Não é segredo que boa parte do mercado de cultura pop atual vive de nostalgia. E por isso, eventualmente tudo será resgatado, reinventado e re-explorado assim que possível. Se isso é bom para indústria ou para a arte em si, é uma discussão à parte. Por hora, a gente vai analisando essas obras derivadas conforme elas saem. E, celebrando vinte anos de seu lançamento, é a hora de revistitar O Diabo Veste Prada.
O original de 2006 é um caso curioso de obra que evoluiu com o tempo. Já era boa em seu lançamento, mas ao longo do tempo, conforme a sociedade evoluia e mudava, novas reflexões foram atribuídas à ele. Enquanto seus personagens carismáticos interpretados por um excelente elenco, se tornavam figuras cada vez mais queridas no imaginário popular.
Partindo desse princípio, O Diabo Veste Prada 2 tem grandes desafios. Ser relevante tematicamente como seu antecessor, trazer versões evoluídas dos personagens sem perder sua essência e entregar uma trama coêsa e dinâmica. Mas isso, é para os extremamente exigentes. Ouso dizer que boa parte do público quer apenas retornar à esse universo e passar um tempo de qualidade com os personagens que ama. A questão é quais dessas exigências a obra consegue suprir?
Duas décadas depois de sua experiência da Runaway, Andy Sachs (Anne Hathaway) é a jornalista que sempre quis ser. Viajou o mundo, recebeu prêmios, mas o jornalismo impresso está morrendo diante do boom da internet. E mesmo com toda a experiência, ela se vê desempregada e sem perspectivas. Ao mesmo tempo um escândalo na revista coloca Miranda Priestly (Meryl Streep) em maus lençois. E assim a dupla é reunida novamente, para salvar a reputação da publicação.
A partir daí o filme se divide entre emular a fórmula do original e trazer algo novo. Na primeira metade acompanhamos Andrea enfrentar dificuldades para se adaptar à rotina e as exigências de Miranda. Trazendo um pequeno retrocesso à construção da personagem, a segurança adiquirida no primeiro filme desaparece, e ela volta a ser a figura desajeitada e nervosa que vimos lá em 2006.Ok, é verdade que às vezes, quando reencontramos o valentão da escola, voltamos a ser o nerd acuado. Mas nada justifica a necessidade de aprovação da chefe, a não ser repetir a conversa da "estrelinha na testa" com Nigel (Stanley Tucci). Sim, ela está lá resumida, mas com o mesmo tom e função. A escolha provavelmente é por manter a familiaridade, apostando que muita gente pode querer ver a mesma Andy de 2006.
Já a segunda metade do filme traz uma nova ameaça ao cargo de Miranda, e a novidade de uma tentativa mais ativa de Andy de salvar a chefe. Justificada por uma abertura maior da vilã, aqui muito mais humanizada que a pontual e acertada quebra do primeiro filme.Fica a cargo do espectador se a mudança é resultado da evolução da personagem devido à maturidade. Se está atendendo ao fã-service de vê-la se aproximando da assistente. Ou se foi descaracterizada pela mudança. Particularmente, independente da percepção, Meryl tira de letra o trabalho de tornar Miranda mais humana, sem deixar de ser a chefe implacável que amamos ver tratar mal seus funcionários.
É em Emily (Emily Blunt) que vêmos as maiores mudanças. A personagem está em uma situação completamente nova, o que a leva à tomar atitudes quesitonáveis, mas que combinam bem com a personagem, auto-centrada e ambiciosa que conhecemos. Nigel é o que menos evolui, mantendo-se como fiel escudeiro, que finalmene recebe reparação, ainda que pequena, pelas injustiças que sofreu ao longo dos anos.
O filme ainda traz uma enorme lista de novos nomes e participações especiais. Justin Theroux, Simone Ashley, Lucy Liu, B.J. Novak e Kenneth Branagh são os com um pouco de destaque. Enquanto Tracie Thoms e Tibor Feldman são os únicos retornos relevantes. Enquanto Patrick Brammall vive um interesse amoroso completamente descartável. De fato, a necessidade de dar à Andy um romance é irrelevante para a história, e parece ser apenas uma resposta ao controverso par romantico do filme anterior.
De volta ao filme, o roteiro ainda encontra espaço para recriar cenas e fazer referêcias ao filme anterior. Desde a abertura com o desenbaçar de espelho na rotina matinal, passando pelos cintos idênticos, até o controverso suéter azul celeste. Alguns acenos completamente à serviço da nostalgia, outros com função mais interessante, como a sala de Miranda, identica à original enquanto toda à Runaway à sua volta se transformou. Metáfora visual da mudança do mundo editorial e da dificuldade da personagem em se adaptar.
E é esse o grande tema por trás da trama, a morte da mídia impressa, diante da revolução da internet. Como ser a maior revista de moda do mundo, se o mundo não lê mais revistas? Crise que abrange todo o mercado editorial, e seu funcionários. Além da forma como o público consome informação, com seus prós como a velocidade, e os contras como o excesso e a falta de responsabilidade diante de tanta liberdade de produção.Com aceno ainda sobre os CEOs das novas gerações e sua valorização, ou não, das tradições. E a forma como grandes conglomerados enxergarm seus funcionários, como números descartáveis. Não que a maioria do público vá ligar para essas reflexões para além de ferramentas para movimentar a trama.
Por mais que o filme tenha discussões relevantes. O principal objetivo deles é, sem dúvida, nos levar de volta para o convívio com Andy, Miranda, Nigel e Emily. Tarefa que cumpre bem, ao ponto de ignoramos as conveniências e atalhos que enfraquecem o roteiro. Sendo a maior delas a personagem de Lucy Liu, mas falar mais que isso é spoiler, então vou parar por aqui. Também senti falta de músicas mais interessantes, que conversassem com a narrativa, característica marcante do primeiro filme.
O Diabo Veste Prada 2 não é tão relevante e certeiro como o original. Mas é bem executado, divertido com um elenco excelente extremamente empolgado com o retorno. E servindo um desfile de nostalgia e belas roupas. Em resumo, a sequencia não era necessária, mas como é bom acompanhar Miranda Priestly mais um pouco.
O Diabo Veste Prada 2 (The Devil Wears Prada 2)
2026 - EUA - 119min
Drama, Comédia
Vem conversar sobre o primeiro O Diabo Veste Prada!







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