quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Boneca Russa

Nadia Vulvokov está comemorando seu 36° aniversário quando morre repentinamente, e no momento seguinte retorna ao início sua festa de 36 anos. O processo de falecimento e retorno ao mesmo dia se repete algumas vezes antes que a protagonista perceba que está em um loop temporal. É curioso como a premissa de Boneca Russa se assemelha ao terror farofa A Morte Te Dá Parabéns. Mas não se engane, a série Amy Poehler, Natasha Lyonne e Leslye Headland, tem muito mais a oferecer que sustos fáceis criados por mortes repentinas.

Nadia (Natasha Lyonne, Orange is The New Black) é uma programadora de jogos, inteligente, sarcástica, debochada e não leva desaforo para casa. É uma solitária por opção, que evita relações mais complexas, e faz grande uso de entorpecentes, como forma de manter seus traumas enterrados. Até que essa rotina de negação é interrompida pelo misterioso loop-temporal, no qual a moça revive repetidamente a noite de sua festa, sempre culminando em sua morte.

Por causa de seu estilo de vida, demora um pouco para ela notar que a "sensação de déjà-vu", não é provocada pelas drogas de sua celebração. Nestes primeiros instantes a série aposta na comédia de erros, e na facilidade da protagonista em acidentalmente tirar a própria vida. Mas isso não sustentaria uma temporada inteira, mesmo com episódios de no máximo trinta minutos. O roteiro sabe disso, e não demora muito para mudar o status-quo.

Logo no terceiro episódio a produção foge do clichê de Feitiço do Tempo, e insere novos elementos que começam a construir sua mitologia própria. Ou melhor, não insere, mas começa a chamar atenção para eles. Praticamente todos os detalhes, que criam as reviravoltas ao longo da trama já estão lá desde o primeiro episódio. Desafiando expectadores desatentos, ou no mínimo convidando o público à re-assistir a série para encontrar estas pistas perdidas na primeira sessão. O loop-temporal continua sendo o mote principal, mas os efeitos dele tem características próprias. Estas vão desde sutis mudanças entre uma repetição e outra, passando por figurantes que na verdade são personagens importantes, e até elementos que continuam sujeitos à ação do tempo apesar do loop.

É com as oportunidades criadas por estes elementos próprios que a série pode trabalhar temas mais complexos ligados à natureza de seus protagonistas. Desde os traumas de infância da protagonista, apresentados em forma de flashback, até os medos pequenos de personagens menores, como o medo da maternidade de Lizzy (Rebecca Henderson). Isolamento, relacionamentos superficiais, amizade, infidelidade, abuso de drogas, depressão e até suicídio, estão entre os temas abordados ou apenas apontados pelo afinado roteiro. Este ainda que ainda inclui elegantes analogias, como as múltiplas vidas de um video-game que lhe permite repetir uma fase até que solucione o desafio em questão, as sete vidas de um gato, ou o comportamento solitário de um peixe beta.

Uma Nova-York escura e ocupada, e principalmente seus moradores compõe a atmosfera carregada em que a protagonista vive. Um mundo cheio de gente, com muita coisa acontecendo, onde é fácil se sentir sozinho. O elenco conta com escolhas acertadas, que vão desde a química entre as amigas da protagonista Maxine e Lizzy (Greta Lee e Henderson), até o tom reconfortante da terapeuta/figura-materna Ruth (Elizabeth Ashley). Sem fazer grande estardalhaço, de fato muita gente não vai notar, Yoni Lotan dá vida a quatro personagens diferentes, sem que haja explicação alguma, mas abrindo muito espaço para teorias.

Vale também apontar a personalidade metódica e nervosa de Alan (Charlie Barnett). O jovem tem claramente um distúrbio social e/ou de personalidade, seu exagero poderia facilmente beirar a caricatura. Barnett consegue o tom exato para torná-lo não apenas crível, mas também um contraponto preciso para a despreocupada protagonista.

Entretanto o destaque mesmo é de Natasha Lyonne. A atriz está envolvida com todos os processo de produção, criação, roteiro e até direção - vale mencionar aqui, todos os episódios são dirigidos por mulheres - e por isso não apenas inclui experiências próprias no roteiro, como parece compreender todas as vertentes de sua complexa anti-heroína. Mesmo, sendo desagradável, desbocada, mal-humorada e cheia de vícios é difícil não se apegar a Nadia e torcer por ela. Essa empatia é resultado do bom trabalho de Lyonne, que sabe aproveitar a inteligência, humor cínico e potencial de crescimento da personagem, para compensar seus hábitos menos admiráveis.

