quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Vice

Dick Cheney não é uma pessoa naturalmente carismática. Manipulador, conservador, oportunista e pragmático, até mesmo seu tom de voz e ritmo de fala são monótonos. Vice parece ter plena consciência de seu protagonista pouco empático, e da trama intrincada que o cerca, pois faz uso de todo recurso possível e imaginável para aproximar o público de sua história. Vice também parece ser uma afirmação do estilo próprio de Adam McKay na direção.

Acompanhamos a vida política de Dick Cheney (Christian Bale), desde a juventude quando se afiliou ao partido Republicano, até sua atuação mais recente, como vice-presidente dos Estados Unidos em plena crise pós 11 de setembro. Com amplos poderes no governo concedidos por George W. Bush (Sam Rockwell), a enfase aqui é quanto ao legado catastrófico que o vice mais influente da história estadunidense deixou para seu país e para o mundo.

Narrador personagem, pausas explicativas, texto na tela, expositividade verborrágica, quebra da quarta parede, saltos gigantescos no tempo, narrativa não linear, cenas pós créditos, referências visuais, não faltam firulas para tornar a complexa política americana mais palatável e interessante para o público geral. Algumas destas idéias e técnicas funcionam, muitas não. Já a reunião de todas cria uma colcha de retalhos desconexa que prende o expectador mais pela curiosidade quanto ao formato, do que pela trama em si.

O roteiro traz um excesso de explicações e interrupções de diferentes formatos na narrativa, que ora beira o insulto à inteligência do espectador, ora pode deixar os menos atentos perdido. A sensação é que a produção não decide entre ser altamente explicativa, ou inteligente e irônica.

Ao menos a produção tem certeza de que seu protagonista não é uma figura heróica, inspiradora, ou benevolente. De fato, Cheney é tratado como um dos piores tipos de políticos que se pode encontrar, cercado de outro políticos e pessoas igualmente inapropriadas para cargos de poder. Não por não serem capazes, mas por suas intenções que passam longe de escolher o melhor para o país. É através de um olhar crítico, e quando funciona ácido, que a produção segue.

E no design de produção, maquiagem e atuação que o filme mostra seus pontos fortes. Os dois primeiros acertam em cheio na reconstrução da época, na criação da atmosfera e principalmente na caracterização dos atores, levando-os o mais próximo o possível das figuras públicas retratadas. A outra metade do trabalho, representação destes rostos conhecido dica, é claro, por conta da atuação.

Bale entrega sua usual entrega na criação de Cheney. Trejeitos, maneirismos, postura tom de voz que segue, inclusive, o envelhecimento do personagem, e claro a transformação física pela qual o ator já é sempre lembrado. A composição impressiona pela fidelidade, mas não é a mais surpreendente da galeria de trabalhos do ex-batman.

Amy Adams se esforça o máximo que pode como a esposa determinada e influente na vida do protagonista. Mas, nem sempre o roteiro lhe dá o melhor material para trabalhar. Sam Rockwell faz uma recriação extremamente idiota e divertida de ver de Gerogr W. Bush, e apenas isso. Já Steve Carell dá vida à Donald Rumsfeld, que não tem tempo de tela suficiente para dizer a que veio. O elenco ainda conta com Jesse Plemons, Eddie Marsan e Tyler Perry, novamente com pouco destaque.


Vice tem sim uma história que deve ser conhecida, mas esta é protagonizada por uma figura difícil de digerir, em um contexto complexo. Por isso o roteiro busca uma infinidade de recursos para tornar a história mais palatável, e acaba exagerando no caminho. O resultado é um filme com ritmo cansativo, e boas idéias perdidas, em uma montagem que falha em ser dinâmica. Mas ainda é possível admirar as excelentes caracterizações, e o bom trabalho de seu esforçado e talentoso elenco. 

Vice
2018 - EUA - 132min
Biografia, Drama

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

A Favorita

No xadrez a Rainha é a única peça que pode se mover de forma irrestrita para qualquer lado. Ou melhor, pode ser movida pelo enxadrista. O mesmo acontece com a Rainha Anna da Grã-Bretanha, a quem todos desejam manipular, mas apenas duas jogadoras são dignas de tal feito em A Favorita.

Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) é a melhor amiga, confidente, amante secreta e grande influenciadora da Rainha Anne (Olivia Colman), regente da Inglaterra do século XVIII. Seu lugar privilegiado na corte é ameaçado por sua prima Abigail (Emma Stone), que entra no castelo na posição de criada e logo galga seu caminho para se tornar a favorita da Monarca. As duas travam uma intensa guerra de poder e influência na corte.

