segunda-feira, 6 de novembro de 2017

1922

Não é de hoje que Stephen King tem muitas de suas obras adaptadas para as telas. Entretanto 2017 está chamando atenção não apenas pelo volume de produções, mas também pela diferença de qualidade entre elas. It: A Coisa é de longe a melhor produção do ano, enquanto a série O Nevoeiro e o longa A Torre Negra se destacam como fiasco de público e crítica. O filme da Netflix, 1922, no entanto, chega para a figurar a maior lista, a de produções medianas.

O pacato fazendeiro Wilfred James (Thomas Jane), tinha a vida perfeita, terra para plantar e um filho para quem deixá-la. Tudo parecia que ficaria ainda melhor quando a esposa recebe 40 hectares de herança, que tornaria sua fazenda duas vezes maior. Mas Arlette (Molly Parker) tinha outros planos para a propriedade, vender tudo e morar na cidade. Incapaz de dissuadir a esposa que ameça abandoná-lo, James decide resolver a situação de forma nada ortodoxa. Ele manipula seu filho adolescente Henry (Dylan Schmid) para ajudá-lo a matar a esposa.

Calma, eu não te dei um spoiler no paragrafo acima. O assassinato por motivo torpe está na sinopse e a confissão do ato longo nos primeiros minutos de projeção. O filme de fato é uma enorme confissão de  Wilfred James, e é provavelmente nesta escolha que está o maior problema da produção. Contando a história desde o início, o protagonista/narrador não hesita em narrar aquilo que bem entende, mesmo quando esta intrusão não é necessária, atrapalhando a imersão completa em alguns momentos de tensão. Outro problema da narração, é a sua mistura com falas dentro da narrativa - você acha que se trata de uma narração, mas ao fim da cena se trata de um diálogo com outro personagem. Um efeito legal, mas que pode gerar confusão antes que o expectador compreenda seu uso.

A trama, segue uma lógica simples e objetiva, e por isso funciona. O personagem opta pela "solução fácil" e paga por isso, em um primeiro nível vendo seus planos brilhantes desmoronarem e perdendo tudo. E no segundo e mais assustador nível, o psicológico. Corrompido pela culpa, nunca temos certeza se Wilfred está mesmo sendo assombrado, ou perdendo a sanidade. - Embora eu ainda esteja me perguntando como uma alucinação poderia causar ferimentos reais, como uma mordida de rato.

Alucinação ou assombração, não importa. A graça de  1922 é a tensão constante e crescente, e o crescimento do desespero - ou seria desesperança? - do protagonista, esteja você torcendo a favor ou contra ele. Efeito devidamente alcançado pela fotografia que se torna mais escura e sombria conforme o longa evolui e pela excelente atuação de Thomas Jane que consegue criar empatia através do bronco, porém calculista, fazendeiro.

O elenco eficiente conta ainda com Molly Parker, Neal McDonough (Arrow, DC Legends) e Brian d'Arcy James (13 Reasons Why). O escorregão fica por conta do jovem Dylan Schmid, que apesar de esforçado não consegue atender à complexidades e nuances de um filho manipulado para aceitar o assassinato da mãe. A interessante, porém apressada sequencia que desenvolve seu arco na vida do crime também não ajuda no desenvolvimento de Henry.

Mais voltado para a construção de do clima e enfase da tensão, do que para sustos fáceis, 1922 traz algumas sequencias bastante nojentas, garantido que mesmo aqueles de nervos mais fortes saiam incomodados da tensão. Um trabalho eficiente da maquiagem e design de produção. Este último ainda se destaca na reconstrução de época, caso você ainda não tenha notado a história se passa na segunda década do século XX.

1922 consegue entregar o que se propôs a fazer, mas o ritmo mais lento, pode decepcionar os fãs de terror tradicional. Simples, bem realizado e tenso, esta adaptação de um conto de Stephen King, presente no livro Escuridão Total, Sem Estrelas, não é excepcional, mas funciona.

1922
Canadá - 2017 - 101min
Suspense, Drama
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