Coesa e eficiente a série começa com uma premissa que inicialmente parece repetitiva, mas como um verdadeira matrioska, logo vai mostrando suas várias camadas internas. Estas vão desde a complexidade da protagonista, até do universo e da trama propriamente ditos. O final é aberto à interpretação, e permitiria continuações. Embora particularmente, eu ache uma segunda temporada desnecessária.

Boneca Russa, não tem medo de entregar tudo que tem, e explorar bem suas idéias sem rodeios. Entregando uma série uniforme que mantém o fôlego e o interesse do espectador até o final. Uma história bem aproveitada e redondinha, sem pontas soltas, não precisa ser alongada e forçada em um segundo ano.

Boneca Russa tem oito episódio de no máximo trinta minutos cada, todos já disponíveis na Netflix.
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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Oscar 2019

Bom dia, tarde ou noite, pra você que amanheceu pós Oscar 2019 e ainda não entendeu o que aconteceu noite passada. A cerimônia deste ano foi uma das mais esquisitas dos últimos tempos. Bora para os tradicionais humildes, e nada ortodoxos, palpites desta sonolenta blogueira que vos escreve.

A loucura começou antes mesmo da cerimônia, quando na tentativa de aumentar sua audiência e encurtar a transmissão. a Academia tentou fazer mudanças esquisitas. Propôs premiação para "Melhor Filme Popular", queria ter apresentação de apenas duas das cinco músicas e entregar quatro categorias no intervalo. Destas tentativas a única que ficou foi a apresentação do Queen, que praticamente substituiu o monólogo de abertura.

Maya Rudolph, Tina Fey e Amy Poehler, fizeram boas e breves piadas para iniciar a festa que não teve apresentador depois que Kevin "largou o posto" após a descoberta de tuítes homofóbicos na conta do ator. Sem os monólogos e piadinhas do host, a cerimônia conseguiu ficar mais curta. E também mais seca. Talvez meus comentários este ano sejam mais curtos.

Mas teve piada sim, dentro dos textos de entrega dos prêmios. Como sempre algumas boas, outras nem tanto. Tiveram também boas alfinetadas no cenário político atual e até nas "tretas" pré-cerimônia que mencionei acima.

Uma coisa que não pude deixar de notar é a mudança na entrega dos prêmios de atores. Anteriormente, o vencedor da categoria no ano anterior entregava o prêmio para o vencedor do sexo oposto. Ou seja, o vencedor de Melhor Ator da cerimônia anterior, entrega o prêmio para a Melhor Atriz, e vive versa. Este ano a escolha dos apresentadores de cada categoria foi no mínimo curiosa, tanto nestas categorias quanto nas outras.

Queen Latifah para falar sobre A Favorita, é uma piada fofa. Samuel L. Jackson entregando prêmio para Spike Lee foi incrível. Mas ainda não entendi a escolha da tenista Serena Williams para falar sobre Nasce uma Estrela, entre outros.

A Favorita rainha Anne, o Queen, a corte de Wakanda, Helen Miren o Rei de Atlântida, Regina King e Queen Latifah. Alguém mais sentiu uma temática de realeza neste Oscar?


 Green Book e Olivia Colman quebraram os bolões de muita gente. Mas ao menos estes são trabalhos merecedores.

Enquanto os prêmios de Bohemian Rapsody deixaram muita gente indignada. Desde as categorias de som que tiraram os prêmios de Um Lugar Silencioso e Primeiro Homem, passando pela edição "lugar comum", até o infame prêmio de Melhor Ator para o mediano Rami Malek.

Caso você esteja me xingando no momento, tente re-assistir este filme sem as músicas do Queen. Você vai descobrir que toda a emoção que sentiu veio delas. Enquanto a jornada da banda além de muito incorreta é contada de forma mediana.


Os três merecidos prêmios de Pantera Negra, tentam diminuir um pouco o sentimento de "que diabos esse povo está pensando?", e fazendo história na premiação, tanto pela representatividade quanto pela valorização de filmes de herói. - Wakanda Forever

Outro que está fazendo a história é Homem Aranha no Aranhaverso, mas acho que foi subestimado pelo grande público. Bom, pelo menos por muita gente que conheço.

