segunda-feira, 25 de março de 2019

The OA - 2ª temporada

Ou "Parte 2", como a própria Netflix nomeou. O que faz todo sentido, já a jornada de Praire (Brit Marling) e companhia continua quase que de forma ininterrupta entre uma temporada e outra, apesar dos mais de dois anos de diferença entre seus lançamentos. A longa espera é justificada, e compensa o público. The OA tem conceitos e um universo tão complexos que precisa sim de tempo para que seu roteiro não se perca em sua própria mitologia.

Praire, ou OA, compartilhou sua história com seus cinco amigos aleatórios, e consequentemente com a gente. Uma série de eventos obrigou o grupo a executar os cinco movimentos em um momento chave. E apesar de toda a dúvida que os primeiros episódios criara sob sua história, a protagonista conseguiu sim, viajar para outra dimensão atrás de seus outros cinco companheiros. A complicação agora é compreender sua vida nesta nova dimensão e resgatar seus amigos da influência de HAP (Jason Isaacs).

Entretanto, esta nova dimensão tem sua própria narrativa. Nela acompanhamos a buscar do detetive Karim Washington (Kingsley Ben-Adir) por uma adolescente vietnamita desaparecida. Não é spoiler dizer que eventualmente sua investigação vai esbarrar em OA. Bem como na jornada dos amigos que a moça deixou para trás. Steve (Patrick Gibson), Jesse (Brendan Meyer), French (Brandon Perea), Buck (Ian Alexander) e BBA (Phyllis Smith), buscam informações sobre o salto da amiga, ou apenas estão todos com transtorno pós-traumático e incapacidade de processar o luto.

Apesar dos muitos núcleos, esta segunda parte é muito mais equilibrada que a anterior. Alternando constantemente entre Praire, Karim e o grupo deixado para trás, criando a mesma tensão e interesse pelos três núcleos, e respeitando o tempo que cada um precisa para contar sua história. Assim, a protagonista e o detetive tem mais tempo de tela que Steve e companhia.

Mesmo com a limitação de tempo, os jovens e a professora, tem pela primeira vez um aprofundamento melhor, longe de sua "mentora/inspiração". Cada um a sua maneira ele lidam com uma mistura de luto e fé exacerbada. A perda de OA, apenas os tornam mais crentes de sua missão. Além disso, precisam lidam com questões mundanas, como as consequências de seus atos na cantina, e da própria jornada em que embarcam. Afinal a molecada não pode sair por aí fazendo o que bem entende sem dar explicações.

Karim, está como nós espectadores estávamos no primeiro ano. Montando o quebra-cabeças, enquanto tenta descobrir no que pode acreditar. O personagem é uma das melhores adições destes novos episódios, que incluem algumas pessoas por mera conveniência de roteiro, e por isso as deixa soltas em muitos momentos. É o caso de Angie (Chloë Levine), trazida apenas para completar o grupo necessário para fazer os movimentos. O que não significa que estas aquisições não ganhem maior função, caso haja uma parte três. Por hora estão ali apenas para fechar a conta.

É provavelmente a protagonista a personagem mais controversa. Ela tem uma missão clara, resgatar seus amigos. Para que isso funcione precisa se adaptar ao novo mundo, mas demora demais para entender isso e tomar certas atitudes. Se no primeiro ano, a moça parecia ter muita decisão e certeza na história que nos contava, aqui ela oscila entre excesso de determinação, e aquele tipo de personagem que nunca faz as perguntas certas. O fato dos amigos, tanto da escolha, quanto do cativeiro, a endeusarem também não ajuda. É esperado tanto da moça, que dificilmente ela seria capaz de chegar perto de atender as expectativas, e merecer o tal título de OA (Anjo Original na tradução).

Mas novamente, quem sou eu para dizer que a moça não é especial? A história ainda não está terminada, e é cheia de conceitos complexos e reviravoltas. Como afirmar que alguém, é ou não, algo. Talvez estejam todos no processo de se tornarem quem devem ser.

É esse o maior mérito e a melhor parte de The OA. Conseguir conciliar uma quantidade de absurda de incertezas em um roteiro coeso. Trata-se de uma profusão de conceitos novos e difíceis de compreender, mistérios, ambiguidades e dúvidas que ao mesmo tempo confundiram e viciam quem está do lado de cá da tela. É esta estranheza desde universo e quebra-cabeças a ser superado, que nos mantém colados no sofá. Em outras palavas, não faz sentido, mas está interessante, então vamos em frente!


O funcionamento deste mundo non-sense, é mérito de seus criadores Zal Batmanglij e Brit Marling. A dupla está envolvida em todos os aspectos da produção, além de criar e escrever, ela estrela, ele dirige. E principalmente, parecem ter completo controle e conhecimento deste universo, mesmo que não estejam nem um pouco preocupados em explicá-lo em detalhes para nós. A intenção da série, é nos fazer pensar por conta própria sobre fé e outros dilemas humanos, conceitos de ficção cientifica como multiverso, viagens interdimensionais, experiencias de quase morte, nossa submissão à grandes corporações e sistemas, nossa sede por compreender o incompreensível, nossa conexão uns com os outros. Durante as oito horas de maratona, pensamos em cada uma destas coisas, e em tudo isso junto. Antes de sermos abandonados com muitos outros novos questionamentos em seu surpreendente final.

The OA vai de encontro ao proposto pela maioria das séries de qualquer formato. Ela não está preocupada em te explicar tudo para te manter interessado e preservar sua audiência. Quer apenas que você acompanhe e tire as conclusões que desejar, uma vez que mesmo as respostas que oferece não são definitivas. Sim, é a curiosidade criada por uma narrativa cheia de mistérios que te faz ficar até o fim. Mas é a liberdade pela busca de respostas que te faz achar a jornada maravilhosa.


