quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Livro vs Filme: Sem Fôlego

Brian Selznick foi o autor que estreou esta série de posts com a comparação entre as versões literárias e cinematográficas de A Invenção de Hugo Cabret. Outra obra do autor acaba de chegar aos cinemas brasileiros, é hora de fazer o Livro vs Filme de Sem Fôlego!

Vale sempre lembrar, essa série não é para apontar supostos erros na adaptação, ou mostrar que sei mais que os outros. A ideia é identificar as diferenças e tentar entender porque elas existem. Afinal, filme é uma coisa, e livro outra, e ambas as obras devem funcionar por conta própria, logo mudanças precisam ser feitas para se adequar à diferentes linguagens. Vamos lá?

O ministério dos "spoilerfóbicos" informa: este post contém SPOILERS do livro e do filme!

Sem Fôlego acompanha a jornada de duas crianças em épocas diferentes. Em 1927, Rose tem saudades da mãe famosa e vive cercada pelas rígidas regras de seu pai. Farta da situação, a garota foge para encontrar a mãe, jornada dificultada por sua condição de deficiente auditiva.Em 1977, Ben sente-se solitário e deslocado após a morte da mãe. Quando encontra um objeto que acredita ser a pista para a identidade e paradeiro do pai que nunca conheceu, o garoto não hesita em fugir dos tios e atravessar o país em busca de respostas.

1 - Fazendo distinção entre as linhas narrativas
No livro a história de Rose é toda contada com ilustrações, enquanto a de bem com texto. Para criar a mesma distinção para os expectadores, o longa metragem escolhe contar a história da garota em filme mudo e em preto e branco. A escolha faz alusão à condição da menina, assim como ela, não ouvimos nada, além de fazer referência aos filmes da época em que a história se passa, e que também são apreciados pela protagonista. A parte de Ben, é colorida e tem som, mas a fotografia também faz alusão à sua época com uma saturação amarelada que costumamos encontrar em fotos da época.

2 - É uma história sobre o universo dos surdos
O autor já afirmou isso. E no livro, Ben tem surdez parcial de nascença, e flertava com o mundo silencioso ao cobrir o ouvido bom sempre que não queria ouvir algo. O filme deixou essa informação de lado, até onde sabemos, Ben escuta normalmente. O resultado é impacto e dramaticidades, maiores quando o menino perde a audição em cena.

3 - Caixa Museu
Também é uma história sobre museus, e Ben, tanto no livro como no filme coleciona coisas. Nas páginas o garoto carrega por toda a jornada uma "caixa museu" (tá escrito assim, não fui eu que inventei), onde guarda suas lembranças e descobertas favoritas, entre elas uma tartaruga feita de conchas. O garoto também carrega um medalhão da mãe além do livro O Gabinete de Curiosidades. Na tela grande o protagonista também carrega muitas memórias em sua mochila (e não em uma mala com problemas no fecho), mas o foco nos objetos é simplificado. Nada de medalhão e tartaruga, a atenção aqui é no livro, incluindo o marcador de páginas que contem a pista do paradeiro de seu pai e em uma carteira, último presente da mãe, adornada com um lobo típico da região onde moram.

A escolha por manter a atenção do expectador em poucos objetos facilita a compreensão, você não precisa decorar uma lista de todos os tesouros de Ben. Mas a escolha da carteira com a imagem de um lobo é curiosa. Porque a mãe do menino lhe daria um objeto enfeitado com o animal que dá pesadelos à criança? Como simbologia no filme funciona direitinho, como gesto maternal é no mínimo estranho. Seria alguma técnica educacional para superar seus medos?

4 - Corte de cabelo
Rose nunca corta os cabelos no livro, mas no filme ela o faz logo antes de fugir de casa. A alteração no visual da versão das telas não é gratuita ou estética. Inicialmente é um gesto de rebeldia contra seus pais, mas o corte de cabelo na década de 1920 representava muita coisa. Faz parte da evolução social da época, quando as mulheres começaram a se lançar no mercado de trabalho, ser mais ativas na sociedade. O cabelo curto era prático para esta mulher mais ativa, também era resultado auto-estima e de auto-afirmação de gênero. Além claro, de ser o visual "da moda" das divas do cinema, que Rose tanto admirava. Logo, faz todo o sentido o corte de cabelo como representação da busca por liberdade e independência em que a menina se empenha.

5 - Atropelamento
Ainda desacostumado com o mundo silencioso Ben é quase atropelado no livro. No filme a cena é transferida para Rose, que apesar de habituada a não ouvir, está deslumbrada com Nova York e por isso se distrai. A mudança aumenta a sensação de perigo na trama da menina, a jornada de Rose ainda criança é mais curta que a de Ben, logo a adição é bem vinda e equilibra as narrativas.

