segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Felicidade Por Um Fio

Protagonistas que encaram uma jornada de auto-descoberta, e libertação dos padrões absurdos da sociedade existem aos monte. O diferencial de Violet (Sanaa Lathan) de Felicidade Por Um Fio, está no paralelo entre a obsessão com os cabelos lisos e perfeitos e a ditadura da perfeição feminina dos tempos atuais. O argumento retirado do livro Nappily Ever After de Trisha Thomas, surfa nas atuais ondas do empoderamento feminino e da beleza negra simultaneamente.

Violet Jones, tem a vida perfeita, um ótimo emprego, um belo namorado e uma aparência impecável. Perfeição que ela mantém através uma rotina meticulosa e muito trabalho. Quando seu namorado se mostra insatisfeito com a tanta perfeição, a vida da moça entra em colapso e ela repensa todos os seus valores.

É possível que você não tenha notado, mas abraçar os cabelos cacheado e crespo naturais e enxergar a beleza deles finalmente "está na moda". Não faltam produtos, técnicas e exemplos para ajudar às mulheres a fazer a tal transição capilar, logo não é surpresa um filme que paute o arco de sua protagonista por esta fase de mudança. E Felicidade Por Um Fio, faz isso literalmente, separando os diferentes momentos da moça, através de capítulos nomeados pelas diferentes fases de seu cabelo. Característica provavelmente herdada do livro em que foi inspirado.

Entretanto, apesar de ter sim um paralelo com a aparência da moça, o longa parece pautar a sua jornada também pelos homens com quem ela se relaciona. Foi um relacionamento mal sucedido que deu um estopim para a mudança. Um encontro casual para "superar" o término, a coloca no rumo mais "naturalista". Ainda sem descobrir quem é, e o que quer da vida, ela engaja um terceiro relacionamento, apenas para ter uma recaída antes da grande libertação.

À certa altura, é inevitável pensar que a protagonista não aprendeu com os erros. Além de questionar a veracidade de seu grande momento catártico, no qual ela estava bêbada demais para lembrar na manhã seguinte. Violet parece querer se libertar, mas ainda pauta sua vida pelo que o rapaz da vez pensa. Mesmo que concordemos com o ponto de vista dele, não temos certeza se para a protagonista ele representa um novo ponto de vista, ou apenas um padrão diferente a ser seguido.

Instável também é o comportamento de sua mãe. Pauletta (Lynn Whitfield) é a grande causadora da obsessão da filha, e ainda fortemente presente na vida dela. A personagem devia servir de contraponto as mudanças da filha, mas desaparece após o choque inicial, voltando à cena apenas quanto o roteiro acha conveniente. Para piorar, a maioria dos momentos da mãe estão centrados nas expectativas quanto à vida romântica da filha. Vale mencionar aqui, que a necessidade de estar sempre impecável aos olhos da mãe está diretamente ligada a busca pelo par perfeito.

Mas calma, não é apenas de relações equivocadas ou duvidosas que se constrói este longa. É a relação entre Violet e pequena Zoe (Daria Johns), a mais interessante, já que começa com a repetição imposição de padrões a que a mocinha foi exposta, passando pela aceitação, reconhecimento e finalmente descoberta da beleza sem padrões. A relação da protagonista com as amigas, inicialmente as únicas a apontar para a personagem sua obsessão, também cria uma dinâmica interessante, porém pouco aproveitada pelo roteiro. O que também ganha poucas cenas é a relação da moça com o trabalho. Trabalhando em uma agência de propaganda, os trabalhos da moça refletem a forma como ela se enxerga. Mas, seus colegas de trabalho atendem aos estereótipos machistas da sociedade, e apenas isso.

E claro, a relação da moça com a aparência e a busca eterna por se encaixar nos padrões brancos, é altamente relacionável. Desde da boa cena introdutória, onde a Violet ainda criança desafia a mãe, apenas para descobrir a crueldade da qual a matriarca tentava exageradamente protege-la. Até, os exageros da vida adulta, na qual o namorado de dois anos nunca sequer a viu desarrumada.

A certa altura, o pai de Zoe, will (Lyriq Bent), explica que tenta mostrar a filha que ela não precisa seguir padrões determinados, mas lutava constantemente com TVs, revistas, as pessoas. É esse tipo de reflexão que deveria ter mais espaço no longa. Mas a produção prefere o caminho seguro do romance água-com-açúcar cliché, criando uma contradição: um filme sobre empoderamento feminino, que não consegue evitar se apoiar em personagens masculinos - mencionei que um dos pretendentes de Violet é cabeleireiro? - E que, consequentemente, precisa recorre a um discurso pronto para se certificar que sua edificante mensagem não se perca ao final da produção.

O elenco está empenhado, mas pode entregar apenas o que os personagens presos ao gênero permitem. O destaque, é claro, fica com Sanaa Lathan que raspou os próprios cabelos em cena. Mas a produção ainda conta com Ernie Hudson, Camille Guaty e Brittany S. Hall.

Felicidade Por Um Fio, tem um potencial de identificação excelente. Faltou apenas um pouco coragem de explorar este potencial sem as amarras do gênero, para criar algo realmente memorável. Ainda sim, a luta da protagonista é extremamente verdadeira. Quem nunca se sentiu preso, acuado ou excluído por padrões impossíveis de cumprir? Você vai se identificar com a Violet, e consequentemente rir, chorar, e quem sabe rever alguns de seus próprios conceitos com ela.

Felicidade Por Um Fio (Nappily Ever After)
2018 - EUA - 98min
Romance, Drama

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