2020 - Ah! E por falar nisso...

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Upload - 1ª temporada

quarta-feira, julho 08, 2020 0
Uma mistura de The Good Place e Black Mirror, é a descrição mais objetiva e exata que podemos dar para Upload da Amazon Prime Video. Mas está longe de descrever completamente esta série de ficção-científica, comédia e romance.

É 2033, o futuro chegou! Carros controlados por inteligência artificial, comida impressa em casa, e outras tecnologias que apenas sonhamos são uma realidade. Nathan (Robbie Amell) morre em um misterioso acidente de carro, e sua mente passa pelo cobiçado upload para o paraíso virtual, onde pode continuar existindo e interagindo com os vivos. Além de se habituar ao pós-vida digital, o jovem ainda precisa compreender as circunstâncias misteriosas de sua morte. E faz tudo isso com a ajuda de seu "anjo", Nora (Andy Allo), sua atendente no mundo real.

Os conceitos são complexos, vida após a morte e sua monetização, conflitos ideológicos quanto ao conceito de céu, alma e consciência, dependência e acesso à tecnologia, a exclusão das classes mais pobres, romance entre pessoas de mundos diferentes, auto-imagem, e até objetificação e posse daqueles que amamos. Entretanto a abordagem é bastante simples, é uma comédia e um romance, que apresenta estes conceitos e conflitos através dos desafios impostos aos personagens, mas deixa para o expectador a opção de prolongar a discussão ou ficar apenas na camada mais rasa de interpretação.

Particularmente, aconselho a não optar pela opção mais rasa. De fato, acho até difícil não refletir sobre os diversos temas que a série planta sob o romance fofo e a investigação quase sempre previsível. Entretanto, se você preferir ficar na camada superficial, o romance entre Nathan e Nora, é desenvolvido no tempo certo e com muita doçura, enquanto suas demais relações amorosas de ambos não seguem exatamente os estereótipos destinados ao "futuro ex-imperfeito". Já o mistério envolvendo a morte de Nathan é previsível, mas não ao ponto de ser desinteressante, e até guarda algumas reviravoltas.

Não há grandes atuações, mas todas funcionam dentro do que a série precisa. Os destaques ficam com Zainab Johnson e seu "anjo" abusadinha, Allegra Edwards que aos poucos que equilibra atitudes opostas extremas em sua patricinha estilizada. E principalmente Andy Allo, carismática e persistente, é a co-protagonista quem conquista a audiência e carrega boa parte da trama.

O futuro de Upolad e a construção do pós-vida digital, são com certeza um dos pontos altos do programa. Seu 2033, tem tecnologias e comportamentos que bem podem ser a evolução da tecnologia que utilizamos hoje, com IA, impresoras 3D, comunicação em vídeo e aplicativos usados em excesso. Já o pós vida, usa conceitos de video games, Matrix e outras realidades virtuais da ficção, para criar as diferentes versões do "paraíso". Estas vão dos desejos mais mirabolantes para quem pode pagar, ao racionamento de quem vive com o mínimo, passando pelas opções duvidosas de quem está ente as duas opções (quem mais ficou curioso para ver como seria o pós vida "Disney Eterno"?). Sempre com conceitos familiares à nossa vivência tecnológica, como pixelização, avaliação com estrelas, limite de dados, dark web, carregamento, congelamento, entre outros.

Alguns efeitos em computação gráfica algumas vezes soam falsos, especialmente no mundo real, como os carros com texturas irreais. Outros funcionam muito bem como os "celulares" embutidos nas mãos das pessoas. Independente da qualidade da execução o conceito é interessante e totalmente crível para um futuro pensado a partir de nosso presente. 

Upload tem o paraíso nonsense de The Good Place, e a alta tecnologia que traz questionamentos como em Black Mirror. Mas seu desenvolvimento é mais simples, e tom é mais doce e romântico. Pode não ser a mais original e surpreendente das séries do gênero, mas está entre as mais divertidas e gostosas de assistir. Bons conceitos para quem quiser, universo criativo para todos e uma maratona leve para quem precisa.

