sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Titãs - 1ª temporada

Enquanto no cinema a DC ainda luta para fazer seu universo heroico funcionar, na TV seus personagens com capas, roupas colantes e habilidades especiais passam muito bem. Titãs a nova empreitada lançada pelo serviço de streaming da DC - que no Brasil chegou pela Netflix - expande ainda mais as possibilidades para personagens de quadrinhos na telinha.

Criado na década de 1960, o super-grupo formado por sidekicks e personagens coadjuvantes já teve diversas versões e formações ao longo dos anos em diferentes plataformas. Nesta versão live-action para TV, acompanhamos o encontro de Robin, Ravena, Estelar e Mutano. Reunidos pelas consequências de uma misteriosa caçada à um deles. Ao mesmo tempo que acompanhamos a parceria forçada se tornar uma escolha ciente, também acompanhamos os arcos individuais de cada um deles.

Dick Grayson, o Robin original (Brenton Thwaites, O Doador de Memórias), rompeu com Batman, e agora divide seu tempo entre o trabalho na polícia e o vigilantismo descontrolado nas ruas de Detroid. É assim, que Rachel Roth, a Ravena (Teagan Croft), esbarra em sua história. A adolescente com habilidades que não compreende, nem controla, está sendo perseguida por pessoas e motivações desconhecidas. Desconhecida também é a natureza de "Kori Andrews", a Estelar (Anna Diop, 24: Legacy) perdeu suas memórias. Tudo que sabe é que também está à procura de Rachel.

É Gar Logan, o Mutano (Ryan Potter, Operação Big Hero), quem tem o arco mais fraco. Usado principalmente como alívio cômico e como recurso para apresentação da Patrulha do Destino. Outros heróis que ganham destaque ao longo da série são Rapina e Columba (Alan Ritchson, Smallville e Minka Kelly, Friday Night Lights). Há também espaço para participações especiais de outros nomes conhecidos, que não pretendo mencionar para não estragar a surpresa.

De volta ao elenco principal, são Robin e Ravena aqueles que tem sua relação e arcos melhor trabalhados. Pela primeira vez no papel de tutor de alguém o Menino Prodígio, tem a chance de enxergar seu relacionamento com Batman por outro ângulo, ao mesmo tempo que tenta lutar contra o instinto violento estimulado pelo vigilantismo. Já a garota precisa aprender a controlar as trevas que tem dentro de si, e aprender a usar suas habilidades.

Estelar rouba a cena sempre que aparece, mas tem seu desenvolvimento arrastado para dar espaço para outros personagens. É apenas no final da temporada que começamos a entender quem ela realmente é. Com Mutano, a série surpreende ao ter coragem de mostrar suas transformação em tigre, através de efeitos que não são excepcionais, mas funcionam muito bem dentro do estilo e orçamento da série. O mesmo vale para outros efeitos, como as manifestações de poderes de Ravena e Estelar.

E por falar em estilo, Titãs não tem vergonha da tradicional caracterização dos quadrinhos. Capas, máscaras, roupas exageradas e cabelos coloridos estão presentes, e curiosamente não soam destoantes no tom mais sombrio da série. À exceção são os figurinos de Rapina e Columba, que apesar de estarem no tom correto, são simplesmente feitos e nada funcionais em lutas. A moça sofre também a caracterização em sua versão civil. Kelly usa uma peruca falsa demais até para um universo de cabelos verdes e magenta.

Com censura alta, 16 anos, a série tem a chance de ir além das coloridas e leves "primas" da CW. Palavões, sexo e uma alta dose de violência são permitidos aqui. A escuridão nas cenas de luta podem incomodar alguns, mas é coerente com quem foi treinado pelo Cavaleiro das Trevas.

O mais importante aqui é que nem a ação, nem a violência são gratuitas e abrem espaço quando o drama humano exige. Titãs está mais interessado em apresentar e construir uma relação entre seus personagens, do que apenas explorar suas incríveis habilidades. Gerando mais empatia com o espectador.

Empatia que torna o desfecho da temporada um tanto quanto frustante. O programa deixa seus protagonistas em um gigantesco e desnecessário gancho. À essa altura já nos importávamos o suficiente com os personagens, para não precisar de estímulos para esperar por uma segunda temporada. O resultado é um final anti-climático, que enfraquece a excelente experiência do programa até aquele momento. E que não é contornado pela "misteriosa" cena pós créditos. Sim, tem uma, não deixe de assistir.

