quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Infiltrado na Klan

Volta e meia o cinema traz um argumento que soaria absurdo e impossível, não fosse o fato de se tratar de uma história real. Mais raras são as vezes em que esse acontecimento absurdo de tempos atrás reflete tão bem os tempos atuais. Infiltrado na Klan, de Spike Lee, aproveita o tom naturalmente inacreditável da história em que foi inspirado, para abordar uma temática complexa e ainda atual com um humor ácido e altamente crítico.

Ron Stallworth (John David Washington) é um dos raros policiais negros do Colorado na década de 1970. Ele conseguiu a proeza de se infiltrar na Ku Klux Klan local. Após muitas conversas telefônicas com o grupo supremacista branco, chega a hora de participar pessoalmente. Aqui entra em cena Flip Zimmerman (Adam Driver), policial branco, e judeu, que personifica Ron nos encontros com o grupo. Não é preciso dizer, que sabotar a instituição por dentro, não é tarefa fácil, muito menos segura.

Mesmo assim, tanto a dupla quanto a produção encara de frente o racismo nada sutil, ou mascarado daquele grupo. Os membros da KKK, são propositalmente caricaturas unidimensionais e orgulhosas de seu preconceito. Apesar de suas personalidades rasas, juntos eles formam uma entidade real e ameaçadora, bastante crível. À exceção é seu líder David Duke, vivido por Topher Grace como uma criatura de semblante frágil e aparentemente ponderada, que tentava mascarar o discurso radical de sua comunidade.

Do outro lado do discurso, as personalidades são mais complexas e melhor trabalhadas. Flip é um judeu com pouca conexão com as dificuldades de seu povo, que vai ter sua identidade afirmada quando presencia pela primeira vez essa violência exacerbada e constante. Adam Driver consegue fazer esta transição de forma gradativa para nós, mas imperceptível para seus colegas de Klan. Através de olhares e expressões sutis que eventualmente escapam da postura fria e impassível que este adota para seu personagem.


Entretanto é Ron quem mais vai crescer no processo, claro. Uma pessoa de postura contida e pouco engajada com os movimentos de defesa de direito dos negros. Mesmo que de certa forma trave suas próprias batalhas. Afinal se candidatar a um trabalho onde sabe que vai precisar se impor e provar constantemente, também é uma forma de luta. Até o fim da jornada, ele vai adquirir uma visão menos ingênua, mais consciente dos vários discursos que o cercam. E, consequentemente, uma postura mais contundente em relação à tudo isso. John David Washington acerta nas muitas nuances de seu crescimento, seja nos níveis de raiva ou no tom do de
boche em relação à toda essa situação.

E por falar no deboche, Spike Lee usa o humor como ferramenta para construir sua crítica ao preconceito. Comédia sobre o absurdo da situação, sobre o estranhamento diante das tradições do grupo, sobre a imbecilidade de seus membros e até sobre as cenas de perigo, sempre com o timming afinado, mantém o espectador alerta e interessado. Além de provar que é possível sim fazer piada sobre o racismo, sem ser racista.

Ao mesmo tempo que expõe e critica o discurso da Klan, o roteiro aponta que há divergências também entre aqueles que são resistência. Entre os militantes negros, há quem defenda posturas mais pacíficas ou mais agressivas, e também que menospreza a forma do outro lutar. O interesse romântico do protagonista, é o exemplo maior desta divergência. Patrice (Laura Harrier) acusa Ron de ser traidor, por ele ter escolhido ser policial. Ignorando o papel de luta que ele poderia ter, e as dificuldades que ele precisaria enfrentar nessa posição.

Ainda sim, é o discurso de ódio racista o principal foco da crítica. Posicionamento tão verdadeiro da década de 1970, quanto nos dias de hoje. A crítica não é em relação à um comportamento do passado, mas um que inacreditavelmente persevera até os dias de hoje. Realidade reforçada por um final extremamente didático, caso à essa altura alguém ainda não tenha feito a conexão com acontecimentos atuais.

O visual e trilha sonora do filme acertadamente emulam as características do filmes blaxploitation, enquanto a voz marcante do diretor tornam a produção única. Planos bem escolhidos, construção de paralelos e uma edição bem delimitada, atendem às necessidades da história. A produção se deixa ser mais lenta quando precisa desenvolver relações e idéias, e adota um ritmo mais dinâmico conforme as situações ficam mais tensas.