No primeiro ano eu não tinha certeza se tinha gostado de The OA, mas não havia dúvidas de que a série despertara meu interesse. Agora tenho certeza, acho uma obra genial e complexa. E fico na torcida para que a Netflix dê continuidade, e que a produção não se perca em sua complexa mitologia.

A primeira e a segunda partes de The OA tem oito episódios cada. Todos já disponíveis na Netflix.

Leia a crítica da 1ª temporada e confira esta lista de informações úteis para sua maratona da série.
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sexta-feira, 22 de março de 2019

Demolidor - 3ª temporada

Caso você tenha demorado a assistir à terceira temporada de Demolidor como esta blogueira que vos escreve, deve ter se percebido ao mesmo tempo empolgado e melancólico ao final da temporada. Afinal, diferente de quem acompanhou lá na semana em que foi lançada, já sabíamos que este seria o ultimo ano da série na Netflix, e conforme a trama melhorava e empolgava o lamento pelo cancelamento também aumentava.

O terceiro ano de Demolidor começa após os eventos de Defensores, quando o mundo acredita que o herói fora morto no desabamento do prédio ao final da aventura compartilhada com os outros heróis urbanos. Enquanto Matt Murdock (Charlie Cox) cura suas feridas se questiona quanto à necessidade da existência de seu alter-ego vigilante, seu arqui-inimigo Wilson Fisk (Vincent D'Onofrio) encontra um jeito de sair de trás das grades. Também há tempo para desenvolver as histórias de Karen (Deborah Ann Woll) e Foggy (Elden Henson), e para apresentar outro vilão dos quadrinhos.

Entre os demônios de Matt, o complexo plano do Rei do Crime, e apresentação de novos personagens chave, como os agentes do FBI Ray Nadeem (Jay Ali) e Benjamin 'Dex' Poindexter (Wilson Bethel), a trama desta temporada de mora a engrenar. Entretanto, uma vez que todas as peças estão dispostas no tabuleiro (lá pelo episódio seis), a parceria Marvel-Netflix entrega o que consegue fazer de melhor. Um embate frenético e intrigante entre Fisk e Matt, com bom uso de seus recursos/coadjuvantes.

Poindexter tem uma apresentação detalhada e bem construída, que deixa evidente que a produção tinha planos para o personagem nas próximas temporadas. Enquanto o passado de Karen é revelado, nos fazendo entender finalmente as atitudes da moça. Apesar de excelente, o episódio em formato de flashback faz uma incômoda pausa na trama principal. 

Este, e outros desvios da jornada do protagonista para aprofundar outros personagens, que a série abraça, é provavelmente a causa da temporada demorar à engrenar. Os primeiros episódios tomam tempo para situar absolutamente todos em cena. O que deve agradar quem adora acompanhar personagens como Foggy, ou mesmo as conversas sobre ética e religião entre o protagonistas e seus mentores da igreja. Mas podem soar repetitivas para os demais. De fato, uma introdução mais dinâmica e rápida, e consequentemente alguns episódios a menos fariam bem a temporada como um todo.

Ainda sim, o sado deste terceiro ano de Demolidor é positivo. Para o bem ou para o mal, estes primeiros episódios mais lentos, preparam bem o terreno para a segunda metade se desenrolar livremente, sem pausas para longas explicações. E principalmente o elenco está mais seguro e compreende melhor do que nunca seus personagens.

D'Onofrio tem capacidade de transformar a doçura e dedicação do antagonista por sua amada, em algo tão assustador quanto seus verdadeiros atos criminosos. Quem não se incomodaria de ter de tal figura estranha e misteriosa como adorador incondicional?

A introdução da Irmã Maggie (Joanne Whalley) cria um contraponto interessante para os dilemas religiosos de Matt, e uma alternativa aos conselhos do já bem explorado Padre Lantom (Peter McRobbie). Jay ali e Wilson Bethel, entregam com eficiência o que o roteiro exige deles. Enquanto Ann Woll e Henson, já conta com afeto do público e carisma dos amigos do protagonista.

Entretanto é Charlie Cox quem merece o maior crédito. O ator tem completa compreensão das nuances de seu personagem, desde os dogmas religiosos, passando pela (des)crença do Advogado em relação ao sistema, até o vigilante que se arrisca ao testar seus limites. O resultado é um Demônio de Hells Kitchen, brutal e implacável, mas ao mesmo tempo extremamente humano e empático. Vale mencionar, não apenas faz muitas das lutas coreografadas de seu personagem, mas também convence em todas elas. As lutas em Demolidor, ainda são as únicas realmente boas do universo dos Defensores.

Longe de desagradar como as novas temporadas de Luke Cage e Punho de Ferro, o terceiro ano de Demolidor tem apenas um único grande problema, episódios demais que tornam seu inicio arrastado. Ainda assim a série mantem o bom roteiro, trama inteligente e personagens bem utilizados, realmente vale a maratona. Não é atoa, que de todas as séries canceladas da parceria Marvel-Netflix, esta seja a que está causando maior comoção. Queremos ver mais de Charlie Cox como Matt Murder e seu alter-ego heroico. #SaveDaredevil


Assim como as anteriores, a terceira temporada de Demolidor tem 13 episódios, todos já disponíveis na Netflix.

