Eu não sei você, mas eu ficaria receosa de trazer para os cinemas, uma nova versão de um filme extremamente renomado.Tipo, pra quê mexer no que já está perfeito né? Mas, Hollywood não tá nem aí, e pra ser justa, a nova versão de O Beijo da Mulher Aranha não é um remake do clássico de Hector Babenco, mas uma adaptação da peça musical do mesmo livro de Manuel Puig.
Durante a ditadura militar argentina, Valentin Arregui (Diego Luna), e Luis Molina (Tonatiuh) dividem uma cela na prisão. Valentin é um preso político focado na luta contra o regime, já Molina é um homossexual preso por “libertinagem”, que tem um combinado com o diretor da prisão: ele pode ser solto se conseguir informações importantes de seu colega de cela, que resiste bravamente as sessões de tortura..
Assim acompanhamos a convivência desses opostos. Enquanto o revolucionário tenta se manter fiel à causa, Molina tenta criar aproximação narrando a história de seu filme favorito, O Beijo da Mulher Aranha, um musical da era de ouro estrelado pela musa Ingrid Luna (Jennifer Lopez).
O diretor Bill Condon de Dreamgirls e do live-action de A Bela e a Fera, aproveita esta oportunidade para demonstrar seu amor por musicais clássicos. Criando para o filme dentro do filme, cenas que remetem ao estilo da época, na fotografia, no estilo teatral da atuação e principalmente nos números musicais. As sequências de dança são glamourosas, bem executadas e filmadas.
Uma pena apenas, que as músicas não sejam tão memoráveis. O que para um musical - seja nos palcos ou nas telas - é um agravante sério! Infelizmente, a gente não sai da sessão com nenhuma das músicas na cabeça. Mesmo assim as sequencias conseguem expressar bem os sentimentos e idéias que propõem, além do filme, como um todo, fazer bons paralelos com a vida de Molina e Valentin. Com direito aos detentos se colocarem literalmente na história, com Diego Luna e Tonatiuh assumindo personagens na trama dentro da trama.Curiosamente entre esses números, os que mais se destacam são aqueles que “vazam” para fora da ficção contada pelo detento. Como o número da enfermaria, aquele que relata a tortura de forma escapista, e claro a grande apoteose final de Molina.
Já “no mundo real” do filme, acompanhamos a construção de uma relação de companheirismo e cuidado, que evolui para um romance conforme a dupla convive. É interessante observar como a produção transforma a cela fria e úmida em um lar com a chegada de Molina e seus penduricalhos, que aos poucos fica mais aconchegante conforme os personagens se aproximam.O que torna a separação e o desfecho mais fortes e impactantes, mesmo para quem já conhece a história.
Diego Luna convence ao criar um revolucionário focado e resistente, sem deixar de lado a vulnerabilidade e o sofrimento a que seu personagem é submetido. Tonatiuh surpreende com um envolvimento emocional, um conflito interno intenso e por fim uma entrega aos sentimentos desenvolvidos de forma coerente e envolvente. Enquanto Jennifer Lopez brilha ao criar a musa dos sonhos dos personagens, como uma dama clássica do cinema, e executando complexos números de dança.O Beijo da Mulher Aranha é bem executado e envolvente. Por outro lado, sofre de um mal muito comum em adaptações musicais, a amenização da história. Já que a comparação com o clássico de 1985 é inevitável, ao colocar os dois filmes em perspectiva fica evidente a simplificação desta versão mais recente em relação à primeira adaptação.
O musical traz a mesma trama, leva de volta a história para a ditadura Argentina, e até traz um desfecho mais contundente e conectado à história real. Mas simplifica tudo isso para tornar a trama mais palatável, mais fácil para o público assimilar. Assim as intrigas são mais simples, as reações mais passionais, mais exageradas e até explícitas, inclusive nas cenas que envolvem violencia e sexo.
Ao final das contas,o novo O Beijo da Mulher Aranha não é um filme ruim. Pelo contrário, é caprichado, interessante e entretém. Mas, usa a parte lúdica do filme dentro do filme, para simplificar e facilitar a compreensão do público. Certamente atinge mais pessoas, mas não consegue ter o mesmo peso e relevancia da versão de 1985. Se for uma porta de entrada para ela, ou mesmo para o livro, acho que já vale a sessão.O Beijo da Mulher Aranha (Kiss of the Spider Woman)
2025 - EUA - 129min
Musical, Drama




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