quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Todas as Razões para Esquecer

O que há de interessante no término de namoro de um cara comum? Esse é um questionamento que Todas as Razões para Esquecer, faz em alto em bom som. No meio do filme mesmo, com direito até a fala de um personagem. Em sua bem sucedida jornada para responder a pergunta, o filme ainda aponta as peculiaridades da atual geração de jovens adultos, ao abordar de forma realística a forma como estes lidam com o mundo.

O relacionamento de Antonio (Johnny Massaro) com Sofia (Bianca Comparato) terminou, e mesmo sem entender muito os motivos o rapaz tem certeza de que não vai ter problemas para superar o término. É claro, ele estava enganado e o "caminho da superação" inclui auto-piedade, mudança de cenário, de hábitos, uso entorpecentes e muita, muita reflexão sobre si mesmo.

Negação, barganha, depressão, raiva e aceitação, Antônio encara seu término quase como enfrentamos o luto. Não é para menos, o fim de namoro representa o fim de uma fase de sua vida. Mas esta abordagem não é uma novidade, a originalidade da trama está ao mostrar com a geração de Antônio lida com essas fases. Uma geração conectada, que internaliza seus medos, tomada pela ansiedade e que busca "formas alternativas" de superar suas dificuldades. Uma geração que tenta lidar com tudo de um jeito maduro, mesmo que não saiba como, ou mesmo esteja preparado para tal.

Um humor bastante peculiar, o de rir de nossos próprios anseios absurdos, erros bobos, e desventuras, permeia toda a narrativa. O protagonista é um jovem adulto fracassado, com um emprego mediano, com problemas de socialização entre outros males de sua geração. A identificação com ele é inevitável.

Também é inevitável, não se surpreender com a forma que a produção escolhe mostrar personagens gays. Tradados com naturalidade, sua orientação sexual, não é questão em momento algum da trama. A homossexualidade existe, é uma coisa cotidiana, o que interessa não é o fato do personagem ser gay, mas como ele contribui com as experiências do protagonista. Mulheres também são mostradas como personas complexas, independentes, cheias de opinião, falhas e anseios. O que vai de encontro às fantasias do próprio Antonio com relação a "mulher perfeita" que ele perdera.

O elenco esforçado, abraça os personagens de foma competente. Massaro constrói um protagonista carismático por suas falhas, nos identificamos com as dificuldades e fracassos dele.  E a produção não tem receio de reproduzir detalhes, ou estilos de outras "dramédias", para tornar sua linguagem familiar.

Haverá quem ache que a produção pode ficar datada com o tempo, mas isso não é necessariamente uma coisa ruim. Todas as Razões para Esquecer é um retrato de seu tempo. Um registro do cotidiano de uma geração em particular, com direito a referências e ferramentas atuais. Uma história agridoce sobre amadurecimento, com um formato acessível. Um respiro mais que necessário, em nosso cenário cinematográfico dividido entre "filmes cabeças" que não alcançam o grande público e rasas comédias escrachadas.

Todas as Razões para Esquecer
Brasil - 2018 - 91min
Comédia, Romance, Drama
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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A Maldição da Casa Winchester

Na vida real não faltam casas assombradas para inspirar os contos de terror do cinema, mas é provável que nenhuma tenha tanto potencial quanto a Casa Winchester. Formada por um complexo labirinto com mais de uma centena de cômodos, a construção real na Califórnia é um prato cheio para a imaginação popular.

O psiquiatra Eric Price (Jason Clarke), é contratado para avaliar a sanidade de Sarah Winchester (Helen Mirren), viúva e herdeira da empresa de armas de fogo que levam seu sobrenome. Após perder precocemente a filha e o marido, ela se concentra em obras infinitas e ininterruptas em sua mansão que, segundo ela, controlam os espíritos que amaldiçoam a família.

Não é surpresa, aos poucos o Dr Price vai a perceber que a “velinha que acredita em fantasmas” talvez não seja louca, ou ao menos não é a única com a sanidade questionável. O terapeuta também tem seus demônios. Viúvo, ele se entregou ao uso de entorpecentes, comprometendo seu julgamento no caso.