Leia a crítica da segunda temporada, confira dicas úteis para sua maratona do herói, e descubra mais sobre as outras séries deste universo Punho de Ferro, Jessica Jones, Luke Cage, Justiceiro e Defensores.
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quarta-feira, 20 de março de 2019

Nós

Após um grande sucesso, especialmente se for em uma obra de estreia, um criador pode cair na armadilha criada pela por seu próprio trabalho. Ele precisa superar sua produção anterior, atender as expectativas, surpreender e de preferencia não demorar muito para fazer tudo isso. Jordan Peele não pôde escapar desta situação após entregar o excelente Corra!. Seu segundo trabalho como diretor Nós, chega envolto tanto em expectativas, quanto em promessas.

O casal Adelaide (Lupita Nyong'o) e Gabe (Winston Duke), decidem passar um fim de semana em sua casa de veraneio com os filhos Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex). A diversão familiar é interrompida, quando um grupo de "sósias" da família invade a casa.

O uso de duplos e produções de terror, ou ficção cientifica não são uma novidade. Geralmente fazem alusão ao fato de que podemos ser nossos maiores inimigos. Peele, não apenas utiliza bem esta alegoria, como também à expande para além do individuo, fazendo uma crítica à sociedade, especificamente a "estadunidense". E a partir daí coloca os personagens em situações de horror, dignas de pesadelos.

Assim como em seu primeiro trabalho, o diretor que também assina o roteiro e tem uma vasta carreira com comédia, consegue trabalhar bem a comédia em meio às situações de perigo. Estes são de longe os melhores momentos da produção, em especial quando focados na figura paterna. Winston acerta em cheio ao brincar com a figura do patriarca protetor, salvador da família, que é trapalhado demais para fazer as coisas exatamente como pretende, ou como esperaríamos de seu personagem. E isso é ótimo.

O elenco mirim-entrega o que lhes é pedido no roteiro, e não é pouco considerando que cada um faz dois personagens opostos. Enquanto Elisabeth Moss (The Handmaid's Tale), em poucos minutos de tela, apenas comprova sua versatilidade. Mas o foco no elenco, está em Nyong'o, que tem os maiores extremos ao interpretar a matriarca protetora e a invasora. Se a atuação ficou na medida correta, ou passou um pouco do ponto, depende da referência de quem assiste. Particularmente, acho que houve excessos em alguns momentos, mas a entrega da atriz é inquestionável.

De volta à direção, a técnica apresentada é impecável. A produção sempre escolhe posicionamento e movimentação de câmera, e a até iluminação, que melhor atenda ao que a cena pretende passar para o expectador. Como na sequencia de chegada dos intrusos, passada na penumbra nos faz duvidar da existência dos doppelgängers junto com a incrédula família, mesmo que sua existência já tenha sido revelada nos trailer. Os símbolos e recursos visuais, que se repetem ou são reutilizados mais tarde no longa também são dispostos de forma orgânica ao longo da projeção, e funcionam bem.

É no roteiro que Nós deixa a desejar. Com um argumento excelente em mãos, Peele não parece ter tido tempo de refinar o roteiro e aparar as pontas soltas. A desnecessária reviravolta, que parece incluída mais por obrigação do que pela necessidade da história, aumentam os furos de roteiro, e de construção deste universo e mitologia. Bastam alguns instantes de reflexão, para se dar conta de falhas e inconsistências na história de Adelaide e companhia. Percepção facilmente alcançada ainda na projeção, e possivelmente eliminado a suspensão de descrença do expectador em muitos momentos. As boas idéias estão ali, técnica, elenco e orçamento também estavam disponíveis. Talvez tenha faltado o tempo para amadurecer a ideia e entregar uma história tão bem amarrada quanto a de Corra!

Jordan Peele teve uma estreia excelente, mas precisa tomar cuidado para não cair na mesma armadilha que M. Night Shyamalan. E acabar se perdendo na obrigação de surpreender e se superar, em um curto período de tempo. O que no caso dele ainda conta com o agravante de incluir uma contundente crítica à sociedade. Nós  chega sob muita expectativas e com muitas responsabilidades. Condições nada justas com qualquer obra, ou realizador. Poderia ser uma produção tão surpreendente e eficiente quanto o trabalho anterior de Jordan Peele, mas escorrega na necessidade de ser muitas coisas. E no pouco tempo para trabalhar a coesão deste mundo.

Nós (Us)
2019 - EUA - 116min
Terror, Suspense


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terça-feira, 19 de março de 2019

Conheça o #LivroBRnoCinema

Interrompemos nossa programação para anunciar que tem novidade no blog!

O Ah! E por falar nisso..., é parceiro da Campanha #LivroBRnoCinema.

O projeto é do portal parceiro Tábula Rasa e traz um serviço especial para autores nacionais. Mas vou deixar as responsáveis explicarem...

"Dado ao histórico de divulgação da literatura brasileira da atualidade que a fundadora do portal, a fotógrafa e jornalista Louise Duarte, e a editora chefe Anny Lucard, iniciaram a 10 anos atrás, ainda na extinta Rádio Digital Rio, com o programa Contos Sobrenaturais que tinha como objetivo levar a literatura para as ondas do rádio. Além do trabalho de consultoria e das coberturas de eventos literários, como Bienais e lançamentos de livros.

A ideia é divulgar livros nacionais com potencial para se tornarem filmes. Suprindo uma das maiores dificuldades dos autores nacionais, divulgar seu trabalho.  Além de prestar um serviço diferenciado, de baixo custo, focando a divulgação de autores nacionais ainda desconhecidos do grande público.