Uma disputa pelas atenções de alguém no cargo mais poderoso da sociedade, parece uma história que já foi contada várias vezes, e realmente é. A graça aqui está na forma como é contada, colocando uma lupa sobre os hábitos pequenos de "grandes pessoas", representada pela visão distorcida causada pelas lentes grande-angulares extremas, adotadas pelo diretor. E principalmente pelo estudo de personagens.

Como se estivéssemos espiando pelo olho mágico de uma porta, observamos a realidade da vida nesta corte, longe da polidez, etiqueta e responsabilidade que a posição denota. Os responsáveis pela nação tem hábitos vulgares e mundanos, abusam de seus privilégios e defendem seus interesses, enquanto desconhecem completamente as necessidades do povo. Apresentando um olhar crítico extremo do luxo, que faz o expectador repulsa ao invés de desejo pela vida privilegiada.

Todos só podem tentar fazer joguetes com a Rainha, por que esta é uma figura fraca no poder, mas poderosa em cena. Solitária, doente, mimada e pouco inteligente, a monarca composta por Colman, vai da à patia à histeria, passando pela confusão, excitação e infantilidade com uma fluidez precisa. Uma gama extensa de emoções e reações que não conseguem camuflar a tristeza constante em que vive a personagem, sentimento que sua intérprete deixa transparecer apenas com olhares.

Também sutis são as intenções iniciais de Abigail, que faz o jogo da moça doce, prestativa inocente enquanto trama de forma precisa contra a prima para ascender na corte. A Duquesa de Marlborough, é uma personagem mais rígida e controladora, que escolhe bem os momentos em que apresenta atitudes mais amáveis, ou se mostra mais vulnerável, para manter a Anne sob sua influência. 

O embate entre as duas é realizado por baixo dos panos, bem no nariz da monarca que pouco ou nada percebe. Essa dinâmica só funciona graças à capacidade do trio de interpretes em transpassar as nuances e muitas camadas de suas complexas mulheres. Pessoas que apesar de ter atitudes questionáveis não podem ser rotuladas simplesmente como vilãs ou mocinhas.


A produção ainda acentua essas camadas através de detalhes sutis como enquadramentos cheios de significados, o interior sempre escuro e sufocante do palácio, apesar das amplas janelas. Ou ainda através dos empertigados figurinos, cabelo e maquiagem, da época, com seus vestidos gigantescos, rostos exageradamente empoados e suas perucas ridículas. Mark Gatiss e Nicholas Hoult completam o elenco com atuações eficientes, para personagens que servem apenas de escada para o trio principal.

Já a divisão em capítulos, dão um respiro necessário à trama, e mantém o expectador atento para compreender de que se tratam seus curiosos títulos. É apenas no final propositalmente anti-climático que A Favorita pode decepcionar alguns. Mas não se trata de uma falha do filme, mas apenas de uma escolha incomum para encerrar uma história contada diversas vezes, com ambientações diferentes.

Inspirado por personagens reais, A Favorita acerta ao manter o foco na intrincada disputa de duas personagens ardilosas pela atenção de uma manipulável rainha. Deixando de lado maiores explicações sobre o período histórico ou cenário político em que estão inseridas. O resultado é um jogo de poder que captura não apenas a soberana, mas também espectador ávido por descobrir o próximo movimento destas exímias jogadoras.

A Favorita (The Favourite)
2018 - Irlanda/Reino Unido/EUA - 119min
Drama, Comédia, Biografia

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Roma

Alfonso Cuarón cresceu em Roma, não a cidade italiana, mas o bairro de classe média na Cidade do México. É no bairro-título que se passa a história de seu novo longa, inspirado pelas memórias de infância do diretor, mas abordado a partir do ponto de vista da empregada da família.

Durante o período de quase uma no, acompanhamos o cotidiano de Cleo (Yalitza Aparicio) e, consequentemente, da família a que ela serve. A complexa relação de hierarquia entre patrões e empregados, que se confunde com o conceito de família. Além dos acontecimentos de âmbito familiar e até escala nacional, que moldam os caminhos dos personagens.

O tom é contemplativo, e isso pode afastar quem não está acostumado com obras com um ritmo propositalmente mais lento. Cuarón nos deixa observar calmamente as interações cotidianas, com planos longos e pouca movimentação de câmera. O que nos possibilita pensar sobre a situação que estamos vendo, tão comum ao redor do mundo.

