Enquanto especialistas apontavam o fim de uma era, o último fenômeno televisivo coletivo, o público se divertia e viajava nas teorias e possibilidades do desfecho de Stranger Things. O que ninguém esperava, era um final tão simplista e cheio de furos para a série mais popular da história da Netflix.
Após uma primeira parte com texto arrastado, mas disfarçado pela recompensa de ver o empoderamento de Will (Noah Schnapp), o segundo volume é corrido, como previsto. Enquanto o episódio final é previsivel, com respostas razas e cheios de furos. Mas vamos por partes, literalmente.
A parte dois lançada pela plataforma no natal, trouxe o desenvolvimento dos planos do vecna, e a tentativa do grupo de mocinhos de compreendê-lo e combatê-lo. Usando o formato de vários núcleos distintos que reunem seus conhecimentos para um grande desfecho.
Assim, vêmos Dustin, Steve, Nancy e Jonatan (Gaten Matarazzo, Joe Keery, Natalia Dyer, Charlie Heaton) descobrindo a verdadeira natureza do Mundo Invertido. Ao mesmo tempo que lidam com seus respectivos dilemas. No caso, o romance do casal, e o luto de Dustin.
Joyce, Mike, Will, Lucas, Robbin, Erica, Murray e até o professor Sr. Clarke ( Winona Ryder, Finn Wolfhard, Noah Schnapp, Caleb McLaughlin, Maya Hawke, Priah Ferguson, Brett Gelman e Randy Havens) tentam localizar os colegas perdidos na Hawkes invertida, ao mesmo tempo que exploram as novas habilidades de Will para tentar localizar as crianças levadas.
Max e Holly (Sadie Sink e Nell Fisher ) tentam escapar da fantasia de Camazots, o mundo de fantasia criado por Vecna (Jamie Campbell Bower). Quase fazendo descobertas importantes no processo. Enquanto Eleven, Hopper e Kali (Millie Bobby Brown, David Harbour, Linnea Berthelsen) apenas chegam para ajudar. E as meninas criadas em laboratório discutem sobre o futuro e o preço de suas existências.
Apesar de ter muita coisa a resover nestes episódios finais, narrando assim, não parece que muita coisa aconteceu. O roteiro parece apenas se limitar a reunir personagens com informações para o plano final. Ao mesmo tempo que gasta tempo com cenas pensadas para ser marcantes e icônicas, mas que sem estofo não funcionam tão bem quanto poderiam.
A intervenção da Sra. Weller (Cara Buono) no hospital e a revelação da homoseualidade de Will para os colegas até empolgam e emocionam, mas geram questionamentos. Precisava mesmo o jovem se abrir para Vicky (Amybeth McNulty) e Kali? Como a Karen sabia que os Demogogons estavam na lavanderia, e como agiu sem que eles a notassem?Já o longo discurso de Max na fuga de Camazots, e o fato de Eleven poupar a Dra Kay (Linda Hamilton) tiram a urgência e peso dos eventos, na tentativa de criar momentos "viralizáveis". Há ainda a exploração das memórias de Henry, um acento à peça de teatro que retrata a vida do personagem, que parece esquecer que a obra só está em cartaz em duas cidades do mundo.
Não fornece informações suficientes para compreendermos, tão pouco para ser relevante para história, e acaba criando mais questionamentos. - Hopper e Joyce não lembravam que estudaram com o vilão? As idades deles também não fazem sentido. Henry parece muito mais novo. A sensação aqui é que a intenção era apenas divulgar a peça, não construir bagagem para uma mitologia mais coesa.
Assim, com uma construção frágil o segundo volume entrega a trama para um final previsível. Um plano mirabolante que se apoia em sorte, ou melhor conveniências para funcionar. E que, em muitos momentos, esquece as regras do próprio universo. Ora para facilitar a vida dos personagens, como Will não sofrendo com os ataques ao monstro através da mente colméia. Ora pelo que parece ser apenas preguiça de lidar com alguns detalhes. Como a ausência de demogorgons, demobats e demodogs no mundo povoado por eles.