E para esse trabalho de divulgação, o Tábula Rasa reuniu parceiros que apoiam a ideia, como é o caso do Ah! E por falar nisso.... Parceiro da área cultural, que fala de livros e audiovisual em geral e que também vai ajudar a divulgar os livros da Campanha #LivroBRnoCinema ("Mais Adaptações de Livros BR no Cinema")."

Novidade devidamente apresentada, convido a todos para apoiar a literatura e o cinema nacional junto com a gente. E se você é um autor tentando expandir seu público não deixe de visitar o projeto.

Detalhes sobre os Pacotes de Serviço Especiais do Tabula Rasa 2019,  e sobre a Campanha #LivroBRnoCinema, estão neste link.

Fique atento, vem coisa boa por aí! Por hora, voltemos à nossa programação normal...

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segunda-feira, 18 de março de 2019

Um Ato de Esperança

Não se deixe enganar pelo título genérico, Um Ato de Esperança passa longe de representar o drama que ele nomeia. O mesmo vale para o título original The Children Act (que faz referência à Lei de Crianças do Reino Unido), ou a tradução utilizada pela versão nacional do livro em que o longa fora inspirado, A Balada de Adam Henry. Nenhum destes nomes deixa claro, que vamos acompanhar a complexa vida de uma mulher moderna.

Fiona Maye (Emma Thompson) é uma Juíza da Suprema Corte na Divisão de Família. Ela dá a palavra final sobre casos eticamente complexos, e que quase sempre precisam de uma solução rápida. Não é surpresa que o excesso de trabalho e responsabilidade tenham criado um desgaste em seu estável casamento com Jack (Stanley Tucci). Ao mesmo tempo uma quebra de protocolo no caso de Adam Henry (Fionn Whitehead, Dunkirk), um adolescente que por motivos religiosos recusa o tratamento que pode salvar sua vida, desequilibra ainda mais sua delicada rotina.

E quando digo que esta produção acompanha a vida da juíza, não falo de uma longa biografia, mas do cotidiano. O cansativo dia-a-dia de uma pessoa com um dos cargos mais desgastantes que se pode ter. Decidir em um curto período de tempo sobre a vida e a morte de terceiros, arcar com as consequências destas escolhas e ter completa ciência de que é impossível salvar ou agradar à todos, ser julgada e perseguida o tempo todo, seja qual for sua decisão. O trabalho de Fiona a consome de tal maneira que parece torná-la incapaz de tomar decisões e atitudes em relação à sua própria vida.

Fiona tenta distanciar o emocional de suas decisões. Funciona para corte, mas não para a vida pessoal, fazendo com que ela perceba que sua impassividade está arruinando seu casamento, e mesmo assim não consiga fazer nada à respeito, ela está presa pela própria racionalidade. A quebra de protocolo ao visitar o jovem Adam no hospital, é a gota d'água que falta para desestabilizar a protagonista completamente. Um prato cheio para Emma Thompson bilhar. A atriz consegue transpassar toda a humanidade escondida por baixo da postura austera que a personagem abraça. A imponente juíza, tem medos, duvidas, tristeza, um ou outro vislumbre de alegria, mas principalmente desespero.

E por falar no elenco, é ele o ponto forte desta produção. Enquanto Thompson carrega o longa com as muitas nuances da protagonista. O marido vivido por Tucci, esbanja honestidade e carinho por sua companheira, mesmo quando a frustração em relação ao seu casamento o leva à cometer atos egoístas. A verdade que o ator imprime nessa relação tornam Jack um companheiro que realmente merece mais de Fiona, tornando sua incapacidade de conexão ainda mais gritante.

Whitehead é o outro grande destaque deste bom elenco. Adam é um rapaz inteligente, que se descobre ao mesmo tempo deslumbrado e assustado com a vida. Confusão compreensível para alguém tão jovem que tem todas as suas crenças, e até seus entes mais próximos, posto à prova de uma só vez. Uma grande carga emocional, que o ator desenvolve com naturalidade.

O ponto fraco fica por conta de algumas escolhas de roteiro que tornam o desenvolvimento da relação entre Fiona e Adam um tanto quanto brusco. Como na sequencia em que a dupla se conhece. O jovem já parece deslumbrado com a juíza antes mesmo de conhecê-la, quando seria mais crível que tamanha admiração tivesse surgido como resultado desde encontro, ou mesmo como consequência do desenrolar do processo. Escolhas como estas, tornam o relacionamento mais confuso que o necessário.

O problema maior talvez seja o arco da protagonista, que não parece evoluir. Apesar de tudo pelo que passou, Fiona parece terminar mais ou menos do mesmo jeito que começou. Ainda presa em seu trabalho desgastante, sem conversar sobre seu casamento com o marido. Não posso afirmar com certeza, se o roteiro falhou em encerrar o arco da personagem, não criando as cenas necessárias para resolvê-lo, ou se sua intenção era mostrar uma personagem trágica que não consegue se libertar de seu mundo desgastante. Contudo, a sensação de frustração é a mesma em ambos os casos.

Ao menos à produção acerta ao transmitir o sentimento de clausura da vida da protagonista. Fiona vive em um espaço de algumas quadras, distância entre o trabalho e sua casa. Isso é tudo que ela vê do mundo, uma Londres com poucos atrativos, apinhada de gente ocupada. O tribunal é sisudo, com linhas retas, cores fortes e vestimentas pesadas. Já sua casa é cheia de divisões. Tudo a sua volta é pensado para prendê-la e isola-la ainda mais do mundo.