Nenhuma surpresa na categoria de música, mas a apresentação de “All The Stars” de Pantera Negra fez falta. E apesar de adorarmos a Bette Midler, eu queria mesmo era ver Emily Blunt interpretando a canção de O Retorno de Mary Poppins.

Prometo que não vou cair na futilidade de falar dos figurinos, mas olhas esse moço "divando" de longo!
Mais curto, com poucas firulas e sem erros (na cerimônia, na escolha dos vencedores é outra história), o 91° Oscar rendeu poucas obervações curiosas. Logo vou parar este post de comentários por aqui, deixando alguns bons gifs aleatórios da noite passada.

Boa segunda-feira, até o Oscar 2020!

Leia mais sobre o Oscar 2019 e confira meus erros e acertos no bolão deste ano!




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sábado, 23 de fevereiro de 2019

Palpites - Oscar 2019

Achou que esta blogueira que vos escreve não ia dar seus pitacos nada ortodoxos sobre o Oscar 2019? Achou errado, otário! Pois você está enganado. Pretendo continuar fazendo este exercício de análise dos filmes e de sua indústria que comecei ainda na época do falecido Bolão do Oscar, promovido pelo blog parceiro DVD, Sofá e Pipoca. E digo mais, a prática deve estar funcionando, a cada ano que passa meus palpites ficam mais certeiros. Não que já dê para eu dispensar o sempre presente chutômetro. Vamos à ele...

Leia também as críticas dos principais indicados ao Oscar 2019

Melhor Filme - Infiltrado na Klan
Porquê a acadêmia gosta de dividir quando fica na dúvida, e Roma deve levar o de Melhor Filme Estrangeiro. Mas está entre os dois.

Melhor Direção - Alfonso Cuarón (Roma)
Seguindo a lógica de divisão mencionada acima. Mas não me surpreendo se o Spike Lee (Infiltrado na Klan) ganhar porque isso já devia ter acontecido há tempos, e o Cuarón já tem uma estatueta.

Melhor Ator - Christian Bale (Vice)
Porque o Oscar adora uma transformação extrema, mas não acho que seja o melhor trabalho do ex-batman. Torcendo por Willem Dafoe (No Portal da Eternidade), mas se não for para o Rami Malek (Bohemian Rapsody), que tem grandes chances por causa de caracterização+lobby, já fico feliz.

Melhor Atriz - Gleen Close (A Esposa)
Ou Olívia Colman (A Favorita), apesar de eu achar que está na categoria errada - ela é coadjuvante - é a minha favorita, com perdão do trocadilho.

Melhor Ator Coadjuvante - Sam Elliott (Nasce uma Estrela)
A concorrência aqui é absurda, mas esse veterano que a maioria já viu em algum lugar, mas pouca gente lembra o nome, "faz miséria" nos poucos minutos que tem em tela.

Melhor Atriz Coadjuvante - Regina King (Se a Rua Beale Falasse)
Pois é a Amy Addams (Vice) é o novo DiCaprio, não vai ganhar outra vez. Mas tudo bem, pois apesar de bom não é seu melhor trabalho. A Favorita teria chances, se o fato de ter duas concorrentes Ema Stone e Rachel Weiss, não dividisse os votos.

Melhor Roteiro Original - Roma
Tá levando tudo, quem sou eu para discordar.

Melhor Roteiro Adaptado - Infiltrado na Klan
Como adaptar uma história real que parece mentira? Desse jeito aí!

Melhor Animação - Homem Aranha no Aranhaverso
É sim o melhor do ano na minha opinião. Mas também há de se levar em conta que sequências e animes não costumam ir bem nesta premiação.

Melhor Filme Estrangeiro - Roma (México)
Mas se ele for ganhar o de melhor filme, e não conseguir o feito histórico de levar os dois, aí mudo meu voto para Guerra Fria (Polônia)

Melhor Documentário - Of Fathers and Sons
Categoria de chute às cegas n°1.

Melhor Direção de Arte - A Favorita
O povo concentra nas "categorias principais", mas ó, a concorrência dessa aqui está absurda!

Melhor Figurino - Pantera Negra
Essa aqui também!

Melhor Fotografia - Roma
Sério que eles cogitaram entregar alguns desses prêmios no intervalo? Só trabalho maravilhoso, e impossível de escolher um favorito.

