2019 - Ah! E por falar nisso...

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Marianne - 1ª temporada

quarta-feira, setembro 18, 2019 0
Atmosfera constantemente sombria, imagens inquietantes, lendas bem construídas, jump scares, gore, tem um pouco de tudo em Marianne. A nova série de terror da Netflix consegue equilibrar diferentes formas de assustar para manter o espectador envolvido na história da pequena cidade francesa de Elden, e uma de suas residentes mais famosas.

Emma Larsimon (Victoire Du Bois) é uma famosa escritora de terror que acaba de encerrar a saga sobre a heroína Lizzie Larck e a bruxa Marianne. Mas o lançamento de seu último livro parece dar partida a eventos estranhos que a forçam a voltar para sua cidade natal. Em Elden, a protagonista precisa enfrentar demônios atuais e passados, que ameaçam sua família e amigos.

A história é relativamente simples, bruxa parece saltar da ficção para atormentar seu criador. É na execução que a série francesa se destaca, ao explorar bem tanto a entidade maligna, quanto aqueles que ela atormenta ao longo de seus oito episódios. Marianne, é mais que um mero personagem, ela segue uma tradicional cartilha de mitologia em torno de bruxas e tem forte influência na vida da protagonista.

E por falar em Emma, a moça é a tradicional escritora solitária e atormentada. Se refugia em suas palavras, até que estas se voltem contra ela, a obrigando a enfrentar os verdadeiros problemas. Aqui a produção adota características das obras de Stephen King, ao abordar os eventos que afastaram a personagem da cidade ainda na infância, acompanhando o grupo de amigos do qual ela fazia parte, especialmente a partir da segunda metade da produção. Até lá, há tempo de mostrar a relação da moça com os pais e com sua assistente Camille (Lucie Boujenah).

Além da protagonista o detetive Raunan (Alban Lenoir) também ganha destaque, ao ser o personagem que busca uma explicação para os eventos. Funciona, mas talvez você se pergunte porque Emma parece saber tão pouco da vilã que supostamente criou. O lapso, ou falta de interesse da autora no entanto, não chega a atrapalhar tanto quanto as atitudes do Padre Xavier (Patrick d'Assumçao). O personagem parece determinado a atrapalhar os personagens enquanto estes buscam solução. Seu comportamento não seria um problema se o roteiro não o apresentasse como conhecedor dos maus agouros da cidade desde o princípio. E mais tarde revelasse, que o personagem foram treinado para combater exatamente aquele mal, mas só se manifesta quando é tarde.

Enquanto estas relações são desenvolvidas, Marianne continua "trabalhando" e permeando este desenvolvimento. Entram aqui as partes assustadoras. Os jump scares estão lá para quem gosta deste tipo de terror. Para os demais imagens desconcertantes e atitudes bizarras, sangue, outros fluidos corporais e violência criam esta atmosfera bizarra, que ainda oscila entre sonho e realidade. Privilegiando efeitos práticos, com poucas sequencias em CGI, a produção apresenta criaturas monstruosas que quase geralmente funcionam, desde silhuetas com olhos brilhantes, até assombrações de olhos esbugalhados. É apenas na batalha clímax, que a produção mostra demais uma destas criaturas, tornando-a mais cômica que assustadora. Entretanto, à esta altura você está tão envolvido que não é difícil relevar o escorregão.

Cortes rápidos, frames escondidos com imagens assustadoras, pontos de vistas diferentes para um mesmo evento, divisão de eventos em capítulos, citações antes de cada episódio, estão entre os detalhes bem pensados que conferem personalidade à produção. Assim como as narração de trechos dos livros de Lizzie Larck, em paralelo com a vida de sua escritora.

Há também transições estilizadas como páginas de livros, que funcionam quase como o "previously" (no episódio anterior...), mas que não deve ser ignorados, já que trazem pontos de vistas e até cenas novas que trazem mais informação para a trama. Fotografia bem aplicada, inclusive nas muitas sequencias noturnas, e ângulos de câmera criativos, completam o pacote técnico bem aplicado.

O elenco dedicado atente bem às necessidades de seus personagens. Os destaques ficam com Lucie Boujenah a assustável, porém determinada, assistente Camille, e Mireille Herbstmeyer, que vive a possuída Madame Daugeron. Já a intérprete da protagonista, Victoire Du Bois não entrega uma atuação excepcional, mas é eficiente o suficiente para carregar o interesse do público ao longo dos episódios.

Marianne não tem a mais original das histórias de bruxa, mas tem uma história bem construída, narrativa e tecnicamente. A produção usa o tempo que precisa para construir uma relação entre público e personagens. Enquanto nos simpatizamos e preocupamos como Emma e companha, os mistérios são desvendados aos poucos, e a narrativa usa de forma acertada diferentes recursos de terror no processo, mantendo expectador incomodado, ou saltando da cadeira, quase todo o tempo.

Embora haja possibilidade de continuação, a história se encerra de forma satisfatória. Particularmente, torço para que a jornada de Marianne se encerre aqui. Não por que não gostei, mas porquê às vezes uma história simples, bem contada e com final eficiente é tudo que precisamos.

Marianne tem oito episódios, todos já disponíveis na Netflix.
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segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Crush à Altura

segunda-feira, setembro 16, 2019 0
Não é novidade que a Netflix está correndo atrás e criando o próprio catálogo de filmes, se antecipando à perda das obras de grandes estúdios que em breve abrirão seus próprios serviços de streaming. Ou que o público juvenil é um dos grandes focos desta lista de produções. Também já está se tornando notável que para cada acerto como Para Todos os Garotos que Já Amei, há um mal ajambrado Sierra Burgess é uma Loser e um número incontável de produções medianas como O Date Perfeito. É hora de descobrir em qual categoria se encaixa o recém lançado Crush à Altura.