Outro ponto fraco são as grandes pausas na narrativa para apresentar ou explotar melhor o alguns personagens. Os episódios Jason Todd, Hank and Dawn e Dick Grayson, sexto, nono e décimo primeiro respectivamente, interrompem a trama do quarteto para trabalhar melhor seus personagens título. Desenvolvimento que funcionaria melhor se fosse diluído ao longo da temporada, ou mesmo trabalhado de forma mais breve. O caso do episódio 11 é ainda mais aflitivo, já que se trata do season finale, e não demora muito para notarmos que o verdadeiro desfecho da trama principal será adiado.


O balanço geral, no entanto, é positivo, a série é bem produzida, tem personagens carismáticos, um elenco eficiente e uma história envolvente o suficiente para sustentar uma maratona. O programa também acerta ao adaptar estes personagens, e apresenta-los de forma simples, mesmo para quem não os conhece dos quadrinhos ou animações anteriores.

Entretanto seu maior mérito talvez esteja no novo caminho que ela aponta. Menos sóbria e intensa que o universo da DC nos cinemas, mas muito mais pesada que as séries do Arrowverse, Titãs não tem vergonha de ser quadrinhos. E descobriu que não precisa abrir mão de um conteúdo mais adulto, para abraçar o lado colorido e exagerado do universo dos super heróis.

A primeira temporada de Titãs tem 11 episódios, todos já disponíveis na Netflix. A segunda temporada já foi confirmada, assim como o spin-off Patrulha do Destino.

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Desventuras em Série - 3ª temporada

Logo no primeiro dia de 2019, a Netflix disponibilizou as últimas sete horas da muito, muito triste história dos irmãos Baudelaire. E apesar do que o autor/narrador/personagem, Lemony Snicket (Patrick Warburton), alega todo o tempo, você vai sim encontrar bom entretenimento no desfecho desta série de desventuras enfrentadas por crianças.

Os irmãos Violet (Malina Weissman), Klaus (Louis Hynes) e Sunny Baudelaire (Presley Smith) perderam os pais em um misterioso incêndio. Perseguidos por seu primeiro tutor, o excêntrico Conde Olaf (Neal Patrick Harris), eles passaram por vários guardiões incapazes de defendê-los. Agora, por conta própria, eles tentam não apenas sobreviver ao vilão, mas desvendar o mistério em torno da morte de seus pais.

O Escorregador de Gelo, A Gruta Gorgônea, O Penúltimo Perigo e O Fim, são os quatro últimos livros da saga de Daniel Handler (sob o pseudônimo de Lemony Snicket). A produção da Netflix apresenta cada um deles no seu acertado formato de dois episódios por livro, que fornece o tempo necessário para desenvolver cada história apropriadamente. A exceção é O Fim, que precisou de apenas um capítulo para encerrar a trama.

Esta fórmula adotada ainda na primeira temporada da série é que fornece unidade à aventura. Cada novo cenário e desafio é diferente do anterior, uma montanha, um submarino, um hotel... Mas a maneira uniforme com que as histórias são contadas transforma os 25 episódios em uma aventura única e coesa. Um longo filme, episódico é verdade, mas que também tem uma trama principal que se desenvolve ao longo de toda a jornada.

O visual também ajuda na criação deste universo único, mantendo suas paleta escura e melancólica. Desta vez quase sem os pontos de cor mais suaves e claros que denotavam momentos de esperança na vida das crianças. Afinal, os trio de irmãos está cada vez mais desesperançado diante de tanta desgraça. Outra constante acertada são as muitas participações especiais, que novamente não enumerarei, já que a surpresa é mais interessante.

Enquanto os Baudelaires, passam por suas quatro últimas locações episódicas, a história principal entra em seu terceiro ato. Desfechos começam a ser desenhados ainda em Escorregador de Gelo, e a maioria dos mistérios são explicados ao longo dos quatro títulos. O açucareiro, a VFD (CSC, em português), e até questões que não necessariamente tínhamos ciência de estarem abertas são resolvidas, como a participação de Beatrice. A musa para quem Snicket dedica de forma mórbida cada episódio. Os poucos temas deixados em aberto, são propositais e apenas fortalecem à experiência do mundo como uma "desventura", na qual nem tudo é satisfatório.

Violet, Klaus e Sunny chegam ao final da jornada mais maduros, experientes e conscientes do mundo a sua volta. Sunny, ganha mais função e destaque que apenas morder coisas. Vale mencionar, que ela é vivida por Presley Smith, desde a primeira temporada e a produção abraçou o crescimento da menina. O excesso de computação gráfica necessário para as peripécias do bebê em seu primeiro ano, é quase descartado aqui. A caçula dos Baudelaire também começa a abandonar o vocabulário de bebê e descobrir novas vocações antes da aventura terminar. Seus irmãos, já no início da adolescência tem pequenos interesses amorosos, sem que isso tire o foco da trama principal. Já confortáveis em seus papéis, o elenco mirim dá conta do recado, e continua carregando a história ao lado, é claro, de seu arqui-inimigo.