Melhor Maquiagem - Vice
Já essa não foi difícil de escolher não, sem desmerecer o excelente trabalho dos concorrentes. É só porque o Oscar adora transformações extremas.

Melhor Edição - Infiltrado na Klan
Eu sei que Vice tem uma edição estilosinha, mas não curti, muito cansativo...

Melhor Trilha sonora - Pantera Negra
Olha tô chutando mesmo, porque queria dar o prêmio para os cinco.

Melhor Canção Original - "Shallow" (Nasce uma Estrela)
Críterio de escolha: qual das cinco está na sua lista de favoritas do Spotify?

Por esse chute você não esperava né. Provavelmente vou errar, mas a forma como tornaram Pooh e seus amigos reais é impressionante. Menção honrosa aqui para Jogador N°1 e a sequência do Iluminado.

Melhor Edição de Som - Um Lugar Silencioso
O melhor esnobado desse ano deveria levar alguma coisa, além disso é um filme sobre som e silêncio.

Melhor Mixagem de Som - O Primeiro Homem
Porque acho que sim...

Melhor Curta Metragem - Detainment
Categoria de chute às cegas n°2.

Melhor Curta Metragem de Animação - Bao
Porque eu vi esse. Eu sei, não é um bom motivo.

Melhor Curta Metragem Documentário - Period. End of Sentence
Categoria de chute às cegas n°3.

Chutes, favoritismos e até birras, sei que meus critérios de escolhas não são os melhores, nem os mais racionais, mas me divirto com eles. Vamos ver se consigo melhorar minha quantidade de acertos mesmo assim.

E você? Quem você acha que merece, e quem você acha que vai levar os carecas dourados deste ano?

Leia as críticas dos principais indicados ao Oscar 2019
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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Vice

Dick Cheney não é uma pessoa naturalmente carismática. Manipulador, conservador, oportunista e pragmático, até mesmo seu tom de voz e ritmo de fala são monótonos. Vice parece ter plena consciência de seu protagonista pouco empático, e da trama intrincada que o cerca, pois faz uso de todo recurso possível e imaginável para aproximar o público de sua história. Vice também parece ser uma afirmação do estilo próprio de Adam McKay na direção.

Acompanhamos a vida política de Dick Cheney (Christian Bale), desde a juventude quando se afiliou ao partido Republicano, até sua atuação mais recente, como vice-presidente dos Estados Unidos em plena crise pós 11 de setembro. Com amplos poderes no governo concedidos por George W. Bush (Sam Rockwell), a enfase aqui é quanto ao legado catastrófico que o vice mais influente da história estadunidense deixou para seu país e para o mundo.

Narrador personagem, pausas explicativas, texto na tela, expositividade verborrágica, quebra da quarta parede, saltos gigantescos no tempo, narrativa não linear, cenas pós créditos, referências visuais, não faltam firulas para tornar a complexa política americana mais palatável e interessante para o público geral. Algumas destas idéias e técnicas funcionam, muitas não. Já a reunião de todas cria uma colcha de retalhos desconexa que prende o expectador mais pela curiosidade quanto ao formato, do que pela trama em si.

O roteiro traz um excesso de explicações e interrupções de diferentes formatos na narrativa, que ora beira o insulto à inteligência do espectador, ora pode deixar os menos atentos perdido. A sensação é que a produção não decide entre ser altamente explicativa, ou inteligente e irônica.

Ao menos a produção tem certeza de que seu protagonista não é uma figura heróica, inspiradora, ou benevolente. De fato, Cheney é tratado como um dos piores tipos de políticos que se pode encontrar, cercado de outro políticos e pessoas igualmente inapropriadas para cargos de poder. Não por não serem capazes, mas por suas intenções que passam longe de escolher o melhor para o país. É através de um olhar crítico, e quando funciona ácido, que a produção segue.

E no design de produção, maquiagem e atuação que o filme mostra seus pontos fortes. Os dois primeiros acertam em cheio na reconstrução da época, na criação da atmosfera e principalmente na caracterização dos atores, levando-os o mais próximo o possível das figuras públicas retratadas. A outra metade do trabalho, representação destes rostos conhecido dica, é claro, por conta da atuação.

