sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Apóstolo

Uma dúvida fica na mente ao terminar de assistir o novo filme de terror da Netflix: afinal quem é o Apóstolo do título? A dúvida é reflexo da falta de foco do longa, que parece não ter decidido a história de quem pretende contar.

Oficialmente, acompanhamos Thomas Richardson (Dan Stevens, Legion, A Bela e a Fera), em sua viagem a uma ilha remota para resgatar sua irmã, que fora sequestrada por um culto religioso. Lá, descobrimos não apenas a corrupção naquele "modo de vida santo", que seu líder o Profeta Malcom (Michael Sheen, A Rainha) prega. E claro, uma entidade misteriosa que reside na região.

Sem grandes apresentações Apóstolo nos coloca direto na missão de salvar a moça sequestrada em troca de resgate, seguindo os passos de Thomas. Sabemos apenas que o protagonista sumira por tempo o suficiente para ser dado como morto, e chega bem à tempo de assumir a tarefa de resgate que o pai é incapaz de cumprir. A pouca informação à esta altura não é de fato um problema. Não são poucas as produções que aprofundam nosso conhecimento dos personagens conforme estes enfrentam desafios que os fazem relembrar suas motivações e enfrentar seus medos. Mas apóstolo não consegue se manter neste caminho.

Logo que começa a investigar o funcionamento da seita o filme parece perder interesse por seu então protagonista. Logo, seu ponto de vista é deixado de lado, para mostrar as histórias não apenas dos líderes da seita, mas também de alguns de seus moradores. O resultado é um vai-e-vem sem ritmo entre tramas paralelas, que mais cansa do que intriga, e não conta bem nenhuma dos arcos.

Terminamos com uma vaga ideia de como a comunidade se formou e funciona. Outra vaga ideia sobre a relação de hierarquia entre os fundadores do culto. Outra sobre como as pessoas são convencidas a participar, e as regras de que aceitam acatar. E ainda menos informação é dada sobre a entidade que veneram.

Antes da reta final, o filme lembra si de voltar ao seu protagonista original. Mas as explicações e falas, soam como discursos acalorados de novela mexicanas. Nada contra o folhetim de nossos irmãos, mas o estilo está longe de funcionar aqui. É provável que o tom piegas, seja resultado do fato que este é apenas o segundo trabalho em língua inglesa do diretor e roteirista Gareth Evans.

Mas e o terror? Como Apóstolo pretende assustar o espectador? Aparentemente isto também não foi bem definido. Iniciantemente apostando no mistério, o filme se transforma em algo muito mais brutal e visceral em sua reta final. Aparentemente a produção economiza na violência por mais da metade da projeção, apenas para mergulhar no gore em seus últimos minutos.

Stevens e Sheen, maiores destaques do elenco, bem que tentam. Mas é difícil fazer muito com estes personagens mal construídos e trama embolada. O mesmo vale para os aspectos técnicos, cujos bons momentos de composição e cenografia, ficam perdidos em meio a uma trama longa e confusa.

Uma seita religiosa em crise, um protagonista cheio de cicatrizes literais e metafóricas, rituais misteriosos, entidades à espreita, humanos ameaçadores, uma "deusa" a ser venerada, uma ilha com atividades sobrenaturais. Apóstolo tenta abordar um monte de assuntos, e acaba não contando nenhuma história completa. Longo e pouco surpreendente, causa mais nojo e desconforto do que medo. Ao invés de assutado, vai te deixar apenas com aquela já mencionada dúvida: quem é o tal Apóstolo afinal?

Apóstolo (Apostle)
EUA - 2018 - 130min
Terror

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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

A Maldição da Residência Hill - 1ª temporada

Uma família inocente se muda para uma casa antiga, e a residência assombrada ameaça e muda suas vidas para sempre. A premissa de A Maldição da Residência Hill é uma velha conhecida do gênero de terror. De fato, A Assombração da Casa da Colina de Shirley Jackson, livro em que a série foi baseada, já ganhou duas adaptações para o cinema. Então como fugir do cliché do subgênero, e ao mesmo tempo preencher longas dez horas de projeção de uma série? Apostando não apenas na história, mas na forma de contá-la.

Então acompanhamos a família Crane - pais e cinco filhos - em dois momentos distintos e cruciais de suas vidas. Em 1992, quando se mudaram para a mansão octagenária. E nos dias de hoje, com as crianças já crescidas e com suas vidas marcadas não apenas pelos acontecimentos na casa, mas principalmente pelas duvidas - deles e nossas - sobre o que realmente aconteceu na residência.