Cléo passa todo seu tempo na casa trabalhando, desde acordar as crianças para a escola, até colocá-las de volta na cama, e todas as tarefas entre elas. Na ingrata função de empregada, sempre de prontidão para servir, a moça quase não tem tempo de viver a própria vida. E não parece incomodada com isso, ou talvez apenas não enxergue perspectivas em seu futuro. Ela não sabe como evoluir a partir dali. Já os patrões, se sentem benevolente por considerá-la como "parte da família", sem nunca perceber que mantém a moça em um horário de trabalho constante. Ou ainda que suas ações "altruístas" em relação á moça, são mais benéficas ao seu ego, que à pessoa ajudada. Mas não os confunda com vilões, estas são boas pessoas, que apenas não enxergam a totalidade do sistema em que estão inseridas.

A relação patrão-empregado é apenas umas das muitas camadas de discussão presentes do roteiro de Roma. Outro ponto interessante é o abandono da figura masculina, aqui retratados como fracos, cheios de vontades, e acreditando serem mais do que realmente são. Situação enfrentada ao mesmo tempo por Cleo e por sua patroa Sra. Sofía (Marina de Tavira), que poderia aproximar as duas, se ambas percebessem estar em situação semelhante. Percepção que as duas em seus cotidianos opostos, ainda que fisicamente próximos, são incapazes de ter.

É inserida nesta rotina cheia de nuances, que a protagonista observa sua vida passar, e nós a acompanhamos. Até que em alguns momentos, a vida exija, ou cause uma reação maior da moça. E mesmo em sua catarse, ela é contida. É apenas momentos de maior emoção que o diretor movimenta mais a câmera, mesmo que forma sutil e fluida, encaixando bem com o tom contemplativo do resto do longa.

Dedicado à Libo, Liboria Rodríguez, a empregada da família de Cuarón enquanto ele crescia. O longa não esconde o fato, de que o diretor está olhando e repensando a própria infância. Por este tom mais biográfico, faz todo sentido que além de direção e roteiro, Cuarón também tenha feito a fotografia, produção e até colocasse seu dedo na edição. Talvez seja esse controle quase excessivo, que permitiu ao diretor embutir no longa todas as camadas e detalhes que desejava, sem deixar pontas soltas. O detalhismo vai desde a escolha do gigantesco carro do patrão, que mostra o quanto ele se sente desnecessariamente sufocado pela família. Até a passividade de Cleo, mesmo em seus dias de folga, quando finalmente pode escolher o que fazer.

O elenco é eficiente, e entregam o que o roteiro exige dos personagens. E os destaques são mesmo para Tavira e Aparicio. Não é possível dizer, no entanto se a estreante interprete da protagonista é realmente uma excelente atriz, ou se foi escolhida à dedo para o papel. De qualquer forma, seu trabalho aqui é excepcional, abrangendo todas as nuances desta protagonista, que poucas chances tem de protagonizar a própria vida.

Para quem tiver a chance, Roma merece ser visto na tela grande. Mas, seu lançamento na Netflix possibilita que a produção alcance mais pessoas. Basta que elas estejam dispostas a se aventurar, em um filme de ritmo diferente, em preto e branco, falado em espanhol e mixteco, o dialeto do povo de Cleo. Falando assim até parece tarefa complicada, mas aqueles que se dispuserem a acompanhar esse ano na vida de uma família comum, vai ter a chance de ver com outros olhos uma história que se repete em todo o mundo. E quem sabe repensar suas próprias experiências.

Roma
2018 - México/EUA - 2h15
Drama

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Dumplin'

Sentimentos confusos atingiam esta blogueira que vos escreve ao fim de Dumplin'. O "feel-good movie" da Netflix cumpriu sim sua função de propagar uma boa mensagem de forma agradável, mas não sem deixar uma sensação de que poderia ser mais.

Willowdean (Danielle Macdonald, Bird Box) é uma adolescente pluz-size filha de uma antiga rainha da beleza de sua cidade. Perdida após a morte da tia que a ensinou a gostar de si mesma como é, Will decide fazer um protesto contra tudo que sua mãe Rosie (Jennifer Aniston) acredita, se inscrevendo no concurso de beleza que ela comanda, o Miss Teen Bluebonnet. Ao desafiar os padrões impostos pela sociedade, ela inspira outras garotas "fora dos padrões" à participar do evento.