Infiltrado na Klan é um filme sobre outros tempo, mas que reflete muito bem a época em que está sendo lançado. Apontando o extremismo e absurdos que a humanidade consegue alcançar, fazendo uso acertado de sarcasmo e ironia. Uma crítica nada sutil ou mascarada, assim como o é ódio que ela combate. Uma produção necessária e verdadeira, sobre mais de uma história inacreditável.

Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman)
2018 - EUA - 135min
Biografia, Drama


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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Unbreakable Kimmy Schmidt - 4ª temporada (parte 2)

A primeira geração de séries da Netflix está chegando ao final de suas narrativas. House of Cards teve uma pouco satisfatória última temporada. Demolidor foi cancelada logo após a liberação de seu terceiro ano. Agora é a vez de Unbreakable Kimmy Schmidt se despedir mas, diferente de suas colegas de streaming, a comédia chega ao seu final mantendo seu espírito inquebrável.

Já faz anos desde que Kimmy (Ellie Kemper) foi libertada do Bunker onde ficou presa por 15 anos, após ser sequestrada por um líder de uma seita estranha. Ela já se adaptou aos tempos modernos, atualizou suas referencias, enfrentou seu passado dentro e fora do cativeiro, terminou os estudos, começou uma carreira, experimentou novos relacionamentos e até criou uma família disfuncional tão louca quanto ela. Falta apenas encontrar seu lugar definitivo no mundo, encerrar arcos, resolver os últimos dilemas, fazendo as últimas críticas pertinentes à nossa sociedade. É exatamente isso que seus últimos episódios fazem.

A quarta e última temporada da série foi dividida em duas. Os seis primeiros capítulos foram lançados em Maio de 2018, tornando a série elegível para o Emmy daquele ano. Os demais episódios chegaram agora, em Janeiro de 2019, continuando o desenvolvimento iniciado na primeira metade da temporada. Leia aqui as impressões sobre estes episódios.

Esta segunda parte se mantém afiadas nas criticas e temas atuais. Empoderamento feminino, igualdade de gênero, culto à celebridades, movimentos como o "Time's Up" e "MeeToo", estão entre os principais temas abordados ora de forma sutil, ora escrachada - vide à paródia de Donald Trump. Sempre de forma absurda e quase inacreditável, com diálogos inteligentes e muito rápidos. Eu disse quase inacreditável, já que situações que beiram os limites do absurdo são características do universo da série.

Ao mesmo tempo a produção se despede de todos os personagens, fixos, recorrentes e até participações especiais. Perceber que o roteiro se preocupou com o destino de personagens como as Mulheres Toupeiras ou Xanthipppe (Dylan Gelula) é extremamente satisfatório, além de dar ao público a oportunidade de se despdir da série como um todo. A cena entre a adolescente e Kimmmy, por exemplo, resgata uma das melhores dinâmicas do primeiro ano do programa.

O retorno de conhecidos não impede que a série traga novas e surpreendentes participações. As aparições de Zachary Quinto e Jon Bernthal são as que mais se destacam. Bernthal ainda abre portas para piadas internas com a própria Netflix, já que o ator está presente em outras duas séries da plataforma, Demolidor e Justiceiro, onde faz o personagem título. Não é a primeira vez que a se érie faz esse tipo de brincadeira, em uma temporada anterior, uma personagem foi parar em Litchfield, o presídio de Orange is The New Black.

Com tanta gente indo e vindo, o tempo para explorar melhor os arcos de Kimmy, Titus (Tituss Burgers), Jacqueline (Jane Krakowski) e Lillian (Carol Kane) pode soar curto para alguns. Mesmo assim, o programa consegue administrar o tempo que tem para levar o arco de cada um deles à um desfecho coerente, tanto com seus estereótipos assumidos, quanto com o universo absurdo em que vivem. E pasmem, todos ganham um final relativamente feliz e otimista, à exemplo do estado de espírito principal de sua protagonista.

Há inclusive, tempo para um episódio completamente fora de curso. O nono episódio, Sliding Van Doors, é mais longo e o único que não tem o nome da protagonista no título. Ele mostra como seria o mundo se a moça nunca tivesse entrado na van do reverendo. Apesar na pausa da história principal, a mudança de perspectiva traz pontos interessantes e não quebra o ritmo frenético e louco da narrativa.

