A Revolução dos Bichos

Admito, foi a curiosidade que me levou à assistir esta nova animação de A Revolução dos Bichos. Além da direção de Andy Serkins (pois é, o Gollum) e de um elenco estelar, diante do cenário politico mundial atual, o conto de  George Orwell poderia ressucitar antigas discussões, e descobrir novas questões a serem abordadas. Mas, parece, que eu estava esperando demais...

Se você nunca teve contato com o livro de mesmo nome de Orwell, ou com a excelente animação de 1954 (tenho um vídeo sobre ela aqui), eis uma breve apresentação. Animais de fazenda que se cansam do descaso do dono humano explorador, promovem uma revolução e tomam a fazenda para si. Criando uma democracia onde todos os animais são iguais... mas não demora muito para alguns animais se tornarem "mais iguais do que outros".

Nesse admirável novo mundo dos animais dois porcos se destacam inicialmente Bola de Neve que tem planos de crescimento para a fazenda, e Napoleão, que rapidinho expulsa o concorrente e toma o poder pra si. Implementando um novo governo totalitario ainda mais explorador e cruel que o anterior, com vantagem apenas para os porcos que cada vez mais parecem com os humanos de quem se livraram. 

E sim, essa trama realmente está presente mas, talvez, a alegoria politica que ela carrega originalmente nem tanto. Isso porquê, diferente da animação dos anos 50, que se assume como um filme adulto, feito em animação apenas porque seria o melhor meio de representar animais. O filme de 2025 quer contempla o público infantil enquanto conta essa história. 

Não me entenda errado, é possível trazer política inteligente em histórias que também alcançam crianças. A Fuga da Galinhas não me deixa mentir. O problema é que A Revolução dos Bichos não conseguiu encontrar o equilíbrio para isso. 

Embora traga quase todos os eventos do livro, as passagens são apressadas e amenizadas ao dividir espaço com piadinhas e desvios que tentam atualizar a trama para os tempos de hoje. Como a inserção do uso de redes sociais e a visita dos porcos ao shopping. 

Há ainda a inserção de uma vilã declarada. Frieda Pilkington (voz de Glenn Close) deseja as terras da Fazenda dos Animais. A trama a coloca como um agente ativo para que a ditadura dos porcos se intensifique, retirando parte da culpa dos suínos, e consequentemente perdendo a mensagem. O sonho do oprimido, é se tornar opressor. Assim, gradualmente os porcos se assemelham aos humanos. Mas aqui, nem tanto, já que Pilkington os guiou por parte deste caminho, o que também os torna vítimas. 

Tem ainda incoerências bobas que podem incomodar os mais atentos. Como filhotes que nunca crescem, apenas porquê é mais interessante manter pitinhos fofos em cena para agradar os pequenos. O trabalho exaustivo dos demais animais quando os porcos assumem é pouco explorado. E o grande problema da ordenha de vacas, deixado de lado quando conveniente. 

Mencionei a tentativa de incluir também um romance nessa história? O leitãozinho Lucky (Gaten Matarazzo, outro que nunca cresce), é o nosso "avatar" nos dilemas da fazenda, e também está interessada por Puff (Iman Vellani). E esse romance superficial é usado como ponto de mudança, para que o personagem parar de fazer vista grossa para as atitudes dos porcos. Tudo de forma extremamente superficial. 

Já a animação em si não surpreendem em qualidade, muito menos em visual. Enqanto entrega o básico em movimentação fluidez e cenários, traz pouco agradáveis aos olhos, um problema já que queriam tanto agradar as crianças. E principalmente, com expressividade confusa. Basta ver que os olhos e dentes dos porcos, passam a sensação de vilania mesmo entre os bonzinhos. E são eles os mais espressivos. O restante dos personagens é bastante genérico. 

No elenco, além de Glen Close, Gaten Matarazzo e Iman Vellani,  Seth Rogen , Steve Buscemi , Laverne Cox , Kieran Culkin , Woody Harrelson , Jim Parsons , Kathleen Turner e o próprio diretor Andy Serkins também dão vozes aos personagens. Um elenco estelar que chama atenção, uma pena que o roteiro não corresponda. 

O novo A Revolução dos Bichos, tinha tudo para ser um novo ponto inicial de aprendizado e discussão para o grande público. Assim como o livro que o originou ainda é décadas depois de sua publicação. Os paralelos são com outras figurass reais, mas ainda existem. Mas, o filme se perdeu no equívoco de acreditar que precisa se amenizar para alcançar o público infantil. E nem mesmo na parte técnica e visual o filme encanta. Minha dica, assista a verão de 1954, é muito mais proveitosa. 

A Revolução dos Bichos (Animal Farm)
2025 - EUA/Reino Unido - 95min
Aventura, Comédia, Animação

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