Assim, os episódios passeiam entre as diferentes épocas, com transições tecnicamente fluidas e bem construídas, que valem um olhar mais atento. Enquanto narrativamente, o roteiro opta por unir estes dois momentos através de temáticas e símbolos. Criando uma curiosa relação de causa e efeito que transcende os conceitos de linhas temporais. Além de deixar o espectador sempre alerta para as conexões entre os tempos, já que estas geralmente fornecem explicações e motivações para acontecimentos e ações dos personagens.

E por falar nos personagens, estes também recebem uma atenção meticulosa do roteiro, através de episódios de ponto de vista. A primeira metade da temporada é dedicada a mostrar a experiência de cada uma das crianças Crane na casa, e como suas vidas seguiram a partir disso. E claro, os acontecimentos da infância refletem em suas vidas adultas. Vale mencionar aqui, que a série traz diferentes tipos de fantasmas, entre eles os das nossas mentes, traumas, medos e desejos que carregamos.

Stevie (Michiel Huisman/Paxton Singleton) abraça o ceticismo exagerado, e a existência de problemas psicológicos na família para explicar o que viveu. Shirley (Elizabeth Reaser/Lulu Wilson), incorporou o sentimento de perda à sua vida, ao abrir uma funerária. Theo (Kate Siegel/Mckenna Grace) evita contato e relações humanas complexas. Luke (Oliver Jackson-Cohen/Julian Hilliard) é dependente químico. E Nell (Victoria Pedretti/Violet McGraw) convive com sérios distúrbios do sono. Todos tem uma péssima relação com o pai, dúvidas quanto ao passado e pesadelos.

Esta apresentação minuciosa de cada um é crucial para a compreensão dos personagens, e na criação de empatia no espectador. Não se trata apenas de um grupo de personagens que vão morrer ou sobreviver durante uma assustadora experiência. É uma família, que conhecemos e com qual passamos a nos importar. Os diferentes pontos de vista, também fornecem a possibilidade de acompanhamos os mesmos momentos por diferentes ângulos. Esta repetição, ajuda na construção da tensão, na compreensão da dinâmica da família, cria ciclos e ecos narrativos, fornece detalhes novos a cada nova perspectiva e atiça nossa curiosidade de compreender todo o quadro. Ou seja, é um recurso eficiente e bem aplicado.

Mas não se engane, a série também tem seus fantasmas literais. As entidades estão sempre presentes, estejam eles ativos na cena, ou apenas existindo em um assustador canto escuro da tela. Vale ficar atento para encontrá-los. E aqui a série se diferencia ainda mais de outras obras do sub-gênero "casa assombrada". Deixando de lado os "jumpscares" (aqueles sustos fáceis onde a ameaça surge do nada, acompanhado de aumento repentino da trilha sonora - Bú!), e apostando no suspense, ambientação, empatia e na combinação de fantasmas literais e metafóricos. Abordando uma gama maior de medos e, consequentemente, alcançando/assustando um maior número de pessoas.

Diferença esta que se apresenta também na forma de contar a história. A produção favorece efeitos práticos, explora ao máximo as possibilidades de seu assustador cenário/personagem, a casa, e brinca com ângulos e movimentos de câmera. A experimentação do diretor Mike Flanagan, que também é roteirista, chega ao seu auge no excelente sexto episódio. Duas Tempestades é formado, por longos complexos e verborrágicos planos sequências, que incluem a presença de crianças e fantasmas. Um desafio de produção que a série se dispôs a encarar, e o resultado é excepcional.

O elenco mirim é outro acerto. Bem escolhidos e dirigidos, os pequenos Violet McGraw e Julian Hilliard, convence ao passar vivacidade inocência que contrastaram com suas versões adultas. Paxton Singleton, é coerente como irmão mais velho prestativo, mas alheio à realidade. Lulu Wilson (Annabelle 2, Sharp Objects) e Mckenna Grace (Eu, Tônia, Um Laço de Amor), se unem ao irmão naquela fase da vida em que, apesar de não entendermos o que realmente se passa, já percebemos quando algo não vai bem.

No elenco adulto o destaque fica com Carla Gugino, que passa com mesma intensidade os sentimentos de fragilidade, preocupação e confusão, que a Olivia enfrenta. Sempre com a doçura de uma mãe amorosa. Timothy Hutton e Henry Thomas (o Eliot, de E.T.:O Extraterrestre), conseguem criar coesão entre os diferentes estágios da vida de Hugh, pai da família. Outros rostos conhecidos em cena, são Michiel Huisman (o Daario Naharis de Game of Thrones) e Elizabeth Reaser (Saga Crepúsculo).

