segunda-feira, 26 de março de 2018

Jogador Nº 1 (livro)

Seja pela riqueza ou pela aventura quem nunca sonhou em encontrar um tesouro como os Goonies ou Indiana Jones? Infelizmente, a cada ano que passa sobram menos lugares mistíticos e misteriosos no mundo para abrigar essas jornadas, certo? Errado. Jogador Nº 1, de Ernest Cline, traz um universo repleto de possibilidades.

É 2044, o mundo é uma distopia criada por uma crise energética. Super-povoado, mega poluído a maioria das pessoas vive na linha da pobreza sem alternativas para escapar, a não ser o OASIS. Criado por James Halliday, trata-se de uma realidade virtual gratuita onde se pode fazer de tudo, estudar, trabalhar, se divertir... Com a morte de seu criador, a válvula de escape do mundo está ameaçada, o bilionário deixou todos seu império para aquele que encontrasse um Easter Egg, escondido na realidade virtual. E não falta gente mal intencionada em busca do grande prêmio.

Quando conhecemos Wade Watts, a busca pelo Easter Egg já se estende sem sucesso por cinco anos, o interesse mundial diminuiu, mas o adolescente órfão e pobre é um dos caça-ovos que se mantém na procura apesar de tudo. Wade, ou Parzival, seu avatar no OASIS, é o primeiro a desvendar uma pista para o grande prêmio, reacendendo o interesse do mundo, acelerando a corrida e se tornando alvo daqueles que querem controlar o patrimônio de Halliday.

Além de se passar em grande parte em um mundo virtual onde a imaginação é o limite, o diferencial de Jogador Nº 1 está nas referências. O criador do OASIS, um aficionado pela cultura pop dos anos de 1980, logo sua caça ao tesouro está repleta de obras da época. Filmes, séries de TV, games, músicas, conhecidos e apreciados por quem viveu a década. Contando com descrições detalhadas (algumas até demais, figuras poderiam ajudar muito mais na compreensão em alguns momentos), o texto de Cline garante que mesmo quem não tem essa bagagem consiga acompanhar a aventura. Embora o fator nostalgia funcione muito melhor com os iniciados.

Outro acerto, especialmente com quem as referências, é a construção dos desafios que os participantes precisam superar. Com as fases de um video-game como base, os "quests" combinam diversos elementos da cultura pop em seus enigmas envolvendo o leitor nostálgico na charada para desvenda-los.

As relações entre os personagens é o detalhe que deixa a desejar. Isolados em seus mundos reais, o comportamento interpessoal deixa a desejar, mesmo no mundo real. Especialmente no início, a parte mais lenta da narrativa, como quando Wade e Aech soam como garotos de nove anos testando seus conhecimentos, ao invés dos adolescentes que são. Ou o desfecho mal resolvido entre o protagonista e Art3mis. Suas personalidades são complexas, e as jornadas individuais interessantes, faltou apenas ajustar falas e atitudes.

Outro ponto que pode soar fraco para alguns é a aventura em si,  simples e até previsível. Por outro lado a simplicidade da aventura condiz com as "sessões da tarde" da década de 1980, antes do "plot twist" ser uma regra. A falta de surpresas da trama provavelmente seria menos sentida se o autor tivesse mais sucesso ao trabalhar os indivíduos que a habitam.

Nenhum dos deslizes, no entanto, atrapalham o propósito da obra, levar o leitor para uma aventura em outro universo. Apesar de ser recheado de referências, e a própria realidade virtual não ser uma novidade na ficção-ciêntífica, o OASIS e o mundo que o cerca são ricos e bem construídos. Há espaço, até para discussões atuais.

Alienação, isolamento social, consciência ambiental, superpopulação, esgotamento dos recursos naturais, confusão da identidade real e a virtual, bem como a falsa identidade no mundo virtual, são as muitas discussões que o livro aponta. Reservando tempo para discussão de algumas, e apenas mencionando outras. Todas muito pertinentes à nossa sociedade, pois Parzival vive em um futuro muito plausível para a sociedade atual.

Simples, divertido, com bons personagens e um universo rico o primeiro livro de Ernest Cline, não explora todo o potencial do mundo que criou, mas entretém e diverte. Lembra os primeiros livros de Harry Potter, antes de o mundo mágico ficar mais complexo na visão dos personagens.

Jogador Nº 1 é uma obra genuinamente criada pela era da referência em que vivemos. Sabe usar a nostalgia a seu favor, levando o leitor de volta à aventuras de outros tempos.

Jogador Nº 1 (Ready Player One)
Ernest Cline
Leya
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