2020 - Ah! E por falar nisso...

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Para Todos os Garotos: P.S. Ainda Amo Você

sexta-feira, fevereiro 21, 2020 0
Mesmo que o livro de Jenny Han, Para Todos os Garotos que Já Amei, não tivesse uma sequência (na verdade, é uma trilogia), a continuação da adaptação da Netflix seria inevitável. Já que o sucesso do primeiro filme, inaugurou todo um nicho de romances adolescentes na plataforma. Resta saber se Para Todos os Garotos: P.S. Ainda Amo Você, tem conteúdo a ser explorado, ou apenas cumpre a obrigatoriedade da franquia dos tempos atuais.

Lara Jean (Lana Condor) e Peter Kavinsky (Noah Centineo) estão iniciando seu relacionamento de verdade, após a farsa que criaram no longa anterior se tornar algo mais. Enquanto a garota se encanta com suas "primeiras vezes" (primeiro encontro, beijo, jogo do namorado), a resposta à ultima de suas cartas chega. O intercambista John Ambrose (Jordan Fisher) não apenas parece interessado, como está de volta ao convívio com a moça, confundindo seus sentimentos.

Passado imediatamente após os eventos do primeiro filme, a continuação não dá a sua protagonista a oportunidade de "aprender a ser uma namorada", e consequentemente construir uma visão mais realista de romance, antes de atira-la em um triângulo amoroso. Ao mesmo tempo, a produção constantemente evita o conflito com medo de comprometer ou macular a imagem de Lara Jean. Assim, a trama investe pouco em confrontos e moça passa a maior parte do tempo em um dilema com suas dúvidas e inseguranças. Sem ação, um desenvolvimento incoerente com que ela acabara de aprender no loga anterior.


Essa ausência de conflitos me fez pesquisar o conteúdo original (não deveria ser necessário, o filme precisa funcionar sozinho), será que Jenny Han conseguira encher tantas páginas com tão pouca coisa acontecendo? É claro que não. A adaptação da Netflix, optou por focar no tradicional triângulo amoroso, deixando de lado problemas que poderiam enriquecer o arco dos personagens, como a despedida de Josh (Israel Broussard no longa anterior, aqui ele nem aparece), ou a repercussão do vídeo na banheira.

O empobrecimento causado por essa escolha fica evidente nos raros momentos em que o filme a deixa de lado, como na conversa franca e bem pontuada entre a protagonista e sua "aminimiga" Gen (Emilija Baranac),. Ou ainda no desaparecimento repentino de personagens, como a carismática irmãzinha Kitty (Anna Cathcart). Mas chega de julgar a produção por algo que ela não se propôs a fazer.

P.S. Ainda Amo Você se propõe a explorar o carisma de sua protagonista e seus consortes. E sim, o trio tem o suficiente para carregar o longa. Queridinhos dos fãs Condor e Centineo repetem a boa química que apresentaram no original. Enquanto o John Ambrose de  Jordan Fisher, apesar de recém chegado, consegue estar à altura, como um contraponto perfeito à Peter. Proporcionando à moça relações distintas, uma entre opostos, outra entre semelhantes. Mas o filme nunca explora a relação com o rapaz a fundo, gerando poucos embates e deixando aquela vontade de ver um pouco mais das relações deles.

Para Todos os Garotos que Já Amei era um romance adolescente que sábia brincar com sua obviedade e clichês do gênero, trazendo-os para o público atual. Conferindo diversidade e personalidade à uma trama familiar. Para Todos os Garotos: P.S. Ainda Amo Você opta pelo caminho mais fácil, perdendo um pouco de seu brilho e charme (até as referências romances adolescentes oitentistas de John Hughes foram perdidas).

Criado para atender uma demanda calculada pelo algorítimo da Netflix, com fãs fiéis, produção caprichada  e um terceiro longa a caminho, deve sim ser um sucesso. Vai entreter seu público alvo, não pela história em si, mas pelo carisma de seus personagens e intérpretes, e pela simples diversão de passar mais algum tempo com eles. Sendo assim, que a terceira parte  Para Todos os Garotos: Agora e para Sempre, Lara Jean chegue logo, e ofereça mais para sua adorável protagonista e seguidores.

Para Todos os Garotos: P.S. Ainda Amo Você (To All the Boys: P.S. I Still Love You)
2020 - EUA - 101min
Romance, Drama

Leia a crítica de Para Todos os Garotos que Já Amei

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Sonic: O Filme

quarta-feira, fevereiro 19, 2020 0
Antes mesmo de estrear, Sonic: O Filme já poderia ser considerado um marco na história do cinema. É claro, sem ninguém ter visto ainda o mérito não estava relacionado a sua qualidade, mas ao esforço da produção para agradar seu público.

Caso você tenha passado correndo pelo último ano e desconheça a história desta produção, aí vai um resumo. Os fãs repudiaram o visual realista do Sonic quando o primeiro trailer foi lançado. A Paramount e a Sega ouviram as reclamações e adiaram a estreia para poder mudar o visual do protagonista. Vale lembrar, o ouriço está em quase todas as cenas do longa logo, é um esforço gigantesco da produção. Agora que o filme finalmente chegou aos cinemas, a questão é o resultado está a altura do esforço?