Além de Sarah e do psiquiatra, a casa ainda abriga sua sobrinha – mais uma viúva! - Marion Marriott (Sarah Snook) e o filho Henry Marriott (Finn Scicluna-O’Prey), além de uma quantidade impressionante de funcionários. Entretanto o desenvolvimento destes personagens para por aí, pois o filme parece ter pressa em assustar o público, recorrendo logo em seu início aos cansativos jumpscares, ao invés de aproveitar o intricado cenário para criar tensão. Mesmo a protagonista, inspirada em uma pessoa real e vivida pela sempre eficiente vencedora do Oscar Helen Mirren, fica no óbvio, a senhora excêntrica irredutível e de visual macabro.

Os sustos fáceis da primeira metade da produção tiram o foco da construção da tensão que o filme parece querer usar em seus minutos finais. Entre um jumpscare e ouro, pouco é explorado da história dos Winchester, das assombrações que povoam a residência, ou mesmo da casa em si. Além de cenário e personagem, a construção é usada como ferramenta por mortos e vivos.

Também falta tempo para definir bem a mitologia deste universo. Regras são impostas e quebradas de acordo com a necessidade do roteiro. Considerando que este apela para as escolhas mais óbvias do gênero, fica difícil ignorar as incoerências se você já assistiu, um ou outro filme de fantasmas antes.

O design de produção é eficiente tanto na recriação da época, quanto da famosa casa. O que torna ainda mais lamentável, que seus corredores, portas e escadas sem saída não sejam melhores aproveitados na trama. O mesmo vale para o bom elenco, que não pode fazer muito com o material que recebem.

A Maldição da Casa Winchester conta com um bom elenco, e produção eficiente, mas peca no desenvolvimento da trama, desperdiçando uma premissa interessante, que tinha muito mais a oferecer. Há quem veja um debate sobre o uso de armas de fogo, tema em constante debate nos Estados Unidos. Diante do potencial desperdiçado, talvez a melhor opção para amantes de casas mal-assombradas seja mesmo visitar a mansão real e conhecer de perto, a história de Sarah e sua misteriosa residência.

A Maldição da Casa Winchester (Winchester)
EUA - 2018 - 100min
Terror
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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Quando Nos Conhecemos

Quem não adoraria ter a chande de voltar no tempo para corrigir alguma coisa? Qualquer coisa, mesmo que um detalhe bobo. Não é atoa que histórias com viagens no tempo capturam o interesse, independente do gênero em que se apresentam. Quando Nos Conhecemos, usa o recurso temporal para impulsionar uma comédia romântica.

Noah (Adam DeVine) teve um primeiro encontro perfeito com a garota de seus sonhos, Avery (Alexandra Daddario), apenas para perdê-la para o cara perfeito no dia seguinte. Após três anos tentando entender onde falhou, ele acidentalmente descobre um jeito de voltar no tempo e decide mudar o resultado da noite quase perfeita.

Trata-se de uma comédia romântica, a intenção é ser um filme fofo, despretensioso e divertido. A premissa cheia de clichês propositais e absurdos atende a proposta, mas a execução é prejudicada pelo protagonista. Ator, comediante, cantor, roteirista e produtor executivo, DeVine é mais conhecido no Brasil por sua participação nos filmes da franquia A Escolha Perfeita, onde vive o egocêntrico e irritante Bumper . Neste filme, ele tenta criar uma personalidade de melhor amigo, sem sorte e engraçadinho, mas exagera nas caretas e intensidade. A sensação é de que o ator se acha mais engraçado do que realmente é. O resultado, é o mesmo personagem cansativo e sem carisma, do longa sobre corais à capela, mas aqui com a obrigação de carregar a narrativa.