Vibrante e colorida, Unbreakable Kimmy Schmidt, criada por Tina Fey e Robert Carlock, é provavelmente a série mais subestimada desta primeira geração da Netflix. Ela conseguiu a proeza de ser encerrada, ao invés de cancelada, e seguiu com a mesma qualidade até seu desfecho. Nos despedimos de Kimmy com o mesmo ritmo frenético, criticas mordazes e bom humor com os quais a conhecemos. Que venha agora a despedida de Orange is The New Black.

Unbreakable Kimmy Schmidt tem quatro temporadas. Os três primeiros anos tem treze episódios cada, enquanto a temporada final apenas doze. Todos já disponíveis na Netflix.

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

As Melhores Babás do Cinema

Mary Poppins está de volta aos cinemas com seu métodos educacionais mágicos. A britânica é sem dúvida a babá mais icônica do cinema, mas ela não é a única boa cuidadora de crianças que podemos encontrar na sétima arte. Confira abaixo uma lista com as melhores profissionais do ramo já mostrada pelo cinema, cheque suas referências e escolha sua favorita!

Mary Poppins
Julie Andrews / Emily Blunt
(Mary Poppins - 1964 / O Retorno de Mary Poppins - Mary Poppins Returns - 2018)

Ela é ao mesmo tempo a mais antiga e mais recente de nossa lista, pois nada é simples no universo mágico da babá britânica. Mary nasceu nos livros de P. L. Travers, lançados entre 1934 e 1988, e chegou aos cinemas pela primeira vez nos anos 60 após duas décadas de negociação entre Walt Disney e a autora. E embora tenha se tornado um sucesso, a produção foi conturbada e desagradou a autora. O filme Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks - 2013), traz uma versão romanceada da produção, estrelada por Tom Hanks e Emma Thompson.


Nos cinemas, Mary chega quando é necessária, com datas curiosas para ir embora previamente estipuladas, como "quando o vento mudar" ou "quando a porta abrir". Ela nunca traz referências e nem explica nada. Sim, ela soa meio arrogante e atrevida, mas o trabalho justifica essa fachada atípica. Seus métodos educacionais incluem atos inimagináveis como entrar em ilustrações, organização de quartos em um estalar de dedos, mergulho em banheiras, chás flutuantes e muita música. Seus serviços não atendem apenas as crianças. De fato, são os pais quem tem o maior aprendizado.

Os dois filmes da Disney estrelados por ela pertencem ao mesmo universo, mas tem intérpretes distintas. Enquanto Julie Andrews imortalizou sua figura altiva. Emily Blunt a atualizou, tornando a moça ainda mais atrevida. As duas versões são ao mesmo tempo diferentes e parecidas.

Maria
Julie Andrews
(A Noviça Rebelde - The Sound of Music - 1965)

Maria é uma noviça de espírito livre, vive fugindo do convento para cantar à plenos pulmões em belas colinas, dando trabalho para suas superioras. Quando o Capitão Georg von Trapp precisa de ajuda para cuidar de seus sete filhos, as freiras não hesitam em enviar a animada noviça. Aos poucos a moça conquista as rebeldes crianças, traz vida de volta à mansão e se apaixona pelo chefe da família. Tudo isso, claro, com muito canto e dança.

A família Von Trapp existiu de verdade, e em 1949, Maria lançou o livro The Story of the Trapp Family Singers para ajudar a promover a família de cantores. A jornada da noviça desde o convento até a saída da Austria, fugindo do Nazismo é real. Antes da versão que conhecemos o livro ganho uma versão e sequencias produzidos na Alemanha ocidental e uma versão americana para os palcos. Mas foi a versão estrelada por Andres - sim, ela novamente! - é a que imortalizou a história da família para o mundo com suas icônicas canções.

Sra. Doubtfire
Robin Williams
(Uma Babá Quase Perfeita - Mrs. Doubtfire 1993)

Sra. Euphegenia Doubtfire é uma senhorinha adorável, meio desajeitada e atrapalhada, com sotaque engraçado e hábitos peculiares. Secretamente, ela também é Daniel Hillard um pai meio crianção, que após o divórcio se recusa a ficar longe de seus três filhos. O ator se disfarça e se candidata à vaga de babá das crianças. Humor de situação, e problemas com sua dupla identidade, permeiam a jornada de amadurecimento reconciliação. A Sra. Doubtfire pode não ser a mais eficiente das candidatas, mas é uma das mais divertidas.

