2019 - Ah! E por falar nisso...

quarta-feira, 17 de julho de 2019

O Rei Leão

quarta-feira, julho 17, 2019 0
A Disney está assumidamente em uma curiosa fase de remakes. Estas produções geralmente tentam trazer algo novo que justifique sua existência. A mudança de perspectiva em Malévola e Dumbo, o empoderamento de Jasmine e Bella, estão entre as diferenças mais marcantes, tenham elas funcionado, ou não. Sempre há também atualizações de diálogos, novas canções, personagens e a reinvenção visual de seus universos. Em O Rei Leão, é a tecnologia de animação fotorrealísta a grande novidade, e apenas ela.

O jovem Simba (JD McCrary/Donald Glover) está destinado a ser rei, mas tem sua jornada interrompida por uma armadilha de seu ambicioso tio Scar (Chiwetel Ejiofor). O príncipe cresce exilado, aprende novas lições antes de estar apto a retomar seu lugar de direito.

Uma vez que a comparação é inevitável, vamos riscar logo este item da lista. A história é exatamente a mesma do clássico de 1994. Sem adições de personagens, ou grandes atualizações. A sequência inicial de The Circle of Life, inclusive, é uma recriação completamente fiel da animação. Essas recriações exatas de momentos icônicos estão presentes em toda a projeção, replicando posicionamento de câmeras, mise-en-scène e fotografia. Tornando difícil saber se se você está gostando da nova versão por seus próprios méritos, ou por nostalgia pelo original.

Julgar uma obra, usando outra como base é injusto. Entretanto, quando o novo trabalho bebe de forma exagerada da fonte anterior, ele próprio induz tal comparação. O argumento de ser uma versão criada para novas gerações não se justifica, já que muitas das imagens icônicas fazem parte do imaginário popular e dificilmente encontraremos alguém que não tenha esbarrado em alguma delas. A nova versão de O Rei Leão, ultrapassa o limite da homenagem nostálgica, e alcança a cópia em muitos momentos.

Voltando a atenção para o que esta versão traz de novo, a tecnologia de animação fotorrealista. É aqui que a produção se destaca criando cenários, texturas e movimentação de personagens que farão os pequenos pensarem que animais de verdade foram usados. Vi isso acontecer no recente Mogli, que tem o mesmo diretor deste filme, Jon Favreau. Quase todo o tempo extra que esta versão tem em relação ao anterior, é gasto na exploração da qualidade visual que esta técnica permite. Longos takes, mostram com riqueza de detalhes, as paisagens. Vemos mais espécies de animais em cena, com uma recriação absurdamente realista de sua pelugem, plumagem e movimentação. É um deleite para os olhos, e um uso bem feito da técnica, e uma excelente apresentação para o público de sua evolução.

Apesar de ser a grande motivação para a existência do projeto, e também seu maior acerto, o realismo também é o ponto fraco do filme. Isso porque a animação recria com fidelidade, os movimentos e expressões de animais reais. Assim, os personagens perdem em expressividade, detalhe que fica evidente principalmente nas sequencias com canções. O universo lúdico também sofre uma perda, já que as sequências como I Just Can't Wait to Be King e Be Prepared, precisam ser contidas para manter a coerência com este universo mais realista. Assim como a representação das hienas, que ganham uma líder menos bobalhona.

Se as expressões faciais são mais sutis devido ao realismo dos animais, cabe ao elenco de vozes deixar claro as nuances dos personagens. Tarefa que a maioria cumpre bem, com destaque para JD McCrary, que consegue conferir inocência e carisma à versão criança de Simba. Já sua em versão adulta Donald Glover, demora para encontrar o tom do personagem. Enquanto Beyoncé (Nala) brilha apenas nas sequencias musicais.

Outras boas escalações são as de Billy Eichner, Seth Rogen e John Oliver, respectivamente Timão, Pumba e Zazu. O trio fica com as maioria das falas totalmente originais, já que as piadas foram renovadas, e as entregam criando seu próprio estilo para os personagens. Vale ressaltar o retorno de James Ear Jones como a voz de Mufasa, e boas atuações de Alfre Woodard (Sarabi) e Chiwetel Ejiofor (Scar).

Todas as canções estão de volta, além de uma faixa inédita com produção de Beyoncé, Spirit. A versão nacional traz as vozes de Ícaro Silva e Iza, nas versões adultas dos protagonistas.

Bem executado, com boas atuações, uma tecnologia impressionante, e uma fidelidade gigantesca ao original, é difícil alguém desgostar do novo O Rei Leão. Afinal, é o mesmo filme que amamos em 1994, apresentado com uma nova forma de animação. Também é difícil não questionar a necessidade de sua existência. Seria a existência de uma tecnologia, motivação suficiente para mexer em um clássico? Se sim, uma cópia tão exata é o suficiente, ou algo de novo deve ser oferecida ao expectador?

Sejam quais forem as respostas O Rei Leão é no mínimo um interessante estudo de tecnologia. Pode inaugurar um novo momento na forma de se fazer animação. Não tem a mesma aura de fantasia que o original, mas funciona. E deve resultar caminhões de dinheiro para a Disney, e este provavelmente foi a maior motivação para a realização da produção.

O Rei Leão (The Lion King)
2019 - EUA - 118min
Animação, Aventura, Drama, Musical
Read More

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Gotham - 5ª (e última) temporada

segunda-feira, julho 15, 2019 0
Mesmo melhorando a cada temporada, ainda faltava à Gotham (a série, não a cidade) superar seu maior vilão, o tempo. Era o tradicional formato de 22 episódios, com hiato de fim de ano, o que geralmente desgastava a trama que precisava se esticar e incluir arcos menores para ocupar tanto tempo de tela. Em seu ano conclusivo, a série supera seu ultimo malfeitor, ao ter apenas os doze episódios que precisa para contar sua história.

O que não significa que a série deixa de lado, todo o leque de personagens que cultivou ao longo de seus cinco anos. Esse desfecho é claramente uma origem, e por isso decide posicionar todos os habitantes da cidade nos postos que devem ocupar quando Batman finalmente chegar. Assim, usando como base o arco dos quadrinhos, Batman: Terra de Ninguém, a série prende todos que importam em uma Gotham isolada do mundo e abandonada pelas autoridades.