O drama inspirado pelo romance de Ian McEwan, que também assina o roteiro, relembra que mesmo a autoridade mais responsável e austera, tem suas fragilidades. Mergulhando em seu cotidiano, para observar de perto seus problemas, medos e dificuldades. O que funciona perfeitamente graças às excelentes atuações de Thompson, Tucci e Whitehead. Passa longe de ser Um Ato de Esperança, mas é certamente uma contundente balada sobre a humanidade de pessoas como Fiona. Aparentemente "acima" dos outros, mas que precisa de ajuda, e enfrenta decisões impossíveis como qualquer um de nós.

Um Ato de Esperança (The Children Act)
2019 - Reino Unido - 106min
Drama
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quinta-feira, 14 de março de 2019

Prepare-se para Vingadores Ultimato: MCU em ordem cronológica!

Vingadores Ultimato estreia em pouco mais de um mês, logo é a hora de fazer aquela maratona para refrescar sua memória sobre o Universo Cinematográfico da Marvel. Mas a lista de produções já conta com dezenas de filmes e séries, lançados ao longo de uma década sem necessariamente seguir a ordem dos acontecimentos, resolvi facilitar as coisas. Organizei a linha do tempo do MCU na ordem em ordem cronológica, para você organizar sua maratona.

 A lista abaixo conta apenas com as produções que se conectam diretamente com a linha do tempo principal do cinema. Por isso, as séries da parceria Marvel-Netflix e obras paralelas como Inumanos ficaram de fora (você pode conferir como elas se encaixam na cronologia nesta outra lista). Tenho críticas da maioria dos filmes e séries, clique no título para ler.

E se estiver sem tempo, vou facilitar ainda mais e marcar (⭐) aqueles filmes essenciais para compreender  Vingadores Ultimato. Assim, você pode fazer uma maratona mais curta e ainda assim não ficar perdido! Agora, sem mais delongas...

(Captain America: The First Avenger - 2011 - fase 1)
O nome já entrega né? Steve Rogers foi o primeiro a chegar. Ele já existia muito antes de Nick Fury sonhar em pensar na tal iniciativa Vingadores. Criado em 1942 para derrotar nazistas, já esbarrou na primeira jóia do infinito em sua primeira aventura.

Agent Carter - Marvel One-Shots*
(2013)
Um ano após o desaparecimento do capitão, Peggy está relegada ao trabalho burocrático do Exército. Diante de uma oportunidade, ela agarra a possibilidade de ir a campo, e acaba solucionando um caso sozinha, deixando seu chefe machista furioso. Antes que ele possa puni-la, uma ligação de Howard Stark a designa para a recém-formada S.H.I.E.L.D. Este curta vai de encontro à cronologia da série de TV, onde a agência fora criada mais tarde.

(1ª e 2ª temporadas / 2015-2016)
Com o capitão congelado, só sobrou a Peggy Carter para salvar o mundo. Depois de vencer a guerra, a moça trabalhou na SSR (Reserva Científica Estratégica). As aventuras dela começam em 1946, e se mantém nesta década ao longo das duas temporadas. Mas a moça, ajudou a criar a S.H.I.E.L.D., volta e meia aparece nos filmes e na série de TV dos agentes. Infelizmente a série foi cancelada antes que a S.H.I.E.L.D. tomasse forma, mas a agência começou a nascer ali.

(Captain Marvel - 2019 - fase 3)
Primeira protagonista feminina do universo, o filme de apresentação de Carol Danvers se passa em 1995. Além de apresentar a personagem e criar sua relação com Nick Fury, o longa ainda precisa explicar onde a heroína estava entre esta aventura e sua aparição em Vingadores Ultimato. 

Homem de Ferro
(Iron Man - 2008 - fase 1)
O filme do Tony Stark, foi a primeira produção da Marvel, o grande pontapé bem sucedido para estabelecer o universo. E já que o capitão estava congelado nesse momento, Carol Danvers viajava pelo universo e Hank Pym agia escondido por seu tamanho, ele reinaugurou a era dos heróis. Se passa na mesma época em que foi lançado, 2008.

O Incrível Hulk
(The Incredible Hulk - 2008 - fase 1)
Também se passa mais ou menos na mesma época em que foi lançado, 2008. Geralmente esquecido pois Edward Norton, que vivia Bruce Banner na produção, não entrou em acordo para reprisar seu papel no primeiro Vingadores, sendo substituído por Mark Ruffalo. Mesmo assim, o novo intérprete do Hulk menciona acontecimentos de seu predecessor, então faz parte do universo.

(Iron Man - 2010 - fase 1)
Se passa pouco tempo depois do primeiro filme e ainda lida com as consequências da estreia de Tony como herói, e da revelação de sua identidade para o mundo.

A Funny Thing Happened on the Way to Thor's Hammer - Marvel One-Shots*
(2011)
Quando está à caminho do Novo México para analisar o martelo de Thor, o agente Coulson impede um assalto em um posto no qual faz uma parada para abastecer.

(Thor - 2011 - fase 1)
O deus do trovão também fez sua estreia situado cronologicamente mais, ou menos na época em que foi lançado, 2011.

The Consultant - Marvel One-Shots
(2011)
Pouco após os eventos de Thor, o agente Phil Coulson se encontra com o agente Jasper Sitwell, avisando que o Conselho de Segurança Mundial quer tirar Emil Blonsky, o Abominável, da prisão para se juntar aos Vingadores. Relutantes em libertar alguém tão perigoso, Coulson e Sitwell decidem mandar alguém que sabotasse a reunião com o General Ross e fazê-los desistir da ideia.

(The Avengers - 2012 - fase 1)
O histórico primeiro encontro de todos os personagens apresentados até então, aconteceu em 2012. Mesma época em que foi lançado, e firmou de vez tanto a franquia, quanto a fórmula Marvel. Encerra a fase 1 da Marvel.