Ao longo da projeção, a experiência passa a ser menos sobre o protesto, e mais sobre auto-descoberta. Willow, sua mãe e amigas começam a compreender que são. Trabalhando sua auto-imagem, e também, a imagem que fazem dos outros.

A jornada da protagonista acerta ao apontar que nós mesmos podemos ser nossos piores inimigos. Imbuídos é claro, dos muitos pré-conceitos que herdamos da sociedade. Não é preciso demonizar terceiros para criar obstáculos. O preconceito existe sim, está presente, mas não de forma caricata como em outros dramas adolescentes, onde "populares" e as "pessoas diferentes" estão de lados opostos de uma disputa.

Entretanto, enquanto a trama da protagonista é cheia de nuances, os demais personagens não tem seus arcos devidamente explorados. A começar pela Rosie que aprende menos do que poderiam já que sua filha precisou fazer suas diferenças funcionarem no mundo da mãe, para que a matriarca conseguisse enxergá-la. Faltou à ex-miss a descoberta de que existem outras opções no mundo e que sua filha pode ser excepcional em outras areas.

Millie (Maddie Baillio, Hairspray Live!) e, principalmente, Hannah (Bex Taylor-Klaus, Arrow) são jogadas na história com apresentações rasas, que vão pouco além do estereótipo. E seus próprios conflitos são resolvidos às pressas, conforme as moças deixam de ser necessárias para o desenvolvimento da protagonista. Já o conflito com Ellen (Odeya Rush, Lady Bird) é abordado em um par de cenas apenas. Dispensando um conflito interessante e pouco abordado neste tipo de filme. A reação da conservadora sociedade texana da cidadezinha de Bluebonnet ao ousado, ainda que modesto, protesto, não vai além da resposta da platéia ao concurso.

Bastou uma consultoria rápida com uma leitora do romance homônimo de Julie Murphy que inspirou o longa, para descobrir que estes pontos do quais senti falta. Bom para os leitores, mas o filme deve funcionar de forma independente logo, este é sim um ponto contra à adaptação.

Ponto a favor é a escolha do elenco. Desde as jovens boas coadjuvantes, passando pela excelente participação de Harold Perrineau, até às protagonistas. Jennifer Aniston, ainda será eternamente a Rachel de Friends, mas aqui tem carisma, postura e força de vontade para criar uma mãe amorosa, escondida sob a postura emproada e as futilidades de uma Miss.

É Danielle Macdonald quem carrega o filme. Capturando as mutas camadas de uma jovem que quer ter orgulho de quem é, mas é constantemente desafiada pelas exigências e preconceitos que a sociedade planta em nossas mentes. Sua boa dinâmica com Aniston é a alma da produção, junto com as excelentes músicas de Dolly Parton, que pontuam os desafios da protagonista.
Pontos fracos à parte, Dumplin' tem o coração no lugar certo. Diferente do ambicioso Sierra Burgess é uma Loser, também da Netflix, que pretende ser tantas coisas que entrega uma protagonista instável e sem carisma, este longa acerta em focar em sua mocinha e torná-la uma adolescente sincera, com conflitos muito parecidos com os da vida real. O resultado é um longa que consegue nos fazer refletir sobre nós mesmo, e sobre os outros à nossa volta, ao mesmo tempo que nos faz sentir bem ao final da sessão.

Dumplin'
2018 - EUA - 110min
Drama, Comédia

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O Menino que Queria Ser Rei

Não posso falar sobre as crianças de hoje em dia, mas quando era moleca, bastava uma sessão da tarde, ou mesmo um desenho animado mais inspirado para eu sair com minha gangue em busca de uma aventura. O Menino que Queria Ser Rei tem esse clima imaginativo de uma empolgada brincadeira de criança.

Alex (Louis Ashbourne Serkis, filho de Andy Serkis) sofre bullying na escola ao lado do amigo o Bedders (Dean Chaumoo). Em uma das fugas dos valentões Lance (Tom Taylor) e Kaye (Rhianna Dorris), ele esbarra em uma espada encravada em uma pedra, em meio à uma construção. Não demora muito para o souvenir se mostrar mais que um achado qualquer, levando o garoto e os "aminimigos" em uma jornada para salvar a Inglaterra.

