sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O Doutrinador

À certa altura um dos personagens deste filme afirma, "A corrupção é uma das engrenagens que movem o Brasil. Você não pode tirar uma parte da máquina e esperar que ela continue funcionando". Não é incomum uma fala de uma obra de ficção refletir a realidade, mas o caso de O Doutrinador, vai além. O filme todo é um reflexo de seu tempo, e até o momento de seu lançamento é emblemático.

Em uma metrópole brasileira fictícia, um justiceiro mascarado surge para punir políticos e magnatas que enriquecem às custas do povo. Acompanhamos o surgimento deste "herói", bem como os desdobramentos tanto na vida do homem por trás da máscara, quanto na sociedade em que ele atua.

A premissa pode parecer repetida para quem costuma acompanhar filmes de ação e adaptações de quadrinhos, mas é o contexto que diferencia esta adaptação dos quadrinhos de Luciano Cunha. A publicação foi inspirada pelos protestos que aconteceram no país em 2013. Cinco anos mais tarde ainda estamos vivenciando os desdobramentos desta nova fase do cenário nacional. Logo, a adaptação para as telas também chega em meio à um contexto coerente com sua "ficção". É aqui que esta obra se torna relevante e principalmente relacionável. É fácil se relacionar com o protagonista que enfrenta as mesmas dificuldades, e tem os mesmos desejos que nós.

De volta à ficção, a jornada do herói/justiceiro nascido do sentimento de vingança é conhecida. O agente federal altamente treinado da fictícia "D.A.E." - Divisão Armada Especial", Miguel (Kiko Pissolato), sofre uma grande perda por falta de recursos. Ao mesmo tempo um dos políticos (Eduardo Moscovis) responsáveis pela precariedade da população, que ele ajudou a prender sai mais uma vez impune. Desesperado e inconformado com o sentimento de impotência, o agente da lei decide fazer justiça com as próprias mãos, com a vantagem de ter habilidades, ferramentas e treinamento para isso.


É nesta caçada que a trama se diferencia de produções estrangeiras com a mesma premissa, já que seus vilões seguem um sistema e posturas, bem particulares da nossa realidade. E por falar nos bandidos, estes são sempre apresentados de forma exageradamente caricata. Retratados sempre em ambientes luxuosos porém antiquados, a partir de ângulos baixos, com rizadas maléficas e frases de efeito batidas. Como se houvesse alguma possibilidade de não os identificarmos ou mesmo de simpatizarmos com eles. Um pouco de sutileza aqui, cairia bem.

Menos caricatos, mas nem tanto estão "os mocinhos", que ainda não escapam de seus arquétipos, o justiceiro, a nerd da cadeira, o bom policial. Ainda sim, estes personagens são tratados com mais humanidade pelo roteiro. Uma pena que a dupla principal, Pissolato e Tainá Medina (que vive a hacker Nina), não tenham experiência para extrair mais do roteiro, e falas simplistas. Capacidade que fica evidente nos veteranos coadjuvantes Tuca Andrada, Helena Ranaldi e até Marília Gabriela.

Assim como o texto, as sequencias de luta transitam entre o clichê e o lugar comum. Abusando da pouca visibilidade de cenas noturnas e do excesso de cortes rápidos. É na fotografia que notamos maior esmero, para construir a atmosfera deste Brasil alternativo, com referências a Blade Runner e cores bem definidas. A qualidade nos faz até relevar alguns detalhes, como a luz vermelha que emana da máscara apenas quando o protagonista a usa. Não sabemos de onde vem a iluminação, não faz muito sentido prático, mas é uma referência aos quadrinhos que funciona visualmente bem.


O Doutrinador pode não ter uma trama original, e a execução mais revolucionária, mas se destaca por outros dois aspectos. Por apostar em um gênero pouco explorado pelo nosso cinema. E principalmente por ser um reflexo do brasil no momento de seu lançamento. O filme se passa durante o período eleitoral, e a sequencia de eventos envolvendo os candidatos e certeira, mesmo se tratando de personagens fictícios, nos quadrinhos são políticos reais, e um Brasil ligeiramente diferente. As mudanças aliás foram propositais para evitar processos e represálias.

Entretanto me sinto da responsabilidade de relembrar, O Doutrinador é um excelente registro da realidade, um grito de socorro honesto e uma válvula de escape para a população, mas não deve ser tomado por exemplo. Por mais tentador que seja, virar um justiceiro mascarado e tirar sangue - faltou dizer o longa é bastante sangrento - de seus vilões sejam eles quem forem, não é tão fácil, simples, ou mesmo uma solução para consertar a maquina que move o Brasil.

O Doutrinador
2018 - Brasil - 115min
Ação, Crime , Drama


P.S.: O longa foi projetado também para ser o ponto de partida para uma série de TV que deve chegar ao Space no segundo semestre de 2019.
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