Enquanto isso, Daddario e Robbie Amell (que vive o noivo perfeito Ethan) parecem conformados em atender aos estereótipos para que foram escalados. Andrew Bachelor, que vive o melhor amigo Max, parece limitado propositalmente para não superar o protagonista. Apenas Shelley Hennig se sobressai um pouco, mais devido à trajetória de seu personagem, um dos poucos que cresce ao longo da narrativa, do que pelo trabalho da atriz que assim como o resto do elenco, se contenta em ficar no básico do que o papel exige.

O acerto do filme fica por conta das reviravoltas absurdas. Sabemos que a cada retorno no tempo de Noah, o resultado vai ser diferente do esperado pelo personagem, mas não sabemos de que forma. A imprevisibilidade é a chave, e a repetição de cenas e falas com pequenas diferenças, conectadas por uma montagem bem feitinha também acertam. A produção consegue surpreender nas diferentes versões das vidas envolvidas, mesmo que não tenha um desfecho surpreendentes. A curiosidade sobre as surpresas na jornada, é o que vai conseguir manter alguns espectadores até o fim da projeção.

Já a forma de viajar no tempo, é absurda e nada cientifica. Mesmo porque o filme não está preocupado, nem nunca teve a pretensão de explicar como ou porque a viagem no tempo é possível, mas sim em mostrar as possibilidades que a oportunidade pode criar. É mágica, aceite e aproveite.

Lançado pela Netlix, Quando Nos Conhecemos poderia ser uma "Sessão da Tarde", leve, despretensiosa e divertida, mas perde esse potencial ao apostar em um protagonista que não conquista o público. De fato, ele irrita ao ponto de torcermos para o adversário. É provável que você esbarre nele no serviço de streaming, e até tenha alguns momentos agradáveis assistindo. Mas também pode ser que deseje voltar no tempo, para ter de volta as duas horas que gastou vendo.

Quando Nos Conhecemos (When We First Met)
EUA - 2017 - 97min
Comédia
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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Altered Carbon - 1ª temporada

A possibilidade de viver para sempre, e suas consequências na sociedade e seus indivíduos, sempre aguçaram nosso imaginário. No mundo de Altered Carbon, a humanidade adquiriu essa habilidade graças à tecnologia. O resultado é um universo complexo, onde as conhecidas mazelas de nossa sociedade são evidenciadas e ganham novas facetas.

Assim que nascem, humanos recebem cartuchos que armazenam sua consciência, podendo assim extenter sua vida além da capacidade do corpo físico. Basta colocar o cartucho em outra "capa", quando a anterior fica obsoleta. Obviamente, nem todos tem os recursos para desfrutar dessa tecnologia de forma plena.

Takeshi Kovacs (Will Yun Lee) é um emissário (espécie de soldado com habilidades especiais) e rebelde insurgente, que recebe um novo corpo (a figura de Joel Kinnaman) e a chance de escapar de sua sentença após 250 anos de prisão. Tudo que ele precisa fazer, é desvendar o "assassinato" de um Matusa (como são chamados os ricos que podem viver para sempre). É claro, que o evento logo se mostra uma parte pequena de um plano muito maior.

O primeiro grande investimento no gênero cyberpunk da Netflix, acerta em cheio ao explorar os muitos temas possíveis do gênero. Desde as diferenças de classe, os Matusas literalmente vivem acima da maioria, até a mudança de perspectiva quanto às religiões, não faltam temas importantes a serem abordados. O mais presente deles é a inversão de valores daqueles que supostamente tem vida eterna. Perder a humanidade, ao se tornar um imortal é a consequência descoberta pelo protagonista.

Existe ainda, um olhar interessante sobre a existência e autonomia da Inteligência Artificial, que aqui não quer superar os humanos, mas ter a mesma liberdade deles. Existência em ambientes virtuais, duplicatas de pessoas, seja por capas ou cartuchos clonados, uso de corpos alternativos para disfarçar sua identidade, ou mesmo a perda deles, são recursos interessantes que não apenas geram discussão, mas servem à narrativa e seus conflitos. 