Apesar de ser tratado pela Netflix como primeira temporada, a produção seria melhor categorizada como minissérie. A história é fechada em si e não deixa pontas soltas. Não é impossível trazer a família Crane para enfrentar novos fantasmas, mas isto traria o risco de arruinar um final bem construído. Já a casa, tem mais de cem anos de história, e uma quantidade igualmente grande de fantasmas. Logo, eu não me surpreenderia se a produção ganhasse um segundo ano no estilo de antologia, ao exemplo de American Horror Story, mas com a residência como base.

Ciente de sua premissa exaustivamente explorada, A Maldição da Residência Hill se diferencia ao apresentar bem seus personagens - inclua aqui a casa em si -, construir relações e personalidades complexas, e envolver o espectador no mistério. Traz uma narrativa cheia de ecos e ciclos, que se complementam e completam, resultando em um final emocionante e convincente, apesar dos aspectos sobrenaturais da história. E também assusta no processo.

Deve agradar quem gosta de séries que demandam atenção como Westworld, e principalmente quem prefere o terror que vai além do susto fácil ou do medo momentâneo. A Maldição da Residência Hill constrói o medo, ao invés de simplesmente assustar. É uma grata e assustadora surpresa!

A Maldição da Residência Hill tem dez episódios com cerca de uma hora cada. Todos já estão disponíveis na Netflix.

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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

8 professores da ficção com quem você gostaria de ter aulas

Quem nunca sonhou em ter uma aula com aquele professor descolado que volta e meia aparecia na Sessão da Tarde? Ou ainda aprender lições com um mestre que só existe nas páginas? Pois neste dia dos professores, resolvi postar a minha lista de professores da ficção com quem sempre quis ter aulas. Vem descobrir se você concorda comigo!

John Keating
Filme: Sociedade dos Poetas Mortos - 1989
Um professor com métodos que realmente alcançam os alunos e que os ensina a pensar por conta própria, é tudo que queremos - aliás que precisamos cada vez mais. Este era John Keating (Robin Williams), em Sociedade dos Poetas Mortos. Infelizmente, a sociedade da Welton Academy de 1959, não estava pronta para este capitão. Nós estaríamos!

Professora Helena
Novela: Carrossel - várias versões entre 1966 e 2012
Doce e compreensiva com os maiores pestinhas da escola. Estudar com Professora Helena de Carrossel foi sonho de infância de várias gerações. Mas é provavelmente a versão de Gabriela Rivero, a primeira exibida no Brasil, no início da década de 1990 quem causou maior impacto entre os pequenos.

Dewey Finn
Filme: Escola de Rock - 2003
Ok, tecnicamente Dewey Finn (Jack Black) não é um professor de verdade. Mas até que ele consegue ensinar alguma coisa para a molecada de Escola do Rock, quando toma o lugar de seu amigo professor de verdade Ned Schneebly. Embora seja ele quem recebe as melhores lições. E quem nunca quis que seu professor cancelasse as aulas, montasse uma banda com a turma e levasse todos para um palco de um show de rock?

Irmã Mary Clarence
Filme: Mudança de Hábito 2 - 1993
Deloris Van Cartier (Whoopi Goldberg), também não é professora propriamente dita. Mas depois de se fingir de freira, a irmã Mary Clarence, e ensinar um convento inteiro a se relacionar melhor com a comunidade, até a Madre Superiora (Maggie Smith) achou que ela seria uma excelente professora de música para adolescentes rebeldes. E admita, você também aprendeu que "se quiser ser alguém na vida, e chegar à algum lugar, é melhor acordar e se ligar!".

John Kimble
Filme: Um Tira no Jardim de Infância - 1990
Talvez esta lista esteja acumulando uma quantidade inapropriada de "não professores", mas como deixar John Kimble (Arnold Schwarzenegger) de fora? Não há ninguém melhor que um policial disfarçado, com aparência de um "Exterminador" para proteger criancinhas de seis anos de um bandidão daqueles. Acompanhar o gigantesco astro de ação tentar lidar com crianças tão pequenas é uma atração à parte, mas não é que suas aulas acabam sendo ótimas depois que ele pega o jeito?