6 - O apê do papai, e a moradia no museu
No livro, além do endereço da Kincaid, o marcador de livros encontrados por Ben também tem um endereço de um apartamento que se mostra um beco sem saída. O filme encurta a trama e leva o menino direto à livraria. O motivo para a mudança é simples, tempo. É preciso fazer cortes para abordar mais de 600 páginas de história em um filme de duas horas. O que também sofre com a falta de tempo é a estadia do menino no Museu de História Natural, bem mais curta no filme.

Uma solução legal aqui, foi começar a construir a amizade entre Ben e Jaime em uma cena de perseguição/brincadeira pelos corredores do museu. No livro a descoberta do museu e a amizade com Jaime acontecem em passagens distintas.

Morar em um museu: quem nunca quis?
7 - Preocupação com os tios
Ficou incomodado com o fato de Ben, não dar a mínima para os tios no filme. Fique tranquilo, entre as muitas páginas do livro o menino tem tempo de também ficar preocupado por não ter deixado nem um bilhete para a família. Eventualmente pensa em ligar para eles, e antes do fim do livro os tios tem notícias do menino. O longa abandona a família de Ben, e nunca retorna, detalhe que poderia ser solucionado pro uma frase, mas fica a cargo da imaginação do expectador. Esse foi um furo no roteiro mesmo, especialmente considerando o papel da prima do menino em sua fuga.

Agora uma pausa para algumas curiosidades legais:

A música Space Oddity de David Bowie, trilha sonora do filme, já estava presente no livro. Seus versos inclusive são usados para expressar o desenvolvimento de Ben ao longo da trama. A música curiosa que sua mãe gostava, começa a fazer sentido para o menino.

1927, ano em que se passa a história de Rose, também é o ano em que O Cantor de Jazz, primeiro filme falado foi lançado. Com ele e os demais "talkies", como eram conhecidos os filmes com som, Rose passa ser excluída também do cinema, arte que ela antes podia consumir tão bem quanto qualquer ouvinte.

A Feira Mundial de 1964 no Queens, mencionada tanto no livro quanto no filme realente aconteceu. Ela também aparece no filme Tomorrowland - Um lugar onde nada é impossível da Disney. O Panorama da cidade de Nova York também existe e pode ser visitado. Assim como o Museu de História Natural, que também foi frequentado por outro Ben, o Stiller na franquia Uma Noite no Museu.
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A fofa da Milicente (Rose), te falando que você deve
ver o filme e ler o livro! #YouShould
Sem Fôlego é uma obra tão interessante que não resisti e incluí algumas curiosidades neste post de análise não ortodoxa de duas obras. Livro ou filme? No final das contas ambos conseguem passar a mesma mensagem com muito charme, cada um com suas ferramentas. Não importa qual escolha (sugiro os dois), e a jornada será satisfatória.

Leia as críticas de Sem Fôlego livro e do filme.
Gosta do autor? Confira os textos sobre A Invenção de Hugo Cabret, também de Selznick.
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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O Destino de uma Nação

As vezes um aspecto de uma obra é tão impressionante, que pouco se fala sobre demais detalhes sobre ela. O Destino de uma Nação é assim, e claro, a particularidade em questão é a interpretação de Gary Oldman da icônica figura de Winston Churchill, combinada com um trabalho de caracterização impecável.

O longa acompanha os primeiros dias de Churchil no cargo de Primeiro Mnistro da Grã-Bretanha, substituindo Neville Chamberlain (Ronald Pickup) retirado do poder pela insatisfação com sua política apaziguadora. Em plena 2ª Guerra Mundial, o novo ministro precisa com seus rivais políticos, que o pressionam para negociar um tratado de paz com Hitler. Além da complicada situação em Dunkirk (sim a mesma do filme do Nolan).

Também vale dizer, que o protagonista tem que lidar com sigo mesmo, já que as preocupações e ansiedades do cargo apenas agravam ainda mais suas idiossincrasias. Metódico, exigente, rude, alcoólatra, entre outras características que o tornam uma pessoa difícil de lidar, em uma função que negociar com indivíduos com perspectivas diferentes é crucial. Apesar de icônico, o Winston Churchill desta biografia é extremamente humano. Mérito de Oldman, que consegue expressar, através de pesada maquiagem, as variadas nuances, de um homem complicado, tentando administrar uma situação impossível. Enquanto sua postura, maneirismo e até a voz e dicção, emulam a personalidade icônica que conhecemos em livros de história e documentários, pequenos gestos e olhares revelam tanto suas inseguranças, quanto a força.