Fugitivo em seu mundo, Sonic (voz de Ben Schwartz) vive solitário à margem de uma pacata cidadezinha estadunidense. Quando seus poderes chamam a atenção, e o governo envia um cientista/gênio do mal, o Dr. Robotnik (Jim Carrey), para "estudá-lo", o ouriço conta com a ajuda do oficial de polícia Tom Wachowski (James Marsden) para escapar.

O roteio é bem simples, e traz uma dinâmica bastante conhecida. A amizade de uma dupla improvável forçada a conviver junta por determinado motivo, a fuga. Os arcos dos personagens também não foge do lugar comum, com Sonic aprendendo a fazer amigos e Tom encontrando realização na vida. Enquanto Robotnik quer capturar, pesquisar e dissecar o ouriço a qualquer custo.

A trama é bastante genérica, e até datada. É impossível não pensar em filmes do próprio Jim Carrey nos anos de 1990. Mas a produção não tinha a intenção de ser inovadora ou surpreendente. O foco aqui é agradar aos fãs, especialmente os mais jovens. O humor bobo e físico acerta em cheio a molecada dos dias de hoje - que sim, conhece o Sonic - mas não deve funcionar com o público mais velho. À exceção da sequencia com a família da esposa de Tom, que espertamente brinca com os limites do politicamente correto, sem ultrapassá-lo.

Para os grandinhos a aposta é mesmo a nostalgia. Sons, designs, referências, easter eggs, os afagos aos jogadores mais velhos estão espalhados desde o logo da Sega até as cenas pós créditos, para serem coletados como anéis dourados que vão levar o espectador à infância e dar aquela sensação de calorzinho no peito. Isto é, se você tiver algum apego emocional à franquia. Caso contrário a empatia é bastante menor apoiada no carisma dos personagens.

O Sonic é carismático, como um adolescente enérgico e debochado. Marsden entrega um bom trabalho ao interagir com o protagonista digital. Mas é Jim Carrey quem chama atenção. Não chega à roubar o filme do borrão azul, mas se destaca sempre que está em cena, principalmente por retornar aos trejeitos, caras e bocas que o tornaram famoso nos anos 90.

Visual e trilha sonora mantém o tom genérico, que ao menos é familiar a produções do gênero. A direção de Jeff Fowler também não sai do básico, tendo como maior proeza emular cenas de outros velocistas das telas. A falta de inventividade deixa falhas e conveniências do roteiro, especialmente para aqueles não envolvidos pela nostalgia. Como o momento em que o Sonic precisa usar um elevador para chegar ao topo do prédio, para logo em seguida usar sua velocidade para escalar outros por fora. Ou a pausa na fuga para que a dupla tenha uma experiência típica de road movie em um bar de motoqueiros. O vilão continua vindo, porque vocês tão jogando dardos?!

A mudança do visual do protagonista diante de críticas na rede já deixava claro a s intenções de Sonic: O Filme, agradar os fãs. Mas, diferente do mais recente Star Wars que tentou o mesmo, atirou para todo lado, e não acertou nada, o filme do ouriço aposta no lugar seguro. Simplifica o universo trazendo o personagem para nosso mundo, aposta em uma fórmula simples e familiar, e acerta.

Funciona para a criançada e fãs de longa data. Não tem um universo rico, e trama bem desenvolvida como sua "comparação inevitável" Detetive Pikachu, mas tem agradado o suficiente para se sair extremamente bem nas bilheterias. Com sorte, a inevitável sequência será mais inventiva e inspirada, se apoiando menos no apreço prévio do público, incluindo não iniciados e trazendo novos fãs para a franquia.

Sonic: O Filme (Sonic the Hedgehog)
2020 - EUA / Japão - 99min
Aventura, Comédia

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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O que Zack Snyder queria fazer com o Superman?

segunda-feira, fevereiro 17, 2020 0
Tem novidade estreando aqui no blog. É uma parceria com o site Pllano Geral, que vai trazer pontos de vista novos, através de artigos exclusivos de José Renato. Lá no site dele vai ter textos desta blogueira que vos escreve. Chega de enrolar, hora de passar o lápis (ou seria teclado?) para o coleguinha...

Escrito por: José Renato
Site: Pllano Geral
Página no Facebook: Pllano Geral

Apesar de já ter passado um tempo considerável do lançamento do primeiro filme do DCU (Universo Compartilhado da DC), o assunto está demorando anos para morrer. Zack Snyder parece não seguir em frente e insistentemente vem postando fotos de sua versão do filme da Liga da Justiça em suas redes sociais. Com essa onda em mente, decidi demonstrar uma reflexão que fiz na época do lançamento do longa, reflexão essa sobre uma de suas várias polêmicas — a tão criticada versão do Superman.

Me deixe te contextualizar! O diretor Zack Snyder foi contratado pela Warner para colocar em prática um universo compartilhado dos heróis da DC no cinema, visto o sucesso estrondoso que a Marvel vinha fazendo com seu MCU. E para começar esse universo Snyder já chegou “chutando a porta”, trazendo o longa O Homem de Aço (2013), e que apresentou uma versão totalmente diferente do Kryptoniano da qual estávamos acostumados.