Remus J. Lupin
Livro: Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban - criado por J.K.Rowling em 1999
De volta aos professores propriamente ditos, Hogwarts tem dezenas de exemplos, mas vamos selecionar um só. Remus Lupin (David Thewlis, no cinema) foi de longe o melhor professor de Defesa Contra as Artes das Trevas que Harry Potter e seus amigos tiveram, mesmo precisando faltar por alguns dias todo mês. Aulas práticas, divertidas e bastante instrutivas tiravam o melhor de seus alunos.

Henry Jones Júnior
Filmes: franquia Indiana Jones (1981 - 2008)
A gente até esquece que Henry Jones Júnior, é professor. Isso porque, é no campo de "pesquisa", que o professor Indiana Jones (Harison Ford) mais se destaca. E como adoraríamos ter aulas em campo com ele, encontrando tesouros, fugindo de bolas gigantes e derretendo nazistas.

Charles Xavier
Quadrinhos: X-Men - criado em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby
Existem também aqueles professores que são uma figura paterna para seus alunos. Charles Xavier (Patrick Stewart/James McAvoy, no cinema) "adotou" todos os mutantes que a sociedade resolveu tornar órfãos através da intolerância e rejeição. Criou uma escola para proteger seus alunos superdotados e ensiná-los a lidar com seus poderes e com o mundo a sua volta. Ah, ele também é o líder de uma equipe de super-heróis e um dos mutantes mais poderosos do planeta, e uma excelente referência a um período da história estadunidense, mas isso é assunto para outro post.

E aí sua lista é parecida com a minha? Seja ela qual for, não esqueça de que estes professores são inspirados por mestres da vida real. Eles talvez não tenham super-poderes, magia ou talento musical, mas estão por aí dispostos a formar pessoas melhores, é só procurar. E quando encontrar um deles, dê o devido valor ao seu trabalho.

Feliz dia dos Professores!

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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Nasce uma Estrela

É muito difícil não criar expectativas com relação à Nasce uma Estrela. Mesmo fugindo de trailers e afins, é impossível não saber que Lady Gaga é uma das estrelas do filme, ou ter ouvido que a produção tem arrancado lágrimas da platéia. A coisa fica ainda mais complicada se lembrarmos que esta é a quarta versão desta história, e que Hollywood adora, mergulhar nas conturbadas vidas de estrelas da música. Logo, é inevitável adentrar na sala escura sem esperar algo mais da sessão, antecipação injusta com qualquer produção.

Jackson Maine (Bradley Cooper), um renomado astro da música enfrentando sérios problemas com álcool e drogas, esbarra em Ally (Lady Gaga), uma talentosa cantora desesperançada por pela rejeição da indústria à sua aparência. Com a ajuda dele, a moça começa a galgar o estrelato, e nós passamos a acompanhar suas vidas juntos como amantes e estrelas segundo em direções completamente opostas. Ally enfrenta as pressões para se adequar e alcançar o topo. Enquanto Jackson trava batalhas com seus vícios que os levam cada vez mais para baixo.

Se ficar com a sensação de já ter visto este filme não se espante. E não me refiro apenas às versões anteriores da história lançadas em 1937, 1954 e 1976. Mas ao fato de que o cinema adora contar e recontar estas duas histórias, da artista talentosa que perde sua essência conforme alcança o sucesso, e do astro que sucumbe às pressões da fama. Jornadas previsíveis que a indústria vai continuar contando com sucesso, pois é a forma com que cada um enfrenta essa jornada, e as diferentes abordagens dela que tornam estas produções diferentes. E claro, há sempre o fascínio atrelado ao estrelato para nós reles anônimos do lado de cá da tela.
Chegamos então a visão de Bradley Cooper desta conhecida história, já que além de protagonista, ele também é diretor e roteirista do longa. Esta adaptação foca no relacionamento de Jackson e Ally, construído pela música e "desconstruído" por suas carreiras. Suas jornadas são apresentadas de forma paralela, mas seguem caminhos distintos e a dupla precisa lidar com os efeitos às vezes tóxicos, às vezes benéficos desta discrepância.

Apresentando um olhar mais voltado para os bastidores, do que para a fama em si. A abordagem escolhida se assemelha ao documentários que acompanham bandas em turnês, apresentando todo o caos e urgência dessa parte da vida destes artistas. Frenesi evidenciado pelo sufocante uso excessivo de closes no roto dos protagonistas. É apenas quando os personagens estão em casa, longe de plateias que de fato conseguimos ver todo o quadro, literal e metafórico.

A produção tem duração relativamente longa, 2h16 minutos, que é sentida, especialmente em seu terceiro ato. Falta economia e objetividade em algumas cenas, arrastando o ritmo em alguns momentos. Nada que comprometa muito a experiência para aqueles que conseguiram se envolver com os protagonistas.