A equipe de Gordon (Ben McKenzie) é a única linha de defesa entre os civis inocentes presos na ilha, e todos os bandidos que a dividiram em setores e a transformaram em um Mad Max urbano. Resgatar inocentes, conseguir suprimentos, convencer as autoridades que a cidade merece uma segunda chance e evitar que os vilões a destruam antes disso, são as tarefas do DP de Gotham. O Detetive assume toda a responsabilidade para si, e arca com o peso dela e a culpa por ser incapaz de resolver tudo. Além, é claro, da relação com suas duas pretendentes Barbara (Erin Richards) e Lee (Morena Bacarim).

Bruce (David Mazouz) e Alfred (Sean Pertwee), que ficaram por Selina (Camren Bicondova), somam seus esforços aos da polícia e no processo, ajustam os últimos ponteiros de sua relação tutor/empregado-protegido/patrão. Mas é o jovem Wayne, quem mais evolui ao alcançar completa ciência quanto à sua culpa e responsabilidades com aqueles que o cercam. Já a futura Mulher-Gato, ultrapassa os últimos limites para se tornar oficialmente a gatuna que conhecemos.

Entre os antagonistas, Arlequina (Francesca Root-Dodson) e Bane (Shane West), são os últimos a serem adicionados à galeria de vilões. Outros como Ivy (Peyton List), Strange (BD Wong) e Tetch (Benedict Samuel), tem aparições pequenas, apenas como recurso ao que a narrativa precisa, e para situá-los nas posições que devem estar no futuro. E alguns como Nr. Freeze, são apenas mencionados. É com os malfeitores veteranos que a série melhor trabalha.

O causador de todo o caos Jerome Valeska (Cameron Monaghan) tem seu próprio plano, devidamente louco e atrelado à Bruce, como deve ser. Barbara recebe a motivação que precisa para mudar de vida. Nygma (Cory Michael Smith) e Cobblepot (Robin Lord Taylor) se tornam ainda mais suas versões mais divertidas e caricatas das HQs. Sempre os melhores em cena Smith e Taylor, exploram de forma acertada o absurdo de suas personalidades, a a soberba insana do Charada, e a carência exagerada do Pinguin, bem como a divertida relação de amizade entre eles.

Se antes a caricatura era um flerte, em seu último ano Gotham abraçou completamente, os figurinos exagerados, as personalidades megalomaníacas e os planos mirabolantes. O que poderia não funcionar caso a série não tivesse encontrado, ao longo dos anos, o equilíbrio entre seu tom noir e o visual cartunesco. O que é absurdo demais, encontra um contraponto, na fotografia escura, iluminação e posicionamento de câmera estilosos, reforçando o visual peculiar que destaca a série das demais produções de super-heróis na TV.

Enquanto isso, o ritmo da trama é bastante acelerado. Apenas os episódios 8 e 9, diminuem e velocidade, para restabelecer a situação e explorar os traumas de Bruce e Gordon antes do final da jornada, que na verdade termina no penúltimo episódio. O 12º e derradeiro capítulo, é tecnicamente desnecessário, puro fan-service para quem não queria deixar este universo antes do Batman entrar em cena. O que somado à muitas referências visuais e temáticas, aos quadrinhos e filmes anteriores à ele, compõem um prato cheio para os fãs do homem-morcego.

Decadente, cinzenta e quase sempre nublada (houve um momento de sol nesta temporada, prelúdio de desgraça, claro) a cidade Gotham também é um personagem na série que leva seu nome. Ela é a motivação de vilões e mocinhos, todos salvando o berço de um dos maiores heróis dos quadrinhos, com visual estiloso e elenco bem escolhido. 

Já a série Gotham é um esforço conjunto de uma cidade inteira, ao longo de cinco anos, para transformar um garoto assustado em um beco, no Cavaleiro das Trevas.Tarefa que não apenas cumpre neste último ano, mas o faz muito bem, com visual, ritmo e personalidade próprias, e e nenhuma vergonha de ser exagerada, absurda e caricata.

Gotham é exibida no Brasil pela Warner Channel, as quatro primeiras temporadas também estão disponíveis na Netflix.

Leia mais sobre a série aqui.
Read More

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Cidade dos Etéreos

quinta-feira, julho 11, 2019 0
O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares surpreende pela originalidade, ao construir uma aventura complexa em torno de antigas fotografias não relacionadas. Cidade dos Etéreos não tem mais o frescor da novidade em seu benefício, e ainda correria o risco de siar forçado ou repetitivo ao continuar explorando o formato. Ransom Riggs, entretanto consegue escapar destas armadilhas no segundo volume da série.

Partindo exatamente do ponto em que parou no livro anterior, esta nova aventura acompanha Jacob e as demais crianças peculiares na fuga da ilha galesa e busca por ajuda para salvar sua mentora, presa em sua forma de ave. O grupo sai mundo à fora, explorando lendas, descobrindo novas fendas temporais e conhecendo gente nova, peculiar e comum, em plena Segunda Guerra Mundial.

É nessa expansão de universo que a franquia se sustenta. As fotografias ainda estão lá, mas ao invés de inspiração, agora são assumidamente (o autor menciona no posfácio ) um apoio à narrativa. Assim, Riggs não economiza situações ou personagens, tornando a aventura das crianças rica e constante. Apesar do clímax ser o trecho tradicionalmente mais acelerado, toda à jornada é cheia de reviravoltas e descobertas. O que somado à a linguagem é simples, direta e objetiva, torna a leitura agradável e ágil.

Eficiente em descrever cenários e características, o autor apresenta bem novos peculiares e suas características, e introduz com eficiência diferentes períodos no tempo. A facilidade de tudo ficar embolado e confuso é inerente à obras com viagens no tempo, mas as indas e vindas são claras, bem como as diferentes características de cada época.