Robin Williams passava mais de quatro horas na maquiagem para se tornar a personagem criada por Anne Fine. Seu livro Alias Madame Doubtfire foi lançado pela primeira vez em 1987.

Corina Washington
Whoopi Goldberg
(Corina, uma Babá Perfeita - Corrina, Corrina - 1994)

Corina na verdade quer escrever críticas de músicas como profissão, mas já que é uma mulher negra nos estados unidos no final da década de 1950, não consegue encontrar trabalho. É assim que ela vai parar na casa dos Singer, uma família que acaba de perder a mãe. O primeiro desafio é criar um vínculo com Molly, que deixou de falar com a perda. Ela faz isso com métodos criativos, que parecem até mágico quando se tem apenas sete anos.

Outro desafio que esta babá enfrenta, é o preconceito que fica ainda mais evidente quando começa a desenvolver um relacionamento com Manny, pai da menina. Ela é provavelmente a profissional menos disponível desta lista. Ela quer fazer críticas lembra? Mas vale uma olhada apenas pela mensagem discurso importante e pelo carisma de Whoopi.

Ole Golly
Rosie O'Donnell
(A Pequena EspiãHarriet the Spy - 1996)

Talvez você não se lembre de Golly, mas seus métodos eficientes, e aplicáveis no mundo real, garantiram seu lugar na lista. A babá da espiã mirim Harriet, a profissional sempre estimulou sua protegida a ser uma escritora melhor. Também era muito contundente, eficiente e realista em seus conselhos. Ela também conhece as fases de desenvolvimento dos pequenos e se afasta quando a menina deixa de precisar dela, em uma cena de cortar o coração.

Golly é uma criação de Louise Fitzhugh, que lançou o livro Harriet the Spy em 1964. As aventuras da meninas já tiveram várias sequencias e diversas adaptações.

Didi
Renato Aragão
(O Noviço Rebelde - 1997)

Pois toda lista precisa de ao menos um representante nacional, e Didi Mocó Sonrizal Colesterol Novalgino Mufumbbo já fez de tudo um pouco. Nesta comédia juvenil que faz paródia de A Noviça Rebelde, Didi é um sacristão em um pequeno vilarejo no Ceará, que perseguido por um fazendeiro da região foge para o Rio de Janeiro. Na cidade maravilhosa ele consegue o emprego de babá dos cinco filhos do Dr. Felipe.

Este é o tipo de profissional que ajuda as crianças a serem mais independentes, já que apronta muito mais que a molecada, que precisa ajudá-lo a desfazer as confusões. Mas ele também estimula as crianças a seguir seus sonhos, mesmo que tenham que quebrar algumas regras para isso. Ah! Essa é também uma das poucas vezes que o personagem não termina a aventura sozinho.

Babá McPhee
Emma Thompson
(Nanny McPhee, a Babá Encantada - Nanny McPhee - 2005 / Nanny McPhee e as Lições Mágicas - Nanny McPhee and the Big Bang - 2010)

Outra babá britânica de habitos curiosos. McPhee vem quando precisam dela, mas não a querer. E vai embora quando a querem, mas não precisam mais dela. Inicialmente é sempre rejeitada pelas crianças, mas conforme os protegidos aprendem suas lições, ela passa a ficar mais agradável aos seus olhos, figurativa e literalmente. A profissional muda de aparência ao longo de sua estadia. Não se assusta com famílias grandes, nem com crianças rebeldes, e costuma ajudar os pais por tabela.

Criada por Christianna Brand, é protagonista de três livros, Nurse Matilda (1964), Nurse Matilda Goes to Town (1967) e Nurse Matilda Goes to Hospital (1974). Seu nome foi alterado para a versão para os cinemas. Nurse, sinônimo de babá não é muito utilizado atualmente, enquanto Matilda já é o nome de outra obra infantil, por isso foi trocado por McPhee.