E por falar nos personagens, Cooper surpreende como astro do rock, especialmente cantando. E é visível o trabalho de construção de personagem em sua voz e trejeitos. Acreditamos que Jackson Maine tem tanto o talento para atrair multidões com suas músicas, quando os vícios que por vezes vem junto com essa vida. Mas talvez seja sobre a outra protagonista que você esteja curioso.

Nos palcos a atuação de Lady Gaga é impecável, assim como na vida real, ela sabe a mensagem e emoção que deve passar com cada música. E as canções aqui, claro, refletem o que os personagens estão enfrentando fora dos palcos. Fora dos holofotes a construção de Ally é confusa, muito reativa a personagem é sempre levada por alguém, Jackson, seus amigos, o produtor... Falta ambição à personagem, e consequentemente a convicção em suas escolhas, mesmo nos momentos em que ela estaria iludida pela indústria. Gaga entrega um bom trabalho, mas o roteiro não permitiu que ela brilhasse tanto nas cenas comuns, como o faz nas musicais. Ao menos, este lhe permite ser genuína, nos momentos pré-fama, sem lantejoulas e vestidos de carne, apenas talento. 

As canções são excelentes, a maioria delas composta por Cooper, Gaga e parceiros. Oferecem de forma sutil o contexto para o que os personagens estão sentindo e pensando. A maioria vale o download. A música final se encaixa convenientemente bem demais ao desfecho da história, considerando as circunstâncias em que foram criadas. Mas é bonita, emocionante e atende ao final melancólico do romance.

Nasce uma Estrela é sim uma história bem contada e emocionante, mas não é tão surpreendente quanto alardeiam. É um bom começo de Cooper na carreira de diretor, que apesar de um ou outro escorregão de iniciante, entrega um trabalho competente. Assim como Gaga, que temos de lembrar, apesar de toda sua expressividade musical, ainda da seus primeiros passos como atriz oficialmente. A produção tem um viés um tanto quanto clichê, é verdade, mas isso é inerente ao tema abordado. E a forma como apresenta diferentes "o ciclo de vida" de um astro, é seu diferencial. Não estamos vendo apenas o nascimento de uma estrela, mas também a queda de outra.

Nasce uma Estrela (A Star Is Born)
2018 - EUA - 136min
Drama, Romance


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terça-feira, 9 de outubro de 2018

Punho de Ferro - 2ª temporada

Quando uma pessoa repete algo sobre si mesmo exaustivamente, existe uma enorme possibilidade de que ela não tenha total convicção do que diz. De fato, ela provavelmente está insegura quanto a veracidade da informação, mesmo que de forma inconsciente. É essa impressão que Danny Randy (Finn Jones) passa sempre que anuncia: Eu sou o Punho de Ferro Imortal! A primeira temporada de Punho de Ferro, refletia essa insegurança, ao não mergulhar no universo místico do personagem. Em seu segundo ano, tanto a série, quanto seu protagonistas parecem estar cientes disto e abertos à mudança.

O Tentáculo foi destruído pelos Defensores. E apesar da promessa que fez ao Demolidor, de proteger Nova , Danny ainda se sente sem propósito na vida. Ele precisa descobrir o lugar do Punho de Ferro, agora que não há uma organização maléfica para destruir, ou uma cidade mística para proteger. Além, é claro, de proteger a cidade. E ele não é o único a lidar com as consequências de temporadas passadas.

Sentindo o peso de suas ações, Colleen (Jessica Henwick) aposentou sua espada e tenta ajudar a comunidade com métodos menos agressivos. Ward (Tom Pelphrey), precisa reestruturar sua vida sem a influência maléfica do pai. Afastada de todos, Joy (Jessica Stroup) culpa Danny e Ward pelos acontecimentos da primeira temporada. Enquanto isso, Davos (Sacha Dhawan), finalmente mostra a que veio, sim ele é o principal vilão da vez, com motivações bem construídas e compreensíveis. Junto com ele, vem também e a mitologia de K'un-Lun que tanto fez falta anteriormente.

Ao mesmo tempo que descobrimos mais sobre o Punho de Ferro, Danny encara uma jornada de auto-conhecimento. Esta busca, somada as consequências das ações de Davos que o herói precisa enfrentar, humanizam o personagem. Pela primeira vez realmente nos importamos com seu futuro. Entretanto, a empatia maior em cena ainda não é com o protagonista, e isto é um problema.