É o arco de Olaf que tem maior desenvolvimento. Finalmente conhecemos história do vilão e, consequentemente, descobrimos todas as suas motivações, que vão além do desejo pela fortuna das crianças. Curiosamente, é na temporada que mais descobrimos sobre ele, que a produção diminui sua participação, acertando no uso do personagem. Empolgadas com seu excelente intérprete as primeiras temporadas, exageravam no espaço dado a ele, tirando um pouco da força da atuação de Harris. Neste terceiro ano, o vilão precisa dar espaço para outros personagens cujas histórias interferem na trama principal, equilibrando sua participação.


Equilibrada, bem produzida, com elenco afinado, bons personagens e até uma pitada de humor-negro, Desventuras em Série tem um desfecho coerente e altamente satisfatório. Como um todo a série adapta de forma eficiente a longa jornada dos irmãos Baudelaire, sem excessos ou buracos em seu roteiro. Sua trama com inicio meio e fim pré-determinada por sua origem literária também garantiu que todas as temporadas tivessem a mesma qualidade. Ter um momento definido para seu desfecho, evitou que a produção se estendesse de mais e perdesse o fôlego, como ocorreu como House of Cards, e Orange is the New Black, outras produções originais da Netflix.

Apesar de ser rotulada como um produto infantil, a Desventuras em Série é provavelmente uma das obras mais democrática do serviço de streaming. Easter-eggs referências, e alguns temas mais complexos estão presentes para atender aos adultos que decidirem embarcar na aventura. A qualidade da produção também é um atrativo à parte. A série é visualmente linda e tecnicamente bem executada.

Em outras palavras, é diversão para toda a família, e que finalmente pode ser consumida em sua totalidade. Desde que você esteja ciente de que vai acompanhar uma muito, muito longa jornada de muitas dificuldades e nenhuma alegria... bom, ao menos para os protagonistas. Para quem está do outro lado da tela, o sentimento em relação à esta série de desventuras deve ser muito mais agradável.

As jornada completa Desventuras em Série, um total de 25 episódios distribuídos em três temporadas, já está disponível na Netflix.

Leia as críticas das temporadas anteriores, e curiosidades sobre a série.

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segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Vidro

Outrora um diretor revelação/prodígio adorado, M. Night Shyamalan divide opiniões atualmente. Mesmo assim, não houve quem não ficasse empolgado com sua próxima produção. Descobrimos que queríamos assistir à Vidro, quando o final de Fragmentado (2016) o revelou como uma continuação de Corpo Fechado (2000).  O problema é que o excesso de expectativa pode trabalhar contra qualquer produção.

Semanas após os eventos de Fragmentado, Kevin Wendel Crumb, e suas 24 personalidades (James McAvoy) continuam a raptar adolescentes. David Dunn (Bruce Willis) está empenhado em captura-lo. O empasse entre os dois é interrompido, quando ambos são levados para o hospital psiquiátrico da Filadélfia, onde serão submetidos ao tratamento da doutora Ellie Staple (Sarah Paulson), especializada em pessoas que pensam ser super-heróis. Elijah Price, ou melhor Mr. Glass (Samuel L. Jackson), também está na instituição.

A desconfiança em relação à suas próprias habilidades é um dos conflitos de Vidro, que para surpresa de alguns aposta muito mais nos personagens e suas relações, que no fator "super-heróico" do longa. O trio vai questionar suas próprias personalidades, eventualmente compartilhando estas dúvidas com o espectador. Eles também vão compreender a dinâmica entre herói, fera e mentor, e até rever seu relacionamento com as pessoas à sua volta.

Mas não se engane, apesar de todo o drama que estes temas trazem, o longa encaixa sim, direitinho em uma trama típica de quadrinhos. Paralelos que o próprio Mr. Glass faz questão de apontar para audiência. A diferença está na forma como isso é levado para as telas, contido em seus personagens, e longe da megalomania típica de produções com protagonista super-poderosos.

Além do drama criado pelas relações, e da ação oriunda das habilidades especiais - ou da crença de elas existe, dependendo do que você acredite - há ainda espaço para o suspense, graças às eterna dúvida quanto intenções de Elija, e também de Staple. Além do terror ligado à Fera, e aos medos internos de Kevin. Extrair este misto de elementos e emoções, ao mesmo tempo que costura três arcos distintos em uma única trama, é provavelmente o maior mérito roteiro de Shyamalan.

No aspecto técnico, o diretor mantém seus enquadramentos diferenciados, que pretendem atender ao que cada cena necessita. Já a fotografia e cenários e figurinos, criam uma paleta de cores que conversam com sua inspiração dos quadrinhos. Desde a simples determinação de cores para cada personagem, até a combinação de elementos para tornar a cena mais parecida com quadrinhos, ou mais "realista" de acordo com o momento da trama.