Upload tem dez episódios com cerca de meia hora cada, todos disponíveis na  Amazon Prime Video. O segundo ano já foi confirmado pelo serviço de streaming.
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sexta-feira, 3 de julho de 2020

Informações úteis para sua maratona de Carta ao Rei

sexta-feira, julho 03, 2020 0
Hora de espalhar a palavra de Carta ao Rei, série juvenil de fantasia da Netflix que estreou na plataforma em março deste ano e ainda não recebeu a atenção que merece. Já tem crítica da primeira temporada aqui no blog, agora é hora de trazer algumas curiosidades e informações que vão tornar sua maratona ainda mais completa.

Tiuri (Amir Wilson), não é o mais promissor entre os aspirantes a cavaleiro de seu reino. Mas, ao atender um pedido de ajuda, recebe a importante missão de entregar uma carta ao rei do reino vizinho e evitar uma tragédia. Simples assim, levar o objeto de desejo do ponto "a" ao "b". É claro, a partir daí o rapaz é perseguido por tudo e todos, precisa correr contra o tempo e descobrir quem é aliado e quem é inimigo.

Informações úteis para sua maratona de Carta ao Rei


Edição nacional do livro.
Há também, uma versão
com a capa da série
1 - É uma série baseada no livro holandês De brief voor de Koning. Escrito pela autora e ilustradora de Tonke Dragt, e lançado em 1962. O livro ganhou uma sequencia em 1965 Geheimen van het Wilde Woud (algo como Segredos da Floresta Selvagem em português).

2 - O título também foi escolhido pelo CPNB - Collectieve Propaganda van het Nederlandse Boek - como melhor livro juvenil holandês da segunda metade do século XX. Além da série da Netflix, o livro também já foi adaptado outras duas vezes. Em 2007 virou uma obra de teatro musical, e em 2008 foi adaptada para o cinema em uma produção holandesa.

3 - A autora Tonke Dragt, que atualmente tem 89 anos, foi consultada sobre a adaptação de seu livro para a Netflix. Ela aprovou a maioria das mudanças, como redução e expansão de trechos, e papéis maiores para personagens femininas. Seu único veto foi a remoção do personagem Piak, que acabou voltando para o roteiro. Ainda bem, o caçulinha da turma é uma excelente aquisição.

4 - A inclusão de elementos mágicos, veio da sequencia Geheimen van het Wilde Woud, onde é apresentada de forma mais sutil. Dragt aceitou a inclusão da magia com relutância, ela afirmou que teria lutado mais se fosse mais jovem.

5 - A série tem locações na Nova Zelândia e República Checa.

6 - Ruby Ashbourne Serkis, que interpreta Lavinia é filha de Andy Serkis, que interpreta o prefeito de Mistrinaut. Pai e filha na ficção e na vida real. Caso não tenha ligado o nome à pessoa, Andy Serkis é o interprete de Gollun, na franquia O Senhor dos Anéis.

7 - O elenco juvenil é formado por jovens promessas que apareceram ou vão aparecer em produções recentes. Amir Wilson está em His Dark Materials e a nova versão de Jardim Secreto previsto para 2020. Ruby Ashbourne Serkis, fez figurações na trilogia O Hobbit. Jonah Lees é quem tem o currículo mais extenso, embora não tenha obras muito conhecidas. Nathanael Saleh apareceu em O Retorno de Mary Poppins e Game of Thrones.

8 - A música da série é assinada por Brandon Campbell, que afirma que trata-se de uma obra orquestral e de aventura, tecida com elementos ocidentais, como guitarras acústicas, vocais violino e trompete.

9 - Algumas alterações foram feitas para atualizar a obra de 1962 para 2020. O principal companheiro de Tiuri deixa de ser Piak e passa a ser Lavína. - mais espaço para personagens femininas lembra? Com direito à críticas ao suposto "papel da mulher" na sociedade - Há também um relacionamento afetivo entre dois personagens masculinos que não existia nas páginas.