Bale entrega sua usual entrega na criação de Cheney. Trejeitos, maneirismos, postura tom de voz que segue, inclusive, o envelhecimento do personagem, e claro a transformação física pela qual o ator já é sempre lembrado. A composição impressiona pela fidelidade, mas não é a mais surpreendente da galeria de trabalhos do ex-batman.

Amy Adams se esforça o máximo que pode como a esposa determinada e influente na vida do protagonista. Mas, nem sempre o roteiro lhe dá o melhor material para trabalhar. Sam Rockwell faz uma recriação extremamente idiota e divertida de ver de Gerogr W. Bush, e apenas isso. Já Steve Carell dá vida à Donald Rumsfeld, que não tem tempo de tela suficiente para dizer a que veio. O elenco ainda conta com Jesse Plemons, Eddie Marsan e Tyler Perry, novamente com pouco destaque.


Vice tem sim uma história que deve ser conhecida, mas esta é protagonizada por uma figura difícil de digerir, em um contexto complexo. Por isso o roteiro busca uma infinidade de recursos para tornar a história mais palatável, e acaba exagerando no caminho. O resultado é um filme com ritmo cansativo, e boas idéias perdidas, em uma montagem que falha em ser dinâmica. Mas ainda é possível admirar as excelentes caracterizações, e o bom trabalho de seu esforçado e talentoso elenco. 

Vice
2018 - EUA - 132min
Biografia, Drama

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

A Favorita

No xadrez a Rainha é a única peça que pode se mover de forma irrestrita para qualquer lado. Ou melhor, pode ser movida pelo enxadrista. O mesmo acontece com a Rainha Anna da Grã-Bretanha, a quem todos desejam manipular, mas apenas duas jogadoras são dignas de tal feito em A Favorita.

Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) é a melhor amiga, confidente, amante secreta e grande influenciadora da Rainha Anne (Olivia Colman), regente da Inglaterra do século XVIII. Seu lugar privilegiado na corte é ameaçado por sua prima Abigail (Emma Stone), que entra no castelo na posição de criada e logo galga seu caminho para se tornar a favorita da Monarca. As duas travam uma intensa guerra de poder e influência na corte.

Uma disputa pelas atenções de alguém no cargo mais poderoso da sociedade, parece uma história que já foi contada várias vezes, e realmente é. A graça aqui está na forma como é contada, colocando uma lupa sobre os hábitos pequenos de "grandes pessoas", representada pela visão distorcida causada pelas lentes grande-angulares extremas, adotadas pelo diretor. E principalmente pelo estudo de personagens.

Como se estivéssemos espiando pelo olho mágico de uma porta, observamos a realidade da vida nesta corte, longe da polidez, etiqueta e responsabilidade que a posição denota. Os responsáveis pela nação tem hábitos vulgares e mundanos, abusam de seus privilégios e defendem seus interesses, enquanto desconhecem completamente as necessidades do povo. Apresentando um olhar crítico extremo do luxo, que faz o expectador repulsa ao invés de desejo pela vida privilegiada.

Todos só podem tentar fazer joguetes com a Rainha, por que esta é uma figura fraca no poder, mas poderosa em cena. Solitária, doente, mimada e pouco inteligente, a monarca composta por Colman, vai da à patia à histeria, passando pela confusão, excitação e infantilidade com uma fluidez precisa. Uma gama extensa de emoções e reações que não conseguem camuflar a tristeza constante em que vive a personagem, sentimento que sua intérprete deixa transparecer apenas com olhares.

Também sutis são as intenções iniciais de Abigail, que faz o jogo da moça doce, prestativa inocente enquanto trama de forma precisa contra a prima para ascender na corte. A Duquesa de Marlborough, é uma personagem mais rígida e controladora, que escolhe bem os momentos em que apresenta atitudes mais amáveis, ou se mostra mais vulnerável, para manter a Anne sob sua influência. 

O embate entre as duas é realizado por baixo dos panos, bem no nariz da monarca que pouco ou nada percebe. Essa dinâmica só funciona graças à capacidade do trio de interpretes em transpassar as nuances e muitas camadas de suas complexas mulheres. Pessoas que apesar de ter atitudes questionáveis não podem ser rotuladas simplesmente como vilãs ou mocinhas.


A produção ainda acentua essas camadas através de detalhes sutis como enquadramentos cheios de significados, o interior sempre escuro e sufocante do palácio, apesar das amplas janelas. Ou ainda através dos empertigados figurinos, cabelo e maquiagem, da época, com seus vestidos gigantescos, rostos exageradamente empoados e suas perucas ridículas. Mark Gatiss e Nicholas Hoult completam o elenco com atuações eficientes, para personagens que servem apenas de escada para o trio principal.