Tudo em prol de amplificar ação, que faz alusão à batalhas de campanhas de RPG. O que é bacana, remete às origens da série. Mas, ficaria ainda mais interessante, se os mestres do jogo, os irmãos Duffers, conseguissem usar de fato toda a mitologia e ferramenta do mundo que criaram. Coisa que não era difícil, basta ver como os fãs conseguiram criar versões mais interessantes para os pontos mal explicados.
A ausência das "democriaturas" por exemplo poderia ser resultado do uso delas para criar o corpo do Devorador de Mentes. Assim como ele fizera com humanos na segunda temporada. Teoria dos fãs completamente coerente com o universo. Mas os criadores escolheram ativamente ignorar detalhes como esses. Criando mais um fenômeno, o delírio do episódio nove misterioso surpresa.
A teoria inundou a internet na semana seguinte ao encerramento da série. Nela a Netflix liberaria um nono episódio que revelaria que o final entregue no episódio oito era na verdade uma manipulação de Vecna. E trazendo um novo embate entre o vilão e os mocinhos. É claro, o capítulo extra nunca veio.
O que foi liberado, foi o documentário da produção que escancara a situação das quais os fãs descofiavam desde as primeiras entrevistas da dupla de criadores após o desfecho. Os Duffers não tinham o final planejado desde o início como alardearam. Também não pareciam estar focados em encerrar apropriadamente a maior obra de suas carreiras. E por fim, subestimaram o fenômeno que criaram, o detalhismo dos fãs, e não estavam preparados para as reações e questionamentos do público.Mesmo assim, a produção acertas em alguns momentos deste desleixado desfecho. O final que reúne o grupo em um último jogo de RPG, emulando a primeira cena da série, enquanto marca o fim de suas infâncias, e a passagem da tocha para uma nova geração, é tocante.
Já o desfecho ambíguo de Eleven, é interessante se visto da forma correta. Um desejo de um final feliz criado para acalentar os corações de seus amigos, não uma verdade de fato. A personagem morreu sim, e os amigos a imaginam em um lugar melhor. Visto de outra forma, só demonstrria covardia por parte do roteiro, que poupou a todos.
Todos mesmo! Nem mesmo os militares soferam consequencias. Linda Hamilton foi desperdiçada e sequer ganhou um desfecho na pele da Dra. Kay. Esta podia muito bem ser substituida pelo Dr. Owens (lembra dele? Sumiu.), e o coronel Sulivan (Sherman Augustus), que já existiam nas temporadas anteriores.
Também não houve consequencias para os atos os protagonistas. Nancy matou militares. Hopper estava morto, mas voltou a ser xerife sem problemas. Nenhuma das crianças ficou traumatizada. Max se formou sem dificuldades, mesmo perdendo quase dois anos de aulas. Até mesmo o Sr. Weeller sobrevivel. Olhando em retrospectiva, o final covarde da Eleven viva é uma possibilidade sim.
Some-se aí, diálogos fracos, repetições constantes e explicações infantilizadas. Direcionamento da Netflix para atender aos público que divide a atenção com o celular. E a atuação robótica de Millie Bobby Brown, que parece ser resultado de insatisfação com os rumos da personagem, e excesso de procedimentos estéticos. E os "contras" começam a superar os "prós"!
Ao final das contas a quinta e última temporada de Stranger Things, entretem sim. Diverte, empolga e até emociona em muitos momentos. Mérito do nosso apego aos personagens e universo, não do bom trabalho de seus criadores. Prova disso é que por mais que tenhamos nos divertido na jornada, admito me diverti enquanto assistia, o desfecho não sobrevive à conversa pós créditos. Basta pensar um pouco para as falhas e furos começarem a incomodar.

Não chega a ser um "novo Game of Thrones", acho que está mais para Lost, mas está muito aquém do que poderia e deveria ser. Talvez seja hora de começar a julgar melhor o comprometimento dos criadores antes de contratá-los para obras tão longas. Aparentemente, eles cansam!
Os oito episódios da quinta e última temporada de Stranger Things já estão disponíveis na Netflix. Assim como todas as temporadas anteriores.
Leia mais sobre Stranger Things, tem curiosidades e críticas de todas as temporadas aqui no blog.








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