Item 47 - Marvel One-Shots
(2012)
Um casal decide assaltar bancos usando uma arma chitauri recuperada após a batalha de Nova York. Um agente da S.H.I.E.L.D. é enviado para lidar com o problema.

(Iron Man 3 - 2013 - fase 2)
Provavelmente ainda se passa em 2012-2013, já que Tony Stark ainda está lidando com os eventos da batalha de Nova York. Inaugura a fase 2 da Marvel.

All Hail the King - Marvel One-Shots
(2014)
Trevor Slattery, o "Mandarim" de Homem de Ferro 3 está cumprindo pena na prisão Seagate, quando é abordado pelo documentarista Jack Norris, que quer investigar seu passado.

(temporada 1, episódios 1-7)
Algum tempo depois de sua morte no primeiro Vingadores, o Agente Coulson volta para comandar uma equipe especial de agentes da S.H.I.E.L.D.; Nesse período, a série se comunicava constantemente com os eventos do cinema, logo...

(Thor: The Dark World - 2013 - fase 2)
Já era 2013, quando Thor voltou à terra, e esbarrou em mais uma jóia do infinito, bem no meio da primeira temporada de Agentes da S.H.I.E.L.D. ...

(temporada 1, episódios 8-16)
Por isso, no meio da primeira temporada, Coulson e cia, precisam limpar a bagunça da batalha em Londres. E o episódio 16 termina com a deixa certinha para começar a próxima aventura do Capitão.

(Capitão América: O Soldado Invernal - 2014 - fase 2)
Quem assistiu ao episódio 16 de Agents of S.H.I.E.L.D., às vésperas da estreia deste filme, não conseguiu evitar a ansiedade, já que o gancho da série terminava com a revelação que move o longa: a agência estava comprometida.

(temporada 1, episódios 17-22)
Estrago feito, os Agentes precisam lidar com as consequências de não ter mais uma agência, e ainda limpar a bagunça que a HYDRA deixou para trás.

(Guardians of the Galaxy - 2014 - fase 2)
Isoladão em um quadrante distante da galáxia, os Gardiões, tinham apenas o Colecionador (que apareceu nos créditos de Mundo Sombrio) como conexão com os outros heróis. E claro, eles acharam outra joia do infinito.

(Guardians of the Galaxy Vol. 2 - 2017 - fase 3)
James Gun queria trabalhar mais a dinâmica de sua equipe recém formada (e vender bonequinhos do Baby Groot), por isso a segunda aventura se passa apenas algumas semanas após a primeira.

(temporada 2, episódios 1-19)
Ainda lidando com os últimos tentáculos da Hydra, são os agentes da S.H.I.E.L.D., em processo de reconstrução da agência, que localizam o cetro de Loki que a super-equipe vai buscar no início de Era de Ultron.

(Avengers: Age of Ultron - 2015 - fase 2)
O filme conversa com a série de TV, apresenta gente nova e ainda sedimenta os novos caminhos de Thor e Hulk, e do mundo em relação às super-pessoas.

(temporada 2, episódios 20-22)
Apesar de ainda fazer parte do universo, a partir daqui a série começa a interagir cada vez menos com seus colegas da tela grande.

(Ant-Man - 2015 - fase 2)
Dr. Hank Pym não quis fazer negócios com Peggy Carter e Howard Stark nos anos de 1990, mas aventura mesmo acontece em 2015. Chegamos a ver a nova sede dos Vingadores inaugurada em Era de Ultron.

(temporada 3)
Inumanos e Hydra (ela não morre mesmo), ainda assombram os agentes da TV.

(Doctor Strange - 2016 - fase3)
Ele já estava sendo vigiado pela Hydra lá em Soldado Invernal. Agora sabemos que a organização maléfica estava correta em se preocupar. É o um dos mais difíceis de situar na linha do tempo, já que a longa recuperação de seu acidente, somada ao treinamento, implica na passagem de vários meses ao longo do filme

(Capitain America: Civil War - 2016 - fase 3)
Um tempinho depois dos estragos de Era de Ultron, o mundo resolve que quer controlar os heróis com o tratado de Sokovia, e a coisa não terminou muito bem.

(Black Phanter - 2018 - fase 3)
O, então príncipe, T'Challa e seu pai estavam nos eventos de Guerra Civil, e o monarca de Wakanda perdeu a vida. O Pantera Negra passa seu filme sendo apresentado, não como super-herói, mas como rei.

Slingshot
(Marvel Agents of S.H.I.E.L.D - webseries)
A inumana Elena “Yo-Yo” Rodriguez, precisa assinar o tratado de Sokovia, mas as restrições do acordo vão de encontro à uma missão particular que ela precisa cumprir. Websérie criada para a ABC.com, se passa pouco antes do início da quarta temporada da série Marvel Agents of S.H.I.E.L.D da qual a personagem faz parte.

(temporada 4)
Diferente dos Defensores o pessoal da S.H.I.E.L.D. precisa se preocupar com o tratado de Sokovia, além de lidar com seus problemas que incluem o Motoqueiro Fantasma. Apesar de o número de inumanos e consequentemente pessoas com poderes ter diminuído bastante nessa temporada.

(Spider-Man: Homecoming - 2017 - fase 3)
O teioso ainda está empolgado com a sua participação na batalha do aeroporto em Guerra Civil. Enquanto seu vilão ganha a vida comercializando tecnologia deixada para trás nas batalha anteriores dos heróis.

(temporada 5)
Os agentes continuam seguindo sua jornada. Situada em grande parte no espaço e com viagens no tempo a temporada afasta isola completamente os personagens dos eventos no cinema.