10 - A diversidade do elenco também é uma atualização. Tiuri é afro-descendente, o que funciona bem o com histórico do personagem, cuja mãe vem de outro povo, e por isso tanto ela quanto o rapaz são menosprezados pela sociedade em que vivem. Há também uma personagem de origem asiática, e ela é perigosa!

11 - Adolescentes se comportam como adolescentes, apesar das "tarefa de gente grande" que recebem. Logo, há espaço para o desenvolvimento de suas jovens personalidades. Afetos, desafetos, boas e más escolhas, romances, há espaço para estes e outros dilemas comuns a adolescência de hoje. Mas também há espaço para dilemas típicos de heróis e coadjuvantes de aventura,  como grandes poderes e responsabilidades, traições, medo do desconhecido e sacrifício.

12 - Já os adultos, especialmente os "mal intencionados", são um pouco caricatos. O exagero mais diverte que destoa. Soando como personagens de filmes de fantasia da década de 1980.

13 - Para encerrar, tem esta frase: "Ele tem os instintos de luta de um pato recheado!"

______________

Uma série de aventura e fantasia medieval para quem ainda não tem idade para ver produções como Game of Thrones. Afinal, nunca é cedo para apresentar mundos fantásticos para futuros admiradores. Para toda a família Carta ao Rei preenche uma lacuna etária nas séries do gênero.

Carta ao Rei tem seis episódios com cerca de uma hora cada, todos disponíveis na Netflix.

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terça-feira, 30 de junho de 2020

Noite Adentro - 1ª temporada

terça-feira, junho 30, 2020 0
Uma das qualidades mais interessantes dos serviços de streaming, é a possibilidade de ver obras de todo o mundo, que dificilmente chegariam por aqui, não fosse a necessidade de criar um extenso catálogo. Noite Adentro é a primeira série belga à chegar na Netflix, e é um bom começo. 

O apocalipse chegou, e desta vez vem ao nascer do sol. Um voo de Bruxelas decola antes do nascer do sol, e seus passageiros/sobreviventes rumam para o oeste tentando evitar a luz do sol à todo custo. Como se a luta pela vida não fosse o suficiente, o grupo de desconhecidos precisa lidar com o embate de personalidades, experiências e crenças, além dos desafios físicos e técnicos de ser manter constantemente em voo. 

Com apenas seis episódios de no máximo quarenta minutos, é no ritmo que a série tem seu grande trunfo. Quase sem descanso, ou respiro, as intrigas e desafios são impostas aos passageiros que precisam solucioná-los à todo custo para sobreviver. Somado ao desconhecimento quando à ameaça - porquê, como, é mesmo real? - o surgimento de dificuldades incessantes, criam uma tensão constante e frequente. 

O crescente enerva, envolve e até consegue nos fazer temer pelos personagens. Estes são apresentados aos longo da temporada sem grandes surpresas. Os estereótipos são aqueles geralmente encontrados e filmes de sobrevivência, a líder relutante, o piloto sobrecarregado, a enfermeira, pessoas mais frágeis, mais fúteis, muitas de índole duvidosa...

De fato, a série tenta conferir mais camadas aos personagens. Cada episódio tem no título o nome de um dos sobreviventes, e estes ganham flashbacks de suas vidas pré-apocalipse nas primeiras cenas. Nada muito surpreendente, ou que não pudesse ser apresentado de outras formas, mas funciona para explicar as ações de cada um, e cria um formato próprio para o programa. 

Por outro lado, os títulos com nomes provavelmente pretendem indicar maior desenvolvimento do "homenageado" no capítulo em questão. Mas este desenvolvimento é de fato realizado ao longo dos episódios, e o critério de escolha não é muito preciso. Um bom exemplo disso é  Sylvie (Pauline Etienne), personagem título do piloto, e protagonista tem seu auge no episódio final, que leva o nome do vilão. Enquanto este tem seu momento mais marcante no episódio inicial. Uma inversão dos títulos faria muito mais sentido. 

