quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A Primeira Noite de Crime

Que fatores levariam um governo a decidir que uma noite de crime liberado seria uma solução econômica para o país? Como a população recebeu a proposta? Existe alguém combatendo essa ideia? Como uma sociedade capitalista sobrevive com o crescente extermínio da classe trabalhadora? Porquê os participantes usam máscaras se o crime está liberado? Estas e outras perguntas já ecoavam na cabeça do espectador no primeiro filme da franquia Uma Noite de Crime. Os dois longas seguintes, se limitaram a emular o primeiro ao invés de ampliar seus conceitos. Então chega A Primeira Noite de Crime com a proposta de mostrar como a violência anual legalizada começou.

Um experimento social para diminuir a criminalidade é proposto pelos New Founding Fathers of America, novo partido que controla os Estados Unidos em sua maior crise econômica e social. Moradores da carente Staten Island, são coagidos convidados a ficar na ilha e participar das 12 horas contínuas onde todos os crimes são liberados. Inclua aqui o incentivo de cinco mil dólares, mais bônus para quem participar, e claro, segundas intenções do governo.

Com um novo diretor no comando, Gerard McMurray, e a proposta de mostrar as origens das 12 horas de violência expressada no título, A Primeira Noite de Crime fica mesmo só na promessa. Muito pouco é apresentado do caminho que levou o país ao caos que se encontra, muito menos os argumentos para a aplicação do experimento. E mesmo este não, faz muito sentido mesmo para uma platéia pouco familiarizada com o processo deste tipo de estudo. O quarto filme da franquia tem na verdade o mesmo objetivo dos seus antecessores, mostrar seus personagens em uma luta desenfreada pela sobrevivência, em meio ao maior número de cenas violentas possíveis.

E apesar de deixar de aproveitar um bom argumento de lado, para dar lugar a corrida pela vida, a produção não consegue apresentar os personagens de forma eficiente para gerar empatia no espectador. Aqueles que nos conduzem na história, e por que deveríamos temer, se restringem a estereótipos previsíveis. A mocinha trabalhadora (Lex Scott Davis), o adolescente que faz escolhas idiotas (Joivan Wade), o bandido de bom coração (Y'lan Noel), a vizinha escandalosa (Mugga), e por aí vai.

Do outro lado da luta, o Chefe de Estado (Patch Darragh) claramente com intenções obscuras, e a idealizadora do experimento (Marisa Tomei, fazendo o quê nesse projeto?) que tem completa convicção na benfeitoria de sua pesquisa sem sentido. Entre eles, um monte de personagens ainda mais genéricos e esquecíveis, ao ponto do próprio roteiro esquecê-los quando conveniente. O maior exemplo é Skeletor (sim, esse é o nome do personagem de Rotimi Paul), simplesmente maluco e sedento por sangue, o que justifica seu nome e caracterização de desenho animado da década de 1980. Indo de encontro a proposta da libertação pela ausência de regras. Skeletor já é uma assassino no dia-a-dia, qual a graça de acompanha-lo nesse momento?

O que também não é nada sutil e vai de encontro com o bom argumento, são as metáforas com o nazismo e a Ku Klux Klan. Se a noite de crime é um pretexto para exterminar determinadas minorias, porquê assumir máscaras de grupos que tem como objetivo exterminar estas mesmas minorias? Vale mencionar que praticamente toda a população de Staten Island aqui é negra ou latina, enquanto o centro de operações do experimento é formado majoritariamente por caucasianos.


Já que deixaram o bom argumento de lado para beneficiar cenas de ação, somos levados a pensar que ao menos estas sejam bem produzidas, certo? Errado. Na grande maioria das vezes, as sequências são apenas novas versões do que já vimos em produções semelhantes, inclusive na própria franquia. Uma delas, uma sequencia em uma escadaria, chama atenção por cortes grosseiros. Enquanto uma perseguição nas ruas é interrompida por uma necessidade sem sentido do roteiro discutir as relação entre os irmãos "moça trabalhadora" e "adolescente besta", no momento mais inadequado possível, o campo aberto de uma caçada humana. Estes são apenas os exemplos mais gritantes.

A Primeira Noite de Crime tem um argumento rico e cheio de possibilidades a serem exploradas, mas prefere deixar esse potencial de lado para mostrar mais do mesmo da franquia. Não se engane pelo texto acima, se você procura apenas noventa minutos de ação e distração, vai sim conseguir se entreter. Mas o que vai ficar são alguns novos questionamentos, e aquele gosto ruim de potencial desperdiçado.

A Primeira Noite de Crime (The First Purge)
2018 - EUA - 98min
Suspense, Terror, Ação


Leia a crítica de Uma Noite de Crime

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