Apesar de Jacob ainda ser o narrador, a história dá um foco maior ao grupo de peculiares outrora protegido por Peregrine. Enquanto a criançada tenta sobreviver no mundo hostil, o roteiro aproveita para explorar melhor suas habilidades e personalidades. Podemos ver cada um deles crescendo aos poucos, embora os arcos realmente bem desenvolvidos sejam apenas os de Jacob e Emma. Descartar personagens ou trazer novos, conforme a narrativa evolui também não é uma dificuldade aqui. As mudanças são coerentes, e ajudam a história a evoluir naquele ritmo acelerado que mencionei.

Já o desfecho com um gancho enverante, que deixa o leitor desesperado pelo próximo volume pode não agradar quem não gosta deste tipo de recurso. Mas já fora usado pelo autor no volume anterior logo, não deve pegar ninguém de surpresa. E a espera é curta já que as duas sequencias da aventura, Biblioteca de Almas e Mapa dos Dias já estão disponíveis no Brasil. The Conference of the Birds , o quinto livro da série, ainda sem título nacional está previsto para 2020.

Assim como o primeiro livro, este termina com um índice das fotografias. A edição em capa dura traz também um bate-papo com o autor, que explica seu processo de criação e as motivações nas escolhas das fotografias, e o capítulo inicial de Biblioteca de Almas.

Cidade dos Etéreos é um desafio ainda mais perigoso para os personagens e consequentemente mais tenso para o leitor. Apesar do ritmo acelerado, não deixa de lado a expansão do universo peculiar, com novos personagens, épocas e lendas. Além de consolidar o estilo que combina as peculiares fotografias antigas, com uma narrativa de aventura bem desenvolvida, sem deixá-lo previsível ou cansativo.

Cidade dos Etéreos (Hollow City)
Ransom Riggs
Intrínseca


Leia a crítica do primeiro livro O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares  ou do filme de Tim Burton baseado nele  O Lar das Crianças Peculiares. Já comparei as duas obras na série Livro vs Filme.
Read More

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Stranger Things - 3ª temporada

segunda-feira, julho 08, 2019 0
Ao final da maratona dos mais recentes episódios de Stranger Things, senti a necessidade de reler o meu texto sobre o ano dois da produção. De alguma forma, a nova parte da aventura em Hawkins tornou a temporada anterior menos interessante na memória. O que de certa forma é. Calma não precisa me xingar ainda! A segunda temporada da série é boa (confere só minha crítica sobre ela). Mas sim, o terceiro ano a superou muito. E isso é ótimo.

Apenas nós, espectadores, sabíamos que a ameaça do Devorador de Mentes ainda pairava sobre a pacata cidadezinha. Neste ano que passou, os personagens retomaram as suas rotinas acreditando que as ameças do mundo invertido foram superadas. A molecada está curtindo o final do verão de 1985, os adolescentes dando os primeiros passos na vida pós-escola, e os adultos estão de volta à sua tarefa de pais. É aí que "coisas estranhas" voltam a acontecer na cidade, que além da ameaça sobrenatural, agora também atraiu a atenção dos soviéticos.

É no tempo que a série dedica ao cotidiano dos moradores de Hawkins que reside o grande diferencial e acerto desta temporada. Se nos anos anteriores somos levados ao momentos de ruptura da normalidade, aqui passamos os primeiro episódios acompanhando os personagens, nos atualizando em seus dilemas, e consequentemente nos apegando mais à cada um deles. Não que já não os adorássemos o suficiente.

Assim, vemos a relação de pai e filha entre Hopper (David Harbour) e Eleven (Millie Bobby Brown) evoluir para a dinâmica adolescente testando os limites, e patriarca superprotetor. Já a relação entre o xerife e Joyce (Winona Ryder) continua estagnada, já que ela não consegue superar a morte do antigo namorado.

Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton) dão seus primeiros passos na vida profissional no jornal da cidade. Ela, engajada em sua carreira jornalística, enfrenta o machismo absurdo do ambiente de trabalho. Eles mais apagado que nas temporadas anteriores, apenas segue a namorada, até inevitavelmente entrarem em conflito por causa da persistência da moça. Steve (Joe Keery) também segue com a vida pós-escola, contemplando um futuro abaixo das expectativas, sem vaga para faculdade e trabalhando em uma sorveteria no shopping, mas ainda o melhor amigo da molecada.

E por falar nas outrora crianças, a molecada protagonista está crescendo, cada um em seu ritmo. Assim, enquanto Mike (Finn Wolfhard) e Lucas (Caleb McLaughlin) tentam compreender o estranho mundo com namoradas. Will (Noah Schnapp) ainda deseja apenas jogar Dungeons&Dragons, e ainda se sente assombrado por suas experiências no mundo invertido. Dustin (Gaten Matarazzo) se sente deslocado do grupo após passar um mês fora. Já as garotas constroem em cena uma fofa amizade tardia, afinal faz um ano que as duas fazem parte do mesmo grupo de amigos. Com Max (Sadie Sink) ampliando os horizontes de Eleven, ambas se libertando da sombra dos garotos da gangue.

Todos os principais personagens passam por alguma evolução em suas tramas, antigas relações são reforçadas e novas são construídas. Isso inclui a adição de novos membros à gangue. Entre estes os destaques ficam com Robin (Maya Hawke), a inteligente colega de trabalho de Steve. Erica (Priah Ferguson), a irmã caçula cheia de atitude de Lucas, que até já tinha dado às caras, mas agora finalmente tem idade para embarcar na "brincadeira". Também temos tempo para ver um pouco mais do cotidiano da cidade, preste a comemorar o 4 de julho, e sendo afetada pelo primeiro centro comercial, o shopping Starcout.

O tempo dedicado aos personagens no início é perfeito para que as ameaças invisíveis que cercam a cidade sejam construídas aos poucos, e ganhem mais impacto aquando finalmente apareçam abertamente e reúnam todos os personagens. O Devorador de Mentes, garante o vilão sobrenatural e gore da temporada, garantindo o contraponto sombrio da trama na figura de um Billy (Dacre Montgomery) possuído. Enquanto a conspiração dos soviéticos é pura referência à imagem caricata criada para eles pelas produções oitentistas. Também são eles os responsáveis por dar vida nova à ameaça do Mundo Invertido, evitando que a trama caia na mera repetição.