E por falar no trabalho de maquiagem, aqui a recriação da figura de seu biografado é excepcional. O que combinado com habilidade de Oldman de desaparecer por baixo de seus personagens, criam a versão mais impressionante de uma figura já retratada nas delas dezenas de vezes.

Uma pena que enquanto, abre espaço para o protagonista brilhar, o roteiro negligência demais personagens e até algumas situações impossíveis.  Sejam elas peças cruciais nas ações de Churchil, como sua esposa (Kristin Scott Thomas), ou mesmo um guia para o expectador como a nova assistente (Lily James), os personagens vão e vem conforme o roteiro acha conveniente. Tendo assim pouco ou nenhum desenvolvimento. O mesmo acontece com algumas situações apresentadas, como os problemas financeiros do primeiro ministro, apresentados e descartados na cena seguinte.

Nenhum problema no entanto, tão evidente quando a solução apresentada em seu clímax. O longa recorre a uma cena fictícia, que supostamente aproxima a decisão do político da escolha do povo. Recurso que não convence, além de inverosímel (leia-se forçado), a solução ainda deixa a dúvida se aquele é mesmo o desejo dos cidadãos, ou se as pessoas estão simplesmente atônitas com a presença da figura ilustre e por isso concordam com tudo e dão respostas que sabem que o ministro quer ouvir.

Se na cena em questão o protagonista pode ser "paparicado", nas demais ele está constantemente encurralado pelo bom trabalho da fotografia, que sabe aproveitar os ambientes claustrofóbicos bem construídos pela direção de arte. Quando amplos, os ambientes vezes mergulhados em uma escuridão opressiva, os com um foco de luz turva sobre o centro das atenções. Ressaltando que esta posição nem sempre é a das melhores. Iluminação avermelhada, por vezes obtida pelos charutos do personagem também aumentam o tom de urgência da narrativa.

O Destino de uma Nação é uma produção que poderia se diferenciar por ser uma biografia que abrange um período curto de tempo na vida de seu biografado, cerca de um mês. Mas, é executado conforme a cartilha, burocrático e habitado políticos que falam demais. Discursos que só atraem a atenção, quando proferidos por Oldman. Transformando a produção apenas em uma vitrine para o ator receber prêmios, ainda que merecidos.

O Destino de uma Nação (Darkest Hour)
EUA - 2017 - 126min
Biografia, Drama
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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Sem Fôlego (livro)

Uma vez que você conhece o trabalho de Brian Selznick, este passa a ser inconfundível. O autor e ilustrador constrói a narrativa de suas aventuras tanto em texto quanto em imagens. Estas últimas criadas por ele mesmo com um traço bastante característico. Em Sem Fôlego, este recurso ganha uma função a mais, ele faz a distinção entre duas narrativas paralelas separadas do tempo por 50 anos.

Em 1977, Ben sente-se solitário e deslocado após a morte da mãe. Quando encontra um objeto que acredita ser a pista para a identidade e paradeiro do pai que nunca conheceu, o garoto não hesita em fugir dos tios e atravessar o país em busca de respostas. Em 1927, Rose tem saudades da mãe famosa e vive cercada pelas rígidas regras de seu pai. Farta da situação, a garota foge para encontrar a mãe, jornada dificultada por sua condição de deficiente auditiva. Ambas as aventuras levam os protagonistas para Nova York de suas respectivas épocas.

Separados por cinco décadas, a mudança de tempo é marcada por linguagens distintas. A história de Ben é contada em texto, enquanto a de Rose apenas com imagens. Mudança que também faz alusão as distinções entre o mundo falado e o silencioso de quem não pode ouvir. As aventuras são narradas de forma intercalada, reforçando o paralelo entre as duas jornadas, que tem suas características distintas, mas também divide experiências, locações e temas. Afinal, ambas as histórias falam da busca por seu lugar no mundo.

A trama é recheada de lugares e acontecimentos reais por onde passam os personagens fictícios. Outra característica marcante do autor. Aqui conhecemos o lago Gunflin em Minesota, terra natal de Ben. Entretanto passeamos principalmente por Nova York. Entre os pontos mais conhecidos, o Museu de História Natural (aquele mesmo em que o Ben Stiller passou algumas noites), e Panorama da cidade, situado em um museu do Queens e que foi criado para a Feira Mundial de 1964. O evento, aliás, também é mencionado na trama, e para quem curte curiosidades é o mesmo que aparece no filme Tomorrowland. As locações reais são um agrado extra para quem frequenta, já visitou ou pretende visitar estes lugares - todos já estão em nossa lista de roteiros turísticos, mas isso é assunto para outro blog (clica aqui para conferir).

