Desde que o cinema foi inventado, algumas obras literárias são adaptadas e readaptadas a cada geração, ou até menos. O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Brontë é um desses clássicos que ganham novas visões de tempos em tempos. E acaba de ganhar mais uma pela imaginação de Emerald Fennell.
"O Morro dos Ventos Uivantes" - tem ênfase nas aspas do título para demonstrar que esta é a visão própria da diretora sobre a obra. Dessa vez mais preocupada em expressar em todos os sentidos, os sentimentos intensos de seus protagonistas. Mais até do que com a fidelidade ao livro. Se esta é uma boa escolha ou não, aí vai do gosto de cada expectador.
Cathy é uma menina tão mimada quanto encantadora, que logo cria uma relação de afeição turbulenta com Heathcliff, um menino bronco "adotado" por seu pai, que retribui os sentimentos intensos e atribulados da moça. Após uma infância inteira juntos, sob a tutela do nada bondoso pai da moça, a ruína da família começa a ficar insustentável. Cathy vê no novo vizinho Linton, uma forma de escapar da vida miserável em seu lar de nascimento. Apesar dos sentimentos por Heathcliff.
O mocinho vai embora, ela casa, tem uma vida confortável e apropriada. Até o retorno do rapaz, rico com banho de loja e ainda obcecado por ela. E o romance vira tragédia. O cerne do livro está presente na obra de Fennell. É a forma mais intensa e ousada com que ela aborda a história que dão personalidade à história.
Ela possibilita os personagens serem mais sensuais e se envolverem carnalmente. O que no livro, até pela época em que fora escrito, não poderia acontecer. Essa liberdade criativa também extrapola a precisão histórica. Cenários, figurinos e objetos atendem aos sentimentos, não à época.
Assim, a propriedade do Morro dos Ventos Uivantes é escura sufocante, quase medieval. Enquanto a casa dos Linton é luxuosa e intensa. Tem tons fortes e texturas estranhas, como piso vermelho reflexivo, e o quarto com a tonalidade da pele de Margott Robbie.
Os figurinos seguem a mesma lógica, especialmente para as mulheres. Cathy sempre chama atenção. Em sua fase pobre, com estampas chamativas e desencontradas, ainda que rústicas, mas extremamente livres. Quando rica, em um casamento de conveniência, se fecha em corpetes, tecidos finos, saias amplas e jóias gigantescas.
Outra construção a ser observada pelos figurinos é de Isabella. A jovem supostamente ingênua vestida em tons pastéis e vestidos infantis, mas com cabelo desgrenhado, reflete a personalidade estranha por baixo da máscara de doçura, que eventualmente vai cair.
A personagem aliás é uma das grandes mudanças trazida por esta versão. Ao invés de vítima inocente, presa nas intrigas dos protagonistas, ela tem seus próprios anseios e ambiguidades desde o início.
Assim como a criada Nelly, geralmente a fiel narradora nas demais versões. Aqui, ela interfere ativamente no romance. Tem background próprio, e manipula situações à seu favor. Ouso dizer que a história é tanto dela, quanto de Cathy e Heathcliff.
E por falar nos protagonistas, sua construção é eficiente desde o princípio. Charlotte Mellington em seu primeiro trabalho, e Owen Cooper, da excelente minissérie Adolescência, apresentam as versões mais verdadeiras dos personagens. Quando ainda estão na infância, sem filtros e amarras, e consequentemente quando seus sentimentos são expressados mais livremente.
Quando Margott Robbie e Jacob Elordi entram, é para acrescentar os dilemas das regras sociais e desenvolver o romance propriamente. E a dupla performa bem a conturbada relação de amor tóxico, cuja turbulência vem tanto das falhas de comunicação, quanto das personalidades fortes e impulsivas de ambos. Provando-se serem boas escolhas apesar das polêmicas.
Sim Margot Robbie não tem 19 anos como a personagem, mas nunca deixamos de acreditar da impulsividade e até da ingenuidade dela em alguns momentos. Características típicas da pouca idade.
Quanto à etnia de Jacob Elordi realmente, ele não parece ter a mesma procedência que a versão dos livros, mas a caracterização consegue torná-lo alvo de repulsa da sociedade. É verdade que a escolha de um ator racializado seria mais acertada. Mas pela primeira vez, entre as dezenas de adaptações que trouxe um Heathcliff branco, não acredito que a escolha do ator seja meramente por apagamento racial. Uma vez, que a diretora trouxe pessoas racializadas para os papéis de Nelly e Linton. Este último inclusive deveria ser a síntese do branco privilegiado.
Acho que de fato ela buscava pelo melhor elenco, independente de etnias, o que passa não apenas pelo talento, mas pelo “marketing”, já que sua versão teria liberdade criativa quanto à isso. O problema é que em meio às décadas de escolhas calcadas no racismo, a escolha continua sendo problemática.
Outro alvo de polêmicas, a trilha sonora criada por Charlie XCX é intrusiva especialmente quando os vocais entram em cena. Ao invés de complementar as cenas, tenta induzir a grandiosidade. Funcionando apenas nos momentos instrumentais criados por Anthony Willis. E em se tratando de “Ventos Uivantes”, admito, senti falta do vento como trilha sonora, especialmente das sequências em amplas paisagens abertas, onde sua presença é um personagem à parte.
Ao final das contas, "O Morro dos Ventos Uivantes" de Emerald Fennell é mais uma versão de uma história conhecida. E convenhamos, são as diferentes visões que permitem que essas histórias sejam contadas e recontadas eternamente.
Apesar do desapego à fidelidade, e das licenças poéticas, mantém o cerne do romance obsessivo e trágico. E por isso, traz aspas no título. É intenso, vibrante, visualmente deslumbrante. Se vai agradar ou não, depende do apego de cada um à obra original. Eu não odiei, mas também não amei a obra. Me entreteve, e isso é o suficiente.
"O Morro dos Ventos Uivantes" ("Wuthering Heights")
2026 - EUA - 136min
Drama, Romance








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