Em Superman (1978), o personagem foi tratado de forma mais fiel ao imaginário da maioria dos fãs, um herói carismático e que resolve simplesmente todos os problemas a sua volta, um verdadeiro deus entre os homens. E aqui está exatamente o que Snyder não queria, um ser capaz de solucionar tudo facilmente.

Votando a O Homem de Aço, o diretor demonstrou que mesmo com todos aqueles poderes, o Kryptoniano (Henry Cavil) não levaria a vida numa boa. Uma das primeiras cenas que demonstra isso, é quando Jonathan Kent (Kevin Costner), está prestes a ser levado por um tornado e naquele momento Clark poderia simplesmente ir e tirar o seu pai da situação de perigo, porém Jonathan acena para que o herói nada faça, fortalecendo o seu discurso que teve boa parte do filme, de que ele — o Superman — não poderia solucionar todos os problemas do mundo.

Além dessa, Jonathan ainda lhe ensinou outra muita importante regra da vida, a regra da perda. Aqui Clark aprende que é necessário lidar com o sentimento de impotência. Diferentemente do clássico Superman que até volta no tempo por que não consegue lidar com a morte de sua amada e que é até aplaudido por isso, esse novo representante da esperança de Snyder, precisaria saber de tudo isso para crescer como herói.

No final do mesmo filme, Superman aprende também sobre a necessidade de matar. A tão famosa cena em que ele quebra o pescoço de Zod (Michael Shannon), cena essa tão criticada por fãs, também chega com uma mensagem clara de que escolhas difíceis e extremas precisarão ser tomadas. Na visão dos mais conservadores, ele deveria ter tido outra atitude, mas que atitude? Ninguém sabe.

Em Batman vs Superman — e já deixo claro que reconheço os diversos problemas que o longa apresenta — o Kryptoniano agora precisa lidar com as consequências do que fez na cidade em sua batalha contra Zod. Além disso, em um ato de terrorismo de Lex Luthor — ele aprende mais uma vez que não consegue salvar todo mundo, e pior, alguns irão morrer indiretamente por sua causa. Até aqui, Snyder mostrou um Superman que sofre, que precisa refletir sobre o que fez e o que precisará fazer, mas tudo infelizmente acabou...

Pulando para o tão criticado Liga da Justiça, vi tudo o que eu não gostaria de ver. Dessa vez o Superman reaparece como que por mágica, e sem o menor esforço derrota o inimigo enquanto faz graça. Aqui, a visão de Snyder já tinha sido rejeitada e essa pandeguisse era a versão do diretor Joss Weldon que o substituiu.

Snyder tentou criar um personagem reflexivo, um personagem que apesar do mito, estava sendo humanizado, questões únicas e pouco pensadas no universo das HQ’s. Infelizmente ele não foi aceito, tanto por erros do próprio diretor, mas principalmente por uma parcela conservadora de fãs que não aceita nada além do que lhe seja considerado certo. Talvez nunca mais sejamos capazes de pensar sobre as supostas consequências de um ser tão poderoso entre nós, pois possivelmente estaremos mais preocupados com a qualidade das piadas.

Um abraço!
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Locke & Key - 1ª temporada

sexta-feira, fevereiro 14, 2020 0
Crianças descobrindo a magia, desvendando mistérios e enfrentando perigos que adultos sequer imaginam que existem. Uma fórmula que quase sempre agrada, especialmente se habitada por personagens carismáticos e enriquecida com uma mitologia própria. Esta é a proposta de Locke & Key da Netflix.

Após a morte traumática do pai de Tyler (Connor Jessup), Kinsey (Emilia Jones) e Bode (Jackson Robert Scott), sua mãe Nina (Darby Stanchfield) resolve levar todos para a antiga casa de família do marido. Uma mansão isolada em uma pacata cidadezinha que esconde chaves mágicas. É claro, não é preciso esforço para adivinhar, existe um ser maligno atrás dos artefatos mágicos.

Baseada nas HQs homônimas de terror e fantasia escritas Joe Hill e desenhada por Gabriel Rodriguez. A série tem o lado terror amenizado em prol da fantasia e de seu público alvo, a molecada. Locke & Key da Netflix pretende alcançar o público de Stranger Things, mas com a vantagem de possuir uma mitologia própria, e não precisar se agarrar tanto à referências e nostalgia. O que não significa que a série não às tenha. De Lovecraft à Nárnia, passando pelo artista de efeitos especiais Tom Savini, as citações estão lá apenas como um brinde aos mais atentos.

É em apresentar seu próprio universo que a primeira temporada está preocupada. Introduzindo o conceito e regras da magia e das chaves que concedem habilidades distintas. Os custos e consequências de usar tais poderes. E o mistério em torno de sua existência que, inevitavelmente, envolve a família Locke e sua mansão a Key House.

Enquanto descobrem a magia, os Locke também tentam superar o trauma do assassinato de seu pai, e construir uma empatia com o público. Bode de Jackson Robert Scott (o Georgie que foi devorado por Pennywise em It: A coisa) consegue isso sem dificuldades, ao entregar uma criança inteligente, curiosa e criativa. 