Jodi (Ava Michelle) é a garota mais alta de sua escola. E, como era de se esperar da sociedade atual retratada em uma produção adolescente, sofre bulling por isso. A jovem passou a vida desconfortável na própria pele, tentando ser invisível, mas tudo muda quando um aluno de intercâmbio mais alto que ela aparece na escola. Jodi decide deixar sua zona de conforto para conquistar aquele que ela acredita ser o único capaz de compreendê-la, ou no mínimo não achá-la esquisita, ou ficar intimidado com sua altura.

Infelizmente é o ultrapassado e nada realista clichê do príncipe encantado que lança a protagonista em sua jornada de auto-descoberta. E os clichês de romances juvenis não param por aí. Encontramos por aqui também, a arqui-inimiga (Paris Berelc), os pais inaptos (Helaine Kreyman e Richie Kreyman) que menosprezam ou tratam como doença a diferença da filha, o amigo secretamente apaixonado (Jack Dunkleman) que sempre gostou da mocinha como ela é, e até a melhor amiga interessante porém subaproveitada (Anjelika Washington) que em certo ponto chega à expressar em voz alta o quanto é deixada de lado pelo roteiro. Imagino como seria legal, se meus amigos me perguntassem sobre minha vida - exclama a moça lá pelo meio do filme.

E por falar no roteiro, este também segue a cartilha típica do gênero. Protagonista tenta mudar pelos motivos errados, se perde no caminho, faz besteira, perde os amigos, aprende uma lição, amadurece pelos motivos corretos, e conserta tudo. Fora a falta de originalidade, não haveria nada de errado com seguir esta fórmula, não fosse a maneira confusa que a produção tenta se mostrar conectada as discussões atuais.

A intenção aqui é mostrar os erros e inseguranças inerentes à adolescência, independente do quão "popular ou perdedor" você é. Mas o roteiro fica apenas na camada superficial, indicando eventualmente que, o "boy-magia" também pode ser corrompido, a arqui-inimiga tem medo da rejeição, bons amigos podem cometer atos egoístas, sem nunca discutir estes temas de fato. Não é assumidamente despretensioso como A Barraca do Beijo, mas também não explora seus dilemas.

O acerto fica por conta de Harper (Sabrina Carpenter), irmã mais velha da protagonista, de estatura mediana e rainha da beleza. A personagem consegue escapar a imagem de miss fútil e egoísta, para se criar uma relação de conselheira divertida e consciente, em relação à caçula. A estrela de séries do Disney Channel, Carpenter consegue embutir leveza na personagem que tinha tudo para cair no clichê.

Outro personagem, não tão carismático, mas ao menos consistente é o melhor amigo Jack Dunkleman (Griffin Gluck). Sua relação com a protagonista e o tal crush do título, parece uma versão atualizada daquela entre Duckie (Jon Cryer) e o casal protagonista de A Garota de Rosa-Shocking.

Já a estreante Ava Michelle, consegue exprimir bem o desconforto por sua altura, em sua postura e maneirismo. Talvez mais por experiência de vida, que por acerto de atuação. Quem lembra da moça sendo execrada por Abby Lee, justamente por causa de sua altura, em Dance Moms (é, eu assisti isso, e não tenho orgulho). Seja como for é realista o suficiente, para criar a empatia necessária para nos manter interessados. Embora a auto-depreciação da moça, soe um tanto irritante em muitos momentos.

Outra estreante é a diretora Nzingha Stewart, até brinca com ângulos e posicionamento de câmeras para tornar Jodi ainda maior e mais deslocada. Mas não o faz de forma contundente o suficiente, para conferir personalidade do longa.

Entre estereótipos, mensagens rasas e referencias incompletas, Crush à Altura entra na categoria do meio. E divertido o suficiente para ocupar duas horas descompromissadas de seu tempo. Mas não deve se tornar um fenômeno que inspire sequências, ou mesmo se destaque no longo catálogo infanto-juvenil da plataforma.

Crush à Altura (Tall Girl)
2019 - EUA - 101min
Comédia Romântica

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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Brinquedo Assassino

quarta-feira, setembro 11, 2019 0
As lições aprendidas com o novo Brinquedo Assassino são: trate bem seus funcionários; não use equipamentos defeituosos; se seu dispositivo de inteligência artificial demostrar mal funcionamento descarte-o imediatamente e não tenha medo atualizar ícones se a ideia for realmente boa.

Andy (Gabriel Bateman) passa os dias solitário desde que se mudou com a mãe para uma nova cidade. Preocupada com o isolamento do filho, Karen (Aubrey Plaza) presentear o filho com Buddi, uma inteligência artificial no corpo de um boneco, que deve ajudar nas tarefas doméstica e se tornar o melhor companheiro da criança. O problema, é que o equipamento em questão foi adulterado por um funcionário insatisfeito.

Isso mesmo, Chucky (voz de Mark Hamill) não é mais um objeto possuído por um espírito maligno, mas uma inteligência artificial fora de controle. Mas não torça o nariz para as modificações ainda, as escolhas deste remake do clássico de terror (e mais tarde "terrir") são coerentes e trazem frescor à já desgastada franquia, justificando sua existência. Além disso, o espírito da produção continua o mesmo, um terror despretensioso e até divertido.