São Collen e Misty Knight (Simone Missick), aquelas com quem mais nos relacionamos, especialmente quando trabalham juntas, são elas também quem mais impulsionam a trama, enquanto o protagonista encara suas dúvidas. Longe de ser apenas a namorada do mocinho, Colleen tem sua própria busca. Sua jornada e a de Danny são paralelas, interferem uma na outra e em seu relacionamento, o melhor estruturado na parceria Marvel/Netflix até agora. Já a aparição da detetive da série do Luke Cage, vai além da participação especial protocolar de um episódio. Sua chegada acelera o ritmo da narrativa, e sua dinâmica com Wing é acertada, nos dando um mostra do que seria uma série das Filhas do Dragão, parceria que a dupla já formou nos quadrinhos.

E por falar em ritmo, os primeiros episódios ainda pecam pela lentidão. Aparentemente a série escolheu restabelecer com calma o lugar de cada um na trama. Mas este atraso é compensado, uma vez que abre caminho para que os personagens se desenvolvam melhor a partir daí. Os mais beneficiados claramente, são Joy e Ward, já que a dupla poderia facilmente se perder, com o protagonista mais focado em seu papel de herói, do que o de herdeiro. O CEO das indústrias Randy, tem que administrar seus traumas vícios e repensar todas as suas relações. Enquanto uma revoltada Joy faz as piores escolhas para "superar" a raiva pelas ações do pai, irmão e amigo. Guinadas necessárias para tornar os personagens mais profundos e menos apáticos, sem desrespeitar suas características previamente estabelecidas. Ward continua um banana, e Joy uma mimadinha.

Entre as novidades, a mais relevante em cena é Walker (Alice Eve). Com Transtorno Dissociativo de Identidade, a personagem oscila entre os papéis de vilã e vitma, forte e indefesa ao longo da temporada. Eve, consegue pontuar as mudanças de forma fluida e até dar um ar divertido a sua condição curiosa. Seus alter egos são bem humorados de forma diferente apesar de tudo. Original das histórias do Demolidor, a personagem tem uma história de origem bem construída, e seria interessante vê-la em novas incursões neste universo urbano da Marvel.

Mas é a contratação de Clayton Barber, coordenador de lutas de Pantera Negra, a novidade que soluciona a maior reclamação dos fãs. As sequencias de luta melhoraram significativamente. Novamente são aquelas com Colleen as que chamam mais atenção, mas no geral a Nova York que luta kung-fu, e principalmente Davos e Danny, não parecem estar reaproveitando as coreografias já vistas em Demolidor.

Punho de Ferro ganhou também um novo showrunner, e com ele a disposição de se reinventar. Ainda falta muito a ser melhorado. Por mais que eu adore ver as Filhas do Dragão em ação, Danny precisa protagonizar sua série. A produção precisa começar tão bem quanto termina, e manter este bom ritmo ao longo da temporda. Mudar o número de episódios de treze para dez, foi o primeiro passo correto nesta direção.

O resultado é uma temporada que termina melhor do que começou, e corrige muitos erros do primeiro ano. E nos deixa com um cenário mais ousado e animador do que as aparições anteriores do herói, além de indicações de mergulhar ainda mais na mitologia do personagem, abandonando completamente o medo de abordar magia nesta NY mais "pé no chão" criada para os os heróis urbanos da Marvel. Agora resta torcer para que o terceiro ano continue trilhando este caminho e finalmente leve Danny a se tornar o "Punho de Ferro Imortal", que deveria ser.

A segunda temporada de Punho de Ferro tem apenas 10 episódios, ao invés dos 13 do primeiro ano. Todos já disponíveis na Netflix .

Leia a crítica do primeiro ano, confira dicas úteis para sua maratona do herói, e descubra mais sobre as outras séries deste universo Demolidor, Jessica JonesLuke Cage e Defensores.
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quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Venom

Não foram poucos os que questionaram a necessidade de um filme sobre o Venom. A revelação de que não haveria menção ao Homem-Aranha, colocou ainda mais dúvidas na cabeça dos fãs. Uma vez que o simbionte é um vilão do universo do teioso, e depende de determinadas relações graças à sua natureza parasita. As únicas coisas que realmente justificariam a existência desta aventura, seriam um roteiro realmente bom e uma nova abordagem do personagem, tanto no visual como em sua construção. Vale lembrar que Venom já apareceu nas telonas em Homem-Aranha 3 de 2007. Ou seja, esperávamos algo novo e bem feito, que justificasse sua existência.