Junto com a , outros personagens e eventos das lendas de Rei Arthur cruzam o caminho do protagonista e seus companheiros, Bedders, Lance e Kaye. Achou estranho o garoto levar seus arqui-inimigos na missão? Pois a parceria curiosa faz parte de uma das mensagens edificantes do filme.

No mundo de Alex, e também no nosso, o sentimento de antagonismo, a polarização, o ódio e a intolerância, estão se tornando cada vez mais predominantes entre indivíduos e nações. A ameaça maior desta aventura nasce deste comportamento, que precisa ser mudado na pequena esfera de conhecidos do menino, para salvar o mundo. Psicologia barata, é verdade. Mas também é uma mensagem verdadeira, atual, transmitida de forma simples e direta. Funciona com os pequenos, e é isso que importa.

E por falar na molecada, apesar de não entendiar os adultos, o longa é pensado para elas. Assistir esta geração, que nasceu com smartphone e tablets nas mãos, se empolgar com uma aventura analógica à moda antiga é uma diversão à parte. Enquanto osadultos vão relembrar os tempos de Sessão da Tarde dos anos 80 e 90, quando crianças salvavam o universo e os adultos desatentos não faziam ideia dos perigos a sua volta. 

Os efeitos especiais não reinventam a roda, mas atendem às necessidades do roteiro e são críveis para o público de diferentes idades. Já a trama segue a tradicional jornada do herói, é previsível, assim como muitas das piadas, mas funcionam. A familiaridade não anula a diversão, e até soma pontos quando bem realizada.

O elenco é predominantemente jovem e as crianças cumprem bem as funções a que foram designadas. Entre eles o destaque fica com Angus Imrie e seu expansivo jovem Merlin. Patrick Stuart é o rosto conhecido em cena, com participações pontuais. Enquanto Rebecca Ferguson parece estar se divertindo com sua maléfica Morgana.

O Menino que Queria Ser Rei é mais uma releitura da história do Rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda. Mas, diferente de muitas releituras anteriores, esta não tenta ser uma abordagem definitiva da lenda, ou mesmo um grande épico histórico, de ação ou aventura. Ciente de suas limitações e da temática já bastante explorada, este longa é menos ambicioso. Pretende apenas ser uma aventura empolgante, com boas mensagens para seu público alvo, e nisso acerta em cheio!

O Menino que Queria Ser Rei (The Kid Who Would Be King)
2019 - Reino Unido - 120min
Aventura, Fantasia

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Alita: Anjo de Combate

Não há dúvidas, são o visual e a tecnologia os elementos que mais chamam atenção em Alita: Anjo de Combate. O que não significa que o mangá de Yukito Kishiro que inspirou o filme, não ofereça uma gama rica de temas para esta adaptação roteirizada por James Cameron (Avatar, Titanic) e dirigida por Robert Rodrigues (Machete, Pequenos Espiões).

O ano é 2563, em mais um futuro distópico onde uma guerra intergalática conhecida como "A Queda", dividiu os sobreviventes em duas classes. Os poucos abastados que vivem na última cidade flutuante Zalem, e todo o resto que habita a Cidade de Ferro logo à baixo. É no lixão de descarte dos abastados que o Dr. Ido (Christoph Waltz), encontra Alita (Rosa Salazar, da franquia Maze Runner). Uma ciborgue de origem misteriosa, sem memórias e com incríveis habilidades e instintos de luta, que nesta primeira aventura tenta desvendar sua origem e descobrir seu lugar neste mundo.

Sim, primeira aventura! A intenção da criação de uma nova franquia é clara aqui. O filme foca nos quatro primeiros volumes, dos nove que compõe a saga. A versão de Cameron aponta discussões como a escassez de recursos, nacionalismo e autoritarismo, os limites da tecnologia e medicina, e as consequências de um estado que não provém a segurança de seu povo. Mas a abordagem destes temas, são deixados em segundo plano em prol da construção deste universo e das humanização de sua protagonista.

Alita tem um cérebro humano, que sem memórias do passado busca uma nova vida. Quem a protagonista vai ser é determinado em parte por suas relações. Desde a acertada dinâmica de pai e filha com o Dr. Ido, até o forçado relacionamento amoroso com Hugo (Keean Johnson). Vale mencionar, não há problemas na existência do romance, mas este não precisa ser a o grande fator determinante para as ações da protagonista. Não estamos mais no momento em que as ações de uma personagem feminina precisem ser determinadas por um romance. A forma como esse é abordado pelo roteiro, cheio de clichés e momentos piegas não ajuda. À certa altura a moça oferece literalmente seu coração robótico ao rapaz. As injustiças deste mundo e o caráter da protagonista, são os outros fatores determinante nas escolha das causas que a moça escolhe defender.