Já a divisão em capítulos, dão um respiro necessário à trama, e mantém o expectador atento para compreender de que se tratam seus curiosos títulos. É apenas no final propositalmente anti-climático que A Favorita pode decepcionar alguns. Mas não se trata de uma falha do filme, mas apenas de uma escolha incomum para encerrar uma história contada diversas vezes, com ambientações diferentes.

Inspirado por personagens reais, A Favorita acerta ao manter o foco na intrincada disputa de duas personagens ardilosas pela atenção de uma manipulável rainha. Deixando de lado maiores explicações sobre o período histórico ou cenário político em que estão inseridas. O resultado é um jogo de poder que captura não apenas a soberana, mas também espectador ávido por descobrir o próximo movimento destas exímias jogadoras.

A Favorita (The Favourite)
2018 - Irlanda/Reino Unido/EUA - 119min
Drama, Comédia, Biografia

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Roma

Alfonso Cuarón cresceu em Roma, não a cidade italiana, mas o bairro de classe média na Cidade do México. É no bairro-título que se passa a história de seu novo longa, inspirado pelas memórias de infância do diretor, mas abordado a partir do ponto de vista da empregada da família.

Durante o período de quase uma no, acompanhamos o cotidiano de Cleo (Yalitza Aparicio) e, consequentemente, da família a que ela serve. A complexa relação de hierarquia entre patrões e empregados, que se confunde com o conceito de família. Além dos acontecimentos de âmbito familiar e até escala nacional, que moldam os caminhos dos personagens.

O tom é contemplativo, e isso pode afastar quem não está acostumado com obras com um ritmo propositalmente mais lento. Cuarón nos deixa observar calmamente as interações cotidianas, com planos longos e pouca movimentação de câmera. O que nos possibilita pensar sobre a situação que estamos vendo, tão comum ao redor do mundo.

Cléo passa todo seu tempo na casa trabalhando, desde acordar as crianças para a escola, até colocá-las de volta na cama, e todas as tarefas entre elas. Na ingrata função de empregada, sempre de prontidão para servir, a moça quase não tem tempo de viver a própria vida. E não parece incomodada com isso, ou talvez apenas não enxergue perspectivas em seu futuro. Ela não sabe como evoluir a partir dali. Já os patrões, se sentem benevolente por considerá-la como "parte da família", sem nunca perceber que mantém a moça em um horário de trabalho constante. Ou ainda que suas ações "altruístas" em relação á moça, são mais benéficas ao seu ego, que à pessoa ajudada. Mas não os confunda com vilões, estas são boas pessoas, que apenas não enxergam a totalidade do sistema em que estão inseridas.

A relação patrão-empregado é apenas umas das muitas camadas de discussão presentes do roteiro de Roma. Outro ponto interessante é o abandono da figura masculina, aqui retratados como fracos, cheios de vontades, e acreditando serem mais do que realmente são. Situação enfrentada ao mesmo tempo por Cleo e por sua patroa Sra. Sofía (Marina de Tavira), que poderia aproximar as duas, se ambas percebessem estar em situação semelhante. Percepção que as duas em seus cotidianos opostos, ainda que fisicamente próximos, são incapazes de ter.

É inserida nesta rotina cheia de nuances, que a protagonista observa sua vida passar, e nós a acompanhamos. Até que em alguns momentos, a vida exija, ou cause uma reação maior da moça. E mesmo em sua catarse, ela é contida. É apenas momentos de maior emoção que o diretor movimenta mais a câmera, mesmo que forma sutil e fluida, encaixando bem com o tom contemplativo do resto do longa.

Dedicado à Libo, Liboria Rodríguez, a empregada da família de Cuarón enquanto ele crescia. O longa não esconde o fato, de que o diretor está olhando e repensando a própria infância. Por este tom mais biográfico, faz todo sentido que além de direção e roteiro, Cuarón também tenha feito a fotografia, produção e até colocasse seu dedo na edição. Talvez seja esse controle quase excessivo, que permitiu ao diretor embutir no longa todas as camadas e detalhes que desejava, sem deixar pontas soltas. O detalhismo vai desde a escolha do gigantesco carro do patrão, que mostra o quanto ele se sente desnecessariamente sufocado pela família. Até a passividade de Cleo, mesmo em seus dias de folga, quando finalmente pode escolher o que fazer.