McPhee traz muitas semelhanças com sua conterrânea mais velha, Mary Poppins. Além de definirem seu próprio tempo de trabalho, ambas usam magia para educar pais e filhos, e trem uma silhueta icônica. Emma Thompson foi sua intérprete nos dois filmes. Ela também é a roteirista, e a pessoa que apresentou a ideia de adapta o livro para o estúdio.

Annie Braddock
Scarlett Johansson
(Diário de uma Babá - The Nanny Diaries - 2007)

Annie é a primeira babá antropóloga. Aceita o emprego de cuidar de Grayer, uma criança do Upper East Side, quando não consegue o trabalho desejado após sair da faculdade. Enquanto cuida do menino, ela tenta compreender antropologicamente a sociedade do bairro mais elitista de Manhattan. É claro, nesse processo ela acaba se apegando às pessoas e até arranja um super-pretendente.

O roteiro é inspirado no livro de Emma McLaughlin e Nicola Kraus, Diários de Nanny que satirizam a classe alta de Manhattan. O filme não deixa de fazer referência à mais icônica das babás. A canção vencedora de um Oscar Chim, Chim, Cher-ee,, de Mary Poppins pode ser ouvida durante a produção, e sombrinhas - o meio de transporte da babá mágica - é um ícone recorrente no filme.

E aí, conhecia todas estas profissionais e seus filmes? Qual destas babás você contrataria? Esqueci sua babá favorita? Deixe o currículo dela aí nos comentários. 

Confira mais listas da cultura pop, e leia a crítica de O Retorno de Mary Poppins
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Como Treinar o Seu Dragão 3

Em sua primeira aventura, Soluço quebrou paradigmas e ensinou um novo estilo de vida para a sua sociedade. Na sequencia ele cresceu, expandiu seus horizontes, desvendou mistérios e se engajou em uma missão nobre. Como Treinar o Seu Dragão 3 mostra o jovem líder de Berck buscando uma solução definitiva para a proteção dos dragões.

Grimmel (F. Murray Abraham), um grande caçador ameaça os dragões, agora protegidos pelo povo de Berck. Seu grande objetivo é eliminar todos os Fúrias da Noite. Para proteger Banguela e companhia, Soluço (Jay Baruchel) decide encontrar o lendário Mundo Secreto onde as criaturas poderiam viver em paz. Ao mesmo tempo, Banguela se apaixona por uma Fúria da Luz.

Uma das características mais interessantes desta franquia, é a forma como ela evolui. Os personagens não apenas aprendem, mas envelhecem e amadurecem. Suas perspectivas e objetivos na vida mudam, e com eles o rumo de suas aventuras. Dito isso, não é surpresa de que a própria produção tenha a maturidade de reconhecer suas limitações. O terceiro filme percebe o esgotamento de seu argumento e o risco de se tornar repetitivo, e decide mudar os rumos e até a mensagem de sua narrativa.

Como Terinar o Seu Dragão passou dois filmes pregando a convivência em harmonia entre humanos e dragões. Esta última aventura, aponta que talvez a convivência conjunta não seja o melhor para todos. Apontando que cada um tem o seu lugar no mundo, e à vezes é necessário soltar amarras e aceitar as mudanças. Esta última jornada de crescimento, traz também um desfecho definitivo para as aventuras de Banguela e Soluço, mas não antes de nos levar para um último voo.

Transformada em um santuário onde os dragões resgatados de caçadores podem viver em paz ao lado dos humanos, Berck está sobrecarregada e chamando a atenção de quem não gosta das criaturas voadoras. Isso obriga Soluço à pensar mais à frente, não apenas na defesa imediata de seus amigos com asas, mas também em seu futuro. O empasse com o vilão é o mais simples da trilogia, ele usa dragões escravizados para caçar outros dragões e pretende eliminar todos. Esta economia é proposital e abre espaço para o desenvolvimento da dupla protagonista.

Além de se tornar o Alpha, o líder dos dragões, Banguela começa a ter necessidade de fazer vôos solo. Cabe a soluço aprender a lidar com essa nova independência de seu fiel companheiro. Afinal, o Fúria da Noite é amigo ou propriedade do jovem líder? Amizade e liberdade são os temas discutidos aqui. Curiosamente um empasse bastante semelhante ao enfrentado por Vanellope e Raplh em WiFi Ralph, também lançado este mês. Este novo momento na relação deles também se reflete nos demais personagens, e no futuro daquela sociedade.