Curiosa também, é a mistura de etnias e culturas no mundo "pós-globalização" em que a história se passa. Onde ao mesmo tempo temos um protagonista de descendência oriental-européia e japonesa, Takeshi Kovacs, e uma co-protagonista de família latina tradicional. Aliás, é interessante perceber as adaptações em tradições, como a comemoração do "Dia de los Muertos", especialmente se você ainda estiver com a animação Viva - A Vida é uma Festa, fresca em sua mente.

Ambiciosa a série acerta ao emular o visual de clássicos do gênero como Blade Runner, e até ao usar referências de origens distintas. Sim, estou falando de Poe e seu hotel inspirado em clássicos do terror. A mistura soa familiar, mas não chega a ser repetitiva. Os efeitos, gadgets e maquiagens são bastante eficientes em se tratando de uma série.

Kinnaman, que "veste" o protagonista por mais tempo, é eficiente especialmente quando tem a detetive Ortega (Martha Higareda) ou a gerente Poe (Chris Conner) como apoio. Estes parceiros chamam atenção seja pela personalidade determinada, explosiva, e meio confusa da policial, seja pelo jeito diferente de pensar e carisma da Inteligência Artificial que comanda um hotel. O resto do elenco entrega com facilidade o que seus respectivos papéis exigem.

Boas discussões, personagens eficientes, visual e tecnologia críveis, boas cenas de ação com tudo isso Altered Carbon tinha tudo para ser uma produção excepcional. Entretanto, no último ato, a série se enrola ao tentar encerrar todos os arcos e questionamentos que cria. Alternando entre o didatismo excessivo e explicações confusas, a narrativa até consegue amarrar as pontas soltas e finalizar as histórias de seus personagens. Mas, não sem deixar a sensação de que tudo poderia ser melhor resolvido.

Ao final das contas o saldo de Altered Carbon é mais positivo que negativo. O universo é interessante, os personagens tem várias camadas, o visual e os efeitos são bem resolvidos enquanto a trama levanta questionamentos interessantes ao mesmo tempo que intriga o expectador. O escorregão no final, é apenas uma falha em uma boa jornada.

Altered Carbon é baseado no livro é baseado no livro homônimo de Richard Morgan, tem dez episódios, todos já disponíveis na Netflix.
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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

The Cloverfield Paradox

Uma das melhores surpresas de Rua Cloverfield, 10 (2016), foi descobrir que a franquia que nasceu com um filme found-footage de monstro gigante, Cloverfield - Monstro (2008), não estaria presa a um gênero específico. As duas primeiras produções tem gêneros e tons completamente distintos e são eficientes e criativos, cada um em sua proposta. The Cloverfield Paradox, mantém a ideia de ser uma produção independente das histórias anteriores, mas falha em trazer algo novo e que cative o espectador.

Em um futuro não muito diferente de nossa realidade, o planeta enfrenta uma crise energética que coloca a humanidade em conflito iminente. Em uma tentativa de encontrar uma solução para o problema, um grupo de cientistas vai para a estação espacial Cloverfield testar um mega-acelerador de partículas. Uma tecnologia poderosa e perigosa, que claro, fornece resultados inesperados.

Vou admitir, eu bem que achei engraçado quando tudo deu errado e coisas absurdas começam a acontecer com a tripulação. O problema é que não era para ser divertido, mas tenso. Assim como mesmo as loucuras, deveriam fazer sentido dentro do universo que é proposto. Paradox lança algumas boas idéias, mas se perde no desenvolvimento, opta por caminhos previsíveis, e deixa uma infinidades de pontas soltas. E se tentar entender como um braço tem ciência de informações aleatórias não for preocupação para você, ignorar astronautas saltando, e caindo, onde não deveria haver gravidade, deve ser mais difícil.

Os absurdos e falhas poderiam até ser tolerados, se conseguíssemos nos importar com os personagens. Um grupo de pessoas genéricas, vividas por um grupo de atores competentes mas que não tem muito com o que trabalhar. Mesmo a protagonista, Hamilton (Gugu Mbatha-Raw), que tem um arco dramático que vai além da trama na estação espacial, fica na superfície. Seu dilema é jogado na tela, apenas para servir as viradas previsíveis do clímax, antes de ser "solucionado" da forma simples, e óbvia.