Apesar de despretensioso, a produção faz algumas críticas à sociedade atual. Desde a exploração de mão de obra na fábrica de Buddy, passando pelo presença invasiva de grandes empresas de tecnologia em nosso cotidiano, na figura da onipresente Kaslan, e claro nossa dependência crescente destes dispositivos. Nada muito aprofundado ou sutil, mas trabalhado em quantidade suficiente para criar uma relação da produção com a época em que foi lançada.

O novo Chuky não é mal por natureza, mas capaz de aprender e sem os filtros que impõem limites. Não tem indestrutibilidade sobrenatural, mas é capaz de se conectar com todos os dispositivos ao seu redor. A construção de como seu comportamento é "desvirtuado" pelos estímulos errados é bem executada. Enquanto a voz de Hamill acerta na transição do tom robótico e ingênuo do início, para a criatura psicótica obcecada pelo garoto Andy.

Apenas a aparência do boneco que deixa a desejar, a nova versão faz uma "homenagem" ao boneco de 1988, mas sem sua aparência inofensiva e doce pré possessão. O Buddi é esquisito desde a fábrica, ao ponto de nos perguntarmos porque alguém iria querer um desses em casa. Aparência de borracha, também não é compatível com o mundo tecnológico em que está inserido. Entretanto, como referência ao original, e na sua versão maligna funciona. Especialmente pela opção do animatrônico, ao invés de CGI, na maior parte do filme.

Não tão bem elaborados são os personagens humanos em cena, atendendo aos estereótipos tradicionais do gênero. Desde as pessoas absurdamente ruins que nos faz torcer para serem pegas pelo brinquedo, até os adultos que demoram a notar coisas estranhas ao seu redor. Dentro desta construção rasa, o elenco entrega um trabalho eficiente o suficiente para que nos preocupemos com o bem estar dos personagens.

Já o roteiro, segue a cartilha deste tipo de produção, com a construção e crescimento dos eventos estranhos, até o perigo eminente e o desespero pela vida num final apoteótico. Este desfecho, um tanto quanto exagerado, se assemelha mais aos filmes "galhofa" da franquia como O Filho de Chucky. É mais absurdo que de fato assustador, mas não se estende mais do que deveria, e por isso funciona.

Até chegar neste ponto, a produção é bastante criativa na hora de criar os ataques do boneco. E, pasmem, não abusa de jumpscares baratos. Eles até existem, mas estão encaixados na forma de assustar de Chucky. Vale lembrar, ele é um objeto de menos de um metro de altura, furtividade e aparições inesperadas são a melhor forma de assustar nestas circunstâncias. É aqui que a direção se mostra inventiva, ao usar o ângulo baixo do boneco, e sua conexão com outras tecnologias para criar sequencias interessantes. Some aí um pouco de gore, e o resultado é no mínimo divertido.

O novo Brinquedo Assassino poderia ser um episódio de "Black Mirror", talvez um pouco menos profundo e melancólico, mas completamente encaixado no contexto atual. Em meio a uma era de remakes sem justificativas que não a bilheteria, encontrou uma boa razão para trazer Chuck de volta, sem deixar de lado sua aura maligna, assustadora e, principalmente, divertida.

Brinquedo Assassino (Child's Play)
2019 - EUA - 90min
Terror

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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Amor em Obras

segunda-feira, setembro 09, 2019 0
Admito, vez ou outra eu bem que gosto de encarar uma sessão de cinema bobinha, com aqueles filmes que dispensam o uso do cérebro. Previsíveis e medianos, estes filmes servem para "limpar o paladar" entre uma obra mais densa e outra, ou mesmo para descansar o emocional dos absurdos da vida real. Mas, mesmo nestas condições, é difícil defender Amor em Obras da Netflix. A produção ultrapassa os limites da não necessidade de pensar, e te faz questionar seus detalhes sem sentido.

No trabalho Gabriela (Christina Milian) era desvalorizada por ser mulher. Na vida pessoal convivia com um namorado controlador que relutava em avançar a relação. Então, em uma mesma semana, ela perde ambos. Mas ela não fica aliviada com isso? Claro que não. Na fossa ela se inscreve em um misterioso concurso para ganhar uma pousada na Nova Zelândia. E claro, ganha! E o lugar está caindo aos pedaços, mesmo assim vai ajudá-la a mudar de vida.

Inclua aí uma comunidade bucólica tão charmosa quanto peculiar, uma rival no ramo da hotelaria e um "boy magia" que o destino insiste em colocar no caminho da moça, não importa o quanto ela fuja, e você terá uma tradicional comédia romântica escapista previsível. E não há nada de errado com isso, se esta for a proposta. O problema está nas escolhas que o roteio faz a partir deste cenário.

A começar pela personagem principal. Preocupado em se encaixá-la no padrão "protagonistas empoderadas" da moda, o roteiro faz a moça gritar constantemente que é capaz de se virar sozinha, apenas para no momento seguinte mostrá-la falhar, repetidamente. - Não funciona apenas afirmar que a moça é empoderada, empodere-a de fato! - Mas é difícil fazer isso, quando se planeja incluir na história um belo príncipe ao resgate. Jake (Adam Demos) é habilidoso, bonito e com um passado trágico para justificar sua improvável disponibilidade. Ah, ele também é insistente, mas apenas até o roteiro precisar recolocar a mocinha na iniciativa.