(Ant-Man and the Wasp - 2018 - fase 3)
Scott e Hope tem sua primeira aventura após os eventos de Guerra Civil. Precisam lidar com as consequências da participação do Homem-Formiga na luta, além é claro do vilão da vez.

(Thor: Ragnarock - 2017 - fase 3)
Thor e Hulk se reencontram e se colocam a postos para encontrar o Thanos, literalmente. É a aventura imediatamente anterior á Guerra Infinita.

(Avengers: Infinity Wars - 2018 - fase 3)
Primeira metade do grande desfecho da fase 3, reúne todos quase personagens do universo cinematográficos apresentados até então (tem uma galera de apoio que desapareceu sem explicação, mas isso foi assunto de outro post). Os Vingadores e os Guardiões da Galáxia tentam impedir que Thanos reúna todas as jóias do infinito e finalmente encaram o vilão.

Vingadores Ultimato 
Estreia 25/04/2019

*Marvel One-Shots é uma série de curta-metragens diretamente em vídeo, produzidos entre 2011 e 2014, que aprofundavam um pouco mais determinados eventos ou personagens do MCU. Eles estão disponíveis como conteúdo extra nos Blu-rays de alguns longas-metragem.

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segunda-feira, 11 de março de 2019

Sempre Bruxa - 1ª temporada

Em sua missão de ampliar seu catálogo próprio, a Netflix buscar produzir obras de diferentes lugares do mundo, abraçar diferentes estilos, atender a públicos de idades diversas, usar temas que estão em alta e até contar com uma ajuda do público certo que uma adaptação oferece. Sempre Bruxa curiosamente reúne todas estas características, mas acaba se perdendo nas possibilidades que ela própria oferece. O que não significa que não dá para se divertir com esta aventura juvenil de tom novelesco.

Carmen (Angely Gaviria), é uma escrava de dezenove anos no século XVII, que vive um romance proibido com o filho de seu senhor. Acusada de bruxaria para seduzir o rapaz, a moça é levada para a fogueira. A surpresa aqui é que ela é realmente uma bruxa e conta com a ajuda de um feiticeiro mais experiente para escapar da fogueira e salvar seu amado. Em troca ela deve entregar uma encomenda em 2019. É claro, quando chega no futuro, a moça descobre que a missão é mais complicada do que parece.

Sim, você entendeu direito. Sempre Bruxa tem romance jovem proibido, magia e viagem no tempo, elementos em alta quando se trata de obras para o público juvenil. E o potencial desta reunião de temas não é pouco. Além do estranhamento e desventuras que que cruzam o caminho de todo viajante do tempo, e do preço que sempre precisa ser pago pela magia, há ainda a discrepância gritante entre realidades. Carmem deixa de ser uma escrava do século XVII, para se tornar uma jovem livre no século XXI. Não que a vida de uma mulher negra nos tempos de hoje seja fácil. O problema é que com tantas possibilidades para trabalhar o roteiro se perde e acaba não explorando bem nenhum deles.

Um viajante do passado, tem muito mais dificuldades de quem faz o caminho oposto. Simplesmente pelo fato de que, enquanto quem vem do futuro tem o passado como referência, quem avança no tempo não pode imaginar o que está por vir. Mas Carmem não tem dificuldades em se adaptar aos nossos loucos tempos. Os instantes de confusão e dúvida são poucos, e o medo é inexistente. É de se imaginar que uma escrava de 1646, se assustasse, ou ao menos tivesse receio de determinadas coisas como o barulho das cidades, carros, vestimentas e principalmente homens brancos desconhecidos. Afinal, nos momentos iniciais, a moça não saberia que a escravidão acabou, ou que as mulheres lutaram - e ainda lutam - para ter os mesmos direitos e autonomia dos homens (outros dois bons temas a serem discutidos, mas desperdiçados). Entretanto, a protagonista em momento algum hesita em sair pelas ruas indagando, e enfrentando, qualquer um que cruze seu caminho.

Como se o desperdício da sempre divertida "fase de adaptação" não fosse suficiente, o roteiro ainda faz questão de ajudá-la sempre que pode, sem dar muitas explicações ou se preocupar com a veracidade das situações. Sem documentos ou dinheiro, a moça se hospeda em uma pensão. Entra em uma universidade, senta e uma sala de aula e assim passa a ser aluna de instituição (na época em que eu fiz faculdade não era tão fácil assim). Em instantes, faz amigos que a tratam como se a conhecessem a vida toda, ainda que eventualmente estranhem seu jeito diferente, e mal saibam seu nome completo. Mesmo seu guarda-roupas moderno e descolado, surge como se fosse fácil se tornar uma fashionista com peças reunidas de um achados e perdidos.

Já a trama principal segue a cartilha de obras juvenis com elementos sobrenaturais. A previsibilidade não seria um problema, se a narrativa fosse bem executada, criando um universo rico e com personagens envolventes. Mas as regras deste mundo são mal explicadas, mesmo com a desnecessária narração da protagonista. E logo a jornada assume um tom episódico, mantendo a trama principal correndo lentamente por fora. Enquanto o texto superficial e protocolar não permite que os personagens soem naturais. O elenco jovem pode até estar tentando, mas não é possível tirar muito do material com que trabalham. 

À esta altura você deve estar se perguntando: com tantos pontos contra, porquê você assistiu até o fim Fabi? -  Surpreendentemente, apesar das falhas, a produção é muito gostosa de acompanhar. A linguagem é simples, e as lacunas são facilmente preenchidas por quem já está acostumado a consumir obras de fantasia. 