Tecnicamente o filme continua aprimorando sua qualidade, enquanto mantém a liberdade criativa. Mais designs loucos de dragões são mostrados, sem deixar de lado a curiosa harmonia entre os seres voadores exagerados e mega coloridos, e os humanos com características mais realistas. Vale lembrar, as pessoas envelhecem nessa franquia, e a suas versões mais velhas são críveis, sem deixam de lado a essência dos personagens que conhecemos ainda pequenos. 

As locações, sequências de vôo e batalhas garantem o espetáculo visual que justifica o 3D. Além de trazer o ritmo e cores acelerados que vão manter os muito pequenos envolvidos, enquanto os mais velhos se relacionam com os dilemas mais complexos dos personagens.

Como Terinar o Seu Dragão é uma franquia criativa quem sempre trabalhou, seus bons temas trabalhados de forma sutil, como a deficiência nem um pouco impeditiva que Soluço e Banguela compartilham, ou o relacionamento maduro que o jovem constrói com Astrid (America Ferrera), sem perder o equilíbrio entre drama e aventura. É eficiente em dialogar com o público em diferentes níveis para atender adultos e crianças. E agora acertadamente não faz vista grossa para o próprio amadurecimento. Cientes de ter explorado o melhor possível de seu universo, a produção opta por entregar um desfecho emocionante, e até surpreendente em se tratando de uma franquia infantil.

Embora não seja impossível para a Dreamworks trazer de volta seus treinadores e dragões, o sentimento que Como Terinar o Seu Dragão 3 deixa é que as aventuras de Banguela, Soluco e companhia foram muito bem contadas e encerradas. Personagens e público cresceram juntos desde a primeira aventura em 2010. A despedida pode ser difícil, mas também é coerente, doce e satisfatória.

Como Terinar o Seu Dragão 3 (How to Train Your Dragon: The Hidden World )
2019 - EUA - 94min
Animação, Aventura


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Como Treinar Seu Dragão
Como Treinar Seu Dragão 2
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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Green Book - o Guia

The Negro Motorist Green-Book era um guia para viajantes publicado anualmente entre os anos de 1930 e 1960. Trazia uma lista de hotéis, restaurantes e serviços abertos à afro-americanos, em pleno período de segregação racial nos Estados Unidos. Ou seja, essencial para qualquer viajante negro que queria evitar hostilidades. No filme Green Book, o guia de mesmo nome serve, é apenas das situações e necessidades absurdas enfrentadas pelos personagens de Viggo Mortensen e Mahershala Ali.

Tony Lip (Mortensen) é um americano de ascendência italiana de modos grosseiros e racista, que se sai bem resolvendo situações de conflito. Em um período sem trabalho ele se candidata à uma vaga de motorista de um renomado músico clássico. Dr. Don Shirley (Ali), o renomado pianista negro, não precisa apenas de alguém que o conduza em sua turnê, mas tambpem de um segurança, já que os shows vão acontecer no segregado sul 'estadunidense', do início dos anos 60.

A esta altura, você já deve imaginar, o personagem de Viggo Mortensen, vai crescer durante o processo. Partindo de um preconceito disfarçado - ele não é diretamente hostil com "pessoas de cor", mas também não quer compartilhar copos com elas - ele percebe o absurdo do pensamento e comportamento racista ao encarar o seu extremo, ao mesmo tempo que constrói uma relação de respeito com Dr. Shirley.

O que pode te surpreender é o crescimento pelo qual o pianista também passa. Ao invés de apenas a construção de uma relação de confiança, capaz de mudar a visão de mundo da dupla, Don Shirley também tem seus preconceitos para superar. O pianista clássico passou a vida inteira se moldando para se encaixar nos padrões do "mundo branco" para merecer seu respeito. Evitando laços com qualquer elemento da cultura negra ou mesmo sua família. É apenas quando encontra comunidades brancas que, abertamente nunca cogitarão enxergá-lo como semelhante, independente de seu esforço para apagar suas raízes negras, que ele finalmente percebe o absurdo de tentar se moldar aos padrões dos outros. Se percebendo sem identidade própria no processo, ao mesmo tempo que enfrentar pela primeira vez as limitações e hostilidades enfrentadas por afro-americanos naquele período.