Eddie Brock (Tom Hardy) é um jornalista investigativo abusado que tem seu próprio quadro em uma emissora de São Francisco. Ele é demitido quando ultrapassa os limites durante sua entrevista com Carlton Drake (Riz Ahmed), criador da Fundação Vida, que investe em missões espaciais para salvar a humanidade. Seis meses mais tarde, ainda sem emprego, namorada ou perspectivas, o repórter é procurado Dra. Dora Skirth (Jenny Slate), confirmando suas suspeitas sobre os métodos de Drake, que a esta altura está usando humanos como cobaias em testes com alienígenas.

A sinopse parece longa e complicada, mas não se engane, Venom é bastante simples e previsível. De fato, o longa parece fora de seu tempo, se assemelhando mais às produções do gênero - sim, adaptações de quadrinhos já são um gênero - do início dos anos 2000, do que das produções atuais, tanto na estrutura quanto no visual. A trama é bem simples, o protorganista está na pior, passa por um evento que lhe concede habilidades e precisa aprender a lidar com elas à tempo de vencer o perigo maior ao final do longa. A diferença aqui, é que as tais habilidades, vem com uma personalidade junto.

Era na dinâmica de convivência forçada entre Brock e Venom que residia o maior potencial da produção. Mas, suas personalidades não funcionam bem juntas, resultando apenas em momentos de estranheza ou cômicos, alguns deles bem forçados. Sozinhas suas características também não conquistam a emparia do espectador. O jornalista bombado, que arruma "altas confusões", e simplesmente desiste de limpar seu nome nos tempos atuais quando qualquer um pode ter seu próprio veículo online, não convence. Já o simbionte muda de objetivos e modus operante quando convém ao roteiro. Onde vai parar a fome desenfreada, e o sentimento de superioridade em relação aos humanos quando a luta principal se aproxima?

Esta instabilidade não se restringe aos personagens, as regras também mudam. Logo no início aprendemos que a conexão entre humano e simbionte depende compatibilidade perfeita, e que mesmo assim, o ajuste de suas "vidas juntos" é lento e doloroso. Mas quando preciso, os alienígenas saltam de um humano a outro sem período de adaptação, ou sequela para nenhum dos envolvidos. Em alguns momentos a "possessão" alienígena tem ares de terror, em outros a situação é cômica. 

De volta aos personagens, o vilão humano, até tem uma justificativa compreensível. Ele quer salvar o mundo com aqueles conhecidos conceitos errados e radicais. Mas não consegue evitar cair no cliché de vilão megalomaníaco. Situação agravada quando este perde seus objetivos assim que se associa com o vilão alienígena. Riot, é o tradicional líder de dominação extraterrestre, e apenas isso. 

Tem ainda espaço para o par romântico "da vez" Anne (Michelle Williams, precisando conversar com seu agente sobre só escala-lá como "esposa de alguém), que está ali apenas para seguir a fórmula, que existe uma moça prefeita a ser almejada. Dr. Dora Skirth (Jenny Slate), é uma representação feminina melhor trabalhada, mesmo com seu pouco tempo de tela.

Se a história não surpreende, e os personagens não são bem construídos as esperanças ficam na ação e efeitos especiais. O filme entrega cenas de ação que funcionam, mas não surpreendem. Os poderes de Venom, são interessantes inicialmente, mas logo que a curiosidade passa estes se mostram repetitivos. Suas cenas de luta tem certo urgência, quando o alienígena combate os frágeis humanos. Entretanto, quando chega a luta principal entre os simbiontes, a coisa vira um emaranhado de CGI fluido, incompreensível, sem peso algum. Ao menos, grandes lutas finais com excesso de computação gráfica ainda são um problema nas produções atuais.


O resultado destes conjuntos equívocos, não é um filme ruim - é possível sim ter duas horas de entretenimento escapista com Venom - mas uma produção que já nasceu datada e esquecível. Não duvido que quinze anos atrás, este filme fosse um sucesso surpreendente. Agora é apenas mais do mesmo. 

Provavelmente existe uma justificativa para a existência de um filme solo de Venom afinal a criatividade não tem limites. Mas esta produção não encontrou um bom argumento. Soa como a Sony tentando marcar presença, enquanto o excelente Peter Parker de Tom Holland não está disponível.