Para nós, latinos consumidores de novelas, um bônus. a linguagem tem muitas semelhanças com as novelas que todos consumimos em algum momento da vida. Esta familiaridade com a forma como a história é contada, também ajuda no engajamento. Some aí, a diversidade do elenco e as belíssimas locações de Cartagena. A cidade colombiana mistura belezas naturais, construções históricas e modernas. É um deleite para os olhos.

Sempre Bruxa é uma série colombiana, inspirada no livro Yo, Bruja, escrito por Isidora Chacon. Sobre o qual fiquei curiosa, será que a obra original preenche as lacunas e tem mais espaço para explorar todo o potencial dos bons temas que oferece? Talvez este aprofundamento venha na segunda temporada, já que o programa deixa gancho para tal. Acho pouco provável.

Com uma reunião de elementos altamente rentáveis - viagem no tempo, romance impossível, magia, gente bonita - e linguagem simples, acredito que a série tenha apelo suficiente para seu público alvo jovem. Para aqueles que forem mais exigentes, pode ser consumida sem compromisso em momentos de puro escapismo. Embora, mesmo assim, seja difícil evitar a sensação de potencial desperdiçado. Os temas e argumentos de Sempre Bruxa são ótimos, faltou apenas saber aproveitá-los bem.

Sempre Bruxa tem dez episódios com cerca de uma hora cada, todos já disponíveis na Netflix.
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sexta-feira, 8 de março de 2019

Megarrromântico

Que atire a a primeira pétala de rosa quem nunca se rendeu à uma comédia romântica, com sua atmosfera açucarada e ideais impossíveis de alcançar. Apesar de muitas vezes subestimado, o gênero tem seus prós e contras como qualquer outro na sétima arte. É com estas características, positivas ou não, que Megarrromântico pretende brincar.

Natalie (Rebel Wilson) é uma garota comum, fora dos "padrões de Hollywood", que vive em um mundo igualmente ordinário. Não é de se admirar que ela abomine o mundo irreal das comédias românticas. Também não é surpresa que nesta paródia um incidente vai fazê-la ficar presa no gênero que tanto odeia.

Antes de mais nada, o roteiro apresenta bem o mundo de Natalie, desde seu minúsculo apartamento, passando pela Nova York lotada cinzenta e suja, até o escritório bagunçado e nada atraente. A melhor amiga, Whitney (Betty Gilpin) é o contraponto da protagonista. Se perdendo constantemente nos romances de cinema, ela é a deixa acertada para a protagonista apontar os problemas e convenções do gênero que serão explorados ao longo do filme. É a boa ambientação do "mundo real" dentro do filme, que vai tornar ainda mais absurdo e cômico o mundo de sonho na qual a personagem fica presa, após um incidente bastante mundano, um assalto no metrô.


A partir daí, a produção divide o tempo entre as críticas e homenagens ao cinema, e as piadas criadas para explorar o talento cômico de Wilson. São as primeiras que funcionam, e fazem a produção da Netflix merecer atenção. 

As referências claras à clássicos do gênero, como O Casamento do Meu Melhor Amigo, são deliciosas para quem gosta destas produções. Mas não superam às piadas com os clichés de comédias românticas, como as coincidências convenientes ao roteiro, montagens para escolha de figurino e maquiagem, o melhor-amigo gay e até as cenas de sexo que pulam diretamente para a manhã seguinte. O humor aqui varia entre um tom mais crítico, quando aponta o absurdo da a incapacidade de amizade entre mulheres neste universo, quando de homenagens como as adorados números musicais sem motivo aparente.

É no desvio deste tipo de piadas, para dar espaço aos talentos Rebel Wilson, que o filme perde um pouco o fôlego. Quando a graça vem do estranhamento ou aborrecimento de Natalie, o roteiro acerta, mas quando estende demais a situação ou aposta em humor físico a qualidade cai. Nada que comprometa muito a diversão, mas que não evita a sensação de que gostaríamos de ver mais da paródia proposta pelo roteiro, e menos das firulas da protagonista.

O elenco de apoio cumpre seu papel. O destaque é para Gilpin, que oscila em personagens opostas nas duas versões de mundo da história. Priyanka Chopra convence como o modelo de mocinha inatingível. Liam Hemsworth, não tem tanto timming de comédia quanto o imão Chris (o Thor), mas entrega o que a história exige dele. O papel pode ser uma porta de entrada para o ator explorar mais o estilo. É apenas Adam Devine, quem soa travado como melhor amigo Josh. O comediante parece fazer sempre o mesmo personagem, o cara que se acha engraçado, mas na verdade é irritante que vemos desde A Escolha Perfeita.

A direção de arte, figurinos não reinventam a roda, mas são eficientes em apontar as diferenças entre os dois mundos. Completando o pacote de referências e homenagens à comédias românticas, em especial da década de 1990.

Megarrromântico é tanto uma exaltação, quanto uma crítica ao romances açucarados e irreais que tanto consumimos. Lembra que estes podem e devem ser atualizados, para fugir de estereótipos e ideais impossíveis. Mas quando não, também é possível consumi-los sem culpa, desde que estejamos cientes de sua artificialidade e não esperar um par romântico perfeito na próxima esquina.

Natalie ficou presa em uma comédia romântica para aprender como se divertir com elas. Nos levando juntos para rir de seus absurdos e curtir seus bons momentos. É um atestado da Netflix, de que podemos continuar a curtir nossos guilty-pleasures, sem vergonha alguma!

Megarrromântico (Isn't It Romantic)
2019 - EUA - 89min
Comédia Româmtica
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