Jackson e Willis, mantém o equilíbrio entre seus já conhecidos personagens, ao mesmo tempo que encaixam o terceiro protagonista nessa dinâmica. McAvoy continua o impressionante trabalho de incorporar duas dúzias de pessoas, mas o excesso de foco nas suas transformações, pode soar forçado e tirar um pouco da força de sua atuação para alguns.

Paulson se encaixa perfeitamente no contexto, com sua personagem ambígua. Anya Taylor-Joy, Spencer Treat Clark e Charlayne Woodard retornam aos seus papéis, Casey a garota poupada pela Fera, Joseph o filho de Dunn e a mãe de Mr. Glass. Esta última com uma caracterização de envelhecimento mal executada, que parece forçada e destoante, mesmo quando seu filho se cobre de um acertadamente caricato figurino roxo, típico dos quadrinhos.

E por falar em Mr. Glass, é ele quem tem uma trajetória crescente e central neste filme. Ele é o personagem tílito, afinal. Mas isso não significa que seus parceiros, tenham seu espaço diminuído, ou arcos encurtados. Suas tramas continuam se desenvolvendo e interagindo, de forma que levem cada um a seu desfecho pessoal e a todos ao final do "plano maior", ao mesmo tempo. Sem enrolações, desvios ou pontas soltas.

O público passou quinze anos imaginando o que acontecera com os personagens de Corpo Fechado, foi pego de surpresa pela relação com Fragmentado, e agora precisa descobrir se a jornada segue, ou não o caminho que cada um imaginou. É aqui que a produção dividirá opiniões. Desapontado quem esperava uma saga de ação heroica grandiosa. Mas surpreendendo quem aceitar a visão mais intimista, e curiosamente humana destes heróis. 

Corpo Fechado não tinha cara de "filme de super-herói", nem foi promovido como tal, já que o cenário para esse gênero não era tão favorável em 2000. Fragmentado flerta com terror. Nada mais coerente que o desfecho da trilogia não seja meramente um filme de herói. 

Vidro é um drama, mas também é um suspense, tem toques de terror e ação. É uma adaptação de uma história em quadrinhos que não existe. Abre possibilidades para sequencias, mas não precisa delas. A grande reviravolta de M. Night Shyamalan, dessa vez é entregar um filme que tem de tudo um pouco. E talvez nada do que alguns esperavam. Levando-o de volta ao padrão amo/odeio. Para mim a produção é um dos acertos, e pra você?

Vidro (Glass
2019 - EUA - 129min
Suspense, drama, fantasia
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Máquinas Mortais

A ficção parece estar convencida, logo enfrentaremos um evento que vai nos transformar em uma distopia pós-apocalíptica. Falta apenas decidir qual será o cenário no qual a humanidade viverá a partir daí. A proposta de Máquinas Mortais para tal é bastante curiosa, os sobreviventes vivem em cidades móveis que perseguem consomem umas as outras para sobreviver, no que eles chamam de Darwinismo Municipal.

O Arqueólogo Tom (Robert Sheehan) vive na gigantesca Londres, mas tem sua rotina alterada após "esbarrar" na misteriosa Hester Shaw (Hera Hilmar). A dupla é expulsa da cidade e precisa cooperar para sobreviver. É claro, há também uma ameaça que pode causar um novo apocalipse em seu caminho.

Baseado no livro homônimo Philip Reeve, o primeiro de uma tetralogia, Máquinas Mortais é também a estreia na direção de Christian Rivers. Artista de efeitos especiais que tem um Oscar de Efeitos Visuais (King Kong) e as trilogias da Terra Média (O Senhor dos Aneis e O Hobbit) no currículo. Não é surpresa que este aspecto não decepcione. Seu mundo steampunk pós-apocalíptico e um tanto quanto megalomaníaco é bastante convincente, tanto em construção quanto em efeitos. Isto é, se você comprou a ideia das cidades-tração. Não é difícil compreender como as estruturas funcionam e interagem, mesmo em sequencias de ação e com muito CGI.

É no roteiro que a produção decepciona, ao desperdiçar uma premissa original e um universo complexo dando preferência ao romance juvenil à exemplo de produções como Jogos Vorazes. Entretanto, diferente da saga de Katniss, que compõe bem seu universo e oferece temas para discussão ao espectador, esta aventura parece levantar questionamentos apenas por acidente. Deixando o público com dúvidas que atrapalham a imersão. Desde a Guerra dos Sessenta Minutos, que levou o mundo aquele status, passando pelas pessoas ressuscitadas(!) até a rixa entre as cidades móveis, e os assentamentos fixos - sim, eles existem municípios parados ali - tudo é apresentado com muita exposição, mas pouca construção.