E por falar nos personagens, estes são de diferentes etnias e nacionalidades, o que confere uma variedade interessante de culturas, crenças, e principalmente idiomas, mesmo na versão dublada (ative as legendas). Essa pluralidade torna os pequenos empasses mais interessantes. Além de fazer críticas à sociedade, como no momento em que uma personagem indica que, aqueles que estão criando mais problemas, são os homens brancos que pela primeira vez não tem controle da situação.

Completamente passada à noite, a série não inventa muito em sua fotografia e enquadramento. De fato, até desperdiça a oportunidade de criar opressão através do espaço confinado do avião, ou desesperança pela ausência de luz do sol. Mas acerta ao tornar impressionantes cidades desertas, e o percentual de mortes. A sensação de serem as últimas pessoas no planeta é contundente, não apenas para os personagens, mas também para o público. 

Outro fator aflitivo, é a dúvida sobre o que causa as mortes, e a falta de conhecimento de como evitá-las. Os personagens especulam, mas não há informações definitiva, e as poucas certezas vem da tentativa e erro. Já as explicações sobre vôo e aeronáutica talvez sejam implausíveis, mas nada que atrapalhe a imersão, ao menos, do espectador comum, leigo no assunto. 

Premissa criativa, poucos episódios, excelente ritmo, Noite Adentro é uma ótima opção para quem busca tensão bem construída. Os poucos episódios favorecem a maratona, que por sua vez deixa tudo mais tenso. Não é excepcional, mas é bem feita e envolvente. Um belo primeiro contato com a dramaturgia da Bélgica. 

 Noite Adentro tem seis episódios com cerca de quarenta minutos, todos disponíveis na Netflix. A segunda temporada ainda não foi confirmada. 
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sexta-feira, 26 de junho de 2020

Combo: Cubo + Escape Room

sexta-feira, junho 26, 2020 0
Procurando uma maratona diferente para o fim de semana? Que tal combinar dois filmes que se completam de alguma forma? Essa é a proposta da série Combo Cinéfilo. Já apresentei aqui, filmes que se complementam por abordar o mesmo período histórico, e retratar de formas distintas os mesmos personagens. Hoje vou falar de produções que se completam em tom e gênero.

A escolha são dois títulos que confinam personagens em armadilhas, e impõe desafios a serem superados para sobreviverem. Eu sei, neste momento você deve estar pensando na franquia Jogos Mortais. Entretanto, neste combo os filmes prezam mais pelo desafio que pela carnificina. Assim, podem ser apreciados até pelos mais sensíveis (mas não muito). Suspense de roer as unhas, enquanto resolvem enigmas mortais, quem topa?

Cubo
(Cube - 1997 - Canadá - 90min) 
Sete pessoas acordam em uma instalação formada por vários ambientes cúbicos conectados. Sem memórias de como chegaram ali, e sem conhecer os demais "participantes", estas pessoas precisam trabalhar juntas para sair. É claro, logo, elas descobrem que várias das salas tem armadilhas mortais, só para complicar um pouco mais.

Sim, complicar mais! Pois se relacionar com desconhecidos completamente diferentes de você, já é difícil, mesmo sem risco de morte. É no embate de personalidades, e na soma de habilidades que o filme aposta para construir a tensão. Inclua aí, a bagagem de cada um, seus medos, preconceitos, desejos. Tudo isso criando uma versão em pequena escala da nossa sociedade, com seu problemas amplificados. 

O longa combina muito bem tensão, toques de horror e crítica social. Se preocupando mais com discutir que explicar, deve render excelentes bate-papos pós-sessão. Quem prefere tudo explicadinho nos mínimos detalhes, no entanto, pode ficar decepcionado com a ausência de uma resposta definitiva. 

Os efeitos especiais ficaram um pouco datados, mas como o foco não está neles, é muito fácil relevar. Não há grandes atuações, mas os elenco atende bem aos estereótipos que dão vida. Já o cenário, é simples e eficiente, ajuda tanto a criar tensão, como a focar no que interessa, o relacionamento entre os personagens.