Emilia Jones cria uma personalidade adolescente verossímil para Kinsey, com muita vontade de se provar, mas também cheia de inseguranças. Já a mãe interpretada por Darby Stanchfield consegue não parecer ausente ou relapsa, apesar de estar em uma trama onde tradicionalmente os adultos são deixados de fora. É apenas Connor Jessup, que não consegue entregar toda a culpa e responsabilidade do irmão mais velho Tyler, sendo o menos carismático do trio principal.

O restante do elenco conta com boas atuações, que volta e meia roubam a cena. Como o ingênuo Rufus (Coby Bird), o tio descolado Duncan (Aaron Ashmore) e o amigável Scot (Petrice Jones). Laysla De Oliveira é a entrega um bom trabalho pela vilã propositalmente caricata, no melhor estilo "uso preto e tenho risada maléfica". Falar mais que isso estragaria a experiência.


A adaptação consegue escolher bem a forma como apresenta suas chaves e mistérios, em um ritmo que consegue manter o espectador intrigado. Há apenas um momento, em que a narrativa soa arrastada, ao dar um pouco mais de foco aos dilemas adolescentes, em um ponto no qual já estamos completamente envolvidos pela trama das chaves. 

Outra falha aparece em seu clímax, quando personagens supostamente inteligentes, fazem escolhas duvidosas, como "levar o tesouro para onde está o bandido" ou "duvidar quanto estão prestes a resolver o problema. Apenas para o roteiro conseguir a grande batalha que precisava, ou adicionar um suspense desnecessário à cena. Entretanto, à esta altura estamos envolvidos o suficiente para relevar estes detalhes. 

Os efeitos especiais não são os mais elaborados, mas funcionam bem para mostrar as habilidades de cada chave. As soluções que trama encontra para ilustrar estes fenômenos são eficientes, especialmente os da Chave da Cabeça. Assim como a trama explora bem muitos espaços da peculiar mansão para desenvolver a história. 

Divertida, carismática e criativa, Locke & Key é uma daquelas aventuras com que todos nos empolgamos um dia. Afinal todos já fomos criança um dia, e desejamos encontrar magia e uma grande aventura escondidas em um canto da casa. Particularmente, eu ainda sonho em encontrar a Chave de Qualquer Lugar por aí, e nunca mais pegar um engarrafamento na vida!

Os 10 episódios da primeira temporada de Locke & Key estão todos disponíveis na Netflix.

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

The Good Place - o fim!

quarta-feira, fevereiro 12, 2020 0
Em temos de novas séries e temporadas inteiras todo fim de semana, e uma lista sem fim de séries para por em dia, nada mais satisfatório que a satisfação de encerrar algo. E encerrar bem, sem cancelamentos inesperados e com um final bem planejado. The Good Place entrega isso e um pouquinho mais.

O desafio de Eleanor (Kristen Bell), Michael (Ted Danson), Chidi (William Jackson Harper), Janet (D'Arcy Carden), Tahani (Jameela Jamil) e Jason (Manny Jacinto) não se restringe mais a salvar a própria pele, mas livrar toda a humanidade da danação eterna. No quarto ano o sexteto precisa replicar sua própria experiência de pós-morte e provar que a humanidade pode sim evoluir. Entretanto, este é apenas o ponto de partida para suas jornada de evolução pessoal, relacionamento com o próximo, a humanidade a existência em si.

Com uma última temporada bem planejada, a série consegue resolver em sua primeira metade o problema que ela descobriu/criou ao longo das temporadas. A impossibilidade de se merecedor do bom lugar nos tempos atuais. Mantendo a combinação de humor ácido e desenvolvimento dos personagens, mesmo os menores como os demônios e as outras Janets.

É claro, são os protagonistas que tem seus arcos melhor trabalhados. E é para lhes oferecer um desfecho digno que o programa reserva a segunda metade de seus episódios. À começar por repensar o conceito de Bom Lugar, e a falta de propósito e sentido na pós-vida que a ausência de dificuldades e conflitos causaria.

Sim meus caros, são as dificuldades que nos fazem evoluir, enquanto o sentimento de finitude nos faz aproveitar o tempo ao máximo.  The Good Place não tem receio de abraçar conceitos filosóficos e fazer bom uso deles para evoluir seus personagens. Usando as personalidades distintas e bem desenvolvidas de cada um, para lhes da um desfecho adequado e único.

Enquanto leva o tempo necessário e oscila o foco sem receio entre seus seis protagonistas, a série ainda encontra tempo para entregar pequenos finais de personagens secundários recorrentes como os demônios Shawn e Vick (Marc Evan Jackson e Tiya Sircar) e a moradora do Lugar Médio Mindy St. Claire (Maribeth Monroe). Dando ao espectador oportunidade de Além de completar o conceito de pós-vida que criou em um ciclo de retorno e crescimento coerente e otimista.

The Good Place transformou Eleanor, Chidi, Tahany, Jason, Michael e Janet em pessoas melhores diante de nossos olhos. - E olha que os dois últimos tecnicamente nem eram "pessoas", pra começo de conversa. -  Disfarçando debaixo de muito humor sarcástico, e algumas vezes bobo, complexas discussões sobre ética, filosofia, humanidade e empatia.

Evoluiu personagens e visões de mundo ao longo das quatro temporadas. Uma jornada que começou em um Bom Lugar, e encerrou em um Lugar Excelente. Habitado por personagens complexos e carismáticos, com um a pós-vida divertida, atual e inteligente.

