quinta-feira, 30 de agosto de 2018

The Handmaid’s Tale - 2ª temporada

Offred June (Elisabeth Moss, ainda excelente) não precisa mais - e nem quer - nos contar tudo apenas com o olhar. Embora ainda diga muito com suas expressões, a protagonista e várias de suas companheiras, estão mais determinadas a reaver sua voz, na segunda temporada de The Handmaid’s Tale.

O que não significa que não ajam momentos de fraqueza, desesperança e desespero para os moradores da república de Gilead. É em um destes momentos que retornamos à série, com o regime reafirmando seu poder sob as recém rebeladas aias. Mas, pela primeira vez, June tem uma vantagem, ela carrega o bom mais preciso para aquela sociedade. A gravidez, também lhes dá um impulso extra para lutar, ela não quer perder mais um filho para Gilead.

Com três episódios a mais, treze no total, a série tem no início da temporada seu momento mais fraco, ao tirar a protagonista do centro da luta, e dar a narrativa um ritmo diferente do restante da série. Ao mesmo tempo, são nesses episódios que começamos a acompanhar a expansão do universo da série, ao conhecermos outros setores desta sociedade, como os campos de trabalho forçado e as econoesposas. Mas, o primeiro deles, não faz parte da jornada da protagonista, enquanto o segundo é pouco aproveitado. E quando a personagem principal detém os  momentos menos interessantes da série, isso é uma falha.

Felizmente, não demora muita para The Handmaid’s Tale retornar ao seu ritmo, colocando June novamente no centro do empasse. As relação da aia com seus superiores muda, e afeta todos ao seu redor. Quem cresce com isso é Sra Waterford Serena Joy (Yvonne Strahovski, finalmente com espaço para crescer e entregando um trabalho impecável). A "esposa exemplo", já havia se mostrado mais complexa do que as aparências mostravam, mas só agora estas nuances começam a ser exploradas. Uma das fundadoras do regime, ela começa a perceber a realidade de sua condição, e a reagir a isso. O resultado é uma jornada oscilante - no bom sentido - onde a personagem alterna momento de concordar com a necessidade de seu papel, com o sentimento insatisfação e cumplicidade com outras mulheres, enquanto tenta descobrir o melhor caminho a seguir. Quando a cumplicidade é com sua aia, o discurso fica ainda mais rico.


Quem também cresce é Ofglen Emily (Alexis Bledel, ótima). Acompanhamos a personagem aos campos de trabalho forçado, as Colônias para onde vão as mulheres inadequadas para os demais papéis destinados a elas. Seu ponto de vista é muito diferente do de June, sem esperança, e sem nada a perder, ela está disposta a arriscar tudo, para punir quem puder e como puder.

O foco da série é as personagens femininas, mas homens tem seus momentos nos holofotes e suas próprias jornadas a contar. Desde aqueles que detém o poder, são os únicos privilegiados com eles, mas também precisam matê-lo, como Fred Waterford (Joseph Fiennes). Até aqueles que também são oprimidos por ele de alguma forma, como Nick (Max Minghella), que apesar de inserido no sistema, e com papel relativamente importante ainda é obrigado a fazer coisas que não deseja. É aqui que a série acerta ao relembrar quem nem todos que fazem parte de um regime concordam com ele, mesmo que faça parte da casta supostamente privilegiada.

A série também encontra tempo para mostrar a relação de Gilead com o resto do mundo. O choque de realidades, oferece novas perspectivas para alguns personagens, e fortalece ou intensifica a luta de outros. Waterford percebe que reafirmar sua nação para o mundo é uma tarefa mais difícil de imaginar. Serena, é relembrada de sua importância, e percebe as privações por que passa. Enquanto as famílias daqueles presos nesta nova nação, representados nas figuras de Luke (O-T Fagbenle) e Moira (Samira Wiley), ganham perspectivas para intensificar a luta.

De volta a June e as demais aias, as dificuldades e desafios apenas crescem, conforme a personagem avança em sua jornada. O excesso de violência chegou inclusive a receber críticas, mas acredito que em nenhum momento a aplicação dela tenha sido gratuita. As sequencias sempre tem consequências, movem a história e mais importante, não são glamourizadas. Os momentos de violência são feito para incomodar, gerar indignação do expectador e levar os personagens ao próximo passo.


Os flashbacks estão de volta, abrangendo mais personagens e aumentando nossa compreensão de como os Estados Unidos se tornaram Gilead. A fotografia traz um tom um pouco mais escuro para mostra este novo momento, no qual as tensões estão cada vez maiores. O uso da cor para determinar diferentes castas, realidades e até humores continua eficiente e cheio de significados. O mesmo vale para os enquadramentos que exaltam e oprimem os personagens. Apenas os close-ups, que tanto nos aproximavam de June, assim como sua narração em off, perderam um pouco de espaço. Talvez porque agora, a personagem expresse mais ativamente e não precise destes recursos par nos mostrar o que sente e pensa. Seja qual for o motivo, o distanciamento que a ausência destas ferramentas causa é notável, embora a esta altura a protagonista não precise de ajuda para manter a empatia do expectador.

Considerada uma das melhores séries de 2017 (a melhor na opinião desta humilde blogueira que vos escreve), The Handmaid’s Tale ganhou um segundo ano maior, e por causa disso alguns momentos mais arrastados e dispensáveis. Mas manteve sua qualidade técnica e narrativa, e ainda conseguiu aprofundar o conhecimento deste universo e suas consequentes discussões. Mais que entreter, a série pretende informar, estimular a discussão e o pensamento. A importância da produção no cenário atual é inegável. Por mais difícil que seja, e é uma série muito difícil de digerir, é um produto obrigatório nos dias de hoje. Ainda falta descobrirmos muita coisa sobre o mundo criado por Margaret Atwood, para compreender Gilead corretamente, mas já começamos a ter uma visão bastante clara de como o mundo pode "dar errado" a qualquer momento.

The Handmaid’s Tale é uma obra da plataforma de streaming HULU, no Brasil ela é exibida pelo Paramount Channel, e a segunda temporada estreia dia 02 de Setembro às 21h.

Leia a crítica da 1ª temporada de The Handmaid’s Tale.
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