018 - EUA
Ficção-científica


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