A quarta e última temporada de The Good Place tem 13 episódios, o último deles um especial com duração mais longa. No Brasil a série é distribuída pela Netflix que tem todas as temporadas em seu catálogo.

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Oscar 2020

segunda-feira, fevereiro 10, 2020 0
Caro cinéfilo, você vai se lembrar para sempre do Oscar 2020, e de seus vencedores. E vai lembrar por um excelente motivo, não por casos bizarros como o "Moonlight/La La Land", ou porque quebrou todos os bolões, ao mesmo tempo que teve barbadas certeiras. Mas estou me adiantando, bora para meus tradicionais humildes, e nada ortodoxos pitacos sobre o Oscar. Desta vez completamente através de gifs, por nenhum motivo aparente.

E a 92ª edição da cerimônia continua com as estranhas, porém aparentemente acertadas mudanças feitas no ano anterior, a ausência de um apresentador e os números musicais aleatórios. O da Janelle Monáe que abriu a cerimônia bem que podia virar tradição. Com bailarinos caracterizados como personagens de Midsomar, Nós e Meu Nome é Dolemite, parecia uma ode aos bons filmes esnobados esse ano (também tinha figurino de Adoráveis Mulheres, Coringa e Jojo Rabbit nesse meio).


Nova meta de vida, arrumar uma "BFF" que te apoia como a Margot apoia Charlize ao ficar sem graça por ser ostensivamente elogiada por seus colegas de O Escândalo que levaram o prêmio de maquiagem.



Outra meta de vida, não deixe os haters te impedirem de curtir a festa. Kelly Marie Tran tava lá se divertindo horrores e dando um tapa na cara dos xenofóbicos, machistas e simpatizantes do clubinho do mal....


...afinal era o ano dos asiáticos marcarem presença né? Sandra Oh aprovou e muito os prêmios de Parasita.


Quem também não tinha escutado a trilha de Harriet, e não conhecia a Cynthia Erivo, e agora só consegue pensar: onde eu vejo o filme dessa diva?


Falando em números musicais, eu sei que foi apenas uma forma da Disney diferenciar e turbinar a apresentação de Into The Unkown de Frozen 2. Mas aquele montão de Elsas com vários idiomas divando no palco bem que poderia ser interpretado como um sinal da quebra de barreira linguística do vencedor da noite. Não acha? Só é uma pena que não tinha a Elsa Brasuca.


Já a aparição surpresa do Eminem, ainda não compreendemos. E o Oscars não tá nem aí para explicar. Ainda bem que teve quem curtiu bastante, outros nem tanto, e nós ganhamos gifs maravilhosos...


...Como a sonequinha do Scorcese...


... e a perplexidade e tédio de Idina e Billie respectivamente.


E por falar na Billie, não curti a versão da moça de Yesterday no "In Memórian", então nem vou gastar gif com isso.

Show de Sir Elton é sempre maravilhoso, mas bem que podiam ter chamado o injustiçado Taaron Eggerton para cantar junto.


A cada ano que passa Hollywood parece disposta a rir de si mesmo. Seus astros engajados em críticas e dar visibilidade a causas importantes. Tá bonito isso. Gif de Cats para ilustrar a parte do "rir de si mesma"...


... e do início do discurso conscientizador do Joaquim Phoenix!


Hora de parar de enrolar e exaltar a surpresa da noite: Parasita levando tudo e sendo ovacionado pela platéia. O Oscar, como o próprio Bong Joon-ho fez piada, é um "prêmio local". É uma premiação estadunidense, e não é novidade que eles tenham dificuldade de enxergar o resto do mundo. Com legendas então? Nunca. Por isso é tão incrível que esta excelente produção sul-coreana tenha quebrado esta barreira e tomado os EUA de assalto.

De volta ao prêmio, vamos começar com Jane Fonda, que levou seu casaquinho de "ser presa" para o palco, e repetiu orgulhosa um belo vestido que usou em 2014, e fez pausa dramática para para anunciar com gosto o melhor filme da noite.


Reveja a entrega do prêmio, e observe as estatuetas passando de mão em mão, para todo mundo sentir o gostinho. É equipe unida que chama, viu!


Gif obrigatório do Bong Joon-ho admirando seu troféu. Faríamos igualzinho, não é mesmo?


Tentaram encerrar a premiação antes do fim dos discursos de Parasita, mas se o Tom Hanks (e a Charlize) mandam subir o microfone e acender a luz, a Academia obedece!


Agora o balanço da premiação. No bolão, novamente errei um monte, mas pela primeira vez teria me saído muito melhor se tivesse votado nos meus favoritos. Quem também sentiu isso? Será que agora podemos votar com o coração, ou este ano vai ser uma exceção?. Pena que não deu para Klaus o Democracia em Vertigem de Petra Costa.  Ainda sim fizeram bonito.

O Oscar 2020 foi um tanto quanto curioso. Começou com cara de premiação de homens brancos, tentou diversificar nas apresentações, riu de se mesmo e terminou com uma noite histórica. A academia ainda tem muito o que mudar, é verdade, mas parece que estão no caminho!

Por último, mas não menos importante, Laura Deeeerrrnnn! Entendedores, entenderão, os demais clicarão aqui!