E por falar na protagonista, é ela o elo com a narrativa alternativa. A jornada de seu marido na terra, durante o que parece ser os acontecimentos do primeiro filme, deveria servir de conexão com a franquia, mas é uma uma história paralela que não leva a lugar algum. Além de interromper inconvenientemente a fluência do primeiro longa.

Ao resto da tripulação/elenco composta por David Oyelowo, Daniel Brühl, John Ortiz, Chris O'Dowd, Aksel Hennie, Ziyi Zhang e Elizabeth Debicki resta ocupar os estereótipos tradicionais de filmes do gênero. O alemão, o russo e o "estadunidense" que tem conflitos, a chinesa que só fala em seu idioma, o médico (que é brasileiro), as personalidades suspeitas e por aí vai. O que atende bem às escolhas do roteiro, que apenas repete situações já vista em outras produções de ficção científica espacial.

The Cloverfield Paradox causou burburinho ao ser lançado de surpresa pela Netflix, mas não conseguiu sustentar a empolgação com seu formato previsível, trama confusa, personagens desinteressantes e pontas soltas. Tenta explicar alguns acontecimentos do "cloververse", mas apenas deixa tudo um pouco mais confuso (algumas vezes é melhor não explicar, viu!). No entanto, abre um precedente interessante para a franquia, universos paralelos. Conceito que pode tanto aprimorar, quanto afundar o universo, de acordo com a maneira que for utilizado. O jeito é esperar e torcer pelo melhor. A quarta produção da série Cloverfield Overlord! já foi anunciada.

The Cloverfield Paradox (The Cloverfield Paradox)
2018 - EUA - 102min
Ficção científica

Leia a crítica de Rua Cloverfield, 10
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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Lady Bird: É Hora de Voar

Histórias de amadurecimento normalmente cativam o público com facilidade, afinal é uma fase da vida pela qual a grande maioria das pessoas vai passar. O que diferencia estas jornadas é a época em que acontece e a personalidade de quem a conduz. Lady Bird: É Hora de Voar se alimenta e muito das experiências de sua diretora e roteirista Greta Gerwig.

Christine McPherson (Saoirse Ronan), ou “Lady Bird” como se auto-nomeou, é dramática, tem inclinações artísticas e um desejo natural de contestar a autoridade. Ansiosa por ver o mundo, quer cursar faculdade longe da cidade onde cresceu, Sacramento, mesmo que a ideia não combine com sua situação financeira ou os desejos de sua mãe, com que está sempre em conflito. Some aí outros desafios típicos da idade como, seguir as regras de seu colégio católico, o relacionamento com as amigas, o primeiro namoro, a perda da virgindade, o início da consciência quanto aos custos da vida adulta, entre outros ritos de passagem.

Lady Bird se passa no início dos anos 2000, o que traz características específicas para as situações que a protagonista enfrenta. Da popularização dos celulares, ainda não acessíveis financeiramente para todos, à crise pós 11 de Setembro, tudo influencia as atitudes de Chistine, mesmo que ela ainda não tenha consciência disso. Seja mentira idealista para justificar a falta de celular para os amigos, quanto à relação com Nova York, ao mesmo tentadora e assustadora, com a ameaça terrorista no auge de sua urgência.

É na escolha do período histórico e localidade, bem como na personalidade peculiar de sua protagonista, que percebemos detalhes biográficos na produção. Gerwig cresceu em sacramento e também passou pela fase de amadurecimento no início do milênio. Embora não se trate de sua história propriamente dita, muitas das idéias e temores dos personagens, são condizentes com a realidade da época, baseados na experiência de sua criadora. Característica confere à produção uma verdade fácil de se identificar e relacionar, mesmo que você não tenha vivenciado a mesma época com a mesma idade.

Entretanto, é no trabalho de suas protagonistas que o filme mais se destaca. Ronan, constrói de forma acertada a personagem título, equilibrando bem seus medos e impetuosidade. Lady Bird às vezes erra e passa dos limites, mas faz isso tentando evoluir do único jeito que sabe, tentativa e erro. É uma alma que cresceu demais para aquela cidadezinha e tenta apenas encontrar uma saída.