Se você estiver com a sensação de "já vi este tipo de filme antes", é hora de eu mencionar. Cubo é uma pequena produção canadense de 1997, dirigida por Vincenzo Natali. E apesar de não ser muito conhecida (no Brasil por exemplo, chegou apenas em VHS), provavelmente influenciou os filmes com premissa similar desde então. Inclusive o outro filme deste combo!

Leia mais sobre Cubo, em um artigo meu no site Pllano Geral. O filme está disponível no Amazon Prime Video.


Escape Room
(Escape Room - 2019 - EUA - 99min)
Seis estranhos aceitam participar de um jogo de sala de fuga que promete um prêmio em dinheiro. Mas, quando o jogo começa, as salas se apresentam como armadilhas mortais que exigem que os enigmas sejam desvendados para sobreviver.

Saudades de ir jogar nas salas de fuga com os amigos? Pois este longa capta direitinho a sensação que é brincar numa sala dessas, e acrescenta a tensão pela sobrevivência para envolver ainda mais o espectador. O roteiro apresenta os desafios em uma crescente, enquanto desenvolve os personagens. A história pregressa dos jogadores, suas habilidades e traumas, influenciam na sua capacidade de superar desafios, e de trabalhar em equipe. E o elenco entrega bem o que lhes é pedido.

Entretanto, o que realmente chama atenção é a direção de arte, que cria salas de jogos críveis e ao mesmo tempo apavorantes. Menos focada em crítica sociais, embora, inevitavelmente, ainda exista uma ou outra, a intenção aqui é entreter. A produção consegue isso muito bem, embora o final com obrigatória indicação de franquia, possa decepcionar alguns, por abrir mão da veracidade que a produção tinha adotado até então. 

Escape Room é uma produção estadunidense dirigida por Adam Robitel. Tem alguns rostos conhecidos no elenco, como Taylor Russell (Perdidos no Espaço), Logan Miller (Com Amor Simon) e Deborah Ann Woll (Demolidor).  Está disponível na HBO GO e já tem sequencia prevista para estrear em 2021.


E aí, conhecia estes filmes? Conhece algum outro título que combina com estes dois? Indica aí. E clique aqui mais dicas de Combos Cinéfilos.
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terça-feira, 23 de junho de 2020

Feel the Beat

terça-feira, junho 23, 2020 0

Garota ambiciosa do interior fracassa na cidade grande, se vê obrigada à descobrir novos rumos na cidadezinha onde nasceu, e claro, aprende o que realmente vale a pena no processo. A premissa da produção da Netflix estrelada por Sofia Carson, não é inédita, verdade. Entretanto, neste tipo de filme, carisma, diversão e jornada são o que realmente interessa.


April (Carson) comete um erro que arruína sua carreira de dançarina, e precisa voltar à sua cidade natal à contragosto. Quando descobre que o grupo de dança infantil da cidade vai participar de um concurso que tem como jurado um grande diretor da Broadway, aceita treinar as crianças apenas para ter a chance de salvar sua carreira.

Não é difícil adivinhar a jornada a partir daqui. A moça começa de má vontade, focada em si mesma, e após alguns desafios e tropeços, aprende a olhar para o próximo e ter empatia. São as particularidades da jornada que diferenciam as produções com essa premissa. Aqui focada no treinamento para competições no estilo Dance Moms, mas com carisma de Carson e das crianças que a cerca.

Ironicamente falta foco ao roteiro, que não decide se trabalha os dramas interpessoais ou os desafios físicos. Assim, quando podia investir das individualidades das crianças, e na forma de incorporar suas qualidades na dança, o filme perde tempo com problemas no telhado das aulas, falta de verba e pais que proíbem a dança. Problemas que são resolvidos da forma mais simples, duas cenas depois de apresentados.

Enquanto isso dramas mais complexos, tem pouco tempo para ser resolvidos. Desde as dificuldades das crianças, que teriam mais peso quando superadas com criatividade no palco, se melhor exploradas. Até os relacionamentos que a protagonista abandonou de forma fria, quando escolheu perseguir cegamente seu sonho.

