sexta-feira, 9 de novembro de 2018

O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos

Não é a primeira vez que a Disney leva um balé de Tchaikovsky para a tela grande. A Bela Adormecida de 1959, consegue a proeza de manter a essência e magia da versão dos palcos ao incorporar suas canções à animação. A adaptação se mantém um clássico até os dias de hoje, apesar das ressalvas quanto à sua apagada protagonista. O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos, não tem problemas em dar protagonismo, à sua personagem principal - que não é o personagem título, diga-se - mas passa longe de recriar a magia do original.

Em seu primeiro natal após a perda da mãe, Clara (Mackenzie Foy, a Renesmé da Saga Crepúsculo) recebe um presente especial, a chave para um mundo mágico. Obviamente, esta terra especial passa por problemas, e a garota vai usar sua mente curiosa e criativa para tentar reconciliar os Reino dos Doces, o Reino das Neves, o Reino das Flores e o misterioso Quarto Reino.

Não é surpresa, muito menos um problema, que esta versão adapte e atualize tanto a obra de Tchaikovsky, quanto o conto de E. T. A. Hoffmann que o inspirou. Dar mais função e empoderamento à Clara, expandir o universo mágico e conferir mais complexidade à trama protagonizada por brinquedos é uma escolha acertada para conetar a história do século XIX ao público de hoje. Entretanto, caminho escolhido pelo roteiro é a previsível fórmula já repetida diversas vezes pelo estúdio. Formato no qual as conveniências e pouca profundidade não passam mais despercebidos pela audiência.

No mundo real, Stahlbaum precisam aprender a viver sem a mãe. Tarefa que vão cumprir após Clara, e apenas ela, passar por uma jornada de auto-descoberta, da qual seu pai e irmãos se quer tem conhecimento posterior. E não é apenas o roteiro que trata a protagonista como a escolhida, os próprios pais mostram o favoritismo pela menina. Basta notar que apenas ela ganha a chave para um reino mágico criado por sua mãe, e nele é tratada como filha única. Imagine se Lúcia decidisse ir à Nárnia sem, Pedro, Suzana e Edmundo? A sensação é no mínimo incômoda.

Uma vez nos Quatro Reinos a tal jornada é bastante conhecida, surpresa, encantamento, a necessidade de um herói, a aventura e uma "previamente anunciada reviravolta" - daquelas que você percebe assim que o "vilão oculto" entra em cena - superada pelas habilidades únicas de nossa heroína. É claro, toda essa previsibilidade vai passar despercebia pela criançada desprovida de bagagem, que vai embarcar na aventura e principalmente no mundo em que ela se passa, este sim deve encantar também os adultos.

A direção de arte, os figurinos, caracterização e efeitos especiais, criam um universo rico e detalhes, dentro e fora do reino mágico. O visual de encher os olhos, é sem dúvida o ponto forte do longa, nos faz querer conhecer mais sobre esta terra mágica e os curiosos elementos que a compõem. Conhecimento que, infelizmente, nunca é entregue.

Conhecemos bem pouco também dos demais personagens em cena. Percebeu que até agora não mencionei o personagem título? Com o reforço no protagonismo de Clara, pouco sobra para o Quebra-Nozes (Jayden Fowora-Knight), além do papel de acompanhante. Mas o desperdício maior fica por conta do elenco adulto que conta com Morgan Freeman (Drosselmeyer), Helen Mirren (Mother Ginger), Keira Knightley (Sugar Plum), Matthew Macfadyen (Mr. Stahlbaum), todos relegados a participações pequenas, ou papéis rasoas e demasiadamente previsíveis. O destaque mesmo fica com Foy, que carrega bem a história, sendo a personagem melhor construída e portanto mais relacionável.

Um momento memorável da produção é a recriação de um trecho do balé, com a performance de Misty Copeland. Mas o número acaba por ressaltar o que o filme poderia ter sido, não tivesse optado pelo caminho seguro e repetitivo.

O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos, tinha os recursos, elenco, conteúdo, magia e atmosfera suficientes para se tornar um clássico. Mas o roteiro fraco, o tornou um espetáculo visual raso, com personagens pouco memoráveis e história previsível. Um desperdício de potencial que não faz jus a obra imortalizada por Tchaikovsky.

O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos (The Nutcracker and the Four Realms)
2018 - EUA - 100min
Fantasia, Aventura

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