O contraponto perfeito para todo esse desejo de liberdade é sua mãe Marion (Lauren Metcalf, que também é a mãe do Sheldon em The Big Bang Theory) conservadora, atarefada e tentando manter o equilíbrio em casa com o desemprego do marido. É a dinâmica entre a dupla, recheada de bons diálogos que mantém o público alerta, conforme a dupla muda de tom ao longo de suas cenas. Indo da briga à concordância em um mesmo diálogo, com uma naturalidade que delimita muito bem a relação de amor e ódio entre mães e filhas nessa fase.

Lady Bird: É Hora de Voar não traz algo incrivelmente inovador, e provavelmente nunca teve essa pretensão. Sua originalidade está na forma com que aborda a já bem conhecida fase do amadurecimento, apoiada em diálogos, situações e personalidades verdadeiras. Conferindo assim carisma e personalidades próprias ao primeiro trabalho solo de Gerwig como roteirista. Um excelente retrato da época que escolheu abordar. 

Lady Bird: É Hora de Voar (Lady Bird)
EUA - 2017 - 94min
Comédia, Drama
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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Pantera Negra

Não se deixe enganar, Pantera Negra não veio apresentar o herói do título. Este nós já conhecemos em Capitão América: Guerra Civil. O longa vem formar um Rei, apresentar uma nova sociedade e cultura, em um filme cheio de personalidade, que quebra padrões sem no entanto, destoar da fórmula Marvel.

Acompanhamos os primeiros dias de reinado de T'Challa (Chadwick Boseman), cujo pai morreu em Guerra Civil. Além de ser coroado seguindo as tradições, o jovem rei precisa lidar com as várias tribos que compõem seu povo, com o contrabando de vibranium orquestrado por Ulysses Klaue (Andy Serkis) e com o legado dos reis anteriores. Ser o protetor de sua nação, o Pantera Negra, é apenas mais uma de suas muitas atribuições.

Não demora muito para sermos iniciados no universo e costumes do país mais tecnologicamente desenvolvido do planeta, que esconde suas "riquezas" de todos sob o disfarce de um país agrícola de 3º mundo (não paramos de usar essa nomenclatura?). E isso é extremamente importante para o desenrolar da trama, pois Wakanda é um personagem. Sua história, costumes e a forma como se relacionam com outras nações, motivam os outros personagens e movem a aventura.

Esta potência tecnológica sempre teve como objetivo principal proteger os seus, deixando de fora de suas fronteiras as mazelas do mundo. Muitas delas passíveis de solução se eles apenas compartilhassem seu conhecimento. É a velha história de "grandes poderes, grandes responsabilidades", em uma escala muito maior, afinal não é apenas a integridade do heróis que está em risco, mas a proteção de toda uma nação.

Questões sociais não poderiam ficar de fora, afinal o Pantera Negra é o primeiro ícone negro dos quadrinhos, criado em um país com histórico de escravidão e segregação racial. Estas questões estão sim presentes no filme, assim como as diferentes posturas para lidar com elas. É claro o paralelo entre as posturas de T'Challa e do vilão Killmonger (Michael B. Jordan), com Martin Luther King e Malcolm X respectivamente. Mas também há espaço para outras discussões, como tradições que precisam ser quebradas (ou não), situações com refugiados e o protecionismo.

E por falar no vilões, os deste filme estão muito acima da média dos antagonistas rasos tradicionalmente encontrados do MCU. Killmonger é resultado de um passado difícil, e tem objetivos e motivações bem definidas. Vítima de abandono na infância, ele é o completo oposto do herói, assim como a grande maioria das sociedades negras em nada se parecem com Wakanda. Já Klaue retorna de A Era de Ultron, com sua persona exagerada, debochada e desbocada. Dono de uma maldade sem escrúpulos, propositalmente beira a caricatura de forma positiva (sim, isso é possível).