Charlotte (Anna Jullienne) é a antagonista, deseja a todo custo comprar a pousada de Gabriela. Mas nem mesmo a mocinha à considera uma ameaça real e seus "planos" tem pouco impacto real na trama. A verdadeira vilã poderia ser a própria pousada, filmes sobre reformas impossíveis já funcionaram antes. Entretanto, a produção não consegue conciliar as dificuldades da reforma, com a apresentação de um novo estilo de vida para a protagonista. Oscilando muito entre torneiras entupidas, descobertas nas paredes e o curioso cotidiano de uma cidadezinha neozelandesa. Esta última com grandes chances de ofender o povo da Nova Zelândia devido à algumas caricaturas.

A esta altura, mesmo o mais despretensioso espectador não pode evitar alguns questionamentos. O que o misterioso dono da pousada ganha com o tal concurso? Vender faria muito mais sentido que apenas dar. Quem ainda tem um celular sem senha, ou bloqueio por digital? Existe alguma história por trás da supra-mencionada dona original da pousada? Quantas piadas de bode eles são capazes de fazer? Será que sabem que entre outras coisas esses animais são associados à submissão e bruxaria?* Perguntas bobas, que este tipo de filme costuma responder, mesmo que de forma pouco crível, apenas para  manter o espectador em seu estado de relaxamento cerebral. Proposta principal do gênero.

Completando o pacote, o elenco não entrega grandes interpretações, mas convence. Especialmente por parecer se divertir com o projeto. E as belas locações entregam uma produção ensolarada e viva, que nos faz sentir vontade de visitar a Nova Zelândia. O filme é o primeiro da Netflix rodado inteiramente lá. Pensando bem que tenho esta vontade de 2001, e a Sociedade do Anel, mas isso é assunto para outro post.

De volta à Amor em Obras, potencial para uma sessão "good vibes", para relaxar e deixar você feliz existe, e a intenção é boa. É provável que você se divirta no processo, mas logo vai voltar para o mundo real, e esquecer completamente sua estadia momentânea nesta cidadezinha bucólica do outro lado do mundo.

Amor em Obras (Falling Inn Love)
2019 - EUA - 98min
Comédia Romântica

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sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Bienal do Livro 2019

sexta-feira, setembro 06, 2019 0
Os posts sobre a Bienal do Livro do Rio são antigos e tradicionais aqui no blog. Quando digo tradicionais me refiro ao formato diário/bate-papo nada comercial, cada vez mais escasso na blogosfera. Desde que o blog foi lançado lá em 2008, não escrevi apenas sobre a edição de 2009. Aliás, acho que não fui naquele ano. Eu até que tento fazer uma cobertura mais completa, mas no final das contas acabo frequentando o evento como "civil" mesmo, e só me resta manter este nostálgico formato de post de experiência. Dito isso, é hora de contar como foi minha visita à Bienal 2019. E sim, tivemos novidade na experiência esse ano!

A primeira delas, tomamos coragem de levar uma criança conosco este ano. Vale lembrar, não moro na cidade do Rio e a jornada até o centro de convenções é longa. Mas acreditamos que nosso pequeno acompanhante, sobrinho daquela amiga oficial de aventuras, chegou em uma idade adequada para encarar o perrengue. Achamos errado! Não me leve à mal, a feira é sim um programa para levar a criançada, mas o percurso até lá, para quem opta pelo exaustivamente sugerido transporte público, definitivamente não é.

Deixemos de lado, a longa jornada da minha cidade até a capital carioca, estou falando do translado lá mesmo. Na última edição o transporte via BRT era confuso, com uma baldeação e poucos ônibus disponíveis. Este ano, finalmente destinaram uma linha direta para levar o pessoal no trajeto entre a estação de metrô Jardim Oceânico e o evento, com paradas nas principais estações. Mas, novamente, a quantidade de veículos estava longe de ser minimamente suficiente. O "99" já partia lotado do primeiro ponto, tornando uma tarefa hercúlea embarcar nas paradas seguintes. É aqui que a experiência se torna inapropriada para os pequenos. Aliás, para os grandes também. Andar espremidos, amontoados, suando e caindo uns sobre os outros a cada curva mal feita pelo condutor, não é o melhor começo de experiência. Então, se for com crianças opte por carro, ou excursão.

Mini leitor em treinamento!
Chegando lá, a experiência é aquela que tanto conhecemos. Pilhas de livros, quilômetros de filas, preços exorbitantes nas comidas (embora a variedade esteja aumentando e algumas opções menos absurdas já possam ser encontradas), e um aglomerado sem fim de pessoas que nos faz questionar se eles tem algum controle da quantidade de ingressos que vendem, e se é seguro colocar tanta gente ao mesmo tempo em um único espaço.

Por outro lado os estandes estavam mais caprichados, com decorações dignas de foto, espaços para aquele clique obrigatório (que não fiz, por motivos de "filas"), e pasmem, promoções de verdade. Faz anos que deixei de buscar no evento livros da minha lista de prioritária desejos, optando por vasculhar aqueles "achados" que não sabíamos que desejávamos. Qual não foi minha surpresa, ao encontrar itens da minha lista número um em um bom preço. Já nosso pequeno acompanhante saiu com nada menos que quatro volumes após administrar muito bem para a idade sua verba de cinquenta reais.

Se pela foi pela crise em que o país se encontra ou a concorrência, que os preços estavam melhores não sei dizer. Mas foi excelente comprar as pechinchas do Submarino, sem frete e levando o livro para casa na hora. Não tão legal foi descobrir porque os livros de Star Wars estão tão baratos na Aleph. Queima de estoque, a editora não vai mais publicar os livros da franquia (e eu nem encontrei meu Kenobi antes dele esgotar). Mas encontrei a biografia de Maurício de Souza por menos de oito reais, como não ficar feliz?