Já as sequências de dança, poderiam ser melhor editadas. Os cortes e planos, não valorizam as coreografias, empolgam menos, mas não chegam a prejudicar. Particularmente, eu adoraria ver mai números - muitas etapas da competição aparecem apenas em uma montagem rápida -, mas aí acredito que seja questão de preferência mesmo.

Mas não se engane, eu me diverti assistindo Fell the Beat. Apesar das falhas citadas acima, o filme acerta no tom leve e divertido, conseguindo arrancar algumas boas gargalhadas. Além de carismática Sofia Carson, se empenha nas sequencias de dança, e o elenco mirim acompanha. E por falar nas crianças, tanto o elenco infantil, quanto o adulto entrega o que a produção pede e parece estar se divertindo no processo.

Feel the Beat, é mais uma aquisição do extenso catálogo de produções teens, que a Netflix está construindo. Não é a mais original, ou complexa, mas certamente é uma das mais divertidas. Descompromissada, para toda a família, não traz grandes novidades, mas vai fornecer boas horas de diversão. Sensação muito necessária nos dias de hoje.

Feel the Beat
2020 - EUA - 107min
Comédia, Drama

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sexta-feira, 19 de junho de 2020

Um Lindo Dia na Vizinhança

sexta-feira, junho 19, 2020 0
Após minha sessão de Um Lindo Dia na Vizinhança, não pude evitar buscar o documentário Won't You Be My Neighbor? (2018), que fala da carreira do apresentador de TV Fred Rogers. Isso porque o longa de ficção, mostra o encontro entre o icônico Mr. Rogers e o jornalista Lloyd Vogel, com o foco no personagem menos interessante desta relação.

Lloyd Vogel (Matthew Rhys), jornalista famoso por expor os podres daqueles que retrata, é escalado para escrever o perfil de Fred Rogers (Tom Hanks). Um apresentador de programa infantil que marcou gerações, com reputação marcada por sua empatia e habilidade de se comunicar com as crianças, com responsabilidade e abordando conceitos complexos.

Um jornalista amargurado tem suas crenças confrontadas por uma visão de mundo oposta. Já vimos esta história algumas vezes, a diferença aqui é a figura desafiadora em questão. Altruísta e empático, a benevolência de Mr. Rogers, soa suspeita aos olhos cínicos de hoje em dia, e também do jornalista que o entrevistou em 1998, na ficção e na vida real.

O encontro é inspirado na relação real entre o apresentador e o jornalista Tom Junod. E é pelos olhos dele que acompanhamos a história. Infelizmente, Vogel não é a parte mais interessante dessa relação. E não ajuda muito a forma como o roteiro constrói o protagonista, ele não é apenas amargurado, é aticítico, mesmo com as pessoas com quem supostamente se importa, como a esposa (Susan Kelechi Watson) e o filho. Matthew Rhys entrega uma atuação honesta, mas não alcança o carisma necessário para fazer o público se conectar com um personagem tão negativo. Especialmente em comparação com o seu oposto.

Do outro lado da conversa, Tom Hanks imprime todo seu carisma e empatia em uma figura igualmente carismática e empática. Replicando trejeitos e tom de voz, mas também imprimindo camadas nesta figura supostamente inabalável. Desconhecido para nós Rogers, é uma figura icônica da TV estadunidense. De caráter irrepreensível, há quem ainda procure, ou crie, sem sucesso, falhas em sua desconcertante benevolência. Hanks, consegue recriar sua empatia, mas também deixa transparecer sua humanidade, e as frustrações com as quais ele escolheu lidar de forma única.

Marielle Heller aposta na estética do programa de TV de Rogers, para trazer um lado lúdico ao mundo "pé no chão" de Vogel. E acerta na maior parte do tempo. Também há referências a frases e momentos icônicos da vida e carreira de Rogers. O roteiro é previsível, mas bem conduzido técnica e narrativamente.