E por falar em referências, é claro elas estão de volta, como já é tradição da produção. Tanto às mais sutis, presentes em ângulos de câmera e temática, até as mais descaradas como músicas, menções em diálogos, objetos, acontecimentos da época (repara no filme em cartaz no cinema do shopping) e até na construção de alguns personagens, como os já citados militares soviéticos e, principalmente no perseguidor no Grigori (Andrey Ivchenko), praticamente o T-800, de O Exterminador do Futuro.

O ponto fraco da produção fica por conta do comportamento oscilante de Eleven. A garota já convive em sociedade, mesmo que limitada, há cerca de um ano, em alguns momentos fala de forma fluida como os colegas, em outros retorna ao ritmo de fala pausado de quem tem pouco contanto com pessoas. Faltou determinar melhor o estágio de evolução em sociedade da jovem, e os planos de Hopper para ajudá-la a ter um vida fora daquela cabana ou do círculo restrito de amigos.

Alguns também podem ficar decepcionados pela trama deste ano não explorar a família biológica de Eleven, ou os demais experimentos Laboratório Nacional de Hawkins. Ambos os temas foram apresentados no ano anterior, com a aparição da mãe da jovem, e de outra cobaia, a Eigh. Mas nenhum foi levado à frente nestes episódios mais recentes. Pontas soltas, que torcemos para serem amarradas no futuro.

Os irmãos Duffer, criadores da série, já afirmaram que tem planos para quatro, talvez cinco, temporadas, e o encaminhamento para o desfecho começa a ser evidente neste terceiro ano. Com mais da metade da história apresentada, arcos começam a ser fechados, e explicações começam a ser encaminhadas, mas não entregues. O que inclui uma cena pós créditos, presumidamente criada para gerar especulações sobre o quaro ano.

Com um total de oito episódios, Stranger Things 3, acerta ao deixar o espectador passar um tempo com seus personagens favoritos. Ampliando nossa preocupação com eles quando enfrentam as coisas estranhas, e a carga dramática das relações, desfechos e sacrifícios. Compensando por uma ameaça levemente repetitiva, é basicamente o monstro do segundo ano com novas habilidades e alguns soviéticos para complicar. A série continua sendo uma obra bem produzida, com trama bem construída, personagens carismáticos, boas atuações, efeitos e trilha sonora. Além de muitos easter-eggs e a aquela adorada nostalgia. Ainda é um dos melhores produtos da Netflix.

Leia a crítica da primeira e da segundatemporada e outros posts sobre a série!
Read More

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Turma da Mônica - Lembranças

sexta-feira, julho 05, 2019 0
O primeiro volume desta trilogia trazia uma aventura expressa com clareza como são fortes os Laços entre Monica, Cebolinha, Magali e Cascão. Depois o quarteto aprendeu preciosas Lições sobre enfrentar novos desafios. Agora o grupo se reúne novamente em brincadeiras que vão gerar aquelas boas Lembranças da infância que carregamos para o resto da vida. A terceira e última Graphic MSP dos irmãos Caffagi com a turma do limoeiro é uma grande reunião de despedida.

Os meninos perdem seu último refúgio longe de adultos e valentões da escola quando seu clubinho é destruído por uma tempestade. As meninas procuram uma forma de conseguir para a dona da rua um convite para a badalada festa da Carminha Frufru. Eventualmente os quatros decidem unir forças para alcançar os dois objetivos.

Neste percurso, a turminha, vai à escola, à atividades extra curriculares, encara diversas brincadeiras e faz descobertas. Também enfrenta aqueles pequenos desafios cotidianos, que são enormes para quem tem apenas sete. Para alguns, isso pode soar como uma falta de foco na jornada, mas é um retrato fiel das obrigações de uma infância feliz.

Não há um vilão, um desafio intransponível ou uma jornada à parte em Lembranças. Aqui o foco é no cotidiano dos personagens, que em sua inocência transformam tudo em um grande evento. A primeira paixonite, o grande teste para entrar no time, a melhor festa do ano, desafios que para adultos soam simples, mas que já foram eventos cruciais para todos em algum evento da vida.

Tudo isso permeado pela amizade do quarteto, e suas características peculiares que tanto amamos. É a presença destes personagens, e o retorno do traço doce de Vitor e Lu Caffagi, que dão charme e grandeza á história. São nossos amigos de infância, passando por desafios que já superamos, gerando no leitor uma nostalgia melancólica.

Bom, isto se você for um adulto. Se o leitor regular a idade com a turminha a relação é outra. Identificação imediata, e talvez um desejo por uma infância mais parecida com aquela, com menos tecnologia e mais liberdade, ao menos para circular no bairro onde vivem.

Estas características estão presentes em toda a trilogia, mas aqui ganham mais destaque, quando a trama coloca o cotidiano em primeiro plano. Nas aventuras anteriores os personagens estavam fora de suas rotinas habituais, na floresta procurando o Floquinho, em uma escola nova. Agora eles enfrentam problemas rotineiros, mas não menos importantes em sua formação.

É claro, neste cotidiano os protagonista "esbarra" nos outros habitantes do bairro do Limoeiro. Franjinha, Bidu, Do Contra, vários personagens fazem seu debute neste volume. Juntando toda a trilogia, quase toda a turma ganhou uma versão, ou a menos é mencionado neste universo.

Há espaço até para mencionar personagens fictícios dentro desse universo, como Capitão Pitoco. E fazer referências ao "universo mauriciano", como a deliciosa aparição dos personagens de A Princesa e o Robô. As referências não param nos quadrinhos, e seguem trazendo elementos da cultura pop das décadas de 1980 e 90, esportes e até brinquedos, como nas edições anteriores.

Os flashbacks que mostram versões ainda mais jovens do quarteto também estão de volta. Os que se destacam são aqueles que dão continuidade aos primeiros passos da turminha juntos, presentes nos três volumes. O primeiro encontro, e brincadeiras de Cebolinha, Magali, Cascão e Mônica, são praticamente uma história à parte na trilogia. Bem determinados com traço mais delicado e paleta de tons em sépia.

E por falar em traço e cor, o estilo dos Caffagi se mantém. É a cor que difere Lembranças dos volumes anteriores, com uma paleta mais viva e variada.

