A Grande Inundação

Mais um fenômeno coreano da Netflix que, confesso, assisti apenas para a plataforma parar de indicar, durante os dias de recesso de fim/inicio de ano. A Grande Inundação tenta ser surpreendente, inteligente e ousado, mas é apenas confuso quanto à história que deseja contar. 

E como não muitas formas de comentar o filme, sem contar suas reviravoltas. Excepcionalmente, esta crítica terá spoilers! Siga por sua conta e risco. Embora, devido à grande popularidade da obra, é muito provavel que a maioria dos leitores que chegem até aqui, já a tenham assistido.

A queda de um meteoro na Terra acelera o derretimento das calotas polares, e faz o nível dos mares subir assustadoramente rápido, inundando várias cidades quase que de surpresa. An Na (Kim Da-mi) é uma cientista que trabalha com inteligência artificial, que tenta sobreviver ao dilúvio com o filho pequeno Ja In (Kwon Eun-sung). 

Vivendo em um complexo de apartamentos já parcialmente inundado, o único caminho, para mãe filho e outras centenas de moradores é para cima. A correria e o caos tomam conta, e são obstáculos tão grandes quanto à agua em si. Nem mesmo a chegada de Hee-jo (Park Hae-soo), enviado para resgatá-los, uma vez que a pesquisa da moça é essencial para a sobrevivência da humanidade, parece melhorar a situação. 

Até que ao meio do filme, quando a moça falha em salvar o menino a história simplesmente recomeça. Por alguns instantes imaginamos ser uma narrativa de sobrevivência com loop temporal. Onde o dia se repetiria até a moça completar sua missão. Mas logo percebemos que não se trata de um "dia da marmota apocalíptico", mas de uma simulação.

Os números da roupa da protagonista deixam claro, que estas tentativas estão sendo contabilizadas e analisadas. Nada é de fato real, trata-se de um computador fazendo estatísticas, e descobrimos no desfecho, treinando uma inteligência artificial.

O problema é que esta percepção do simulacro criou um efeito negativo nesta blogueira que vos escreve: eu parei de me importar. O conhecimento da repetição programada tirou o senso de urgência da situação. Enquanto o fato de se tratar de um programa de computador, eliminou minha empatia com aqueles seres, que sabemos não serem mais humanos. 

O curioso é que o filme está discutindo exatamente isso. Humanidade e a dificuldade de criar sentimentos artificialmente. An Na, a da primeira versão da história, em teoria a real, está literamente criando e educando um ser humano sintético, Ja In. Ao mesmo tempo, as simulações seguintes ignoram a suposta importancia do garoto, para treinar uma inteligência artificial. 

E fica a dúvida: como de fato eles querem recriar a humanidade? Criando seres sintéticos desde a infância como se fossem pessoas reais, para que elas aprendam a sentir e pensar como tal. Ou treinando um programa através da repetição somada à tentativa e erro? E pegunto ainda mais. Como isso é o futuro da humanidade, se não envolvem humanos? No máximo seria um grande arquivo, ou simulação de como a humanidade costumava ser antes da extinção. 

E olha que os filmes nem entram no mérito de reprodução, e virtualidade. Essa inteligência treinada será um ser físico, ou apenas o programa que assistimos? Aliás, não era mais fácil usar toda essa tecnologia para de fato salvar pessoas e garantir a continuidade da espécie?

São muitas questões a serem respondidas para que esta ficção-científica apocalíptica faça sentido. E então, a partir dela possamos fazer os reais questionamentos sobre tecnologia, humanidade, sobrevivência, maternidade, conexão humana, entre outros muitos temas que esta boa ideia poderia proporcionar. 

A referência à Arca de Noé é clara, mas a alegoria não é completa adequadamente. Uma vez que ninguém de fato sobrevive. É só um programa de computador. Um museu virtual que simula a humanidade. 

O diretor Byung-woo Kim, até sabe os conceitos e temas que pretende explorar, e como atiçar o interesse do grande público. Afinal o filme foi fenômeno na plataforma, provavelmente por apelar para nossos medos de catástrofes naturais. Mas não descobriu a forma mais inteligente, e humana de tornar a simulação real e e verdadeiramente relevante e envolvente, para quem assiste e pensa um pouquinho além das situações de sufoco e desespero a serem superadas. O resultado é um espetáculo apocalíptico vazio e esquecível. 

A Grande Inundação (Daehongsu)
2025 - Coréia do Sul - 109min
Ação, Ficção-ciêntifica

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