O elenco é eficiente, e entregam o que o roteiro exige dos personagens. E os destaques são mesmo para Tavira e Aparicio. Não é possível dizer, no entanto se a estreante interprete da protagonista é realmente uma excelente atriz, ou se foi escolhida à dedo para o papel. De qualquer forma, seu trabalho aqui é excepcional, abrangendo todas as nuances desta protagonista, que poucas chances tem de protagonizar a própria vida.

Para quem tiver a chance, Roma merece ser visto na tela grande. Mas, seu lançamento na Netflix possibilita que a produção alcance mais pessoas. Basta que elas estejam dispostas a se aventurar, em um filme de ritmo diferente, em preto e branco, falado em espanhol e mixteco, o dialeto do povo de Cleo. Falando assim até parece tarefa complicada, mas aqueles que se dispuserem a acompanhar esse ano na vida de uma família comum, vai ter a chance de ver com outros olhos uma história que se repete em todo o mundo. E quem sabe repensar suas próprias experiências.

Roma
2018 - México/EUA - 2h15
Drama

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Dumplin'

Sentimentos confusos atingiam esta blogueira que vos escreve ao fim de Dumplin'. O "feel-good movie" da Netflix cumpriu sim sua função de propagar uma boa mensagem de forma agradável, mas não sem deixar uma sensação de que poderia ser mais.

Willowdean (Danielle Macdonald, Bird Box) é uma adolescente pluz-size filha de uma antiga rainha da beleza de sua cidade. Perdida após a morte da tia que a ensinou a gostar de si mesma como é, Will decide fazer um protesto contra tudo que sua mãe Rosie (Jennifer Aniston) acredita, se inscrevendo no concurso de beleza que ela comanda, o Miss Teen Bluebonnet. Ao desafiar os padrões impostos pela sociedade, ela inspira outras garotas "fora dos padrões" à participar do evento.

Ao longo da projeção, a experiência passa a ser menos sobre o protesto, e mais sobre auto-descoberta. Willow, sua mãe e amigas começam a compreender que são. Trabalhando sua auto-imagem, e também, a imagem que fazem dos outros.

A jornada da protagonista acerta ao apontar que nós mesmos podemos ser nossos piores inimigos. Imbuídos é claro, dos muitos pré-conceitos que herdamos da sociedade. Não é preciso demonizar terceiros para criar obstáculos. O preconceito existe sim, está presente, mas não de forma caricata como em outros dramas adolescentes, onde "populares" e as "pessoas diferentes" estão de lados opostos de uma disputa.

Entretanto, enquanto a trama da protagonista é cheia de nuances, os demais personagens não tem seus arcos devidamente explorados. A começar pela Rosie que aprende menos do que poderiam já que sua filha precisou fazer suas diferenças funcionarem no mundo da mãe, para que a matriarca conseguisse enxergá-la. Faltou à ex-miss a descoberta de que existem outras opções no mundo e que sua filha pode ser excepcional em outras areas.

Millie (Maddie Baillio, Hairspray Live!) e, principalmente, Hannah (Bex Taylor-Klaus, Arrow) são jogadas na história com apresentações rasas, que vão pouco além do estereótipo. E seus próprios conflitos são resolvidos às pressas, conforme as moças deixam de ser necessárias para o desenvolvimento da protagonista. Já o conflito com Ellen (Odeya Rush, Lady Bird) é abordado em um par de cenas apenas. Dispensando um conflito interessante e pouco abordado neste tipo de filme. A reação da conservadora sociedade texana da cidadezinha de Bluebonnet ao ousado, ainda que modesto, protesto, não vai além da resposta da platéia ao concurso.

Bastou uma consultoria rápida com uma leitora do romance homônimo de Julie Murphy que inspirou o longa, para descobrir que estes pontos do quais senti falta. Bom para os leitores, mas o filme deve funcionar de forma independente logo, este é sim um ponto contra à adaptação.

Ponto a favor é a escolha do elenco. Desde as jovens boas coadjuvantes, passando pela excelente participação de Harold Perrineau, até às protagonistas. Jennifer Aniston, ainda será eternamente a Rachel de Friends, mas aqui tem carisma, postura e força de vontade para criar uma mãe amorosa, escondida sob a postura emproada e as futilidades de uma Miss.