E já que comecei este post comentando meus registros anteriores do evento, vale comentar como é curioso observar o reflexo do mercado editorial no chão da feira. Observando estandes que não existiam crescerem, como o próprio Submarino, os voltados a colecionáveis nerds, e até as Lojas Americanas. Enquanto outros como Sextante e Leya diminuíram quando seus títulos saíram da lista dos "livros da moda". E por falar em livros da moda, quando é que a Darkside vai ter um estande prórpio, macabro e estiloso?

Ano vai, ano vem e a Bienal continua a mesma. Problemas antigos são solucionados, novos aparecem, outros se mantém... O que muda de verdade somos nós, com sorte para melhor, com ajuda dos muitos livros que compramos lá ao longo dos anos. E este acesso e interesse por conhecimento sempre fora necessário, mas nunca tão urgente como agora.

Da parte desta blogueira que vos escreve, meu saldo de livros adquiridos no evento melhora a cada ano. Falta descobrir se os preços estão mais interessantes, se minha lista de desejos aumentou, ou minha habilidade para achados foi aprimorada. Por hora, saio satisfeita com a "aventura" e os títulos adicionados à minha coleção.

A XIX Bienal Internacional do Livro do Rio ainda está rolando, termina no próximo domingo, 8 de setembro. Corre que dá tempo!

Leia sobre as edições 2011, 2013, 2015 e 2017 do evento!
Também tem resenhas de livros aqui no blog, já conferiu?
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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

It: Capítulo Dois

quarta-feira, setembro 04, 2019 0
Vinte sete anos se passaram para os personagens de It: A Coisa, dois para nós espectadores. Apesar do espaço de tempo, It: Capítulo Dois, como o nome indica, é muito mais como a continuação de um mesmo filme, do que uma sequência da franquia. É muito provável que você, assim como a blogueira que vos escreve, saia da sessão com vontade de encarar uma maratona de mais de cinco horas de terror, reunindo as duas partes da produção baseada na obra de Stephen King.

Único membro do Clube dos Otários a permanecer em Derry, é Mike (Isaiah Mustafa) quem percebe o retorno de Pennywise (Bill Skarsgård), e convoca os amigos de volta a cidade para combater o palhaço dançarino. Apesar da promessa feita quase três décadas atrás, re-enfrentar os traumas de infância não vai ser nada fácil para Bill (James McAvoy), Beverly (Jessica Chastain), Ritchie (Bill Hader), Ben (Jack Ryan), Stanley (Andy Bean) e Eddie (James Ransone).

É na empatia construída na infância que acompanhamos no capítulo um desta história, que a produção aposta para manter o espectador interessado e aflito. Diferente do longa anterior que gastou um acertado tempo mostrando o cotidiano das crianças, pouco sabemos da vida adulta dos Otários, além do fato de que a experiência deixou marcas, mesmo que eles não estejam cientes delas.

"Economia" que só é possível por que o elenco mirim está de volta em cena, e suas versões adultas foram escolhidas, caracterizadas e compostas a dedo bom bons atores, para nos fazer acreditar que são realmente uma mesma pessoa. Os destaque ficam com as versões adultas de Ritchie e Eddie. Hader e Ransone, conseguem incorporar trejeito e até a entonação de Finn Wolfhard e Jack Dylan Grazer, respectivamente, a ponto de se destacar, em um roteiro que equilibra razoavelmente bem o espaço de cada um dos membros do clube.

Apesar de equilibrado, alguns personagens são sim melhores trabalhados que outros. Estes seriam Bill e Beverlly, que também tem os intérpretes mais conhecidos do grande público. A familiaridade com McAvoy e Chastain, diminui a crença de que se tratam de versões adultas de Jaeden Martell e Sophia Lillis. Nada que o bom trabalho dos atores não possa contornar. Na tarefa de emular a personalidade contida de seu correlativo mirim, McAvoy suaviza aquele excesso de intensidade que costuma aplicar a seus personagens. Enquanto Chastain consegue assim como Lillis, se encaixar no grupo, mesmo sendo a única mulher em cena.

E por falar nos atores mirins, eles estão todos de volta, apresentando informações e sequências que ficaram de fora no filme anterior. As passagens com a molecada são tantas, que quase ultrapassam o conceito de flashbacks, e praticamente criam uma linha do tempo paralela à principal. 

Os roteiristas sabem que acertaram ao construir e apresentar sem pressa os medos de seus protagonistas anteriormente, e logo decidem emular a fórmula aqui. Colocando cada um para enfrentar seus temores isoladamente, antes de enfrentarem o palhaço como um grupo. Entretanto, desta vez, a repetição soa cansativa em alguns momentos, é a criatividade em criar imagens aterrorizantes que mantém o espectador interessado. Já a trama de Henry Bowers (Nicholas Hamilton/Teach Grant) soa meio deslocada, interrompendo a narrativa principal, sem causar grande impacto nela.

Com tantas histórias sendo contadas, é Pennywise quem sai perdendo. O que não significa que a presença do palhaço não seja uma ameaça constante, ou que a qualidade da atuação de Skarsgård tenha caído. É nas origens e forma de combate à entidade que o roteiro deixa a desejar. A mitologia dos nativos-americanos que explicam suas origens, e as lutas passadas, e uma espécie de infecção que o vilão deixou nos sobreviventes, são jogadas sem muita aprofundamento. Outro questionamento, é a escolha da aparência do palhaço já que Pennywise aparentemente é muito mais antigo que o conceito do personagem circense. Dúvidas que provavelmente foram herdadas do livro, e que o filme não sentiu necessidade de sanar. É verdade que o desconhecido assusta mais, e a produção não precisaria responder tudo, mas particularmente, saí mais curiosa do que gostaria.