A jornada de crescimento é simbiótica, simultânea e definitiva para ambos os personagens. É a relação entre a dupla que permite este amadurecimento. E esta relação é construída com bastante honestidade por seus intérpretes. Não há amenidades para tornar os personagens mais aceitáveis pela platéia. Eles são quem são, pessoas comuns com falhas e que cometem erros. É por essa humanidade, pela possibilidade de mudança e pela química impecável entre Viggo Mortensen e Mahershala Ali, que o público vai conseguir se relacionar e torcer por estes personagens.

O roteiro consegue conferir certa leveza à trama, sem diminuir a importância de sua principal discussão, ao incluir o humor em doses e momentos certeiros. É uma filme gostoso de acompanhar, mesmo com seus momentos absurdos ao ponto de gerar nós no estômago.

Apenas o início da aceitação de Tony Lip soou um pouco equivocada, para esta blogueira que vos escreve. Logo na primeira apresentação do pianista que acompanha, o motorista parece perceber que seu chefe é um gênio, e cria uma admiração por ele como músico. Esta mudança de opinião em particular soa, um tanto quanto rápida e repentina demais. Mas não chega à atravancar o desenvolvimento do filme. É provável, que muitos nem a notem, já que à esta altura já está engajado na construção da relação da dupla. E esta é desenvolvida com um ritmo certeiro a partir daí.

Há ainda que se apontar a excelente trilha sonora, que combina música clássica, R&B e jazz da época em que a história se passa. A mistura de estilos serve à narrativa, Shirley é um musicista clássico, Lip um ouvinte de música popular, inclusive negra. Mas, também, é uma metáfora, para o compartilhamento de jornadas de protagonistas tão distintos, e a inversão de papéis entre eles. Um chefe negro e um funcionário branco, era raridade na sociedade em questão. Embora tratem-se de protagonistas inspirados em pessoas reais, assim como o tal guia segregado.

Em seu primeiro filme solo, o diretor Peter Farrelly - um dos irmãos Farrelly responsáveis por comédias como Quem Vai Ficar com Mary? e Debi & Lóide - surpreende pela eficiência com que aborda uma tema complicado, e infelizmente, ainda relevante. Green Book - o Guia, é um road-movie, com personagens carismáticos e uma jornada agradável de acompanhar, mas com discurso forte e sem rodeios. Tem seus momentos de bom-humor, mas não teme dar um "tapa na cara do expectador", ao mostrar a realidade feita que ainda podemos encontrar em nossa sociedade.

Green Book - o Guia (Green Book)
2018 - EUA - 130min
Drama, Briografia, Road movie


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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Titãs - 1ª temporada

Enquanto no cinema a DC ainda luta para fazer seu universo heroico funcionar, na TV seus personagens com capas, roupas colantes e habilidades especiais passam muito bem. Titãs a nova empreitada lançada pelo serviço de streaming da DC - que no Brasil chegou pela Netflix - expande ainda mais as possibilidades para personagens de quadrinhos na telinha.

Criado na década de 1960, o super-grupo formado por sidekicks e personagens coadjuvantes já teve diversas versões e formações ao longo dos anos em diferentes plataformas. Nesta versão live-action para TV, acompanhamos o encontro de Robin, Ravena, Estelar e Mutano. Reunidos pelas consequências de uma misteriosa caçada à um deles. Ao mesmo tempo que acompanhamos a parceria forçada se tornar uma escolha ciente, também acompanhamos os arcos individuais de cada um deles.

Dick Grayson, o Robin original (Brenton Thwaites, O Doador de Memórias), rompeu com Batman, e agora divide seu tempo entre o trabalho na polícia e o vigilantismo descontrolado nas ruas de Detroid. É assim, que Rachel Roth, a Ravena (Teagan Croft), esbarra em sua história. A adolescente com habilidades que não compreende, nem controla, está sendo perseguida por pessoas e motivações desconhecidas. Desconhecida também é a natureza de "Kori Andrews", a Estelar (Anna Diop, 24: Legacy) perdeu suas memórias. Tudo que sabe é que também está à procura de Rachel.