Ben e Rose visitam os mesmos lugares, se encantam por coisas semelhantes e ampliam seus horizontes no processo. É nessas descobertas, e no paralelo entre elas, que reside todo o charme da obra. Mostrando que apesar dos tempos, nossos principais dilemas são os mesmos, encontrar o lugar a que pertencemos, encarar nossos medo e conhecer nossa história.

Um grande mistério a ser desvendado por crianças, também está sempre presente nas histórias do autos. Assim como os protagonistas mirins. Aqui o segredo a ser descoberto é a identidade do pai do menino.

Há ainda, espaço para compreender um pouco o universo dos surdos. A imersão ainda que pequena é uma excelente porta de entrada para o tema. Pode, assim como faz om seus personagens, expandir os horizontes dos leitores, ensinando aos mais novos ou relembrando aos adultos a diversidade de nossa sociedade. Mesmo que esta nem sempre esteja preparada para lidar com o diferente.

A história de Sem Fôlego é simples, crianças fogem de casa e se mente em "altas confusões" antes de tudo ficar bem. E mesmo a forma como estas histórias se encontram em seu auge, pode ser desvendada antes por mentes mais atentas. Mas a jornada é bem construída, os personagens são carismáticos e os lugares e referências despertam a curiosidade. Tornando a leitura intrigante e divertida. A tradução de Claudio Figueiredo mantém a linguagem clara e acessível. Apenas a tradução do título deixa a deseja já que não temos tradução eficiente para o termo Wonderstruck, título original.

Sem Fôlego é uma leitura divertida e informativa, com dilemas comuns à diferentes gerações e cheio de características e referências que o tornam único. Assim como seu antecessor A Invenção de Hugo Cabret, traz uma linguagem que pode ajudar os pequenos à fazer a transição dos livros com gravuras para a escrita. Formato adotado também em prol da narrativa, detalhe a ser apreciado pelos adultos. Em outras palavras, funciona independente da idade.

Sem Fôlego (Wonderstruck)
Brian Selznick
Edições SM

Sem Fôlego acaba de virar file e está em cartaz nos cinema de todo o país, leia a crítica.

Leia também sobre A Invenção de Hugo Cabret
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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Maze Runner - A Cura Mortal

Maze Runner conseguiu uma proeza que poucas franquias baseadas em adaptações literárias juvenis tem conseguido, encerrar a história que se propôs a contar. E melhor, A Cura Mortal completa a tarefa de forma eficiente e coerente com o que foi entregue até aqui. E claro, assim como seus antecessores, com muita, muita correria!

Os clareanos continuam em sua fuga pela sobrevivência, e até encontraram uma solução viável para escapar das garras da C.R.U.E.L. Mas Thomas (Dylan O'Brien) não pretende deixar nenhum amigo para trás, e graças a traição de Teresa (Kaya Scodelario) ao final de Prova de Fogo, eles vão precisar resgatar muita gente. Adivinhou quem achou que o salvamento vai levar os heróis para a casa do inimigo. Lá, Teresa, Ava Paige (Patricia Clarkson) e seu imediato Janson (Aidan Gillen) trabalham na busca pela cura do Fulgor, o vírus que dizimou a humanidade, transformando pessoas em zumbis gosmentos e superativos. O trabalho cientifico inclui usar cobaias humanas, entre elas Minho (Ki Hong Lee).

A trama de resgate urgente, garante ao filme um ritmo frenético desde os primeiros minutos. O longa já começa com uma sequencia de ação bem construída, eletrizante e que serve para colocar a trama em movimento. Neste sentido, a produção depende muito do conhecimento prévio do expectador sobre os longas anteriores, já que não demora muito para os personagens partirem para a jornada final, sem tempo apara (re)apresentações. Essa aventura, entretanto, nos apresenta um pouco mais deste mundo e esclarece a maioria dos pontos obscuros da trama.

Digo a maioria, porque muitos sobre aquele universo fica a mercê da imaginação do expectador. As origens da infecção, como são identificadas as crianças imunes, os estranhos métodos científicos adotados pela C.R.U.E.L., entre outras respostas são deixadas de lado em prol da jornada de Thomas e cia. Escolha que não atrapalha em nada o desenvolvimento e compreensão da trama, muito menos elimina outras discussões interessantes.