Se o roteiro não perdeu tempo criando mais detalhes para a vida de seu vilão, por outro lado, não economizou criatividade nas ameaças criadas por ele. Vale lembrar, o palhaço se alimenta de carne humana temperada com medo, por isso aterroriza suas vítimas ao máximo antes de fazer suas refeições. As formas como este se apresenta continuam surpreendentes, criativas e, para aqueles que gostam, com jump scares bem construídos. Os sustos e a violência gráfica aqui são mais presentes que no capítulo anterior, que apostava mais na construção do medo, o suspense. Embora ambos trabalhem as duas formas de assustar.

A criatividade continua, posicionamento de câmera e iluminação para conferir alguma originalidade aos sustos. O mesmo vale para os efeitos, que misturam CGI e efeitos práticos para criar os criativos e aterrorizantes pesadelos. O que combinado à construção dos temores que acompanhamos desde o filme anterior, criam uma acertada atmosfera de ameaça constante. Prova disso, é que a produção consegue causar medo, e nos fazer pular da cadeira, mesmo em cenas em plena luz do dia, e em cenas bem iluminadas. Enquanto a maioria dos filmes do gênero sempre recorre, à escuridão e a visão limitada para tal.

It: Capítulo Dois tem duas horas e cinquenta minutos de duração. Pode parecer muito tempo para ficar assustado (de fato é), mas a criatividade das imagens assustadoras e principalmente nossa empatia com os personagens, não apenas nos mantém na ponta da cadeira durante toda a projeção, como não nos deixa perceber sua longa duração. Com boas atuações e produção caprichada, o filme encerra de forma satisfatória a jornada do Clube dos Otários, ao ponto de sairmos da sessão, dispostos a encarar uma sessão dupla para apreciar a obra completa assim que possível.

It: Capítulo Dois (It Chapter Two)
2019 - EUA - 2h50min
Terror


Leia a crítica de It: A Coisa
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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Yesterday

segunda-feira, setembro 02, 2019 0
Você teria um instante para ouvir a palavra dos Beatles? - Espalhar as palavras, ou melhor as músicas, do quarteto de Liverpool. De certa forma, esta é a missão do protagonista de Yesterday. Novo filme de Danny Boyle, que percorre o repertório da banda de forma doce e criativa.

Jack Malik (Himesh Patel) é um cantor e compositor que nunca conseguiu fazer sua carreira deslanchar. Após evento misterioso em escala global, e um acidente pessoal relacionado a ele, Jack acorda em um mundo onde The Beatles nunca existiu. Único a lembrar as canções de uma das maiores bandas de todos os tempos, o jovem começa a fazer sucesso. Mas, é claro, a fama tem seu preço.

Aproveitar-se de canções que não são realmente suas, se ajustar a imagem que a indústria musical acha mais atraente, ter a auto-estima abalada por não fazer sucesso com o próprio trabalho e o tradicional distanciamento de amigos e família estão entre os dilemas enfrentados pelo protagonista. Problemas bastante comuns em produções sobre a busca pelo sucesso, mas que aqui se diferenciam pela premissa inusitada e a direção experiente de Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?).

A produção brinca com as referências à banda, com marcos da cultura pop e outras coisas que mudaram neste universo alternativo, enquanto desenrola a trama de Jack. Dilemas morais que poderiam levar o personagem para caminhos mais sombrios, mas o roteiro prefere seguir um caminho mais leve e divertido.

É errado ganhar dinheiro com músicas de outras pessoas, mesmo quando estas pessoas tecnicamente nunca as compuseram? É este o questionamento mais complexo da produção, que é amenizado pela crença de que o mundo precisa destas canções, e Jack é o único capaz de apresentá-las. Abrindo espaço para os romance, e o empasse com a indústria.

É aqui que entram Lily James e Kate McKinnon. A primeira encarna com muito carisma e fofura a melhor amiga/fã número 1/interesse amoroso Ellie. Enquanto Mckinnon dá vida à empresária que leva o protagonista ao estrelato. Com uma atuação um pouco mais exagerada, ela destoa um pouco criando uma personagem mais próxima dos vilões caricatos da sessão da tarde, que do tom mais doce que permeia o longa. O que não chega a comprometer, já que o carisma da comediante contorna o exagero. Outros que se destacam são o amigo esquisito/alívio cômico Rocky (Joel Fry), e a divertida participação de Ed Sheeran, como ele mesmo.

O destaque maior, é claro, fica com Patel. Além de tocar e cantar todas as canções, o ator consegue manter a integridade de Jack, mesmo quando este faz escolhas duvidosas. Tornando crível as boas intenções do protagonista, mesmo quando faz coisas erradas de forma consciente. Nunca abraçar a identidade de astro do rock, ou se encaixar completamente nos padrões da indústria, também faz parte da identificação. Jack é um "cara comum" mesmo quando é aclamado como maior compositor da face da terra.

Há ainda espaço para brincar com falta do contexto em que as canções foram criadas. Momentos históricos que protagonista é incapaz de recriar, e precisa contornar antes de lançar as músicas. Já a dificuldade de lembrar dezenas de letras e melodias, e a descoberta outros elementos que sumiram, proporcionam desculpas perfeitas para Boyle brincar com a montagem e o ritmo da produção.

Um filme simples e bem produzido, nascido de uma premissa mirabolante, que não tem vergonha de ser fofo e divertido. Yesterday é a desculpa perfeita para relembrar a trajetória dos Beatles sem recorrer a uma biografia. Cheio de referências e momentos nostálgicos para os fãs da banda, sem excluir os não aficionados. E se você é um destes não iniciados, a desculpa perfeita para conhecer a palavra de John Paul, George e Ringo.