E por falar neste mundo, este é sim rico e cheio de nuances. Mas pouco disso é mostrado além do necessário para compreendermos como aquele mundo funciona. Um contexto geral mais detalhado, motivações e intenções que tornam aquele mundo o que é parecem, ter sido poupadas para uma possível sequência. O mesmo vale para o passado de Alita. Tanto nós, quanto ela, pouco descobrimos sobre sua vida anterior, e o que a levou ao "descarte" onde fora encontrada, neste primeiro filme.

Por outro lado, visualmente a produção não poupa nada para criar este universo. Os designs de personagens misturam tipos e níveis diferentes de peças robóticas, e deixam claro que a substituição de membros por partes artificiais é uma pratica comum, e relevante para a trama principal futura. Enquanto à cidade em si, um quebra-cabeças desgastado composto com peças de diferentes épocas e com muitas faltantes, garante a atmosfera de escassez, super-população e urgência deste em que as pessoas menos abastadas vivem.

Alita é completamente criada através da técnica de captura de movimentos, sua interação com os personagens de carne e osso é eficiente, crível e carismática. A moça tem um visual um pouco artificial sim, assim como outros ciborgues, mas esta diferença é coerente do fato de eles serem compostos por peças "não naturais". Eles são seres em parte artificiais, logo faz sentido não parecerem tão reais quanto aqueles que são "completamente humanos". E claro, a computação gráfica acrescenta e muito às coreografias de luta, e facilitam a representação dos poderes sobre humanos dos personagens. A ação, aliás, é outro ponto forte da produção. Embora alguns talvez preferissem abrir mão de alguns minutos de correria e pancadaria, para poder aprender um pouco mais sobre este futuro e seus habitantes.

Completando os acertos do filme está o elenco estelar, que entrega um bom trabalho aqui, e daria conta deste universo complexo caso este tenha a chance de ser explorado em próximos filmes. Além de Waltz, Johnson e Salazar, também estão no filme Jennifer Connelly, Mahershala Ali, Jackie Earle Haley, Jorge Lendeborg Jr. e Lana Condor. Ed Skrein é o único ponto fraco, mas não chega a comprometer.

Alita: Anjo de Combate tem uma protagonista forte e carismática. Esta última característica um acerto e tanto considerando que se trata de uma humanoide criada em computação gráfica, e as chances de causar estranhamento eram grande. A moça consegue se conectar com a audiência tanto quanto, o universo em que ela está inserida nos deixa curiosos, e a ação empolga. Uma pena apenas, que a produção tenha optado por uma fórmula batida para garantir uma franquia. Deixando para explorar este mundo complexo em aventuras futuras. Para quem gostaria de ver mais, resta apenas torcer para que a história ganhe continuidade na telona.

Alita: Anjo de Combate (Alita: Anjo de Combate)
EUA - 2019 - 162min
Ficção científica, Ação


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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

11 anos falando nisso...

Interrompemos nossa programação para uma breve celebração. O Ah! E por falar nisso... está completando 11 anos, e eu não poderia deixar esta data passar em branco. 

Para quem é novato por aqui, o blog nasceu em 2008, como passatempo e exercício para uma jornalista recém-formada. Desde então outros projetos e trabalhos dos mais diversos passaram pelo cotidiano desta blogueira que vos escreve, mas o blog se manteve uma constante. É claro, o conteúdo mudou, evoluiu - eu acho - e continua em constante evolução.

Sem mais delongas, vamos à tradicional contagem. Este é 1351° post deste blog, 139 publicados apenas em 2018. No catálogo, críticas de filmes, séries e livros, além de curiosidades sobre a cultura pop, e tudo mais que me der na telha. Afinal essa é a essência de um blog pessoal né?! 😉

Eu sei o que você pode estar pensando: Essa coisa de blog já passou, está fora de moda. Agora é o tempo do youtube e das redes sociais. Admito, também paro para pensar nisso de vez em quando. E o final do pensamento é sempre o mesmo: talvez a era de outro dos blogs tenha mesmo passado, mas eu sentiria falta deste espaço, independente de seu sucesso. 

Então, se você é um dos leitores que bate ponto por aqui, ou mesmo um visitante acidental, seja muito bem vindo, e obrigada pela visita. Fique à vontade para voltar quando quiser, estarei sempre por aqui!