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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Palpites - Oscar 2020

sexta-feira, fevereiro 07, 2020 0
Bem vindos àquele post anual, que todo mundo faz só porque está com vontade de dar sua opinião em uma premiação na qual não temos a menor influência. Bolões e discussões acaloradas, são um bônus na diversão. Como sempre, meus pitacos são aleatórios e nada ortodoxos. Ora embasados em tudo que eu assisti e li por aí, ora calcados em puro achismo. Desta vez apontando quem eu acho que realmente vai ganhar, e quem eu gostaria que levasse o dourado desnudo para casa. 

Antes de continuar, te convido a entrar na brincadeira. Quais as suas apostas? Para quem você daria o prêmio?

Melhor Filme
Aposta do bolão: 1917. Acho que a academia ainda não tem coragem de premiar quem realmente merece...
Quem eu queria: Parasita. ...que é esse filme aqui.

Melhor Direção
Aposta do bolão: Sam Mendes - 1917
Quem eu queria: Bong Joon Ho - Parasita. Mesmo caso da categoria anterior, mas o Mende vez um trabalho impressionante também.

Melhor Roteiro Adaptado
Aposta do bolão: Greta Gerwig - Adoráveis Mulheres
Quem eu queria: Taika Waititi - JoJo Rabbit. Mas também estou torcendo para a Greta.

Melhor Roteiro Original
Aposta do bolão: Noah Baumbach - História de um Casamento
Quem eu queria: Bong Joon Ho e Han Jin Won - Parasita, e uma torcida platônica para Rian Johnson - Entre Facas e Segredos só porque é muito divertido.

Sabia que a Greta e o Noah são casados? Imagina a comemoração se cada um levar um careca dourado pra casa!

Melhor Ator
Aposta do bolão: Joaquin Phoenix - Coringa. É barbada que chama?
Quem eu queria: Adam Driver - História de um Casamento ou Jonathan Price - Dois Papas

Melhor Atriz
Aposta do bolão: Renée Zellweger - Judy: Muito Além do Arco-Íris
Quem eu queria: Renée Zellweger - Judy: Muito Além do Arco-Íris. Esse foi fácil, hein.

Melhor Ator Coadjuvante
Aposta do bolão: Brad Pitt - Era Uma Vez Em... Hollywood
Quem eu queria: Taron Egerton - Rocketman. Eu sei, ele nem está concorrendo, mas era quem eu queria que ganhasse.

Melhor Atriz Coadjuvante
Aposta do bolão: Laura Dern - História de um Casamento. Outra barbada que chama?
Quem eu queria: Laura Dern - História de um Casamento

Melhor Animação
Aposta do bolão: Klaus. Palpite arriscado com a Pixar no páreo, mas..
Quem eu queria: Klaus

Melhor Fotografia
Aposta do bolão: O Farol
Quem eu queria: 1917, embora O Farol mereça também. Acho que está entre os dois.

Melhor Figurino
Aposta do bolão: Adoráveis Mulheres
Quem eu queria: Rocketman, Aladdin??? Cadê vocês nessa categoria?

Melhor Documentário
Aposta do bolão: For Sama
Quem eu queria: Democracia em Vertigem, porque o Brasil precisa disso.

Melhor Documentário em Curta-metragem
Aposta do bolão: Learning to Skateboard In a Warzone (If You're A Girl)
Já que estou no puro achismo/chute nessa categoria, não tenho favorito não.

Melhor Montagem
Aposta do bolão: Parasita.
Quem eu queria: JoJo Rabbit. Bora dar tudo para Parasita sim, mas se Jojo ganhar também fico feliz.

Melhor Filme Internacional
Aposta do bolão: Parasita.
Quem eu queria: Se Parasita não levar pelo menos esse, cancela o Oscar! Menção honrosa para Dor e Glória aqui.

Melhor Cabelo e Maquiagem
Aposta do bolão: Judy - Muito Além do Arco-Íris
Quem eu queria: Malévola - Dona do Mal, porque é hilário quando filme "mais ou menos" ganha Oscar, e a premiação precisa de uma agitada. O que? Eu disse que meu pitacos eram aleatórios e nada ortodoxos.

Melhor Trilha Sonora Original
Aposta do bolão: Coringa
Quem eu queria: qualquer um menos 1917.

Melhor Canção Original
Aposta do bolão: Rocketman - "(I'm Gonna) Love Me Again"
Quem eu queria: Rocketman - "(I'm Gonna) Love Me Again". Porque depois da babação de ovo com Bohemian Rapsody ano passado, este filme infinitamente melhor precisa levar alguma coisa.

Melhor Design de Produção
Aposta do bolão: 1917
Quem eu queria: Parasita, 1917. Será que pode empatar?

Melhor Curta Animado
Aposta do bolão: Memorable
Já que estou no puro achismo/chute nessa categoria, não tenho favorito não #2.

Melhor Curta-metragem
Aposta do bolão: A Sister
Já que estou no puro achismo/chute nessa categoria, não tenho favorito não #3.

Melhor Edição de Som
Aposta do bolão: 1917
Quem eu queria: sabe que não tenho um favorito aqui.

Melhor Mixagem de Som
Aposta do bolão: 1917
Quem eu queria: aqui também não.