Yesterday
Reino Unido - 2019 - 114min
Musical, Comédia romântica 

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quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Marvel's Runaways - 2ª temporada

quinta-feira, agosto 29, 2019 0
A primeira temporada de Marvel's Runaways, foi toda dedicada a mostrar como Alex (Rhenzy Feliz), Nico (Lyrica Okano), Karolina (Virginia Gardner),Gert (Ariela Barer), Chase (Gregg Sulkin) e Molly (Allegra Acosta) se tornaram os fugitivos do título. É agora, no segundo ano que realmente acompanhando a vida deste poderoso grupo à margem da sociedade, mas ainda lidando com as atividades sujas de seus pais.

Procurados pela polícia, acusados de assassinato, com seus pais como maiores inimigos, o sexteto de heróis precisa aprender a viver na rua. Onde dormir, como comer e alimentar um dinossauro são as preocupações imediatas, mas não as únicas do grupo. Enquanto isso, seus pais tramam para encontrá-los e se livrar de Jonah (Julian McMahon). Este por sua vez continua a tocar seus misteriosos planos.

É uma série com seis protagonistas, são muitos arcos para trabalhar. Mesmo assim, a série consegue reservar algum tempo para que cada um dos adolescentes desenvolva suas histórias particulares em paralelo com a busca por sobrevivência e o grande embate com seus progenitores. Assim, Molly busca por identidade e família. Gert lida com a depressão e ansiedade sem remédios. Alex encontra um novo romance em sua jornada por justiça. Chase precisa lidar com a "morte" de seu pai. Nico começa a descobrir o lado sombrio de seus poderes, enquanto sua namorada vai no extremo oposto. Literalmente um ser de luz, Karolina precisa entender e lidar com as consequências de quem realmente é.


O resultado de tantas histórias acontecendo ao mesmo tempo, é que em alguns momentos o roteiro precisa parar e dar maior atenção a um ou outro, soando episódica. Um exemplo disso é observar como a trama de Molly fica mais concentrada nos episódios iniciais, a de Chase nos finais, enquanto a de Karolina corre de forma constante ao longo dos treze episódios. Esse foco alternado não chega a atrapalhar a fluidez dos episódios, diferente de outras séries com muitos personagens onde volta e meia alguns tendem a parece desaparecer. Isso porque a relação entre os jovens torna todos relevantes, mesmo quando não são o foco. Eles não estão apenas aprendendo a sobreviver, mas também a conviver, e assim o problema de um torna-se de todos. E tanto os dilemas típicos de adolescentes, quanto as ameaças tradicionais de quadrinhos são melhor trabalhadas de acordo com as diferentes personalidades da molecada.

E por falar em relações entre adolescentes, obviamente há romances altamente influenciados por hormônios. Felizmente os roteiristas sabem incorporar estes dilemas aos "problemas de adultos" que enfrentam. Como a relação de Chase e Gert, afetada pela ausência dos remédios da jovem, ou a relação de opostos luz/sombra entre Nico e Carolina. Isso evita que os relacionamentos caiam em clichés tradicionais de séries adolescentes, ou se sobreponham a assuntos mais urgentes como sequestros, e risco de morte, soando mais verdadeiros.

Nada cliché também é o relacionamento destes jovens com os pais, e dos adultos entre si. Completamente sem controle sobre a bola de neve que seus segredos criaram, mesmo quando buscam o mesmo objetivo, cada um cumpre sua própria agenda, cheias de mais segredos e desconfiança. Dificuldade de comunicação que vai caro mais tarde. 

Já com os jovens a relação é de amor e ódio. O carinho da relação entre pais e filhos, entrando em conflito com a disputa entre eles. Em ambos os lados, adolescentes e pais, acompanhamos tanto escolhas absurdas em busca de seus objetivos, ou temerárias movidas por sentimentos. É aqui que há espaço para o programa continuar discutindo temas que vão além dos protagonistas, já iniciados no ano anterior. A fé cega dos membros da Igreja do Gibborim, é uma das discussões mais interessantes.

De volta aos personagens, apenas Jonah parece não ter dúvida alguma, sua história e verdadeiro objetivo são finalmente revelados. Expandindo ainda mais um universo bastante rico. Se o primeiro já trazia adolescentes superpoderosos, uma organização maléfica secreta, uma seita maluca, assassinatos, sacrifícios, tecnologias super avançadas, disputa de territórios, viagem no tempo e até dinossauros. Esta temporada acrescenta, policia corrupta, profecias, alienígenas e invasores de corpos. E sim, por hora, esta miscelânea de temas ainda faz sentido, e faz com que a trama tenha um ritmo intenso e cheio de reviravoltas.

Os efeitos especiais mantém a mesma qualidade da temporada anterior. A versão digital de Alfazema, é a única que destoa um pouco, mas a produção parece ciente disso, e opta pela versão animatrônica do dinossauro sempre que possível. Dito isso, vale lembrar é uma série de super-heróis com temática adolescente, e que não tem vergonha de ser quadrinhos. Logo, alguns efeitos são assumidamente mais caricatos, como o show de luzes de Karolina. Meio brega talvez, mas nunca incoerente com a proposta do programa. Complete o pacote com um elenco eficiente, e temos uma excelente adaptação de quadrinhos. Ah! E repare nos figurinos e cabelos, volta e meia fazem alusão direta as versões dos quadrinhos.