Declaro agora oficialmente aberta a temporada 2019!


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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Uma Aventura LEGO 2

Tudo estava incrível no final da primeira Aventura LEGO. O bonequinho mais otimista e sem personalidade de todos salvou o mundo, ao descobrir as infinitas possibilidades dos bloquinhos coloridos. E seu universo continuava em expansão com a chegada dos blocos duplos de uma terra distante. O que poderia dar errado para Emmet, Megaestilo e companhia? Felizmente para quem curtiu a aventura das peças de montar, muita coisa!

Acontece que o encontro com estes "alienígenas" se tornou uma guerra sem precedentes, e cinco anos mais tarde aquele mundo colorido se tornou Apocalipsópolis. Um lugar onde nada mais é incrível e todos vivem em uma distopia. A não ser, é claro, o sempre otimista Emmet (Chris Pratt), para descontentamento de sua parceira. Megaestilo (Elizabeth Banks) acredita que o namorado foi o único que não evoluiu. Mas não demora muito para o bonequinho amarelo ser desafiado, quando um novo ataque sequestra sua namorada, Batman (Will Arnett), Barba de Ferro (Nick Offerman), Benny (Charlie Day) e Unigata (Alison Brie).

É deste outro mundo que vem os novos personagens da franquia. A Rainha Tuduki Eukiser’ser (Tiffany Haddish) e General Caos (Stephanie Beatriz), tem misteriosos planos para seus visitantes sequestrados. Enquanto Emmet conhece o ousado Rex Dangervest (também com a voz de Chris Pratt, o personagem é uma grande paródia aos personagens do ator) em sua missão de resgate. É claro, o roteiro ainda espalha por toda a produção inúmeras participações especiais, tanto novas, quanto de aventuras anteriores. São muitos os personagens e personalidades licenciados pela marca de brinquedos. Tentar encontrar todos eles, e descobrir as vozes por trás das aparições, já virou uma diversão à parte nas aventuras da franquia.

Entretanto, não é apenas de participações especiais que se faz um filme. Uma Aventura LEGO 2 sabe disso e cria uma trama convincente para justificar sua aventura. A nova jornada brinca com conceitos deste universo, e questiona as certezas de seus personagens, em meio à correria colorida nonsense, recheada de músicas propositalmente "chiclete". Sem deixar de lado a tradicional boa mensagem para os pequenos. Aqui os principais aprendizados são: aquilo que é diferente, não é obrigatoriamente mal ou inimigo; e amadurecer não significa deixar de lado o que você amava quando mais novo. No geral o formato ainda é o mesmo, mas com piadas e desafios novos.

Para os adultos há um sub-texto curioso, que embora não explorado pode levar à uma discussão curiosa. A falsa sensação de livre-arbítrio em que os personagens vivem. Vale lembrar que, no filme anterior descobrimos que a jornada destes personagens são determinadas pelas brincadeiras de seus donos (Jadon Sand e Brooklynn Prince), e eles não fazem ideia desta interferência. Esta aventura é muito mais ciente do mundo "das pessoas", embora seus protagonistas não sejam.

E já que são pessoas do nosso mundo que ditam as regras, referências e piadas que extrapolam o universo de LEGO não faltam. Muitas inclusive, são pensadas pensadas exclusivamente para os adultos na sala. A alusão à outros universos e eventos em excesso, pode soar como exagero para alguns, mas reforçam a ideia de que tudo é uma enorme brincadeira de alguém do nosso mundo.

E por falar em brincadeira, vale notar o detalhismo da animação que mostra o desgaste das pecinhas agora já com cinco anos de uso. Ou ainda o acréscimo de texturas, conforme outros outros objetos são acrescentados na brincadeira pelas crianças.

Muitos não acreditariam na longevidade de uma franquia inspirada por um brinquedo de montar. E é verdade que esta segunda aventura (terceira se contar o filme solo do Batman) perde por não contar mais com o frescor da novidade, e por apostar em apostar em piadas repetidas porém certeiras, como os maneirismos de seu afetado Cavaleiro das Trevas.

Ainda assim, Uma Aventura LEGO 2 prova que com criatividade é possível sim, extrair uma boa aventura dos blocos coloridos, embora ter muitos bons personagens licenciados ajude. Resta agora, tentar adivinhar por quanto tempo este universo consegue se sustentar, para continuar entregando estas aventuras frenéticas e incríveis.

