Quantas gerações são preciso, para uma família aprender que não é preciso atender às expectativas de quem veio antes de nós? Talve zeja isso que A Leste do Éden pretende descobrir. A minissérie de sete episódios que adapta a obra literária de John Steinbeck, é uma das boas surpresas da Netflix em 2026.
Acompanhamos assim a infância dos irmãos Trask no final do século XIX. Charles (Mike Faist) disputa a atenção do pai, que claramente tem Adam (Christopher Abbott) como favorito. Criando inimizade entre os irmãos que só aumenta com a chegada de Cathy (Florence Pugh), espancada e debilitada à sua porta. Ela é acolhida por Adam mas hostilizada por Charles. E já estamos no século XX.
O que Adam ignora, Charles desconfia e que nós acompanhamos, é que Cathy tem um passado. Sendo capaz de usar sua beleza e astúcia para manipular os homens desde o início da adolescêcia. Mas, no momento, que acolhida pelos irmãos está, de fato, desamparada. Mas não despreparada, ela logo planeja tirar vantagem dos Trask. E acaba casando com Adam, que não percebe as intenções e vontades da moça, nem quando ela as verbaliza.
Endinheirado por uma herança duvidosa de seu pai, ele arrasta a moça à contragosto para o outro lado do país. Onde grávida ela vive infeliz, à espera da oportunidade de abandonar pai e bebês. O que ela faz, fugindo para um bordel e engajando um plano para se tornar dona dele.
Enquanto Adam se afoga em depressão, e conta com a ajuda de Lee (Hoon Lee) para criar os filhos Caleb e Aron (Joseph Zada e Joe Anders). É apenas quando os gêmeos estão crescidos que a trama se movimenta novamente. Com os irmãos mais uma vez tentando atender as expectativas do pai, gerando novos conflitos e embates entre eles.
Esta "sinopse" é muito mais extensa e detalhada do que de costume em minhas resenhas para apontar um detalhe importante, a ciclicidade da história. Assim como a canção de Belquior, imortalizada por Eliz Regina, "Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais". E a repetição de erros vem acontecendo, geração por geração, desde os primeiros filhos, Cain e Abel.
Não é coincidência que a família trask seja formada por irmãos cujas iniciais dos nomes sejam "C" e "A". Cain e Abel, Charles e Adam, Caleb e Aron... O romance de Steinbeck faz diversos paralelos com esta e outras histórias bíblicas para discutir, legado, livre-arbítrio e expecatativas. A série atualiza, e consequentemente amplia a discussão, falando também de honestidade, liberdade, e o espaço da mulher naquela sociedade.
Isso porquê, diferente do livro que a trata apenas como a personificação da maldade, a série dá mais camada e bagagem a Cathy. Não chega a redmi-la de suas ações, mas nos faz entender sua busca. Cathy queria agência, poder comandar a própria vida, mesmo que para isso, precisasse recorrer a profissão mais mal falada da história. Como prostituta ela poderia ganhar o próprio dinheiro sem depender de pai, marido ou filhos. Como cafetina poderia inclusive comandar homens em seu pequeno império. Uma liberdade impossível para qualquer outra posição reservada as mulheres.Não atoa, a produção escolheu um nome de peso para a antagonista. Florence Pugh consegue transmitir todas as camadas, e o peso das escolhas de sua personagem, sem que o texto seja explicativo. Insatisfação, frustação, ambição, indiferença, soberba, medo, está tudo lá, nos pequenos gestos e expressões da moça.
Outro grande destaque é Hoon Lee. Interprete do "cozinheiro" da família Trask, ele rouba a cena ao ser o personagem mais sensato no caos que é a vida. Mesmo tendo que lidar com os estereótipos que lhe são impostos, e com os impedimentos que sua etnia colocam em seu caminho. Uma interpretação cativante de Hoon Lee.O restante do elenco apresenta um excelente trabalho, mas admito foram Florence e Lee quem chamaram minha atenção. Mas vale mencionar as boas aparições de Mike Faist e Ciarán Hinds. Além de podermos conhecer um pouco melhor os trabalhos de Christopher Abbott, o futuro Professor Xavier do MCU, e Joseph Zada, protagonista do próximo filme da franquia Jogos Vorazes.
Outro aspecto que chama a atenção é a reconstrução de época, e a criação de atmosfera. Seja através dos detalhados cenários e figurinos, que realmente parecem utilizados no dia-a-dia. Seja nas vastas e belas locações escolhidas, que nos fazem pensar, onde encontraram tantos lugares sem sinal de habitação e "modernidade". Visualmente a série é impressionante.
A Leste do Éden traz uma narrativa rica, e um universo caprichado, e excelentes atuações para ambientar várias gerações de uma mesma família, aprendendo sobre liberdade. Tudo para chegar em um conceito "Timshel", é uma palavra hebraica (aparece em Gênesis 4:7) que significa "tu podes" ou "poderás". Tu poderás ser quem quiser, sem atender expectativas alheias. E talvez também tu poderás aceitar seus filhos como são, e como desejam viver.A família Trask pode até ter vivido no início do século passado, mas a batalha geracional que enfrentam ainda é a mesma que muitas famílias encaram em pleno 2026.
A Leste do Éden tem sete episódios com cerca de uma hora cada, todos já disponíveis na Netflix.

.jpg)



Postar um comentário