Melhores Efeitos Visuais
Aposta do bolão: O Rei Leão
Quem eu queria: acho que O Irlandês tá no páreo.

Será que vou errar muito esse ano? Provavelmente, mas continuo mesmo assim. Agora é a sua vez, vem discordar ou reforçar meus pitacos com seus próprios achismos.


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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

quinta-feira, fevereiro 06, 2020 0
Apesar do fracasso retumbante, uma coisa agradou em Esquadrão Suicida, a Arlequina criada por Margot Robbie. O que não significa que a personagem não tenha seus problemas, que vão muito além do filme de 2016, vem de sua criação. Atrelada à figura do Coringa, a vilã nasceu em um relacionamento abusivo, que volta e meia era romantizado em suas histórias. Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa pretende corrigir isso, ao mesmo tempo que aproveita o melhor de sua protagonista. Dando voz não apenas à ela, mas a outras personagens femininas que fazem sua estreia na telona.

Harley Quinzel está na fossa, buscando proteção e novos rumos na vida. É assim que esbarra em Cassandra Cain (Ella Jay Basco), uma garota com uma carga preciosa de interesse do vilão narcisista Roman Sionis (Ewan McGregor). A detetive Renée Montoya (Rosie Perez), Canário Negro (Jurnee Smollett) e a Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), também precisam se emancipar de uma forma ou outra, e suas jornadas acabam por se cruzar e unir ao longo da projeção.

Eu sei o que alguns de vocês podem estar pensando, que se trata de um filme panfletário que fica fazendo discursos e oferecendo lições femininas. Não é. Tem sim seis momentos de mensagem mais direta, mas estes são mais que precisos e necessários, diante da origem de sua protagonista. Mas no restante do tempo, trata-se de uma narrativa absurda e divertida, com muita ação e narrada por uma personagem carismática e com muitos transtornos psiquiátricos.

Transtornos esses dos quais ela parece ser bastante ciente, mesmo em sua perspectiva louca, já que o roteiro não exita em relembrar, a moça é psiquiatra. Com direito a autoanálise, e pequenos diagnósticos sobre aqueles que a cercam, como o constante estado raiva da Caçadora.  A personagem de Mary Elizabeth Winstead é a única das da companheiras de Arlequina a ter uma história de origem mais elaborada, embora não tenha mais tempo de tela que as demais por causa disso.

Praticamente todas elas tem seu espaço e arcos tem trabalhados. A Caçadora está em uma jornada de vingança cega. Montoya é menosprezada no ambiente de trabalho machista. Canário Negro precisa encontrar sua voz contra seu patrão, o vilão da história. Apenas Cassanda não tem uma jornada a seguir, servindo apenas como recurso da narrativa. A falha, no entanto, é compensada pelo carisma de Ella Jay Basco e por sua relação com Arlequina.

De volta à protagonista, a jornada de Harley não ignora seu passado violento, ou mesmo o filme ruim em que fez sua estreia, mas evolui a personagem a partir destes "pontos negativos". Cheia de camadas, ela deixa de ser a ex do Coringa, que visivelmente sente falta da proteção e poder que o relacionamento abusivo lhes conferia, para ser dona de seu próprio filme e regras. A personagem desenvolve empatia, e passa a decidir o que é certo e errado, dentro de sua bússola moral de vilã, é claro. Sem nunca perder seu lado insano que beira propositalmente cartunesco constantemente.

Apenas sua narração constante soa intrusiva em alguns momentos. Embora o estilo fora de hora, e exagerado seja coerente com a mente que está narrando a história, divertida, colorida e meio louca. Além de ser compensado pelo carisma de Robbie, que não apenas nasceu para dar vida à personagem, mas abraçou-a para si. Como produtora do longa, ajudou a criar uma visão de mundo muito mais atual e complexa para ela.

Muito mais simples é o vilão Sionis. Assumidamente caricato, com a tradicional motivação de ser o cara mais poderoso da região, parece ter saltado direto dos quadrinhos para a tela. Papel exagerado e divertido que Ewan McGregor abraça com gosto.

A composição de Gotham é bem elaborada, decadente e exuberante ao mesmo tempo. As ruas cinzentas, dão lugar a uma cidade ainda suja, mas também abarrotada, colorida e cheia de vida. Que ganha ainda mais tons com a trilha sonora, com versões próprias e estilizadas de músicas conhecidas.

Já as cenas de ação chamam atenção. Bem coreografadas e montadas, as sequências usam as características de suas personagens nas lutas. Resultando em boas sequencias de porradaria, que não dependem de força bruta, mas de habilidades, fraquezas e necessidades coerentes com quem as executa.

O roteiro de Christina Hodson, consegue fazer piada com as antigas visões das habilidades femininas em filmes de ação, ao mesmo tempo que dá uma execução muito melhor à elas. Enquanto a direção de  direção de Cathy Yan consegue transmitir essas idéias de forma divertida e nada didática. Quais idéias? A de que não é preciso ser sexualizada, idealizada ou masculinizada para protagonizar um filme de ação. É possível ser bem mais complexa que isso, com habilidades distintas, falhas, desejos, dúvidas. Parecer bonita quando quiser, mas também ficar toda estropiada após uma luta, e por aí vai...

