quarta-feira, 18 de julho de 2018

Ilha dos Cachorros

Não é novidade que animações são capazes de discutir temas complexos independente de seu público alvo. De fato, as melhores são assim, com temas consistentes, muitas camadas e discussões apresentadas de forma acessível através do tom lúdico da animação. Ilha dos Cachorros, a nova animação de Wes Anderson traz metáforas à ditaduras e regimes nazistas e fascistas, em uma aventura no simétrico mundo do diretor.

O prefeito Kobayashi (voz de Kunichi Nomura), proíbe todos os cães de morar em Megasaki. Os animais são transferidos para a ilha/lixão vizinha à cidade. Atari (Koyu Rankin) de apenas 12 anos não se conforma com a separação de seu pet, e decide sair a procura de Spots (Liev Schreiber). Na ilha, ele recebe a ajuda de uma matilha de iguais composta por Chief (Bryan Cranston), Rex (Edward Norton), King (Bob Balaban), Boss (Bill Murray) e Duke (Jeff Goldblum). Enquanto na cidade, um grupo de estudantes comandados pela intercambista Tracy (Greta Gerwig) tenta desmascarar o prefeito e sua lavagem cerebral que condenou os cachorros.

Situado no japão, grande parte do filme é falada no idioma local. Humanos japoneses falam apenas em japonês, inclusive Atari. Apenas os animais, e eventuais intérpretes como Tracy, falam inglês. Não que precisemos de ajuda para simpatizar com os verdadeiros protagonistas deste longa, os cães. Junto com o idioma e localização, vem as referências e elementos da cultura japonesa, que tanto podem ser encarados como homenagem, quanto apropriação cultural dependendo o espectador. - Eu escolho a primeira opção.

A nacionalidade dos personagens, influencia inclusive o estilo da animação, seja no tom das vozes dos atores, seja nos movimentos bem marcados e controlados dos personagens. Estes consequentemente evidenciam a técnica em stop-motion escolhida para contar a história. Além dela a animação em 2D, é utilizada como recurso em momentos chave, e fazem alusão a animes japoneses de outrora. Sumô, teatro kabuki e os haikai estão entre as outras muitas referencias à cultura japonesa.

Referências nipônicas à parte, em sua temática Ilha dos Cachorros faz alusões a momentos distintos, porém similares na história da humanidade. Marketing para propagação de ideologias de ódio, governantes autoritários que se volta para uma parcela da população, genocídio, estão entre os assuntos abordados durante a jornada de Akira e companhia. Há tempo até para menções ao empoderamento feminino, e os atuais problemas de imigração. Tudo isso, sem perder a parte aventuresca e lúdica da animação.

A grande quantidade de personagens, é o único problema do longa. É evidente que não há tempo hábil para trabalhar todos eles e ainda desenvolver a trama principal. O resultado, e a sensação de que algumas das personalidades mais curiosas foram sub aproveitadas. Especialmente, Júpiter (F. Murray Abraham) e Oracle (Tilda Swinton). Ao menos, os muitos rostos e focinhos em cena, comportam o desfiles de nomes conhecidos já tradicionais nas obras de Anderson. Além dos nomes já mencionados, Frances McDormand, Scarlett Johansson, Harvey Keitel, Ken Watanabe, Anjelica Huston e até Yoko Ono(!), emprestam suas vozes para personagens e participações especiais.

Entre aqueles que ganham um arco bem definido, as atenções maiores ficam em Chief. Cão de rua a vida toda, tem uma desconfiança natural em relação aos humanos e um temperamento difícil de controlar, a ser desenvolvido através das relações com o menino e os outros cachorros.

Tecnicamente, o filme acerta do detalhismo para a criação visuais distintos, mesmo para personagens com as mesmas características físicas. Também acerta ao transportar o estilo e linguagem característicos do diretor para a o formato da animação. As simetrias, ritmo, o visual igualmente estranho e belo, que tornam os filmes de Anderson inconfundíveis estão devidamente incorporados.

Ilha dos Cachorros conta a jornada de cães mais humanos que muita gente, e ainda aproveita para repensar diferentes momentos da história da humanidade. Criando uma relação com o espectador através da conexão com a realidade que transparece através do mundo mágico dos cães. Uma animação consciente de suas possibilidades, e que explora bem seus temas, entregando um universo rico e encantador.

Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs)
Alemanha, EUA - 2018 - 102min
Animação, Aventura
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