Sacrifício, lealdade, práticas cientificas desumanas, e o abismo social que não apenas se mantém, como é agravado pelo pós-apocalipse, são algumas dos temas que A Cura Mortal aponta. Mas é claro, como bom filme de ação, apenas aponta mesmo. A maioria das discussões fica na superfície, embora o impacto da presença delas seja bastante relevante para trama, plantando a semente nas jovens mentes de seu público alvo.

A trama por sua vez, não tem medo de arcar com as consequências dos impasses e ameaças que cria. (Sim, morre gente!) Além de organizar as ameaças em uma crescente, em busca de encontrar o clímax mais apocalíptico possível, mesmo já se tratando de um mundo após o apocalipse. No final das contas, sempre há algo mais a ser perdido, aparentemente. Guerra, perseguições, explosões, desmoronamentos estão presentes ao longo de todo o filme, mas alcançam uma escala surpreendente, e talvez um pouquinho exagerada em seu desfecho.

Exagero que combina, o desespero dos personagens, uma constante independente do lado em que esteja. Adolescentes maltratados nos labirintos, pessoas comuns com medo de serem infectados, cientistas com receio de não achar a cura a tempo, todos parecem estar correndo, sem rumo, perdidos em um labirinto metafórico. O desespero exacerbado no entanto acaba gerando, momentos, falas e soluções clichês, e por vezes até piegas. Detalhes que poderiam ser melhor trabalhados, mas também não comprometem.

Já a pouca química entre O'Brien e Scodelario comprometem sim, a intensidade dos dilemas de ambos os personagens. Não acreditamos neste possível relacionamento desde o primeiro filme, logo não mergulhamos na dúvida por que os personagens passam. Já o restante do elenco funciona muito bem, especialmente os jovens presentes desde o início da aventura. Thomas, Minho (Ki Hong Lee), Newt (Thomas Brodie-Sangster), Frypan (Dexter Darden) parecem mesmo amigos de longa data. Brenda (Rosa Salazar) e Jorge (Giancarlo Esposito) conquistaram seu espaço neste grupo. Ava Paige parece mais apagada (a desmotivada talvez?) que nos filmes anteriores, enquanto Janson abusa da persona de seu intérprete. Devido a natureza deste personagem é praticamente impossível desassociar a figura de Aidan Gillen, do Mindinho de Game of Thrones.

A direção de arte, e os efeitos especiais mantém a coerência com os filmes anteriores na criação de um mundo desolado, com ilhas de alta tecnologia. E expande o universo ao apresentar a última cidade existente, e sua periferia. Nada revolucionário, mas tudo funciona, atende a necessidade do contexto e bem produzido.

Maze Runner - A Cura Mortal é assumidamente muito mais um filme de ação, do que de ficção cientifica.  Consegue equilibrar cenas eletrizantes com os arcos que precisa finalizar, de forma a não deixar maçantes suas mais de duas horas de projeção. Não tem medo das consequências da jornada e aposta em seu bom elenco jovem. Se é uma adaptação fiel ou eficiente, deixo para os leitores da obra de James Dashner decidir. Como trilogia cinematográfica, Maze Runner funciona  e entretém. A Cura Mortal oferece um  desfecho satisfatório para a aventura dos corredores de labirintos.

Maze Runner - A Cura Mortal (Maze Runner: The Death Cure)
EUA - 2018 - 142min

Ação, Aventura, Ficção-científica


Leia as críticas de Maze Runner - Correr ou Morrer e Maze Runner: Prova de Fogo
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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Sem Fôlego

Há quem diga que não importa quanto os tempos mudem, nossos dilemas continuam essencialmente os mesmos. Sem Fôlego acompanha duas jornadas separadas por cinco décadas, que compartilham a mesma busca, a procura por seu lugar no mundo.

Em 1927, Rose (Millicent Simmonds, adorável), coleciona notícias da mãe famosa que não vê há tempos. Solitária e insatisfeita com as regras do pai, ela foge para reencontrar a mãe, tarefa complicada por sua condição. A menina é surda desde que nasceu. Já em 1977, é Ben (Oakes Fegley, Meu Amigo, O Dragão) quem se sente solitário após a morte da mãe. Ao encontrar o que acredita ser uma pista sobre a identidade do pai que nunca conheceu, ele também foge da casa dos tios.

Rose e Ben vão para a mesma cidade, passam por dificuldades e lugares semelhantes, incluindo o Museu de História Natural (aquele mesmo em que o Ben Stiller passou algumas noites). Eventualmente, é claro, estas jornadas já unidas por temática e rimas visuais se encontrarão em um terceiro ato que fecha todas as pontas, mas não consegue escapar da longa explanação para esclarecer todos os detalhes, e de ignorar alguns pontos convenientes (onde estão os tios de Ben?). O que vai de encontro à criatividade das escolhas narrativas dos dois primeiros atos. É nessa criatividade que residem o maior acerto e charme do longa.