Uma Aventura LEGO 2 (The Lego Movie 2: The Second Part)
2019 - EUA - 106min
Animação, Aventura


Leia também as críticas de Uma Aventura LEGO e LEGO Batman: O Filme
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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Se a Rua Beale Falasse

Garoto conhecem garota, eles crescem cultivando uma bela amizade. Quado chegam em idade adulta, se percebem apaixonados e começam a planejar a vida juntos. Procurar uma casa, construir uma família... Esta poderia ser uma jornada relativamente simples e até comum, não fossem os jovens em questão parte de uma minoria marginalizada pela sociedade.

Tish Rivers (KiKi Layne) e Fonny Hunt (Stephan James), estão começando sua vida juntos quando o rapaz é acusado de um crime que não cometeu. Grávida, a moça luta para provar a inocência do rapaz à tempo do nascimento do bebê.

Baseado no livro homônimo de James Baldwin, o primeiro filme de Barry Jenkins depois de Moonlight: Sob a Luz do Luar, Se a Rua Beale Falasse tem tanto a dizer quanto seu predecessor. Mas ao contrário do que se pode imaginar, a produção desvia do caminho da investigação criminal e da busca por provas, para mostrar as consequências dessa injustiça, um belo romance e uma vida promissora interrompidos ainda em seu início.

Intercalando dois momentos no tempo, o roteiro coloca em paralelo dois pontos opostos na vida da narradora, Tish. O nascimento do romance idealizado, e a cruel realidade de um jovem negro nos estados unidos. A doçura do primeiro, potencializa ainda mais a sensação de injustiça e impotência do segundo. Não que o caso de Fonny, não seja revoltante por conta própria. Mas o vislumbre das possibilidades roubadas pelo preconceito e ódio, torna a sensação de perda ainda pior.

Perda aliás, que não se restringe apenas ao casal, mas a todos à sua volta. Pais, irmãos e amigos, o filme mostra diferentes reações de cada um deles. E sim há preconceito também dentro de seu próprio núcleo. É aqui que o filme tem seus pontos mais fracos, ao não mostrar um pouco mais ou mesmo oferecer o desfecho satisfatório, para algumas destas relações. Fora do círculo pessoal, acompanhamos as dificuldades geradas pelo preconceito, antes e depois acusação injusta. E os belos e raros vislumbres de esperança que causam espanto nos protagonistas. Como o momento que Fonny desconfia do proprietário de um apartamento que pretendem alugar, apenas por que ele os trata bem.

Embora este não seja o foco, há sim espaço para mostrar os eventos que levaram Fonny à prisão, mostrados de forma simples e clara. Em nenhum momento há dúvida quanto à inocência do rapaz. O questionamento é como lutar contra o sistema descaradamente criado para impossibilitar sua defesa.

A fotografia que evidencia os amarelos e verdes, criam uma atmosfera ao mesmo tempo quente e melancólica. Um paralelo acertado com o tom da trama, há sim muito amor envolvido, mas também muita desesperança. O design de produção e figurinos conseguem equilibrar o realismo pertinente à realidade cruel que esta família enfrenta, com os momentos mais lúdicos do romance "de cinema" dos protagonistas. Enquanto a câmera, volta e meia encara os personagens de frete e vice-versa. Estes longos closes silenciosos nos aproximam de Tish e Fonny tanto nos instantes apaixonados, quanto nos temerosos.

O elenco aplicado também consegue transmitir com equilíbrio a gravidade da situação, com a necessidade de seguir em frente. Layne e James, desenvolvem com delicadeza a transição de seus jovens ingênuos e esperançosos, para os adultos que descobriram que a vida não segue nossos planos. Mas é Regina King que se destaca, como a determinada mãe da jovem. Também estão em cena, Colman Domingo, Michael Beach, Aunjanue Ellis, Finn Wittrock, Diego Luna, Pedro Pascal e Dave Franco.

Doce e forte, Se a Rua Beale Falasse aposta em reforçar o que foi perdido. Para reforçar a crueldade do preconceito, ódio e injustiça. Uma forma poética de abordar um assunto importante, que conta ainda com auxílio de fotografias do mundo real, para lembrar que esta história se repete constantemente. Impossível não sofrer pela vida promissora interrompida dos vários Tishs e Fonnys, em diferentes Ruas Beales mundo à fora.

Se a Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk)
2018 - EUA - 119min
Drama


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