Histórias de "indivíduos quebrados" existem aos montes. Jornadas de pessoas que escolheram viver de forma altruísta, e de fato conseguiram, mesmo com a pressão da mídia, estão ficando cada vez mais raras. Talvez por isso, e pelo fato de Hanks se encaixar tão bem no personagem, ambos demonstram o mesmo carisma e empatia, que não nos interessamos com o protagonista como deveríamos.
Um Lindo Dia na Vizinhança conta o encontro entre de Vogel com um ícone da TV, mas é o ponto de vista de Rogers que gostaríamos de ver. Um produção correta, mas que escolheu colocar seu foco sobre a figura menos interessante. Apresentou a vizinhança de Mr. Rogers, e deixou a vontade de acompanhar a biografia completa do apresentador. Descobrir se ele era realmente esta figura admirável fora da televisão (espero que sim), e que apesar disso tinha falhas. E de preferência com Hanks novamente no papel.

Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in the Neighborhood)
2019 - EUA - 109min
Drama, Biografia
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terça-feira, 16 de junho de 2020

A Maravilhosa Fotografia de O Conto da Aia – Parte II

terça-feira, junho 16, 2020 0
Escrito por: José Renato
Site: Pllano Geral
Página no Facebook: Pllano Geral

Então pessoal, hoje trago para vocês a continuação do artigo A maravilhosa fotografia de O Conto da Aia. Caso tenha perdido o texto anterior, basta clicar aqui para conferir, está muito interessante. 

Hoje iremos lidar com foco, luz e outros detalhes que deixam a série ainda mais bela, sem enrolação que é muita coisa, vamos lá!

Os responsáveis pela fotografia sabem muito bem do poder que as imagens têm em sua função narrativa. Aqui, por exemplo, o desfoque é usado para dar uma noção de urgência. Observe que o foco muda conforme o movimento de June, emulando a sensação de desespero da personagem.

Foco no olho esquerdo:


Foco no olho direito:  

Desfoque total:


Esse artifício pode ser observado em outros momentos da série, que buscam sempre nos aproximar da sensação do personagem.

No artigo anterior falamos bastante dos enquadramentos de cenas, um aspecto que a série dá um show. Um ponto importantíssimo que precisa também ser citado, é o enquadramento com o uso de proporção, por exemplo, um dos padrões mais encontrados na natureza é a Proporção Áurea que é muito utilizada como técnica em fotografia, pois hoje já se sabe que esse tipo de composição agrada aos olhos de quem vê, deixando as cenas maravilhosas.

Eu inseri a grade da proporção para você ter uma ideia de como são formadas essas composições, que consiste basicamente em posicionar os elementos ou personagens nas extremidades da cena. Veja: 



Outra composição que às vezes nos deixa de queixo caído, são os padrões, algo também bastante recorrente. Alguns deles são utilizados como função narrativa, mandando mensagens bem óbvias. 

Aqui a composição mostra as aias dentro de um “grande olho”, reforçando a noção de que as moças estão sobre constante vigilância:

Já aqui a personagem June se encontra no centro do olho.


Aqui outros exemplos de padrões que podem ser observados.


Por último, não poderia deixar é claro de comentar um pouco sobre luz, e em como ela é empregada. Geralmente, a luz natural (que é a mais explorada na série) é constantemente utilizada lembrando quase sempre aspectos do gênero noir. O uso das janelas como iluminação, por exemplo, além de proporcionar planos visualmente mais bonitos, servem para contar um pouco mais sobre a repressão daquele lugar, pois ambientes pouco iluminados dão a sensação de solidão e confinamento. 



Mais uma vez a fotografia reforça a narrativa, deixando toda a série mais gratificante de ser assistida. 

É isso aí pessoal, espero que tenham gostado. Tenho certeza que ainda existem alguns outros aspectos que poderiam ser abordados, pois não existe (ao menos eu não conheço), uma série que tenha caprichado tanto visualmente.

E não se esqueçam de acompanhar, pois esse seriado tem muito mais a oferecer! Um abraço.

Leia a parte um de A maravilhosa fotografia de O Conto da Aia, e outros textos sobre a série The Handmaid’s Tale.
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