O resultado é nos descobrirmos pensando nos prós e contras e na real necessidade de se manter sempre em movimento. Na incapacidade de gerar recursos próprios, de uma sociedade que pode curar ferimentos rapidamente, ou mesmo trazer pessoas de volta à vida. Ao invés de nos preocuparmos com a jornada de Hester e Tom.

A construção de mundo fraca e o excesso de exposição que não atende às necessidades da história, não são o único problema do roteiro. Este apresenta e descarta personagens quando conveniente, chega até a presumir que sabemos a importância deles, de acordo com a forma que são mostrados. Quem leu os livros provavelmente, ficou empolgado quando um grupo e pilotos liderados por Anna Fang (a cantora e atriz sul-coreana Jihae) surge de forma imponente. Eu só fiquei imaginando, ok, estes caras devem ser bons em alguma coisa, mas quem são eles mesmo?

O vilão Thaddeus Valentine (Hugo Weaving) tem potencial para ser um daqueles malfeitores de quem descordamos dos métodos, mas compreendemos os objetivos, como Thanos ou Killmonger. Mas logo é relegado ao objetivo desgastado de dominação mundial. Caem no cliché também, as viradas e revelações previsíveis da jornada. O arco do ressurrecto Shrike (Stephen Lang) tem boas surpresas, mas é enfraquecido pela falta de tempo, visual artificial do personagem e final sentimentalista. E por falar em sentimentos, a trilha segue a cartilha de indicar o que devemos sentir em cada cena.


Some tudo isso ao abuso de frases de efeito genéricas, e fica impossível acreditar que a adaptação foi escrita pela mesma equipe que nos entregou O Senhor dos Anéis, Peter Jackson, Fran Walsh e Phillippa Boyens. Existem inclusive, referências e recriações que exageram e que beiram a cópia descarada de características e sequencias de outras ficções-científicas como Mad Max e Star Wars. Enquanto o elenco com poucos nomes de peso visivelmente se esforça - a exceção é a inexpressiva Leila George - mas não tem muito o que fazer com seus personagens unidimensionais. A garota que não confia em ninguém, o herói relutante, a melhor piloto da frota, e por aí vai...

Os melhores momentos, são aqueles que mostram um pouco mais da "sociedade perdida", e da relação dos sobreviventes com ela. Nossa tecnologia, vista como antiga por eles, é adorada e colecionada, mesmo que não funcione, ou mesmo que eles não saibam usá-las. Isso abre margem para boas piadas e críticas coerentes à nossa "Sociedade das Telas", como eles chama o século XIX. Pena que o recurso é pouco explorado.

Tendo estreado em outras partes do mundo ainda em 2018 Máquinas Mortais, já está sendo apontado como o maior fracasso comercial do ano. Além de não conseguir transportar o sucesso do livro para as telas, a produção também não consegue gerar curiosidade pelo material original, que poderia suprir as faltas daqueles espectadores dispostos à leitura. O que diminuiria, mesmo que para alguns poucos, o sentimento de frustração relacionado  ao título.

Uma produção cara e tecnicamente bem executada, mas que opta por clichês e lugares comuns em seu roteiro. Desperdiça de uma premissa original, que com certeza criaria bons paralelos e discussões com o mundo de hoje, e por isso logo será esquecida.

Máquinas Mortais (Mortal Engines)
2018 - EUA - 128min
Ficção-científica, Aventura


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quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

WiFi Ralph: Quebrando a Internet

Quando estreou Detona Ralph surpreendeu ao mesclar com eficiência, em uma só aventura diferentes estilos de videogame. Dos quadradões jogos de 16bits aos complexos gráficos atuais, jogos de todos os tempos formavam, uma sociedade bastante crível no Fliperama Litwak. A sequencia da animação decide ampliar, e muito, o universo ao levar os personagens para a internet. Para tal opta por uma trama simples, e até repetitiva aos olhos de alguns.

Amigos há anos, Ralph (John C. Reilly/Tiago Abravanel) e Vanellope (Sarah Silverman/MariMoon) abandonam o dia-a-dia repetitivo do fliperama para salvar o jogo da garota. A missão é buscar no E-bay uma peça reserva para evitar que o Corrida Doce seja mandado para o ferro velho. Além de conhecer o maravilhoso mundo da internet, a dupla tem sua amizade testada quando percebe que não tem os mesmos sonhos.

