sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Sem Fôlego (livro)

Uma vez que você conhece o trabalho de Brian Selznick, este passa a ser inconfundível. O autor e ilustrador constrói a narrativa de suas aventuras tanto em texto quanto em imagens. Estas últimas criadas por ele mesmo com um traço bastante característico. Em Sem Fôlego, este recurso ganha uma função a mais, ele faz a distinção entre duas narrativas paralelas separadas do tempo por 50 anos.

Em 1977, Ben sente-se solitário e deslocado após a morte da mãe. Quando encontra um objeto que acredita ser a pista para a identidade e paradeiro do pai que nunca conheceu, o garoto não hesita em fugir dos tios e atravessar o país em busca de respostas. Em 1927, Rose tem saudades da mãe famosa e vive cercada pelas rígidas regras de seu pai. Farta da situação, a garota foge para encontrar a mãe, jornada dificultada por sua condição de deficiente auditiva. Ambas as aventuras levam os protagonistas para Nova York de suas respectivas épocas.

Separados por cinco décadas, a mudança de tempo é marcada por linguagens distintas. A história de Ben é contada em texto, enquanto a de Rose apenas com imagens. Mudança que também faz alusão as distinções entre o mundo falado e o silencioso de quem não pode ouvir. As aventuras são narradas de forma intercalada, reforçando o paralelo entre as duas jornadas, que tem suas características distintas, mas também divide experiências, locações e temas. Afinal, ambas as histórias falam da busca por seu lugar no mundo.

A trama é recheada de lugares e acontecimentos reais por onde passam os personagens fictícios. Outra característica marcante do autor. Aqui conhecemos o lago Gunflin em Minesota, terra natal de Ben. Entretanto passeamos principalmente por Nova York. Entre os pontos mais conhecidos, o Museu de História Natural (aquele mesmo em que o Ben Stiller passou algumas noites), e Panorama da cidade, situado em um museu do Queens e que foi criado para a Feira Mundial de 1964. O evento, aliás, também é mencionado na trama, e para quem curte curiosidades é o mesmo que aparece no filme Tomorrowland. As locações reais são um agrado extra para quem frequenta, já visitou ou pretende visitar estes lugares - todos já estão em nossa lista de roteiros turísticos, mas isso é assunto para outro blog (clica aqui para conferir).

Ben e Rose visitam os mesmos lugares, se encantam por coisas semelhantes e ampliam seus horizontes no processo. É nessas descobertas, e no paralelo entre elas, que reside todo o charme da obra. Mostrando que apesar dos tempos, nossos principais dilemas são os mesmos, encontrar o lugar a que pertencemos, encarar nossos medo e conhecer nossa história.

Um grande mistério a ser desvendado por crianças, também está sempre presente nas histórias do autos. Assim como os protagonistas mirins. Aqui o segredo a ser descoberto é a identidade do pai do menino.

Há ainda, espaço para compreender um pouco o universo dos surdos. A imersão ainda que pequena é uma excelente porta de entrada para o tema. Pode, assim como faz om seus personagens, expandir os horizontes dos leitores, ensinando aos mais novos ou relembrando aos adultos a diversidade de nossa sociedade. Mesmo que esta nem sempre esteja preparada para lidar com o diferente.

A história de Sem Fôlego é simples, crianças fogem de casa e se mente em "altas confusões" antes de tudo ficar bem. E mesmo a forma como estas histórias se encontram em seu auge, pode ser desvendada antes por mentes mais atentas. Mas a jornada é bem construída, os personagens são carismáticos e os lugares e referências despertam a curiosidade. Tornando a leitura intrigante e divertida. A tradução de Claudio Figueiredo mantém a linguagem clara e acessível. Apenas a tradução do título deixa a deseja já que não temos tradução eficiente para o termo Wonderstruck, título original.

Sem Fôlego é uma leitura divertida e informativa, com dilemas comuns à diferentes gerações e cheio de características e referências que o tornam único. Assim como seu antecessor A Invenção de Hugo Cabret, traz uma linguagem que pode ajudar os pequenos à fazer a transição dos livros com gravuras para a escrita. Formato adotado também em prol da narrativa, detalhe a ser apreciado pelos adultos. Em outras palavras, funciona independente da idade.

Sem Fôlego (Wonderstruck)
Brian Selznick
Edições SM

Sem Fôlego acaba de virar file e está em cartaz nos cinema de todo o país, leia a crítica.

Leia também sobre A Invenção de Hugo Cabret
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