Lembranças não traz uma grande jornada da Turma da Mônica, mas também nunca pretendeu fazê-lo. O desfecho da trilogia tem como objetivo resgatar boas memórias da infância. Ou até criar algumas, dependendo da sua idade. É uma boa despedida desta abordagem, deixando os personagens, exatamente onde os encontrou, existindo eternamente em suas brincadeiras. Uma eternidade e atemporalidade que, nós seres efêmeros, adoraríamos compartilhar com eles.

Turma da Mônica - Lembranças
Vitor Cafaggi, Lu Cafaggi
Panini Comics


Leia também as críticas de Laços e Lições
Read More

quarta-feira, 3 de julho de 2019

InvocaVerso em ordem cronológica

quarta-feira, julho 03, 2019 0
Muitos tentaram imitar o sucesso da Marvel na criação de um universo compartilhado cinematográfico. Apenas uma franquia, curiosamente a mais improvável delas, foi realmente bem sucedida na empreitada. Trata-se dos filmes derivados do terror Invocação do Mal, o InvocaVerso (também conhecido como Universo Invocação do Mal, ou The Conjuring Universe).

Com a recente estreia do terceiro filme da boneca Annabelle, a série alcança sete filmes, e mais dois em produção, o InvocaVerso não segue uma cronologia linear. Trazendo histórias em décadas diferentes que não são lançadas na ordem em que os eventos aconteceram. Logo, nada mais justo que criar uma linha do tempo para você organizar aquela maratona, ou apenas se situar bem os acontecimentos.

Vale esclarecer, a maioria dos filmes contam com flashbacks e até sequencias no futuro, para criar esta ordem, considerei o momento em que a maior parte do longa se passa.

A Freira - 1952
(The Nun - 2018)
Após um suicídio de uma jovem freira em um convento na Romênia, o Vaticano envia o perturbado Padre Burke (Demián Bichir) para investigar o ocorrido, acompanhado pela noviça Irene (Taissa Farmiga). A dupla vai precisar descobrir e entender a história da Abadia para enfrentar a força do mal que habita a construção.

Valak demônio "responsável por essa entidade, dá as caras logo no primeiro Invocação do Mal, quando vemos um exorcismo comandado pelo casal Warren. Sua participação maior no entanto é em Invocação do Mal 2. Ambas as aparições são posteriores à sua "aventura" solo que se passa nos anos 50.

(Annabelle: Creation - 2017)
O casal Mullins (Anthony LaPaglia e Miranda Otto), fabrica brinquedos, e sofrem uma grande perda na família logo após fabricar uma boneca de aparência peculiar. Anos mais tarde, transformam sua casa em abrigo para um grupo de órfãs desalojadas. Não demora muito, para as meninas "explorarem" a residência e coisas estranhas começarem a acontecer.

Anabelle chamou atenção no primeiro Invocação do Mal, e por isso foi a primeira a ganhar um filme solo, mas não este. A aventura de estreia da boneca demoníaca se passa uma década após esta sequencia que recria de forma mais satisfatória a origem do artefato.

Annabelle - 1967
(Annabelle - 2014)
Mia (Annabelle Wallis), tem a coleção de bonecas mais feias do mundo. Ela e o marido John (Ward Horton) esperam o primeiro filho. Annabelle, é o presente perfeito para agradar a esposa em "estado interessante". A boneca, que completa a coleção, chega pouco antes de o casal ser atacado por membros de uma seita satânica que acaba envolvendo o brinquedo em suas atividades.

O primeiro filme da boneca, é na verdade seu segundo grande ato. Se passa poucos anos antes dos Warren a capturarem no início de Invocação do Mal, acontecimento mostrado com mais detalhes em Annabelle 3: De Volta Para Casa.

(The Conjuring - 2013)
Na década de 1970, a família Perron, pai, mãe e cinco filhas, se mudam para uma novo lar. Uma construção comum, casa antiga com quintal grande, árvores e lago turvo nos fundos. Enquanto isso, descobrimos como é o dia-a-dia no trabalho dos demonologistas Ed e Lorraine Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga), de forma quase documental. É claro, logo nos primeiros dias, coisas estranhas acontecem pela casa. Leva algum tempo, antes de finalmente as histórias de Ed e Lorraine e dos Perron se encontrarem.

O primeiro filme da franquia (e ainda o melhor deles), não foi criado com essa intenção, mas é o pontapé inicial e a apresentação de vários personagens do InvocaVerso. Por enquanto, é quarto filme na cronologia, e traz menções à Annabelle, a Freira e outros personagens que podem ser aproveitados no futuro.

(Annabelle Comes Home - 2019)
Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga) precisam se ausentar de casa por uma noite. Eles deixam a filha Judy (McKenna Grace) sob os cuidados da atenciosa babá Mary Ellen (Madison Iseman) e sua amiga intrometida Daniela (Katie Sarife). Se aproveitando da inexperiência das meninas e da ausência dos demonólogos, Annabelle resolve brincar, não apenas com as garotas, mas com toda a população de entidades e artefatos guardados na casa.

A terceira atividade da boneca se passa um ano após sua captura pelo casal Warren, e alguns meses após o caso da família Perron. Situado na casa dos demonologistas, o longa abre seu Museu de Ocultismo, e apresenta novos candidatos à assombrações solo.

(The Curse of La Llorona - 2019)
Anna (Linda Cardellini) é uma viuva com dois filhos, que tenta equilibrar os cuidados com a família com o trabalho de assistente social. Em um de seus casos, que envolve uma família mexicana, ela traz para casa algo mais que trabalho extra. Ela e seus filhos passam a ser perseguidos por La Llorona, A chorona em bom português.

A mais isolada das produções, sua conexão acontece através de um personagem em comum com o primeiro Annabelle, o padre Perez (Tony Amendola).

