quarta-feira, 23 de maio de 2018

Fahrenheit 451

Acho que preciso reler Fahrenheit 451! - Esta foi a sensação que ficou ao final da nova adaptação do livro de Ray Bradbury. Já faz mais de uma década que mergulhei nas páginas desta distopia, e as mudanças na versão da HBO foram tantas, que acabei por questionar minhas memórias quanto a trama. Entretanto a premissa continua a mesma, o aproveitamento dela é que se diferencia.

Guy Montag (Michael B. Jordan) é um bombeiro, e nesta distopia a principal função de sua classe trabalhadora é iniciar incêndios, mais especificamente, queimar livros. É claro, que muita gente discorda deste discurso autoritarista que vê na leitura, e em outras formas de arte, uma ameaça. Vivendo à margem da sociedade essas pessoas tentam salvar a obra da humanidade. Impressionado com a atitude de um destes "radicais", Montag sente a necessidade de compreender o porque de tanta gente se sacrificar por estes tijolos de papel. É quando se aproxima de Clarisse McClellan (Sofia Boutella) e começa a repensar o mundo a sua volta.

Adaptando a obra de 1953 para a nossa era da comunicação, a produção incorpora nossas mídias sociais, a exposição e interação constante à este universo que já originalmente era dominado por telas, no caso da TV. Snapchats, Stories, chats e até emoticons, preenchem as lacunas desta sociedade com informação controlada, bombardeada na audiência todo o tempo. Inclusive nas fachadas dos prédios transformadas em telas gigantes que muito lembram o visual de Blade Runner.- direção de arte e fotografia aliás, emulam várias outras produções cientificas conhecidas. Uma atualização do universo bem vinda, mas realizada de forma simplista e um tanto óbvia, sem grandes explicações do real funcionamento ou motivações desta nova ordem social.

É provável que você se perceba, questionando: porquê e quando esta proibição começou? Como ela se estende a outras formas de arte? Só vemos telas e ruido, não há pinturas ou músicas, por exemplo. Onde estão os artistas e demais profissionais da escrita? Como a linguagem escrita que agora só existe nas telas, se modificou? Podemos ver alguns caracteres estranhos em meio as letras nos chats. E como é feita a educação infantil sem os livros? Existe uma cena com alunos para acender a dúvida.

A produção nem ao menos consegue explicar a motivação principal: porque os livros são ruins? Tendo lido o original e sabendo a importância da informação, percebi que era eu quem preenchia as lacunas. O máximo que o filme explica é que"a leitura deixa a mente confusa", além de abordar de forma muito leve, o nascimento da análise e da curiosidade, conforme o protagonista expande sua mente com a leitura. No final nos descobrimos mais interessados no caminho que esta sociedade percorreu para chegar até ali, do que a jornada que o protagonista tem a frente. O que não significa que tudo esteja esclarecido em relação a Montag e cia.

Aliais as dúvidas relacionadas ao roteiro se expandem para os personagens. As memórias do protagonista são jogadas aleatoriamente, sem que seu passado ou mesmo a descoberta destas lembranças influenciem o personagem ou sua jornada. Capitão Beatty (Michael Shannon) tem um vasto conhecimento literário, e hábitos esquistos que cão de encontro à sua posição de chefe dos "queimadores de livros". Detalhes interessantes que jamais são de fato explorados pelo roteiro. Já Clarisse, foi a que mais sofreu mudanças, para servir também de um desnecessário interesse romântico para o protagonista, que nem de longe precisaria de um "amor" para buscar libertação.

Nenhuma das mudanças no entanto é mais estranha que a trama que inclui tecnologia para inserir livros codificados no DNA. A opção minimaliza a outra solução dos rebeldes para salvar os livros, esta sim presente no original. E cria uma trama estranha que incluem planos sem sentidos, facilmente desvendados e desmontados por qualquer novato na função.

No elenco Shannon é o único com um trabalho mais inspirado, mesmo porque apesar de inexplorado, seu personagem é o mais interessante em cena. Enquanto Sofia Boutella e Michael B. Jordan, abordam seus personagens rasos, com uma atuação mediana, inferior ao trabalho que costumam apresentar. 

Mestre em criar séries de TV completas narrativa e cinematograficamente, a HBO não se sai tão bem quando o assunto é longas-metragens. Fahrenheit 451, esboça muitos questionamentos mas não explora nenhum deles. Desvia da obra original e neste caminho perde sua essência e complexidade. Se a produção se tornar a referência sobre a obra para o grande público, pode ser tão nociva para o original literário, quanto o governo ilustrado por ela.

Fahrenheit 451 foi lançado diretamente nos canais HBO e também está HBO GO.

Fahrenheit 451
EUA - 2018 - 100min
Drama, Ficção científica

Leia minhas impressões, escritas há muito, muito tempo, do livro Fahrenheit 451!
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