sexta-feira, 25 de maio de 2018

Cargo

O curta-metragem Cargo, lançado em 2013, é forte, simples e cativante: no apocalipse zumbi, um pai infectado gasta as últimas horas em um esforço desesperado para salvar a filha ainda bebê. Para ir além dos cerca de sete minutos do original, e se transformar em um longa-metragem, o argumento precisa ganhar mais substância. É isso que o filme homônimo da Netflix tenta fazer.

É no interior da Austrália que a jornada de Andy (Martin Freeman) se passa. O protagonista tem 48 horas para encontrar um lugar seguro para sua bebê Rosie, antes de se transformar em um morto vivo. O tempo é pouco, mas suficiente para este pai fazer escolhas erradas e encontrar todo tipo de pessoas, vendo o pior e o melhor do ser humano em uma situação extrema.

Mostrar a verdadeira natureza de cada pessoa em meio à uma crise, é uma abordagem comum no subgênero dos filmes de zumbi, e esta é a escolha que Cargo faz para dar mais consistência ao seu argumento e transformá-lo em um filme de quase duas horas. Na busca por um lugar seguro, Andy esbarra em pessoas assustadas, traumatizadas, gananciosas, violêntas, desesperançadas, persistentes, entre outros clichés do gênero. A opção de seguir pelo "lugar comum", é garantia de um bom desenvolvimento e uma produção acertada, por outro lado pode decepcionar e muito aqueles que esperavam algo original, especialmente por causa da originalidade da premissa. É inevitável ao expectador acostumado com esse universo prever acontecimentos e mesmo as personalidades e escolhas de alguns personagens.

Já as escolhas do protagonista, nós até prevemos, mas não compreendemos completamente porquê ele as fez. A não ser por se tratar de uma pessoa com conhecimento limitado, ou o julgamento alterado pelo trauma de viver em uma sociedade destruída. A maioria das escolhas erradas é irritante, e existe principalmente para aumentar os obstáculos à trama, mas uma em especial é preocupante. A relutância em buscar ajuda da comunidade aborígene da região, o personagem continua buscando uma família "branca" mesmo que estes tutores pareçam inapropriados assim que aparecem em cena. Seria a recusa apenas questão de identificação, querer que a filha seja criada com os mesmos preceitos que o dele? Medo de não serem aceitos por uma comunidade cujos costumes desconhece? Ou seria mero preconceito mesmo? Um preconceito velado, menos agressivo que o de Vic (Anthony Hayes), enraizado na sociedade, exatamente como na vida real.

A questão nunca é abordada, nem mesmo quando Thoomi (Simone Landers), nativa australiana com quem o Andy divide a jornada, encontra evidências de que ele sabia sobre a existência da tribo. Mas o questionamento é evidente, e junto com as escolhas erradas tornam a empatia com o protagonista bastante precária. Felizmente Freeman tem carisma suficiente - sem falar no bebê muito fofo nas costas - para nos ajudar à relevar estes detalhes e torcer por sua sobrevivência.

A produção dá características próprias à sua infecção zumbi, embora nem todas elas sejam bem aproveitadas pelo roteiro. As mais acertadas são a graficamente enervante gosma que os infectados secretam, e o prazo fixo para a transformação que funciona como uma contagem regressiva para a sobrevivência da pequena Rosie. Apesar do cronômetro, o filme nunca soa apressado ou desesperado. O ritmo contemplativo que este adota em seu início, antes da crise acontecer, é mantido depois que o problema é desencadeado, sem soar cansativo ou lento demais. O filme usa o tempo que precisa para mostrar cada desafio, e isso dá um tom interessante, para este road movie dramático com toques de horror.

A produção usa as vastas paisagens do interior Austrália para criar, um ambiente mais ameaçador pela solidão do que pelos mortos vivos. É possível ver os zumbis à distância, assim como é fácil perceber o quão longe estão a provável ajuda e recursos. Á distância, o isolamento e a falta de tempo são os verdadeiros vilões do filme.

Realizado pela mesma dupla responsável pelo curta-metragem original, Ben Howling, Yolanda Ramke, a produção está cheia de alusões a este. Desde a mais óbvia figura do pai com sua "preciosa carga" nas costas, até o menos óbvio bolo de aniversário. Se ainda não assistiu ao filme de 2013, vale deixar para depois e ganhar um pouco com a surpresa da solução final.

Menos impactante que o curta que o inspirou, Cargo perde força por precisar encontrar novos obstáculos para preencher o tempo de tela, e optar pelos caminho mai óbvio. Nada que desafie o envolvimento com a trama, que é bem amarrada e desenvolvida em um ritmo próprio, em uma produção caprichada. Pode não surpreender, mas funciona.

Cargo foi lançado pela Netflix e já está disponível na plataforma de streaming.

Cargo
Austrália - 2017 - 105min
Drama, Suspense

Assista ao curta-metragem Cargo!
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