Venom
2018 - EUA - 112min
Ação, Ficção científica, Quadrinhos


P.S.: O filme tem duas cenas pós créditos.
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quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A Primeira Noite de Crime

Que fatores levariam um governo a decidir que uma noite de crime liberado seria uma solução econômica para o país? Como a população recebeu a proposta? Existe alguém combatendo essa ideia? Como uma sociedade capitalista sobrevive com o crescente extermínio da classe trabalhadora? Porquê os participantes usam máscaras se o crime está liberado? Estas e outras perguntas já ecoavam na cabeça do espectador no primeiro filme da franquia Uma Noite de Crime. Os dois longas seguintes, se limitaram a emular o primeiro ao invés de ampliar seus conceitos. Então chega A Primeira Noite de Crime com a proposta de mostrar como a violência anual legalizada começou.

Um experimento social para diminuir a criminalidade é proposto pelos New Founding Fathers of America, novo partido que controla os Estados Unidos em sua maior crise econômica e social. Moradores da carente Staten Island, são coagidos convidados a ficar na ilha e participar das 12 horas contínuas onde todos os crimes são liberados. Inclua aqui o incentivo de cinco mil dólares, mais bônus para quem participar, e claro, segundas intenções do governo.

Com um novo diretor no comando, Gerard McMurray, e a proposta de mostrar as origens das 12 horas de violência expressada no título, A Primeira Noite de Crime fica mesmo só na promessa. Muito pouco é apresentado do caminho que levou o país ao caos que se encontra, muito menos os argumentos para a aplicação do experimento. E mesmo este não, faz muito sentido mesmo para uma platéia pouco familiarizada com o processo deste tipo de estudo. O quarto filme da franquia tem na verdade o mesmo objetivo dos seus antecessores, mostrar seus personagens em uma luta desenfreada pela sobrevivência, em meio ao maior número de cenas violentas possíveis.

E apesar de deixar de aproveitar um bom argumento de lado, para dar lugar a corrida pela vida, a produção não consegue apresentar os personagens de forma eficiente para gerar empatia no espectador. Aqueles que nos conduzem na história, e por que deveríamos temer, se restringem a estereótipos previsíveis. A mocinha trabalhadora (Lex Scott Davis), o adolescente que faz escolhas idiotas (Joivan Wade), o bandido de bom coração (Y'lan Noel), a vizinha escandalosa (Mugga), e por aí vai.

Do outro lado da luta, o Chefe de Estado (Patch Darragh) claramente com intenções obscuras, e a idealizadora do experimento (Marisa Tomei, fazendo o quê nesse projeto?) que tem completa convicção na benfeitoria de sua pesquisa sem sentido. Entre eles, um monte de personagens ainda mais genéricos e esquecíveis, ao ponto do próprio roteiro esquecê-los quando conveniente. O maior exemplo é Skeletor (sim, esse é o nome do personagem de Rotimi Paul), simplesmente maluco e sedento por sangue, o que justifica seu nome e caracterização de desenho animado da década de 1980. Indo de encontro a proposta da libertação pela ausência de regras. Skeletor já é uma assassino no dia-a-dia, qual a graça de acompanha-lo nesse momento?

O que também não é nada sutil e vai de encontro com o bom argumento, são as metáforas com o nazismo e a Ku Klux Klan. Se a noite de crime é um pretexto para exterminar determinadas minorias, porquê assumir máscaras de grupos que tem como objetivo exterminar estas mesmas minorias? Vale mencionar que praticamente toda a população de Staten Island aqui é negra ou latina, enquanto o centro de operações do experimento é formado majoritariamente por caucasianos.


Já que deixaram o bom argumento de lado para beneficiar cenas de ação, somos levados a pensar que ao menos estas sejam bem produzidas, certo? Errado. Na grande maioria das vezes, as sequências são apenas novas versões do que já vimos em produções semelhantes, inclusive na própria franquia. Uma delas, uma sequencia em uma escadaria, chama atenção por cortes grosseiros. Enquanto uma perseguição nas ruas é interrompida por uma necessidade sem sentido do roteiro discutir as relação entre os irmãos "moça trabalhadora" e "adolescente besta", no momento mais inadequado possível, o campo aberto de uma caçada humana. Estes são apenas os exemplos mais gritantes.

A Primeira Noite de Crime tem um argumento rico e cheio de possibilidades a serem exploradas, mas prefere deixar esse potencial de lado para mostrar mais do mesmo da franquia. Não se engane pelo texto acima, se você procura apenas noventa minutos de ação e distração, vai sim conseguir se entreter. Mas o que vai ficar são alguns novos questionamentos, e aquele gosto ruim de potencial desperdiçado.

A Primeira Noite de Crime (The First Purge)
2018 - EUA - 98min
Suspense, Terror, Ação


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