Apesar de ter três episódios a mais neste segundo ano, treze no total, a série consegue manter um ritmo constante que mantém o espectador atento e é perfeito para o formato maratona de streaming. O ritmo e a sensação de perigo e urgência são tão uniformes, que só percebemos estarmos nos aproximando do clímax e do obrigatório gancho, quando já estamos no final da temporada.

Marvel's Runaways é uma série de quadrinhos com temática adolescente, mas não é feita apenas para o público jovem. É indicada para todos que gostam de produções com superpoderes, organizações secretas maléficas, reviravoltas, seres especiais e gadgets impossíveis. É atual, ágil, inteligente e divertida, talvez exagere hora ou outra nas nas habilidades extraordinárias e alta tecnologia, mas é aí que reside parte da graça de ser um herói adolescente em fuga lutando contra vilões de quadrinhos.

A terceira temporada de Marvel's Runaways já foi confirmada para dezembro de 2019, e vai incluir um crossover com Manto e Adaga, outra série da Marvel produzida pelo Hulu. No Brasil é exibida pelo canal Sony e sua primeira temporada está disponível na Netflix.

Leia a crítica da primeira temporada Marvel's Runaways, confira também Manto e Adaga (Marvel's Cloack & Dagger)
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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Piteco - Ingá

segunda-feira, agosto 26, 2019 0
Então a Thuga é a xamã do povo de Lem, que precisa migrar da pedra do Ingá onde vivem para escapar da seca. Não é novidade que as Graphic MSP, reinventam e acrescentam bastante ao universo criado por Maurício de Souza. Mesmo assim, é difícil não se surpreender com a construção de mundo e mitologia que o cartunista Shiko trouxe para sua versão de Piteco.

O povo de nosso personagem título, está prestes a partir em busca de terras férteis para o plantio. Mas Thuga é sequestrada na véspera da partida pelos homens-tigre, outro povo vizinho e com origem em comum com os habitantes de Lem. Piteco, é claro, fica para trás para resgatar sua amada, enfrentando uma longa jornada cheia de perigos, ação e misticismo.

Cores mais escuras, monstros assustadores, violência, corpos expostos, com músculos e curvas acentuadas, Piteco - Ingá não é exatamente para crianças. A história é simples, um resgate. Mas a riqueza de detalhes, e o tom mais maduro destaca a obra dos demais volumes da série. Esta é também a obra que menos tenta referenciar a versão dos quadrinhos, tomando como base, apenas a inspiração para o visual dos personagens e o contexto em que vivem.

Assim, saem os dinossauros e entram uma versão fictícia de animais pré-históricos, tigres e morcegos gigantes. Versões do autor para mitos tipicamente brasileiros como boitatá (M-Buantan) ou curupira e caipora (Arapó-Paco) dão conta da parte sobrenatural da aventura. Shiko também situa pela primeira vez a história. Sempre soubemos que o Piteco era um "homem das cavernas" tipicamente brasileiro, mas pela primeira vez descobrimos por onde morou. A Pedra do Ingá, que da título a aventura realmente existe. Fica na cidade de Ingpa no agreste da Paraíba, realmente tem símbolos misteriosos esculpidos por uma civilização perdida.

Temos ainda vislumbres de como a sociedade de Lem é organizada internamente, sua relação com outros povos, e sua história. Entre os dilemas dos indivíduos único realmente trabalhado é a relutância do caçador Piteco em se encaixar na vida cultivadora de sua aldeia. É a mudança em Thuga que se destaca. Antes apenas uma mulher doce e obcecada apaixonada por Piteco, em uma luta constante para leva-lo ao altar, agora a moça é a guia de seu povo, cheia de sabedoria e serenidade. Ogra também está diferente. Melhor lutadora da aldeia, e nem de longe feia ou masculinizada, sua presença reforça a sugestão de que este povo valoriza a força e a sabedoria das mulheres.

Por outro lado, as muitas diferenças, se distanciam bastante das versões originais. O que pode incomodar aqueles com uma conexão maior com o material original. Particularmente, acredito que estas mudanças são necessárias para adaptar o universo para o formato, e temática atuais, além de fornecer mais estofo para a aventura. Já a mudança no visual, oferece o desafio interessante de reconhecer características marcantes dos personagens em um novo design, como o cabelo e barbas únicos do piteco, e as curvas mais voluptuosas de Thuga.

E já que estamos falando do visual, as páginas trazem cores fortes e e traço firme, para construir um cenário rico em detalhes. Não é incomum diminuir o ritmo da leitura para observar com mais detalhes as paisagens, criaturas e principalmente os adornos que diferenciam as tribos. As passagens dramáticas acertam em usar a escuridão da noite e a luz do fogo, para criar o tom para cada sequencia, seja tensão e mistério, ou mesmo a melancolia da necessidade de abandonar o lar no início da história.

Para completar o pacote, a seca do rio que permitia a vida na Pedra do Ingá, traz uma série de temas atuais e comuns ao nordeste do país, como seca e migração. A cooperação entre povos para tornar a vida de todos melhor também é um dos temas embutidos nesta aventura cheia de monstros e perigos.

Que o Piteco era brasileiro já sabíamos, mas em Ingá também descobrimos que ele tem uma cultura e história bastante ricas, as nossas. Shiko, apresenta isso através de uma jornada simples, mas extremamente rica em detalhes, tanto visuais como culturais, históricos e mitológicos. Mostrando homens-tigre e os povos de Lem e Ur, poderiam muito bem ter existido, e que suas "lendas", dariam origem a histórias incríveis, sobre as quais adoraria ouvir mais.

Piteco - Ingá
Shiko
Panini Comics
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