Vidro - Ah! E por falar nisso...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Vidro

Outrora um diretor revelação/prodígio adorado, M. Night Shyamalan divide opiniões atualmente. Mesmo assim, não houve quem não ficasse empolgado com sua próxima produção. Descobrimos que queríamos assistir à Vidro, quando o final de Fragmentado (2016) o revelou como uma continuação de Corpo Fechado (2000).  O problema é que o excesso de expectativa pode trabalhar contra qualquer produção.

Semanas após os eventos de Fragmentado, Kevin Wendel Crumb, e suas 24 personalidades (James McAvoy) continuam a raptar adolescentes. David Dunn (Bruce Willis) está empenhado em captura-lo. O empasse entre os dois é interrompido, quando ambos são levados para o hospital psiquiátrico da Filadélfia, onde serão submetidos ao tratamento da doutora Ellie Staple (Sarah Paulson), especializada em pessoas que pensam ser super-heróis. Elijah Price, ou melhor Mr. Glass (Samuel L. Jackson), também está na instituição.

A desconfiança em relação à suas próprias habilidades é um dos conflitos de Vidro, que para surpresa de alguns aposta muito mais nos personagens e suas relações, que no fator "super-heróico" do longa. O trio vai questionar suas próprias personalidades, eventualmente compartilhando estas dúvidas com o espectador. Eles também vão compreender a dinâmica entre herói, fera e mentor, e até rever seu relacionamento com as pessoas à sua volta.

Mas não se engane, apesar de todo o drama que estes temas trazem, o longa encaixa sim, direitinho em uma trama típica de quadrinhos. Paralelos que o próprio Mr. Glass faz questão de apontar para audiência. A diferença está na forma como isso é levado para as telas, contido em seus personagens, e longe da megalomania típica de produções com protagonista super-poderosos.

Além do drama criado pelas relações, e da ação oriunda das habilidades especiais - ou da crença de elas existe, dependendo do que você acredite - há ainda espaço para o suspense, graças às eterna dúvida quanto intenções de Elija, e também de Staple. Além do terror ligado à Fera, e aos medos internos de Kevin. Extrair este misto de elementos e emoções, ao mesmo tempo que costura três arcos distintos em uma única trama, é provavelmente o maior mérito roteiro de Shyamalan.

No aspecto técnico, o diretor mantém seus enquadramentos diferenciados, que pretendem atender ao que cada cena necessita. Já a fotografia e cenários e figurinos, criam uma paleta de cores que conversam com sua inspiração dos quadrinhos. Desde a simples determinação de cores para cada personagem, até a combinação de elementos para tornar a cena mais parecida com quadrinhos, ou mais "realista" de acordo com o momento da trama.

Jackson e Willis, mantém o equilíbrio entre seus já conhecidos personagens, ao mesmo tempo que encaixam o terceiro protagonista nessa dinâmica. McAvoy continua o impressionante trabalho de incorporar duas dúzias de pessoas, mas o excesso de foco nas suas transformações, pode soar forçado e tirar um pouco da força de sua atuação para alguns.

Paulson se encaixa perfeitamente no contexto, com sua personagem ambígua. Anya Taylor-Joy, Spencer Treat Clark e Charlayne Woodard retornam aos seus papéis, Casey a garota poupada pela Fera, Joseph o filho de Dunn e a mãe de Mr. Glass. Esta última com uma caracterização de envelhecimento mal executada, que parece forçada e destoante, mesmo quando seu filho se cobre de um acertadamente caricato figurino roxo, típico dos quadrinhos.

E por falar em Mr. Glass, é ele quem tem uma trajetória crescente e central neste filme. Ele é o personagem tílito, afinal. Mas isso não significa que seus parceiros, tenham seu espaço diminuído, ou arcos encurtados. Suas tramas continuam se desenvolvendo e interagindo, de forma que levem cada um a seu desfecho pessoal e a todos ao final do "plano maior", ao mesmo tempo. Sem enrolações, desvios ou pontas soltas.

O público passou quinze anos imaginando o que acontecera com os personagens de Corpo Fechado, foi pego de surpresa pela relação com Fragmentado, e agora precisa descobrir se a jornada segue, ou não o caminho que cada um imaginou. É aqui que a produção dividirá opiniões. Desapontado quem esperava uma saga de ação heroica grandiosa. Mas surpreendendo quem aceitar a visão mais intimista, e curiosamente humana destes heróis. 

Corpo Fechado não tinha cara de "filme de super-herói", nem foi promovido como tal, já que o cenário para esse gênero não era tão favorável em 2000. Fragmentado flerta com terror. Nada mais coerente que o desfecho da trilogia não seja meramente um filme de herói. 

Vidro é um drama, mas também é um suspense, tem toques de terror e ação. É uma adaptação de uma história em quadrinhos que não existe. Abre possibilidades para sequencias, mas não precisa delas. A grande reviravolta de M. Night Shyamalan, dessa vez é entregar um filme que tem de tudo um pouco. E talvez nada do que alguns esperavam. Levando-o de volta ao padrão amo/odeio. Para mim a produção é um dos acertos, e pra você?

Vidro (Glass
2019 - EUA - 129min
Suspense, drama, fantasia

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