(The Conjuring 2 - 1977)
O casal Ed e Lorraine Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga) são demonologistas, e já estão desgastados pela descrença e o circo midiático que se cria em torno dos casos. A dupla já havia decidido "dar um tempo" do trabalho, quando é convidada pela igreja para investigar uma ocorrência na Inglaterra. Uma família vivencia estranhos fenômenos sobrenaturais, a maioria em torno de Jannet (Madison Wolfe) de 11 anos. Entretanto, em uma época de muitas farsas para chamar a atenção da mídia, antes de ajudar é preciso comprovar que a família não está mentindo, é aqui que entram os Warren.

É aqui o grande encontro de Ed e Lorraine com o demônio Valak, a Freira. Também somos apresentados ao Homem Torto, The Crooked Man, cujo filme solo é uma das produções em curso. A outra produção em andamento é justamente Invocação do Mal 3, previsto para estrear em 2020.
________

Agora que você conhece a ordem das assombrações, e até as conexões entre elas, vai encarar uma maratona do InvocaVerso? Clique nos títulos para ler as críticas de todos os filmes. 

Read More

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Homem-Aranha: Longe de Casa

segunda-feira, julho 01, 2019 0
Este texto não tem spoilers de Longe de Casa, mas pode conter spoilers de Vingadores: Ultimato.

"Bitch please, you have been to space!" Desde o trailer Nick Fury se empenha em lembrar ao protagonista dos eventos heroicos no qual ele esteve envolvido recentemente. Mas Peter Parker quer apenas ser um amigão da vizinhança e, principalmente, um adolescente. Essa dinâmica é praticamente um reflexo deste filme, que precisa lidar com o pós-Ultimato, ao mesmo tempo que deveria ser apenas mais uma aventura do Homem-Aranha.

Oito meses se passaram desde Vingadores: Ultimato, e Peter Parker (Tom Holland) está mais que pronto para umas férias do heroísmo. A viagem de duas semanas pela Europa parecia a oportunidade perfeita para isso, mas Nick Fury (Samuel L. Jackson) interrompe o passeio, e requisita a ajuda do adolescente para ao lado do novo herói Mysterio (Jake Gyllenhaal), derrotar os monstros chamados elementais. O garoto ainda precisa lidar com a expectativa pública para se tornar o "novo Tony Stark", com a falta do antigo mentor, e com assuntos típicos da idade, como finalmente se declarar para MJ (Zendaya).

Estabelecer o mundo pós estalo, ou "blip" como ficou conhecido, esta é a maior tarefa conectada ao MCU que Homem-Aranha: Longe de Casa precisa cumprir. Trabalho que a produção cumpre muito bem, logo nos minutos inciais do filme, com certa dose de humor. Mostrando o retorno inesperado daqueles vaporizado pelo Thanos, e as reações quanto aos cinco ano de diferença entre eles, e a metade que ficou. E sim, toda a turminha de Peter desapareceu no estalo, logo todos estão juntos novamente. Simples assim.

A partir daí, a produção pode focar na jornada de seu protagonista e na aventura que ele deve encarar. Embarcamos então, em uma divertida eurotrip adolescente, que abre espaço para mostrar mais do colegas de turma do protagonista. A abordagem aqui é mais leve e até acertadamente caricata em alguns momentos, desde a necessidade de atenção de Flash (Tony Revolori), passando pela dinâmica esquisita entre Ned e Betty (Jacob Batalon e Angourie Rice, excelentes juntos), à visível incapacidade dos professores encarregados (J.B. Smoove, Martin Starr), até a rivalidade com Brad (Remy Hii) pela atenção de MJ. A personagem de Zendaya é oficialmente a mocinha da vez, mas continua a desafiar os parâmetros da posição, com sua personalidade forte e independente.

Em contraponto, Peter parece menos empolgado e mais cansado com as responsabilidades que vieram com os grandes poderes. Ele precisa lidar com a perda de se mentor, e as expectativas para ser tão bom quanto ele. Um momento bastante diferente do "candidato à Vingador" do primeiro filme, mas que Holland continua conferindo honestidade e carisma. Em momento algum achamos infundados ou exagerados seus receios, pois enxergamos o adolescente, apesar de suas responsabilidades de adulto.

É nessa brecha deixada por Tony Stark, e ampliada pelas insegurança do protagonista que outros personagens ganham espaço. Um Nick Fury, supostamente perdido após os cinco anos de sumiço, é a figura de autoridade que vai exigir que o rapaz deixe sua zona de conforto. Enquanto Quentin Beck, o Mysterio, se coloca como a figura na qual se espelhar, em uma atuação carismática, e mais tarde propositalmente caricata de Gyllenhaal. Correndo por fora, Happy Hogan (Jon Favreau) é a mão amiga mais próxima e confortável.

Já a trama, de uma forma ou outra, novamente lida com a bagunça deixada pelos atos heroicos dos Vingadores. Em De Volta ao Lar, o vilão surgira como consequência da batalha de Nova Iorque, aqui dos efeitos pós-ultimato. Talvez seja sina do cabeça de teia, limpar a sujeira dos mais velhos no MCU. O que não significa, que não seja uma ameaça própria, contundente, ou grandiosa o suficiente para o personagem. Ou que não haja espaço para reviravoltas.

Apesar de independente, Longe de Casa não escapa de ter referências com os demais filmes do Marvel Cinematic Universe, apenas pelo fato de fazer parte dele. Assim, não temos grandes reuniões de heróis, mas a existência deles não é ignorada. Principalmente na constantemente exaltada figura do Homem de Ferro. A trilha sonora é outro elemento a criar essa conexão, ao incluir o tema dos Vingadores em momentos chave, ainda que o tradicional tema revisitado do aranha, seja o que realmente se destaque.

As sequencias de ação são bem construídas, utilizam bem os muitos gadgets e tecnologias disponíveis para a narrativa, e principalmente as diversas locações novas. Vale lembrar que o Aranha quase não saiu de NY nos seis filmes que protagonizou. Também é acertada a criação das ilusões do Mysterio, ao mesmo tempo visualmente belas, enervantes e claustrofóbicas.

O elenco ainda conta com Cobie Smulders e Marisa Tomei. O anunciado retorno de J.K. Simmons ao papel J. Jonah Jameson, que ele vivera na trilogia estrelada por Tobey Maguire, é breve, mas suficiente para empolgar os fãs. Não há mais participação especial de Stan Lee, mas há duas cenas pós-créditos.