É Gar Logan, o Mutano (Ryan Potter, Operação Big Hero), quem tem o arco mais fraco. Usado principalmente como alívio cômico e como recurso para apresentação da Patrulha do Destino. Outros heróis que ganham destaque ao longo da série são Rapina e Columba (Alan Ritchson, Smallville e Minka Kelly, Friday Night Lights). Há também espaço para participações especiais de outros nomes conhecidos, que não pretendo mencionar para não estragar a surpresa.

De volta ao elenco principal, são Robin e Ravena aqueles que tem sua relação e arcos melhor trabalhados. Pela primeira vez no papel de tutor de alguém o Menino Prodígio, tem a chance de enxergar seu relacionamento com Batman por outro ângulo, ao mesmo tempo que tenta lutar contra o instinto violento estimulado pelo vigilantismo. Já a garota precisa aprender a controlar as trevas que tem dentro de si, e aprender a usar suas habilidades.

Estelar rouba a cena sempre que aparece, mas tem seu desenvolvimento arrastado para dar espaço para outros personagens. É apenas no final da temporada que começamos a entender quem ela realmente é. Com Mutano, a série surpreende ao ter coragem de mostrar suas transformação em tigre, através de efeitos que não são excepcionais, mas funcionam muito bem dentro do estilo e orçamento da série. O mesmo vale para outros efeitos, como as manifestações de poderes de Ravena e Estelar.

E por falar em estilo, Titãs não tem vergonha da tradicional caracterização dos quadrinhos. Capas, máscaras, roupas exageradas e cabelos coloridos estão presentes, e curiosamente não soam destoantes no tom mais sombrio da série. À exceção são os figurinos de Rapina e Columba, que apesar de estarem no tom correto, são simplesmente feitos e nada funcionais em lutas. A moça sofre também a caracterização em sua versão civil. Kelly usa uma peruca falsa demais até para um universo de cabelos verdes e magenta.

Com censura alta, 16 anos, a série tem a chance de ir além das coloridas e leves "primas" da CW. Palavões, sexo e uma alta dose de violência são permitidos aqui. A escuridão nas cenas de luta podem incomodar alguns, mas é coerente com quem foi treinado pelo Cavaleiro das Trevas.

O mais importante aqui é que nem a ação, nem a violência são gratuitas e abrem espaço quando o drama humano exige. Titãs está mais interessado em apresentar e construir uma relação entre seus personagens, do que apenas explorar suas incríveis habilidades. Gerando mais empatia com o espectador.

Empatia que torna o desfecho da temporada um tanto quanto frustante. O programa deixa seus protagonistas em um gigantesco e desnecessário gancho. À essa altura já nos importávamos o suficiente com os personagens, para não precisar de estímulos para esperar por uma segunda temporada. O resultado é um final anti-climático, que enfraquece a excelente experiência do programa até aquele momento. E que não é contornado pela "misteriosa" cena pós créditos. Sim, tem uma, não deixe de assistir.

Outro ponto fraco são as grandes pausas na narrativa para apresentar ou explotar melhor o alguns personagens. Os episódios Jason Todd, Hank and Dawn e Dick Grayson, sexto, nono e décimo primeiro respectivamente, interrompem a trama do quarteto para trabalhar melhor seus personagens título. Desenvolvimento que funcionaria melhor se fosse diluído ao longo da temporada, ou mesmo trabalhado de forma mais breve. O caso do episódio 11 é ainda mais aflitivo, já que se trata do season finale, e não demora muito para notarmos que o verdadeiro desfecho da trama principal será adiado.


O balanço geral, no entanto, é positivo, a série é bem produzida, tem personagens carismáticos, um elenco eficiente e uma história envolvente o suficiente para sustentar uma maratona. O programa também acerta ao adaptar estes personagens, e apresenta-los de forma simples, mesmo para quem não os conhece dos quadrinhos ou animações anteriores.

Entretanto seu maior mérito talvez esteja no novo caminho que ela aponta. Menos sóbria e intensa que o universo da DC nos cinemas, mas muito mais pesada que as séries do Arrowverse, Titãs não tem vergonha de ser quadrinhos. E descobriu que não precisa abrir mão de um conteúdo mais adulto, para abraçar o lado colorido e exagerado do universo dos super heróis.

A primeira temporada de Titãs tem 11 episódios, todos já disponíveis na Netflix. A segunda temporada já foi confirmada, assim como o spin-off Patrulha do Destino.

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