quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Viva - A Vida é uma Festa

As tradições mexicanas do dia de finados, "dia de los muertos"há tempos despertaram o fascínio de quem não está inserido nesta cultura. Mas as tradições vão muito além da festa e das caveiras estilizadas que viraram "modinha" pelo mundo afora. É uma festividade sobre família, memória e reverência. É nesses valores que Viva - A Vida é uma Festa, centra sua história. Usando de sua fórmula tradicional para ancorar o olhar sobre uma nova cultura.

Miguel (voz de Anthony Gonzalez) é um menino que sonha em ser músico, mas por causa de um trauma, sua família baniu a música de sua casa há gerações. Determinado a seguir seu sonho, ele confrontar seus pais e avós em pleno dia de finados, e acaba quebrando a barreira entre o mundo dos vivos e mortos. Em sua jornada para voltar para casa, ele descobre o verdadeiro valor da família.

A aventura que começa com um conflito de gerações, se mostra uma jornada com muito mais mensagens e discussões que a simples diferença de pensamento entre pais e filhos. O longa, fala de mágoa, memória, amor, e claro, morte. Não apenas a morte física e simples, mas a morte espiritual, morte por ausência, pela incapacidade de perdoar, e pelo esquecimento. Há sim, um destino pior que a morte para os personagens já falecidos em Viva,  deixar de existir pois ninguém mais se lembra de você. Mensagens que embora pesadas, são inseridas de forma leve e orgânica na aventura, para serem captadas em diferentes níveis de acordo com a maturidade do expectador. E sim, tem espaço para as piadas acessível para os pequenos.

É também neste pós-vida possibilitado pela memória que reside uma mensagem acidental, que não é exatamente das melhores. Neste mundo dos mortos - que é incrivelmente detalhado e conta com metáforas e relações com o mundo dos vivos - vive bem, quem é bem lembrado, seja por amigos, família ou mesmo fãs. É aí que mora o perigo, alguns personagens falecidos tem status simplesmente porque são lembrados, independente de sua conduta em vida. O que pode passar a ideia de que ser famoso em vida é um objetivo a ser seguido a qualquer custo, simplesmente para ter um pós-vida melhor.

Talvez eu esteja exagerando, e meu estranhamento seja apenas porque fui criada em uma sociedade em o conceito de vida após a morte é situado em um cenário bem diferente desta metrópole que recebe todas as almas independente de seus feitos. Pessoalmente, não pude ignorar a ideia, já que as mazelas que a cidade dos mortos são centradas nesta condição da lembrança. A escolha transforma o mundo dos mortos em um espelho dos mundo dos vivos, adicionando outra camada de críticas e metáforas, que acidentalmente alimentaram esta mensagem de busca a fama. Não era a intenção da produção, mas a mensagem está lá.

Mas calma, esta mensagem acidental é um erro pequeno diante do universo de acertos do longa. E nem de longe atrapalha os bons conceitos que ele pretende e consegue passar, sem ser demasiadamente piegas ou panfletários. São lições atreladas a história assimiladas de forma orgânica pelo expectador.

E sempre há a qualidade de produção da Pixar, que aqui cria uma megalópole multicolorida e tão, ou mais viva, que o mundo dos vivos. A alegoria não é original é verdade (já vimos mundos dos mortos vibrantes em A Noiva Cadáver e Festa no Céu, por exemplo), mas a escala é gigantesca. A cidade dos mortos não é apenas deslumbrante, é funcional, é cotidiana. Existem regras,  trabalho, burocracia, entretenimento, classes sociais, relacionamentos, falecidos ou não, aqueles personagens realmente vivem ali.

O mundo dos vivos, também não fica atrás em qualidade ao retratar uma realidade mais realista e limitada (em atividades dos personagens, não em qualidade de criação) que seu contraponto sobrenatural. Uma cidadezinha do interior, onde uma família vive focada em seus sustento e tradições.

Já os seres que povoam estes universos são muitos, e acertadamente todos tem sua função para avançar a história e  personalidades bem construídas. Entretanto é o design de produção dos falecidos que vão chamar sua atenção. A produção consegue não apenas criar traços marcantes que distinguem  bem os personagens, e oferecer expressões para esqueletos, como criar suas versões vivas e mortas que combinam perfeitamente entre si.

A música completa o pacote.  Afinal seu protagonista é apaixonado por música, e o longa é um musical que mais assemelha aos longas da Disney que da Pixar, inclusive nos acertos. As canções são excelentes e servem a narrativa, impulsionando os personagens para a frente, e fortalecendo o tom emocional de cada cena. 

Vale lembrar que o filme é todo passado no México, e inclui expressões mexicanas nas falas, traços e e visual inspirado no país e apresenta algumas tradições do país para estrangeiros. E apesar de falar de tradições e rituais do dia dos mortos, evita expressar conceitos de religião. E até traz atores de origem latina em seu elenco original como Gael García Bernal e Jaime Camil. Se a produção foi respeitosa o suficiente com a cultura de nossos "hermanos", só eles podem dizer. Aos olhos dos demais parece que sim.

Viva - A Vida é uma Festa, aposta em uma trama simples para apresentar seu universo complexo e investir nos personagens, e consequentemente suas emoções. Acerta ao falar de morte, assunto que animações costumam evitar (a menos que você seja o vilão e mereça uma morte dramática em uma queda). Talvez seja o longa mais melancólico do estúdio para alguns, mas além dessa melancolia é uma aventura doce, sobre manter aqueles que amamos sempre conosco.

Viva - A Vida é uma Festa (Coco)
2017 - EUA - 105min
Animação, Fantasia, Musical
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