quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O Mistério do Relógio na Parede

Antes da atual era do "politicamente correto" ser instaurada, obras voltadas para crianças não tinham receio de assustar um pouco seus pequenos espectadores. Sequencias como a primeira aparição de Jareth em Labirinto: A Magia do Tempo, a revelação da aparência das bruxas em Convenção das Bruxas, ou mesmo o lobisomem da série Mundo da Lua, povoaram a imaginação da molecada até o final da década de 1990, desde então as produções tem evitado qualquer sequencia mais forte para não traumatizar os pequenos. O maior mérito de O Mistério do Relógio na Parede, é parecer ser concebido nesse período em que fantasias aventurescas para as crianças ousavam desafiar sua bravura.

Lewis Barnavelt (Owen Vaccaro) acaba de perder os pais, e por isso precisa se mudar para a casa do tio que pouco conhece, Jonathan Barnavelt (Jack Black). Não demora muito para o garoto de 10 anos perceber que nem a casa, nem seu tio, muito menos a vizinha que vive por perto Sra. Zimmerman (Cate Blanchett) são pessoas comuns. Seus novos responsáveis são feiticeiros, e a casa além de mágica guarda um mistério. É claro, Lewis se encanta pelo mundo da magia tão rapidamente quanto arruma problemas nele.

Nessa aventura, os personagens se deparam com objetos, criaturas e situações que podem até soar batidas para o público adulto, mas são muito diferentes das ameaças que vemos dos produtos infantis atuais. A sensação é de estarmos assistindo a um terror pensado para os pequenos. Essa característica pode ter sido herdada da obra original, o livro homônimo de John Bellairs, lançado em 1973, ou ainda, da curiosa escolha dos responsáveis pela sua adaptação. O roteiro é de Eric Kripke, criador da série de TV Sobrenatural, enquanto a direção é de Eli Roth cujo currículo como diretor está repleto de produções de terror e suspense. O resultado é uma aventura fantástica com tons mais sombrios, como as que muitos de nós cresceram assistindo.

Grande parte desse terror fica por conta da casa-personagem quem que a maior parte da história se desenrola. Um ambientação escura, com excesso de marrons e verdes, sombria intimidadora à primeira vista, mas que revela detalhes de cor conforme Lewis deixa de temer a residência e começa a descobrir seus objetos cheio de personalidades e detalhes mágicos.

Entretanto, enquanto a produção de arte acerta na ambientação, o roteiro sofre para conseguir equilibrar bom humor, tom aventureiro e os momentos de terror, ao mesmo tempo que desenrola a trama. Assim, o início do filme soa meio arrastado, já que a produção gasta certo tempo para apresentar os personagens e construir o mistério. Já a segunda sua metade assume um ritmo mais frenético típico de histórias de aventura. Os efeitos em computação gráfica também deixam a desejar, produzidos sem muito esmero, não devem demorar a ficar datados. Mas a produção traz também alguns bons momentos com efeitos práticos.

O humor também se apresenta inconstante, ao utilizar tanto piadas mais bobas envolvendo coisas gosmentas e fezes de animais mágicos, quando diálogos rápidos, espertos e bem humorados apresentados principalmente pelo elenco adulto. E por falar nos atores, Black traz sua tradicional persona exótica para tela, o que funciona já que Jonathan é exatamente essa figura. Blanchett, interpreta sua personagem com confiança, ao mesmo tempo que parece se divertir com as coisas absurdas que uma bruxa pode fazer. São os diálogos inspirados entre os dois amigos que gostam de espezinhar um ao outro, que estão os momentos mais inspirados do filme.

Já o protagonista mirim Vaccaro, apresenta potencial, mas parece mal dirigido, especialmente nos momentos em que precisa demonstrar tristeza pela perda dos pais. Kyle MacLachlan, Renée Elise Goldsberry, Colleen Camp, Sunny Suljic e Lorenza Izzo, completam o elenco que entrega o que seus caricatos personagens exigem.

Vale mencionar, que cada um dos três personagens principais, tem seus arcos bem definidos, ainda que simples. Além de se adaptar à sua nova vida, Lewis precisa descobrir que não há nada errado em ser "esquisito". Jonathan tem que perder o medo de assumir a responsabilidade por seu sobrinho. E a Sra. Zimmerman vai encontrar motivação após uma vida de perdas. O trio ainda vai se descobrir como uma família nada tradicional, especialmente para a época em que o filme se passa, a década de 1950.

O vilão também tem motivações, absurdas, exageradas, mas bastante compreensíveis. É claro, ele as esclarece detalhadamente, assim como seu todo o plano em detalhes durante o clímax. Adotando, aparentemente sem receios, um dos maiores e mais criticados clichês de vilões caricatos, o de parar tudo e perder tempo explicando seu plano para o herói.

O Mistério do Relógio na Parede tem suas falhas e momentos pouco inspirados. Falta um pouco de encantamento quanto à existência de magia, mas a produção diverte. E principalmente, acerta ao estar disposto à arriscar e assustar um pouco mais seu público alvo. Quem sabe a criançada não curte os sustos, e inspira uma nova leva de fantasias com tom de terror, pensada para os pequenos? Um respiro interessante, diante dos filmes coloridos e "politicamente corretos" dos dias de hoje.

O Mistério do Relógio na Parede (The House with a Clock in Its Walls)
2018 - EUA - 94min
Fantasia, Aventura

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