O diretor Todd Haynes usa técnicas cinematográficas distintas para marcar cada época. 1927, assim como os filmes da época, é em preto e branco e mudo, nos aproximando ainda mais do universo silencioso de protagonista. Inclusive nos momentos em que os "falantes" excluem Rose da conversa, deixando o expectador tão perdido quanto ela. Ao invés de diálogos, a trilha sonora marca ações, gestos e, claro, emoções, reforçando o tom de cada passagem.

Em 1977 as cores são saturadas, e com um tom amarelado, como muitas das fotografias da época que encontramos hoje. Neste período de tempo o filme já tem som, e a música acompanha a época, com destaque para Space Oddity de David Bowie que conversa com a jornada de ambos os protagonistas.

Esta bem aplicada distinção dos mundos entre PB-mudo e colorido falado, emula a diferenciação de narrativas existente na obra original. No livro homônimo de Brian Selznick, que também é o roteirista do filme, a história de Ben é contada em texto, enquanto a de Rose em ilustrações do próprio autor.

Além das carismáticas crianças que carregam muito bem suas respectivas tramas, o elenco conta com o ator mirim Jaden Michael, Cory Michael Smith (o Ed. Nigma de Gotham) e Julianne Moore. Michelle Williams faz uma participação breve, porém importante.

Protagonizado por crianças, com uma buscas e um mistério a ser solucionado, é difícil evitar comparações com A Invenção de Hugo Cabret, outra obra do autor que também foi adaptada para as telas recentemente. Entretanto, apesar de compartilhar temas e estilo (este último majoritariamente na versão escrita), Sem Fôlego, tem protagonistas bem construídos e com personalidades distintas. Além de discutir temas próprios, o principal deles, um mundo despreparado para incluir pessoas com deficiência auditiva.

Sem Fôlego, é uma adaptação criativa, charmosa e doce, que acerta ao transpor o clima próprio do livro para a tela grande. O título nacional, pode não transmitir bem os temas, ou mesmo qual o tom da produção, especialmente para aqueles que desconhecem o trabalho de Selznick. Mas esta é uma falha herdada da versão literária, e em nada atrapalha quem realmente estiver disposto a embarcar nestas jornadas encantadoras.

Sem Fôlego (Wonderstruck)
2017 - EUA - 117min
Drama
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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

The Gifted - 1ª tremporada

O ano de 2017 trouxe duas novas séries de heróis inspiradas em super-equipes do universo Marvel. Enquanto Inumanos, produzida pela própria Marvel, concentrou todas as atenções e não chegou nem perto de atender as expectativas que criou, a Fox apostou em uma divulgação mais "contida" (ou seria realista?) para trazer outra série habitada pelos mutantes dos quadrinhos. The Gifted, aposta em uma fórmula mais tradicional, porém eficiente.

As tensões entre humanos e mutantes estão em seu auge, depois que um incidente envolvendo indivíduos superpoderosos vitimou muitas pessoas. Desde então, portadores do gene X estão sobre forte repressão do governo e do programa Sentinela. Neste cenário, os Strucker são uma família comum, cujo pai trabalha caçando "mutantes criminosos", até que real condição de seus filhos é exposta ao mundo. Lauren (Natalie Alyn Lind, Gotham) e Andy (Percy Hynes-White) são mutantes, e passam a ser perseguidos por isso. Com os X-Men e a Irmandade desaparecidos, a única alternativa da família é se unir a um grupo clandestino de mutantes tentando sobreviver. Na Resistência somos apresentados a outros mutantes refugiados e sua luta por um mundo onde possam viver em paz.

Apresentados inicialmente como os protagonistas desta estória, os Strucker são na verdade a porta de entrada para o universo e conflitos deste mundo. Conforme eles aprendem mais, sobre a luta, limitações e injustiças pelas quais os mutantes passam, nós também aprendemos. Existe inclusive um pequeno e acertado arco onde a mãe Caitlin (Amy Acker), tenta sem sucesso recorrer aos recursos do mundo que ela acreditava ser o certo, antes de acreditar em sua nova realidade. O pai Reed (Stephen Moyer), é a conexão que esclarece como funciona o sistema que os caçam. Mas, a família ocupa apenas 50% da atenção da trama.