Homem-Aranha: Longe de Casa encerra a fase 3 do MCU, e estabelece parâmetros para o futuro, sem deixar de lado a jornada de seu protagonista. O foco não é o futuro da Marvel, mas o de Peter Parker. Apesar de Vingador que foi para o espaço e ajudou a derrotar o Thanos ao lado dos maiores heróis do universo, ainda é um garoto com muita coisa para aprender e amadurecer. E claro, ainda é um filme do amigão da vizinhança, aquele herói divertido, inocente, gente como a gente, com o qual adoramos embarcar em uma aventura.

Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far from Home)
2019 - EUA - 129min
Ação, Aventura


Leia a crítica de Homem-Aranha: De Volta ao Lar
Read More

sexta-feira, 28 de junho de 2019

HQ vs Filme: Turma da Mônica - Laços

sexta-feira, junho 28, 2019 0
Faz um tempo que esta série não dá as caras por aqui. A "Livro HQ vs Filme" observa as diferenças entre formatos distintos de uma mesma obra, e tenta entender por que as mudanças são necessárias, se é que são. Após um hiato não planejado, a série que já comparou até séries de tv com sua versão nas telas, está de volta com um queridinho nacional.

O ministério dos "spoilerfóbicos" informa: este post contém SPOILERS da HQ e do filme!

O Floquinho desapareceu. Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão embarcam sozinhos em uma jornada para encontrar o cãozinho verde. Continuo impressionada com a sinopse de Laços, extremamente simples e uma oportunidade infinita de aventuras. Talvez por essa simplicidade, a versão para os cinemas consiga ser tão fiel ao original. Mas mesmo a obra mais fiel, não escapa de um ajuste ou outro.

1 - Sem flashbacks ou desvios
Presentes no imaginário nacional, essa turminha dispensa apresentações. Talvez por isso o roteiro do longa metragem deixe de lado, os dois flashbacks presentes no quadrinho. O primeiro mostra a chegada do Floquinho na vida do Cebolinha. O segundo a primeira reunião do quarteto ainda na pré escola. Outro motivo para deixar essas passagens de lado, é evitar a escalação de crianças tão pequenas para papéis tão icônicos.

Outra passagem que ficou de fora, é a história sobre a infância de seu pai que a Mônica conta ao redor da fogueira. O trecho, sem conexão com a trama principal, provavelmente soaria como um desvio da narrativa, atrapalhando seu ritmo. Ao invés disso, a produção prefere acertadamente, deixar o elenco em uma conversa mais espontânea nesse momento.

2 - Um pouco mais velhos
Vale mencionar, a molecada está mais velha no filme. Assim como nos quadrinhos tradicionais, Mônica, Magali, Cascão e Cebolinha tem cerca de seis anos de idade, na graphic novel dos irmãos Caffagi. Filmar com crianças tão pequenas seria um desafio, logo o filme acertadamente envelhece o quarteto, o que possibilita a escolha de crianças mais capazes de compreender seus personagens. E elas fizeram a lição de casa!

Foto: Serendipity Inc

3 - Valentões e bikes
Uma imagem icônica, que evoca as aventuras oitentistas de Spilberg, é a molecada partindo em suas bicicletas. Nos quadrinhos elas são emprestadas pelos valentões da rua, enquanto no filme o quarteto usa suas próprias bicicletas. Uma mudança que apenas simplifica o desenvolvimento da narrativa. Outra diferença no encontro com os garotos maiores é a briga, que no longa não envolve as bikes e ocorre de dia. Ambas as mudanças criam melhores condições de gravação para o elenco mirim.

4 - Tempo da jornada
Mais tempo desaparecidos. Já é metade da segunda noite desaparecidos quando o quarteto volta para casa na versão original. Na adaptação, eles passam apenas uma noite sumidos. A aventura corre bem mais rápido, e o filme é muito mais diurno que a HQ, onde boa parte da ação se passa na floresta à noite.

5 - O Louco
Mas tem sim cenas na floresta à noite. A mais emblemática delas coloca o Cebolinha como "vigia noturno" ao invés do Cascão, apenas para dar a oportunidade do careca perambular à noite e encontrar o Louco. O personagem que adora enlouquecer o "Cenourinha" não aparece na HQ, mas sua aparição na tela dá mais profundidade para os questionamentos do "galoto", é uma boa referência, e uma divertida participação especial de Rodrigo Santoro.

6 - Desafios individuais
E por falar em desenvolvimento dos personagens, o filme cria pequenos desafios para cada um deles superar. Sempre relacionados as suas características mais marcantes. Assim, mesmo com a trama focando mais no dilema do Cebolinha, já que fora seu cãozinho que sumira, todo o quarteto tem seu momento de brilhar. Nas páginas o desafio é quase sempre superado em conjunto. Trabalho em equipe que também tem no filme, e novamente aposta nas habilidades únicas de cada um.

7- O vilão
Segura que lá vem spoiler: na graphic novel o vilão é apenas um dono de ferro velho, que sequestra e maltrata os cachorros para protegerem sua propriedade. Bem, isso é o que nós deduzimos, já que a história não está preocupada em dar grandes explicações. No filme, o sequestrador do floquinho tem motivações mais claras, e um plano mais complexo no qual pretende usar os cães. Dando mais estofo para trama, necessário ao filme, mas não essencial para a versão das páginas.

8 - Planos infalíveis
E por falar em planos, estes são bastante diferentes entre quadrinho e filme. O longa deixa de lado as fantasias mirabolantes e caricatas. Entretanto, mas a maior diferença está no plano final, já que como parte de seu desenvolvimento, o Cebolinha escuta os amigos para criá-lo. No original ele cria tudo sozinho.

9 - Primeiro Amor
Há também tempo para uma cena onde a Dona Cebola, questiona o filho sobre sua obsessão em derrotar a Mônica. Mais tarde da duplinha se observa carinhosamente, o indício de um doce romance infantil. Relação que só é possível no filme, já que seus intérpretes são mais velhos.