Novamente é na criação de mundo que a produção se destaca. Se antes os personagens interagiam e até visitavam outros mundos, através dos fios e no filtro de linha que compartilhavam, na internet a interação não tem limites. Agora os protagonistas não interagem apenas com outros games, mas também com toda a cultura pop. Os easter-eggs e referências parecem ser inacabáveis. Estes vão desdes memes e situações do cotidiano dos internautas, como pop-ups e quizes, até empresas de internet do mundo real. Aliás, o enorme número de marcas representadas, é impressionante. Todas as grandes marcas estão presentes, o que nos faz pensar, que este filme se pagou com muita facilidade.

Se as representações físicas de um conceito tão abstrato quanto a internet não forem suficientes, há ainda, a possibilidade de ver a Disney rindo de si mesma. E também, esfregando todo seu poderio na tela. O trecho da aventura situado no site Oh My Disney (que existe de verdade, clique aqui), traz referências à todas as franquias e estúdios acoplados à empresa do camundongo, Star Wars, Pixar, Marvel e até os Muppets. A supra alardeada cena das princesas, é uma das melhores e curiosamente coerente, afinal a Vanellope Von Schweetz é a princesa de seu game, e personagem de um filme Disney, logo faz parte sim do panteão.

Tudo isso, em uma caprichada harmonia visual, que respeita as diferentes características de cada personagem e área. Mesmo os personagens novos, tem características coerentes com os universos a que pertencem, a todos muito diferente do mundo de 16 bits de Ralph ou da fofa e arredondada Corrida Doce.

Shank (Gal Gadot/Giovana Lancelotti) é a líder descolada e empoderada de um game atual de corrida. Já Yesss (Taraji P. Henson), sabe tudo que uma pessoa precisa para se tornar viral. Ambas as personagens são poderosas, proativas e curiosamente acessíveis apesar de sua posição. Aliás o filme entrega uma visão da internet muito mais positiva do que a maioria de nós tem. Existe sim, os espaços pouco amigáveis, mas estes são bem menores que os mundo real. Quem sabe essa versão de mundo virtual não influencia as futuras gerações.

É em seu terceiro ato, quando este novo mundo já foi apresentado, e a maioria de suas piadas e referências exploradas, que o filme cai um pouco em qualidade ao repetir conflitos do primeiro longa. Por insegurança Ralph faz besteira, Vanellope fica chateada, sua amizade é abalada, até que uma grande catástrofe reconcilie a dupla. Felizmente, quando chegamos neste ponto mais frágil da produção, já fomos conquistados pela jornada até ali.

Também há uma falha em relação a trama do primeiro filme. Em Detona Ralph, o jogo do vilão é quase desligado quando o personagem desaparece por um dia. Em WiFi Ralph, o personagem passa muito mais de 24 horas navegando na internet, sem nunca se preocupar com a existência de seu próprio jogo. Talvez apenas eu tenha realmente me incomodado com isso.

Outros podem se incomodar com algumas cenas do trailer que não estão no filme. Aliás parecem nunca ter estado, e terem sido criadas apenas para sua promoção. Prática que a Disney parece ter adotado, perceptível desde Rogue One, e principalmente em Vingadores: Guerra Infinita.

O elenco traz de volta, McBrayer (Félix, que no Brasil tem a voz de Rafael Cortez) e Janey LYnch Sargento Calhoum, em participações menores. Entre os nomes novos, se destacam Alan Tudyk, Alfred Molina e quase todo as vozes originais das princesas Disney. Apenas as princesas da era de ouro, Branca de Neve, Cinderela e Aurora, cujas interpretes originais não estão mais disponíveis, ganharam novas vozes. Esforço que a dublagem repete na versão nacional. Há também outras participações especiais interessantes, mas não vou mencionar para não estragar a surpresa.

É claro, há também o espaço para as boas mensagens. Além do já mencionado empoderamento feminino, a constatação de que melhores amigos não precisam ter os mesmos gostos e sonhos, são aos principais lições aqui. E vale mencionar, o filme tem cenas pós créditos.

WiFi Ralph: Quebrando a Internet, não é tão redondinho quanto seu antecessor. Mas suas falhas são mais que compensadas pela impecavelmente criativa construção de mundo e pelo carisma dos personagens. Inclusive os coadjuvantes e as participações especiais. Uma aventura frenética, divertida e inteligente ao lado dos já favoritos de muita gente, Vanellope e Ralph.

WiFi Ralph: Quebrando a Internet (Ralph Breaks the Internet)
2018 - EUA - 112min
Animação, Aventura


Leia crítica de Detona Ralph, e descubra outros filmes sobre video-games que não existem.
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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Black Mirror: Bandersnatch

Black Mirror é uma daquelas séries com uma capacidade incrível de impactar seu público. Mesmo sentados do "lado de cá" da tela, suas histórias absurdas, mas totalmente possível criam uma imersão tamanha, que não é comum ficarmos presos à elas por dia. O novo episódio da antologia, pretende ir ainda mais longe, colocando nas mãos do espectador as escolhas do protagonista. Bansersnatch é o primeiro grande projeto interativo da Netflix, e o argumento se encaixa perfeitamente com a proposta da série.