É claro que o rei não está sozinho nesta empreitada, ele recebe o apoio de Okoye (Danai Gurira) chefe das Dora Milaje (a guarda real), de sua irmã Shuri (Laetitia Wright), responsável pelo departamento cientifico do país, e de sua "ex", a espiã Nakia (Lupita Nyong'o). Percebeu? T'Challa está cercado de mulheres fortes, com papel decisivo tanto na trama do filme, quanto no cenário político de Wakanda. O trio é bem acertado em suas construções de personagens, mas enquanto todos estavam ansiosos para ver Lupita e Grurira em cena, é Laetitia Wright quem surpreende. Shuri tem uma bela relação com o irmão, é um gênio, vai para a luta e ainda tem tempo se encarregar de parte do humor do longa. (E tecnicamente é uma Princesa Disney, né? rs).

O Agente Ross (Martin Freeman, em sua competência habitual), também aparece para ajudar. E principalmente, para ficar deslumbrado com Wakanda, assim como nós, do lado de cá da tela. O design de produção, entrega um mundo cheio de personalidade ao criar um visual que une inspirações africanas com alta tecnologia. Das roupas ao cenário, e gadgets  tudo é muito característico, reconhecível e belo.

O escorregão da produção fica por conta de algumas sequencias com muito uso de computação gráfica, que diante dos efeitos práticos, que o filem também traz, acabam sendo menos eficientes. Nada que comprometa a produção. De fato, à esta altura o envolvimento é tão grande, que a maioria dos espectadores não deve perceber.

O filme tem tantas qualidades a serem apontadas, que talvez o próprio herói soe um pouco apagado neste texto. Mas não se engane, T'Challa  não deixa nada a dever à outros super heróis, seja em caráter, dilemas ou força. E como bônus traz características e discussões próprias.

Com um roteiro bem construído, visual próprio, ação nos momentos certos e promovendo igualdade (racial e de gênero) Pantera Negra, consegue sim se destacar seguindo a formula de blockbusters da Marvel. É envolvente, carismático e divertido, e estamos apenas em fevereiro! Tomara que os super-heróis que vem por aí este ano estejam tão bem preparados quanto o regente de Wakanda.

Pantera Negra (Black Panther)
EUA - 2018 - 135min
Ação, Aventura, Ficção científica

P.S.: Como de costume, procure por Stan Lee e fique até o final dos créditos! 

Leia mais sobre o Universo Cinematográfico da Marvel.
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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

10 anos falando nisso...

Como assim já faz uma década que comecei essa brincadeira? Brincadeira mesmo, quando lancei o Ah! E por falar nisso... lá em 2008, a página era apenas um espaço para praticar a escrita, dizer o que penso, exercitar os demônios e tudo mais que coubesse em um post. Não demorou muito para o espaço virar um vício, focar em determinados assuntos e ficar mais sério. A blogosfera mudou, e muito, mas o blog mudou também.

Uma coisa continua a mesma, a vontade de escrever. Produzir conteúdo próprio, original, saído da cabecinha louca desta que vos escreve sobre o mundo que a cerca. Agora, mais precisamente sobre as coisas, que assistimos, lemos e ouvimos, como toda essa cultura interage e o que de bom (e ruim) pode se tirar dela.

Mas chega de enrolação e vamos à tradicional contagem!
Em dez anos postei nada menos que 1212 textos, 140 desde o último aniversário. Mais de 400 resenhas de filmes, e 188 textos sobre séries de TV. O número de analises de livros ainda é modesto, 47, mas vem acompanhado das curiosas análises Livro vs Filme, que compara e tenta entender as diferenças de duas formas distintas de contar a mesma história. Além de curiosidades, dicas, posts em séries, nerdices em geral e até algumas aventuras longe das telas e páginas. 

Templates do blog, há muito, muito tempo...

Após 10 anos, tem muita coisa legal escondida por aqui. Se você é novo, convido a explorar o blog. Se é amigo de sempre, que tal relembrar os posts antigos e conferir nossa evolução. Sim "nossa", minha escrita, a blogsfera, os leitores, o mundo, muita coisa mudou de lá para cá, e espero que para melhor. 