Aos poucos os mutantes da resistência ganham mais espaço, cada um com seus dilemas. Blink (Jamie Chung, Once Upon a Time), tenta encontrar seu espaço no grupo, o que inclui conflitos com Dreamer (Elena Satine) e Pássaro Trovejante (Blair Redford). Polaris (Emma Dumont) e Eclipse (Sean Teale), tem um filho a caminho em um mundo que o odiará apenas por existir. E claro, Lauren e Andy tentam aprender a controlar seus poderes enquanto descobre mais sobre o passado de sua família. Outros mutantes, são apresentados no decorrer dos capítulos para alavancar a trama. Entre eles, o destaque fica com as irmãs Frost (Skyler Samuels), que trazem também outro ponto de vista para a luta.

Também ha espaço para explorar o lado humano da disputa, mesmo que ele esteja muito equivocado na enorme maioria das vezes principalmente na figura do Agente Turner (Coby Bell), que tem suas próprias tragédias relacionadas a causa. Dr. Campbell (Garret Dillahunt, sempre com sua figura excêntrica de de objetivos duvidosos), é a personificação da ameaça, coordenando experimentos com os mutantes e incluindo empenho político na guerra entre as "espécies".

Com todos as peças principais em cena, conforme os Strucker se envolvem mais na "causa" mais complexos os problemas ficam. Apesar de não ser uma série procedural (aquelas com um caso por semana), a cada episódio somos apresentados a um novo problema a ser resolvido, estes são apresentados em uma crescente até o grane impasse do climático do final da temporada.

A parte divertida fica por conta da forma como os personagens lidam com estes problemas. Elaborando soluções que explorem e combinem as suas habilidades, coisa que no cinema os X-Men tem pouquíssimo tempo de desenvolver. Os pupilos de Xavier na tela grande também não tem tempo de desenvolver as relações pessoais. Aqui, podemos ver os conflitos entre irmãos, relacionamentos amorosos, ou mesmo o companheirismo e interações cotidianas entre os personagens, facilitando nossa empatia com eles.

O único escorregão ficou por conta da trama paralela sobre antigos contatos de Elicse (personagem criado especialmente para a série). Este arco ajudou a solucionar um problema, mas também desviou o foco da trama principal, e mesmo de sua relação com Polaris. Apontando um grande potencial para episódios filler, aqueles usados para preencher a temporada, mas que não avança muito a trama principal. Com apenas 13 episódios a enrolação ficou de fora, mas é sempre uma opção caso a produção ganhe uma temporada mais longa.

E por falar em novas temporadas, o segundo ano da série já foi garantido. Embora ainda não haja detalhes sobre o número de episódios, ou a data de lançamento. Já os temas que a série levanta e discute bem devem voltar ao foco, como o valor da família, dos amigos, aprender a lidar com seus poderes, amadurecer e as diferentes formas de lidar com o ódio e intolerância. Este último, vale mencionar, a discussão mais forte em cena, e provavelmente mais pertinente a realidade fora das telas. Discussões importantes dissolvidas em bom entretenimento.

The Gifted é uma série ciente de seu espaço, público e limitações de orçamento (os efeitos especiais por exemplo não são dos mais caros, mas funcionam), por isso acerta ao investir em personagens e suas relações, ao invés de eventos megalomaníacos. Estes mutantes até querem mudar o mundo, mas não tem a ilusão de que vão salvá-lo em uma batalha épica. Simples e bem feita, consequentemente mais duradoura.

The Gifted é exibida no Brasil pela Fox, e esta primeira temporada tem 13 episódios.

Leia as primeiras impressões da série, ou leia mais sobre X-Men
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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Viva - A Vida é uma Festa

As tradições mexicanas do dia de finados, "dia de los muertos"há tempos despertaram o fascínio de quem não está inserido nesta cultura. Mas as tradições vão muito além da festa e das caveiras estilizadas que viraram "modinha" pelo mundo afora. É uma festividade sobre família, memória e reverência. É nesses valores que Viva - A Vida é uma Festa, centra sua história. Usando de sua fórmula tradicional para ancorar o olhar sobre uma nova cultura.

Miguel (voz de Anthony Gonzalez) é um menino que sonha em ser músico, mas por causa de um trauma, sua família baniu a música de sua casa há gerações. Determinado a seguir seu sonho, ele confrontar seus pais e avós em pleno dia de finados, e acaba quebrando a barreira entre o mundo dos vivos e mortos. Em sua jornada para voltar para casa, ele descobre o verdadeiro valor da família.

