Mulan

De toda a atual leva de remakes live-action da Disney, Mulan era o que tinha maior promessa de independência e originalidade. Mas se afastar tanto do original também tem seus riscos e custos. A produção precisa conquistar o público por conta própria, com novas boas ideias e escolhas. Esse é trazer algo original, contando a mesma história. 

Hua Mulan (Liu Yifei) é a filha mais velha de um grande herói de guerra, uma moça com o Chi poderoso que precisa ocultar as habilidades que isso lhes dá, e assumir o seu papel de mulher na sociedade. Quando a China é invadida, e o imperador convoca um homem de cada família, a moça se disfarça de homem, para poupar seu já debilitado pai. 

O tom da nova versão é mais realista e pé no chão em alguns aspectos, com menos comédia e sem as canções. Mas tem seus momentos fantásticos, seja com as lutas que desafiam a gravidade, seja pela inclusão da magia e do "poder do Chi". São estes dois últimos os pontos fracos da produção.

À começar pelo Chi, que transforma a moça comum que precisa se superar em alguém especial desde o princípio. Mulan tem habilidades especiais, não é como qualquer garota, como eu ou você. Isso diminui a capacidade de identificação que a personagem carrega. E já que comparações com a animação são inevitáveis, essa  mudança transforma a jornada de superação em uma jornada de autoafirmação. Mensagem igualmente valiosa, mas de conexão mais complexa. 

Já a inclusão da magia vem através da personagem de Xianniang (Li Gong). A bruxa que auxilia o exército inimigo, tem um arco que faz um paralelo com a protagonista, mas este é desenvolvido às pressas, e o desfecho é igualmente corrido. Enquanto sua magia, acaba servindo de muleta narrativa, para que a história avance de acordo com o que o roteiro precisa. 

Os grandes acertos estão no figurino e direção de arte que dão personalidade própria a esta versão da China. Enquanto a fotografia explora de forma acertada as cores e vida que cenários e figurinos oferecem. Em outras palavras, o filme é lindo de se olhar. 


As lutas belamente coreografadas,  propositalmente desafiam leis da física,  em uma versão mais moderada do estilo visto em O Tigre e o Dragão. Os movimentos de câmera são pensados para valorizar os movimentos e fluidez da luta, que por vezes pode ser comparada à uma dança. 

O elenco é carismático e eficientes, sem grandes destaques além de Liu Yifei. A jovem consegue carregar o filme, oferecendo o peso da responsabilidade que esta versão mais dramática da história oferece. 

Apesar da diferença de tons e da independência este ainda é um remake Disney. Sequencias, nomes e objetos que evocam o filme original garantem uma pitada de nostalgia. Nenhum mais forte que ouvir versões instrumentais das canções Honnor to Us All e Reflection

Apesar de trazer cenários grandiosos dezenas de figurinos, e sequencias de lutas empolgantes, o live-action de Mulan não alcança o tom épico que pretende ter. Também não supera o carisma e exuberância da animação. Mas passa a mensagem de empoderamento e autoafirmação que pretende, e entretém no processo. 

Não é a melhor re-imaginação de um clássico Disney. Também não é a pior! Talvez tenha pedido um pouco de brilho por não chegar à tela grande*. Mas é bem produzido e cheio de boas intenções, certamente vale a sessão.

Mulan
2020 - EUA - 115min
Ação, Aventura, Fantasia

*Após ser adiado algumas vezes, por causa da pandemia de Covid-19, o longa foi lançado diretamente em streaming, no Disney+.

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.