E assim comemoro minha primeira década(!) blogando, sem grandes estardalhaço, mas com muita vontade de continuar. Então, declaro aberta a temporada 2018!
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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Três Anúncios Para Um Crime

Pessoas inconsoláveis fazem qualquer coisa para tentar encontrar um instante de alento. Entretanto, as atitudes tomadas neste estado podem, não apenas serem escolhas ruins, como causar efeitos colaterais que vão além do autor em questão. Três Anúncios Para Um Crime, é em parte sobre isso.

Mildred Hayes (Frances McDormand) perdeu a filha para um crime sem solução. Indignada com a falta de respostas e com a incompetência da força policial da cidade de Ebbing, Missouri, ela resolve chamar atenção alugando três outdoors e anunciando para o mundo seu questionamento direcionado à polícia.

Apesar de ser destinado pessoalmente ao Chefe de Polícia Willoughby (Woody Harrelson), responsável pela investigação, não trazer nenhuma mensagem ofensiva (é realmente apenas um questionamento), e estar situado e uma estrada fora de uso, os três anúncios para o crime causam um rebuliço na cidadezinha, que reage das mais diversas formas, de acordo com sua posição naquela sociedade. Uma comunidade povoada por personagens extremamente preconceituosos, e claro minorias oprimidas. Figuras que poderiam facilmente cair na caricatura, mas são salvas pela excelente construção de personagens, que reconhece que as pessoas são muito mais que o rótulo inicial.

Assim, o Delegado aparentemente incompetente (vivido pelo sempre competente Harrelson), na verdade luta diariamente com os revezes e falta de opções em uma vida e profissões sofridas. O policial idiota e intolerante Jason Dixon (Sam Rockwell) talvez apenas não saiba que pode tentar ser melhor que isso. Com o personagem que mais cresce durante a narrativa, Rockwell consegue gerar repulsa e empatia na mesma proporção, merecendo todo a comoção e indicações que tem atraído. E mesmo a mais caricata das criaturas, a jovem bonita e pouco inteligente Penelope (Samara Weaving, que aparece pouco, mas funciona), é claramente um fruto da sociedade que a criou, causando problemas pela completa falta de noção do mundo que a cerca.

Peter Dinklage em ponta de luxo!
O destaque entretanto é mesmo de McDormand. Mildred está longe de ser uma mãe perfeita, doce e carinhosa, também não é um exemplo de conduta como parte da sociedade, não se deixa intimidar e suas palavras duras e respostas afiadas saem tão facilmente, quanto ferem aqueles a que são direcionadas. Ainda sim por baixo dessa carapaça implacável, é possível perceber que se trata sim de uma mãe amorosa tentando fazer de tudo pelos filhos. Que ela tem ciência, e consciência, das consequências de seus atos, e até se arrepende de alguns deles. E que mesmo incansável e persistente, por vezes ela se encontra totalmente perdida. É aí que está todo o bom trabalho da atriz, ao, que deixa transparecer em nuances todos estes sub-textos, incompatíveis com as atitudes e fala afiada em foco na superfície, e que ela entrega igualmente bem.

Existe ainda todo um contexto de escassez de recursos, crenças e conceitos ultrapassados - e condenáveis - além de um comodismo crônico, que impedem a pequena Ebbing de evoluir e a transformam em um lugar atrasado aos nossos olhos (só porque nossas próprias mazelas cotidianas não estão em foco em tela grande). Assim como seus moradores, são complexos frutos de seu meio, presos em um círculo vicioso, que talvez seja quebrado pelos tais Três Anúncios Para Um Crime.


O roteiro, encaixa todos estes elementos e histórias tão surpreendentes quanto absurdas, porém coerentes entre si, mantendo um certo nível de loucura pertinente à toda a cidade. Escolhas que pontuadas por um bem colocado humor negro, tornam as péssimas escolhas dos personagens, não apenas atitudes críveis, mas passíveis de pessoas desesperançadas e perdidas.

Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)
EUA - 2017 - 116min
Drama
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