Na década de 1980, Stephan (Fionn Whitehead) está produzindo seu primeiro jogo, baseado em um livro no qual a história muda de acordo com as escolhas que o leitor faz pelos personagens. Enquanto isso, você tem alguns segundos para escolhe o que o jovem deve ou não fazer, em momentos específicos.

E isso é tudo que se pode adiantar do filme sem estragar a experiência, já que a produção é exatamente isso: um experimento. Enquanto a Netflix testa a tecnologia que permite o "você Decide" do século XXI - que aliás funciona muito bem apesar de não estar disponível em todos os dispositivos - nós brincamos de deus com a vida do protagonista. Isto é até certo ponto.

É logo na terceira escolha que a maioria dos espectadores começa a perceber que nosso poder, não é tão ilimitado assim. Finais abruptos, escolhas que não fazem diferença e becos sem saída te levam inevitavelmente para a "opção certa", se você quiser que a história continue por mais tempo. Admito, sabíamos que a brincadeira de escolhas não poderia continuar eternamente, e que haveriam trajetos definidos, mas a percepção desta limitação e o fato desta parecer tão curta, pode frustar alguns, ou ...

Se mantendo no espírito da série que leva a interferência da tecnologia em nossas vidas ao estremo, há sim um ângulo diferente para se observar Bandersnatch. CUIDADO O TRECHO A SEGUIR PODE CONTER SPOILERS - Stephan acha que tem livre arbítrio, mas secretamente somos nós quem controlamos sua vida. Já o "espectador interativo" acredita que está escolhendo o destino do protagonista, mas está apenas seguindo os caminhos pré-determinados pela Netflix. A plataforma te deixa decidir como percorrê-los, é verdade, mas através da curiosidade, vai obrigar você à inevitavelmente fazer todas as escolhas e percorrer todas as opções da narrativa, passando o máximo de tempo possível conectado ao serviço de streaming.

Quando Stephan começa à perceber que não tem controle de suas escolhas e começa à questionar sua existência, nós também já estamos questionando as opções que nos são dadas. Nós estamos mesmo controlando a tecnologia, ou ela só nos deixa ter uma breve sensação de poder, para ter nossa atenção por mais tempo? Se esta metalinguagem extrema é proposital, então o projeto é genial. E ao contrário do que se pensa, as opções continuam abertas.

Repare que quando o jogo de Stephan está sendo testado, o jogador encontra um beco sem saída e o rapaz alega, "ainda não programei essa parte". Imagina se a plataforma apenas "ainda não programou" os trechos que levam à becos sem saída, e daqui há algum tempo decide disponibilizá-los. Inevitavelmente seríamos arrastados de volta á narrativa, presos à esta nova tecnologia de contar histórias. Isso é muito Black Mirror! FIM DO TRECHO COM SPOILERS

Sugar Puffs ou Sucrílhos, escolhas cruciais da vida!
Como um todo, a narrativa é bem simples. Um jovem sente a pressão de seu primeiro "trabalho de verdade". Já às reviravoltas esbarram no exagero em alguns momentos, mas estes funcionam já que atendem tanto a narrativa, quanto a construção deste mundo em que o protagonista vive, no qual tudo supostamente pode acontecer dependendo de quem esteja no comando. Nós vivenciamos a urgência das escolhas na vida do jovem através da limitação de tempo com que precisamos fazer nossas próprias escolhas. São apenas dez segundos para selecionar uma das opções.

O elenco atende às necessidades da produção. Além de Whitehead que você deve conhecer de Dunkirk, Will Poulter, Asim Chaudhry, Alice Lowe e Craig Parkinson são aqueles que mais tem tempo de tela.

Bandersnatch pode ser visto como uma experiência limitada, ou uma grande sacada de metalinguagem. Ou ainda como os dois, já que o recurso de refletir sobre si mesmo pode ser uma escolha eficiente para driblar as limitações da tecnologia. A escolha de como encara-lo realmente é sua desta vez. A menos que haja uma força controlando tudo e todos - tem alguém aí? - De qualquer forma, todas as opções se encaixam com a temática de Black Mirror, impactar e perturbar o espectador.

Sendo assim, enquanto não me confirmarem que estou na Matrix e que o livre arbítrio não existe, escolho acreditar que, embora não seja o melhor episódio da antologia, Black Mirror: Bandersnatch é uma experiência curiosa, eficiente e bem sucedida. E você escolhe o que?

