Boneca Russa - Ah! E por falar nisso...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Boneca Russa

Nadia Vulvokov está comemorando seu 36° aniversário quando morre repentinamente, e no momento seguinte retorna ao início sua festa de 36 anos. O processo de falecimento e retorno ao mesmo dia se repete algumas vezes antes que a protagonista perceba que está em um loop temporal. É curioso como a premissa de Boneca Russa se assemelha ao terror farofa A Morte Te Dá Parabéns. Mas não se engane, a série Amy Poehler, Natasha Lyonne e Leslye Headland, tem muito mais a oferecer que sustos fáceis criados por mortes repentinas.

Nadia (Natasha Lyonne, Orange is The New Black) é uma programadora de jogos, inteligente, sarcástica, debochada e não leva desaforo para casa. É uma solitária por opção, que evita relações mais complexas, e faz grande uso de entorpecentes, como forma de manter seus traumas enterrados. Até que essa rotina de negação é interrompida pelo misterioso loop-temporal, no qual a moça revive repetidamente a noite de sua festa, sempre culminando em sua morte.

Por causa de seu estilo de vida, demora um pouco para ela notar que a "sensação de déjà-vu", não é provocada pelas drogas de sua celebração. Nestes primeiros instantes a série aposta na comédia de erros, e na facilidade da protagonista em acidentalmente tirar a própria vida. Mas isso não sustentaria uma temporada inteira, mesmo com episódios de no máximo trinta minutos. O roteiro sabe disso, e não demora muito para mudar o status-quo.

Logo no terceiro episódio a produção foge do clichê de Feitiço do Tempo, e insere novos elementos que começam a construir sua mitologia própria. Ou melhor, não insere, mas começa a chamar atenção para eles. Praticamente todos os detalhes, que criam as reviravoltas ao longo da trama já estão lá desde o primeiro episódio. Desafiando expectadores desatentos, ou no mínimo convidando o público à re-assistir a série para encontrar estas pistas perdidas na primeira sessão. O loop-temporal continua sendo o mote principal, mas os efeitos dele tem características próprias. Estas vão desde sutis mudanças entre uma repetição e outra, passando por figurantes que na verdade são personagens importantes, e até elementos que continuam sujeitos à ação do tempo apesar do loop.

É com as oportunidades criadas por estes elementos próprios que a série pode trabalhar temas mais complexos ligados à natureza de seus protagonistas. Desde os traumas de infância da protagonista, apresentados em forma de flashback, até os medos pequenos de personagens menores, como o medo da maternidade de Lizzy (Rebecca Henderson). Isolamento, relacionamentos superficiais, amizade, infidelidade, abuso de drogas, depressão e até suicídio, estão entre os temas abordados ou apenas apontados pelo afinado roteiro. Este ainda que ainda inclui elegantes analogias, como as múltiplas vidas de um video-game que lhe permite repetir uma fase até que solucione o desafio em questão, as sete vidas de um gato, ou o comportamento solitário de um peixe beta.

Uma Nova-York escura e ocupada, e principalmente seus moradores compõe a atmosfera carregada em que a protagonista vive. Um mundo cheio de gente, com muita coisa acontecendo, onde é fácil se sentir sozinho. O elenco conta com escolhas acertadas, que vão desde a química entre as amigas da protagonista Maxine e Lizzy (Greta Lee e Henderson), até o tom reconfortante da terapeuta/figura-materna Ruth (Elizabeth Ashley). Sem fazer grande estardalhaço, de fato muita gente não vai notar, Yoni Lotan dá vida a quatro personagens diferentes, sem que haja explicação alguma, mas abrindo muito espaço para teorias.

Vale também apontar a personalidade metódica e nervosa de Alan (Charlie Barnett). O jovem tem claramente um distúrbio social e/ou de personalidade, seu exagero poderia facilmente beirar a caricatura. Barnett consegue o tom exato para torná-lo não apenas crível, mas também um contraponto preciso para a despreocupada protagonista.

Entretanto o destaque mesmo é de Natasha Lyonne. A atriz está envolvida com todos os processo de produção, criação, roteiro e até direção - vale mencionar aqui, todos os episódios são dirigidos por mulheres - e por isso não apenas inclui experiências próprias no roteiro, como parece compreender todas as vertentes de sua complexa anti-heroína. Mesmo, sendo desagradável, desbocada, mal-humorada e cheia de vícios é difícil não se apegar a Nadia e torcer por ela. Essa empatia é resultado do bom trabalho de Lyonne, que sabe aproveitar a inteligência, humor cínico e potencial de crescimento da personagem, para compensar seus hábitos menos admiráveis.

Coesa e eficiente a série começa com uma premissa que inicialmente parece repetitiva, mas como um verdadeira matrioska, logo vai mostrando suas várias camadas internas. Estas vão desde a complexidade da protagonista, até do universo e da trama propriamente ditos. O final é aberto à interpretação, e permitiria continuações. Embora particularmente, eu ache uma segunda temporada desnecessária.

Boneca Russa, não tem medo de entregar tudo que tem, e explorar bem suas idéias sem rodeios. Entregando uma série uniforme que mantém o fôlego e o interesse do espectador até o final. Uma história bem aproveitada e redondinha, sem pontas soltas, não precisa ser alongada e forçada em um segundo ano.

Boneca Russa tem oito episódio de no máximo trinta minutos cada, todos já disponíveis na Netflix.

4 comentários:

Sónia disse...

Olá Fabiane!
Esta série anda a piscar-me o olho lá na Netflix à dias... Acho que é desta que vou assistir, adoro séries com este tipo de temática.
Parabéns pela resenha :)
Abraço, Sónia
Mundo da Fantasia

Fabiane Bastos disse...

Obrigada! Assista sim, se gosta da temática não vai se arrepender.
Grata pela visita, abraços!

kiddo disse...

kkk - parece que vc me convenceu a ver também.

Fabiane Bastos disse...

Oba! Vem Kiddo, quando mais gente melhor. Bora fazer uma mesa redonda para discutir o final ;)

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