10- Quinzinho
Foto: Serendipity Inc
Essa é um bônus: no fim do filme, podemos ver Quinzinho agradando a Magali com várias guloseimas, mas na versão que os Caffagi criaram para a turminha, a gulosa só conhece o filho do dono da padaria na segunda HQ, Lições.
__________________

Turma da Mônica - Laços, o filme é uma adaptação fiel e ciente da importância de seus personagens no imaginário popular. Assim como a obra em que foi inspirada, uma releitura de novos artistas, que atualiza sem perder os espírito inocente das aventuras de Mauricio de Souza. Obras divertidas, carismáticas, cheias de boas mensagens e nostalgia.

Parte do projeto Grafic MSP, Turma da Mônica - Laços é o primeiro volume da trilogia criada pelos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, que conta ainda com Lições e Lembranças. O filme homônimo tem a direção de Daniel Rezende.

Leia a crítica do filme Turma da Mônica - Laços, e também das HQs Laços e Lições.
Read More

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Annabelle 3: De Volta Para Casa

quarta-feira, junho 26, 2019 0
Desde que foi apresentada em 2013 no excelente Invocação do Mal, Annabelle já protagonizou duas "aventuras" solo. Ambas passadas antes de sua captura pelos Warren, quando a boneca podia aterrorizar livremente por aí. Annabelle 3: De Volta Para Casa surpreendentemente opta por retornar ao tempo dos demonólogos, mostrando que mesmo a contenção cuidadosa da dupla não é livre de falhas, especialmente quando há jovens envolvidos.

Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga) precisam se ausentar de casa por uma noite. Eles deixam a filha Judy (McKenna Grace) sob os cuidados da atenciosa babá Mary Ellen (Madison Iseman) e sua amiga intrometida Daniela (Katie Sarife). Se aproveitando da inexperiência das meninas e da ausência dos demonólogos, Annabelle resolve brincar, não apenas com as garotas, mas com toda a população de entidades e artefatos guardados na casa.

É no Museu de Ocultismo dos Warren que está a grande aposta do filme. Seus artefatos e casos, são incorporados à trama, estendendo as formas de aterrorizar da produção, e principalmente, apresentado uma dezena de potenciais novas entidades passíveis de ganhar seus próprios longas. Algumas delas, como a TV, o Samurai e as Moedas do Barqueiro, bastante interessantes, ouso dizer. Infelizmente pouco destes artefatos é explorado, além de sua mera assombração. Seja para guardar suas histórias para o futuro, seja para não perder o foco em sua protagonista. Assim, estas entidades estão lá mas não dizem muito à que vieram, apenas aumentam a quantidade de ameaças às garotas.

Já as meninas são muito bem apresentadas. Provavelmente até demais para aqueles que esperam por sustos e ameaças constantes. O roteiro gasta o tempo que precisa para construir as personalidades e pequenos arcos de cada uma delas. Desde a babá certinha, que precisa aprender a se arriscar, passando pela adolescente aparentemente irresponsável que causa todo o problema, até a interessante filha dos Warren. Fugindo do estereótipo de crianças despreparadas e ingênuas dos filmes de Terror, e por ser filha de quem é, Judy entende o universo em que está inserida e até tem alguns recursos para enfrentar as ameças.

Mckenna Grace, que apesar da pouca idade já tem bastante experiência em cena, compreende o sentimento de solidão da menina que se sente diferente, e que é agravado pela rejeição dos colegas de escola, quando estes descobrem o trabalho de seus pais. Katie Sarife é competente em apresentar uma adolescente que age de forma irritante e inconsequente para mascarar um trauma. Madison Iseman não tem muito a oferecer à sua garota certinha além de caras e bocas, mas consegue acompanhar o carisma da dupla com quem contracena.

É esta construção mais caprichada das personagens, que já estava presente no filme anterior, que mantém o expectador interessado e torna mais envolvente a jornada tradicional por qual as garotas passam. Elas estão presas em uma casa cheia de entidades, simples assim. Mas o caminho até este ponto é um pouco mais longo do que a maioria das produções do gênero se permitem fazer. 

É claro, para chegar ao ponto da ameça total, é preciso que em alguns momentos as garotas ajam como típicos personagens descuidados de terror, fazendo escolhas pouco inteligentes e ignorando sinais de que algo está errado por mais tempo que humanos da vida real. Nada que não seja esperado do gênero, ou que prejudique a construção anterior. E que é compensado pela crescente de tensão, bem distribuída ao longo da projeção. 

O diretor estreante, e também roteirista deste e de outros capítulos da franquia, Gary Dauberman oscila entre o lugar comum do gênero e alguns momentos mais inspirados, como aquele que usa um jogo de sombras coloridas para apresentar a real forma de uma criatura, ou que usa o movimento de câmera para mostrar a passagem entre planos de outra. Ele acerta em manter a atmosfera criada por James Wan no primeiro Invocação do Mal, especialmente nas sequencias com a presença do casal Warren.

Sim, Ed e Lorraine estão de volta em uma participação pequena. A envolvente sequência inicial deve saciar os fãs dos demonólogos, já que Farmiga e Wilson continuam eficientes e carismáticos ao retratá-los. Mas o foco da produção é de fato no trio de garotas, e talvez por isso o tom seja mais "aventuresco" e fantástico, enquanto o terror é menos gráfico que os capítulos anteriores. Não é atoa que o próprio James Wan, que aqui é apenas produtor, se referiu à ele como Uma Noite no Museu com Annabelle.

A boneca endemoniada tem conseguido um feito incomum no universo de franquias, o de melhorar a cada produção. Annabelle 3: De Volta Para Casa talvez não supere A Criação do Mal, em criação de mitologia, mas com certeza avança no quesito entretenimento. A terceira incursão da entidade nas telonas, é um "terror pipoca" que diverte muito, assusta, mas não apavora. Apresenta novas identidades, algumas promissoras, outras nem tanto (o lobisomem de CGI destoa bastante), para o "InvocaVerso". E principalmente, solidifica o lugar de figura icônica de Annabelle no imaginário cinéfilo.

Annabelle 3: De Volta Para Casa (Annabelle Comes Home)
2019 - EUA - 106min
Terror

Leia as críticas de Annabelle e Annabelle 2: A Criação do Mal
Read More

Post Top Ad