Black Mirror: Bandersnatch
2018 - EUA
Ficção-científica


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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Homem-Aranha no Aranhaverso

Nas últimas duas décadas, tivemos nada menos que três encarnações do Homem-Aranha no cinema. Logo, para alguns, pode parecer exagero a chegada de um novo amigão da vizinhança na tela grande. Surpreendentemente, Homem-Aranha no Aranhaverso, traz sim algo de novo que justifique a existência não apenas de mais uma, mas de várias versões do herói.

Miles Morales (voz de Shameik Moore) é um adolescente que vive em uma Nova York onde o Homem-Aranha já é um herói estabelecido e adorado pelo povo. Admirador do herói, ele acaba vestindo o manto do teioso, após ser picado por uma aranha radioativa e presenciar a morte de Peter Parker (Chris Pine). Além de eliminar o herói, plano do Rei do Crime (Liev Schreiber), causa um cataclisma entre dimensões paralelas, e acaba trazendo várias versões do cabeça de teia para o mundo de Morales.

Um Peter Parker (Jake Johnson) mais velho, uma Gwen Stacy (Hailee Steinfeld) que se tornou a Mulher-Aranha, o Homem-Aranha Noir (Nicolas Cage), o Porco-Aranha (John Mulaney) e Peni Parker (Kimiko Glenn), de apenas 9 anos que além de poderes aracnídeos tem também um robô, se unem à Miles para consertar a bagunça e ajudá-lo a aprender o "ofício". Todos com sua devida apresentação simples, porém eficiente, mesmo para aqueles não conhecem as muitas versões do personagem, ou não está familiarizado com o conceito de multiversos.

Vindos de mundos diferentes, estes personagens tem tons e traços distintos. O Noir não conhece cores, Peni tem traços de anime, Porco-Aranha tem humor e visual no estilo Looney Tunes, estas e outras diferenças são acertadamente usadas em prol da narrativa, e principalmente do humor. A parceria forçada e estranhamento pelo novo mundo, criam situações tanto tensas, quanto engraçadas naturalmente. Há também espaço para pitadas de comédia pastelão, geralmente com o suíno-aracnídeo, e referencias. Muitas referencias! Especialmente relacionadas à trilogia de Sam Raimi, mas também do universo "super-heróico" como um todo.

E já que estamos falando de referências, a tradicional participação de Stan Lee, merece atenção especial pelo tom poético que carrega. Não apenas por ser a primeira participação pós-mortem (é provável que ele ainda apareça em Capitã Marvel, e Vingadores: Ultimato), mas também por sua função mas significativa que as meras aparições anteriores.

De volta ao Aranhaverso, as perdas estão no cerne da maioria dos heróis, o cabeça de teia não é uma exceção. Nesta animação o tema se mantém como, seja pela morte de Peter Parker na vida de Miles, seja pelas perdas pessoais das outras "pessoas-aranha" em cena, ou mesmo por perdas menos literais, como a perda da inocência, ou de um rumo na vida. São estes dilemas que conferem peso à aventura, que apesar de bem humorada não tem receio de momentos mais sérios e dramáticos.

No aspecto técnico, além de fazer personagens de estilos distintos funcionarem em um mesmo mundo, o longa tem identidade própria. O visual de animação tradicional, possibilita a incorporação de texturas e efeitos que remetem à HQ. Virar de páginas, onomatopeias, balões de pensamentos são os recursos mais evidentes. Há também uma textura que simula a impressão no papel, enquanto a fotografia usa coloração como recurso, para acentuar a intenção de cada cena a través da predominância de uma ou mais cores em alguns momentos.

Apesar de toda essa sofisticação técnica e das muitas referências, a produção é para toda a família. A trama não exatamente simples, mas é bem definida, e fui sem dificuldade em um ritmo frenético. As cores e as piadas visuais devem dar conta de prender as atenções dos muito pequenos. E, vale avisar, exite cenas pós créditos.

Uma quarta (aliás oitava se contar os "aranhas convidados") encarnação do Homem-Aranha na telona pode sorar exagero à primeira vista. Mas esta não é a história de Peter Parker, é a de Miles Morales uma pessoa completamente diferente. Além de todos os pontos citados acima, ainda ainda carrega todo o peso da representatividade, ele é um jovem negro de ascendência latina. Não que isso seja um ponto de militância no filme, mesmo porquê diversidade de personagens aqui não falta (alô, porco falante!).

Homem-Aranha no Aranhaverso se faz mais que necessário no universo dos heróis no cinema, ao mostrar há espaço sim para para reinterpretações e reimaginações de velhos conhecidos. Desde que haja um bom roteiro, a abordagem certa e um pouco de ousadia.

Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into the Spider-Verse)
2018 - EUA - 117min
Animação, Ação, Aventura

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