É Danielle Macdonald quem carrega o filme. Capturando as mutas camadas de uma jovem que quer ter orgulho de quem é, mas é constantemente desafiada pelas exigências e preconceitos que a sociedade planta em nossas mentes. Sua boa dinâmica com Aniston é a alma da produção, junto com as excelentes músicas de Dolly Parton, que pontuam os desafios da protagonista.
Pontos fracos à parte, Dumplin' tem o coração no lugar certo. Diferente do ambicioso Sierra Burgess é uma Loser, também da Netflix, que pretende ser tantas coisas que entrega uma protagonista instável e sem carisma, este longa acerta em focar em sua mocinha e torná-la uma adolescente sincera, com conflitos muito parecidos com os da vida real. O resultado é um longa que consegue nos fazer refletir sobre nós mesmo, e sobre os outros à nossa volta, ao mesmo tempo que nos faz sentir bem ao final da sessão.

Dumplin'
2018 - EUA - 110min
Drama, Comédia

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O Menino que Queria Ser Rei

Não posso falar sobre as crianças de hoje em dia, mas quando era moleca, bastava uma sessão da tarde, ou mesmo um desenho animado mais inspirado para eu sair com minha gangue em busca de uma aventura. O Menino que Queria Ser Rei tem esse clima imaginativo de uma empolgada brincadeira de criança.

Alex (Louis Ashbourne Serkis, filho de Andy Serkis) sofre bullying na escola ao lado do amigo o Bedders (Dean Chaumoo). Em uma das fugas dos valentões Lance (Tom Taylor) e Kaye (Rhianna Dorris), ele esbarra em uma espada encravada em uma pedra, em meio à uma construção. Não demora muito para o souvenir se mostrar mais que um achado qualquer, levando o garoto e os "aminimigos" em uma jornada para salvar a Inglaterra.

Junto com a , outros personagens e eventos das lendas de Rei Arthur cruzam o caminho do protagonista e seus companheiros, Bedders, Lance e Kaye. Achou estranho o garoto levar seus arqui-inimigos na missão? Pois a parceria curiosa faz parte de uma das mensagens edificantes do filme.

No mundo de Alex, e também no nosso, o sentimento de antagonismo, a polarização, o ódio e a intolerância, estão se tornando cada vez mais predominantes entre indivíduos e nações. A ameaça maior desta aventura nasce deste comportamento, que precisa ser mudado na pequena esfera de conhecidos do menino, para salvar o mundo. Psicologia barata, é verdade. Mas também é uma mensagem verdadeira, atual, transmitida de forma simples e direta. Funciona com os pequenos, e é isso que importa.

E por falar na molecada, apesar de não entendiar os adultos, o longa é pensado para elas. Assistir esta geração, que nasceu com smartphone e tablets nas mãos, se empolgar com uma aventura analógica à moda antiga é uma diversão à parte. Enquanto osadultos vão relembrar os tempos de Sessão da Tarde dos anos 80 e 90, quando crianças salvavam o universo e os adultos desatentos não faziam ideia dos perigos a sua volta. 

Os efeitos especiais não reinventam a roda, mas atendem às necessidades do roteiro e são críveis para o público de diferentes idades. Já a trama segue a tradicional jornada do herói, é previsível, assim como muitas das piadas, mas funcionam. A familiaridade não anula a diversão, e até soma pontos quando bem realizada.

O elenco é predominantemente jovem e as crianças cumprem bem as funções a que foram designadas. Entre eles o destaque fica com Angus Imrie e seu expansivo jovem Merlin. Patrick Stuart é o rosto conhecido em cena, com participações pontuais. Enquanto Rebecca Ferguson parece estar se divertindo com sua maléfica Morgana.

O Menino que Queria Ser Rei é mais uma releitura da história do Rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda. Mas, diferente de muitas releituras anteriores, esta não tenta ser uma abordagem definitiva da lenda, ou mesmo um grande épico histórico, de ação ou aventura. Ciente de suas limitações e da temática já bastante explorada, este longa é menos ambicioso. Pretende apenas ser uma aventura empolgante, com boas mensagens para seu público alvo, e nisso acerta em cheio!

O Menino que Queria Ser Rei (The Kid Who Would Be King)
2019 - Reino Unido - 120min
Aventura, Fantasia

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