A aventura que começa com um conflito de gerações, se mostra uma jornada com muito mais mensagens e discussões que a simples diferença de pensamento entre pais e filhos. O longa, fala de mágoa, memória, amor, e claro, morte. Não apenas a morte física e simples, mas a morte espiritual, morte por ausência, pela incapacidade de perdoar, e pelo esquecimento. Há sim, um destino pior que a morte para os personagens já falecidos em Viva,  deixar de existir pois ninguém mais se lembra de você. Mensagens que embora pesadas, são inseridas de forma leve e orgânica na aventura, para serem captadas em diferentes níveis de acordo com a maturidade do expectador. E sim, tem espaço para as piadas acessível para os pequenos.

É também neste pós-vida possibilitado pela memória que reside uma mensagem acidental, que não é exatamente das melhores. Neste mundo dos mortos - que é incrivelmente detalhado e conta com metáforas e relações com o mundo dos vivos - vive bem, quem é bem lembrado, seja por amigos, família ou mesmo fãs. É aí que mora o perigo, alguns personagens falecidos tem status simplesmente porque são lembrados, independente de sua conduta em vida. O que pode passar a ideia de que ser famoso em vida é um objetivo a ser seguido a qualquer custo, simplesmente para ter um pós-vida melhor.

Talvez eu esteja exagerando, e meu estranhamento seja apenas porque fui criada em uma sociedade em o conceito de vida após a morte é situado em um cenário bem diferente desta metrópole que recebe todas as almas independente de seus feitos. Pessoalmente, não pude ignorar a ideia, já que as mazelas que a cidade dos mortos são centradas nesta condição da lembrança. A escolha transforma o mundo dos mortos em um espelho dos mundo dos vivos, adicionando outra camada de críticas e metáforas, que acidentalmente alimentaram esta mensagem de busca a fama. Não era a intenção da produção, mas a mensagem está lá.

Mas calma, esta mensagem acidental é um erro pequeno diante do universo de acertos do longa. E nem de longe atrapalha os bons conceitos que ele pretende e consegue passar, sem ser demasiadamente piegas ou panfletários. São lições atreladas a história assimiladas de forma orgânica pelo expectador.

E sempre há a qualidade de produção da Pixar, que aqui cria uma megalópole multicolorida e tão, ou mais viva, que o mundo dos vivos. A alegoria não é original é verdade (já vimos mundos dos mortos vibrantes em A Noiva Cadáver e Festa no Céu, por exemplo), mas a escala é gigantesca. A cidade dos mortos não é apenas deslumbrante, é funcional, é cotidiana. Existem regras,  trabalho, burocracia, entretenimento, classes sociais, relacionamentos, falecidos ou não, aqueles personagens realmente vivem ali.

O mundo dos vivos, também não fica atrás em qualidade ao retratar uma realidade mais realista e limitada (em atividades dos personagens, não em qualidade de criação) que seu contraponto sobrenatural. Uma cidadezinha do interior, onde uma família vive focada em seus sustento e tradições.

Já os seres que povoam estes universos são muitos, e acertadamente todos tem sua função para avançar a história e  personalidades bem construídas. Entretanto é o design de produção dos falecidos que vão chamar sua atenção. A produção consegue não apenas criar traços marcantes que distinguem  bem os personagens, e oferecer expressões para esqueletos, como criar suas versões vivas e mortas que combinam perfeitamente entre si.

A música completa o pacote.  Afinal seu protagonista é apaixonado por música, e o longa é um musical que mais assemelha aos longas da Disney que da Pixar, inclusive nos acertos. As canções são excelentes e servem a narrativa, impulsionando os personagens para a frente, e fortalecendo o tom emocional de cada cena. 

Vale lembrar que o filme é todo passado no México, e inclui expressões mexicanas nas falas, traços e e visual inspirado no país e apresenta algumas tradições do país para estrangeiros. E apesar de falar de tradições e rituais do dia dos mortos, evita expressar conceitos de religião. E até traz atores de origem latina em seu elenco original como Gael García Bernal e Jaime Camil. Se a produção foi respeitosa o suficiente com a cultura de nossos "hermanos", só eles podem dizer. Aos olhos dos demais parece que sim.

Viva - A Vida é uma Festa, aposta em uma trama simples para apresentar seu universo complexo e investir nos personagens, e consequentemente suas emoções. Acerta ao falar de morte, assunto que animações costumam evitar (a menos que você seja o vilão e mereça uma morte dramática em uma queda). Talvez seja o longa mais melancólico do estúdio para alguns, mas além dessa melancolia é uma aventura doce, sobre manter aqueles que amamos sempre conosco.

Viva - A Vida é uma Festa (Coco)
2017 - EUA - 105min
Animação, Fantasia, Musical
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