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa é uma produção feita por mulheres, e por isso tem sua visão própria de suas figuras femininas, mas ainda é uma produção para todo mundo, bem produzido, cheio de ação e que reflete bastante sua protagonista. Cheia de personalidade, desbocada, exagerada, colorida, louca, perigosa, mas curiosamente também generosa, já que esta Arlequina traz várias outras peonagens para se emancipar junto com ela. Além de definir novos parâmetros e possibilidades para as personagens femininas em filmes de ação.

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn)
2020 - EUA - 109min
Ação

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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

1917

segunda-feira, fevereiro 03, 2020 0
Qualquer história, por mais simples que seja, pode se tornar um épico quando bem contada. 1917 é prova disso, ao transformar uma longa caminhada em uma experiência de imersão enervante.

Atravessar o território inimigo para entregar á tempo uma mensagem que pode salvar a vida de 1600 homens. Esta é a missão dos cabos Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay), dois jovens soldados britânicos na Primeira Guerra Mundial.

Essa é toda informação que temos sobre eles e a guerra. O percurso, seus percalços e encontros, é a trama. Já a empatia com a dupla é criada pela experiência que compartilhamos com eles. O roteiro é muito simples, e o desenvolvimento dos personagens é limitado ao tempo que passamos com eles, sem histórias anteriores ou posteriores.Logo, é na forma como esta jornada será contada que reside a força e o diferencial desta produção.

Ciente disso, Sam Mendes escolhe contar esta história em dois "planos-sequência", colocando o espectador como o terceiro soldado nesta missão. A imersão é instantânea e intensa, já que caminhando junto continuamente com os personagens, é inevitável a sensação de que algo poda acontecer também com quem está do lado de cá da tela.

Trata-se também de um esforço de produção impressionante. O design de produção precisou entregar locações e cenários completos, contínuos e distintos, para que pudessem ser percorridos em tempo real pelos personagens. Os atores que além do esforço físico, para percorrer esse trajeto sem ajuda de cortes, precisariam retratar o sofrimento e desgaste crescente dos soldados. Tudo isso em coordenação com a equipe que percorre o trajeto com eles, carregando câmera e demais equipamentos sem serem notados por nós.

A montagem teve o desafio de coordenar as transições para que não notássemos os cortes, sim eles existem. Apesar de ser apresentado como plano-sequência, a jornada não fora gravada de forma interrupta. O plano mais longo tem cerca de nove minutos. Enquanto a fotografia precisa unificar estes muitos takes, para acreditarmos ser o mesmo dia e garantir a iluminação adequada, mesmo quando mudamos de cenário bruscamente, sem dispor da facilidade de posicionar as luzes pelo cenário.

Em outras palavras, enquanto Blake e Schofield encaravam uma guerra em cena, a equipe encarava uma batalha igualmente enervante e desgastante por trás das câmeras. E por falar no elenco, Dean-Charles Chapman e George MacKay, se mostram dedicados ao projeto, embora o roteiro priorize mais a jornada que seus arcos. MacKay ainda encontra mais espaço para trabalhar a desesperança da guerra entregando um excelente trabalho. Enquanto correm por aí, a dupla esbarra em rostos conhecidos da dramaturgia britânica como Colin Firth, Mark Strong, Andrew Scott, Benedict Cumberbatch e Richard Madden.

Reparou que até agora falei mais sobre a produção que de seu conteúdo? Isso porque trata-se um filme de técnica. Assim como escolhe não desenvolver grandes arcos para seus personagens, o roteiro também não explora questionamentos, e discussões sobre a guerra. Até mesmo sobre os motivos e desdobramentos da tal mensagem a ser entregue sabemos pouco. Os temas estão lá, o companheirismo, a obrigação de seguir ordens, a saudade de casa, a desesperança, o extermínio cego do inimigo, mesmo quando este te estendeu a mão, entre outros. Embora nenhum deles vá além da breve indicação, ou de bons diálogos entre os rapazes.

A única vez que a produção opta por uma pausa mais reflexiva, quando um personagem encontra sobreviventes. Esta acaba não agrega grande informação, já que não temos o histórico dos personagens, para compreender completamente o que estão pensando e sentindo. Acaba soando demorada demais em um momento de grande urgência.

A trilha sonora em geral é acertada. Embora, em alguns momentos soa intrusiva ao tentar ressaltar o heroísmo e o tom épico de uma cena ou outra. Mais acertados são os discretos efeitos especiais, que aqui são aplicados para manter a ilusão da filmagem contínua, ao inserir e ajustar detalhes impossível de se realizar com efeitos práticos. 

Vale apontar, apesar de se passar em uma guerra real, o longa não conta uma história verídica. É uma coleção de situações e memórias passadas ao diretor por seu avô que lutou na Primeira Guerra Mundial.

1917 oferece uma execução absurdamente complexa para um roteiro simples. O resultado é uma excelente espetáculo de imersão com um trabalho de produção impressionante. Poderia trazer mais conteúdo em relação aos personagens e cenário em que estão inseridos, é verdade. Mas a ausência destes detalhes não comprometem em nada o mergulho na jornada. De fato, sua falta só será notada ao final da sessão. Se for notada, já que a produção entrega uma jornada ainda mais empolgante do que promete.  

1917
2019 - Reino Unido / EUA -119min
Drama, Guerra

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